ortega:hg:aparicao-do-outro
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| + | ====== APARIÇÃO DO " | ||
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| + | Era urgente, para mim, o fazer ver como os " | ||
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| + | Indiquei ainda que o tato se distingue de todos os demais sentidos ou modos de presença, porque duas coisas sempre se apresentam nele, de uma vez, e inseparáveis: | ||
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| + | O homem é, pois, antes de tudo, alguém que está em um corpo e que neste sentido, — somente neste sentido, repare-se, — é apenas o seu corpo. Este simples mas irremediável fato vai decidir da estrutura concreta do nosso mundo e, com isso, da nossa vida e destino. O homem se acha, para toda a vida, recluso no seu corpo. Razão de sobra tinham os pitagóricos em brincar com o vocábulo (NT: Ortega não é um ortodoxo da terminologia linguística; | ||
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| + | O corpo em que vivo infuso, recluso, faz de mim inexoravelmente um personagem espacial. Põe-me em um lugar e me exclui dos demais. Não me permite ser ubíquo. Em cada instante me prega como um prego num lugar e me desterra do resto. O resto, isto é, as demais coisas do mundo estão em outros lugares e só posso vê-las, ouvi-las e talvez tocá-las, do lugar em que estou. Chamamos o sítio em que estou: " | ||
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| + | Isto traz consigo automaticamente algo novo e decisivo para a estrutura do mundo. Eu posso mudar de lugar, mas qualquer que ele seja será o meu " | ||
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| + | Já veremos que outro homem tem também o seu aqui, — mas esse aqui do Outro não é o meu. Nossos " | ||
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| + | Longe é o que está a considerável distância do meu aqui. Longe é o que está ali. | ||
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| + | Entre o aqui e a distância do ali, há um termo médio, — o aí, — isto é, o que não está no meu aqui, mas sim próximo. Será o aí o lugar onde está... o próximo? O aqui, demonstrativo adverbial de lugar, procede linguisticamente de um pronome pessoal. | ||
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| + | O fato de ser o homem corpo determina, pois, não somente que todas as coisas sejam corpos, mas que todas as coisas do mundo estejam colocadas com relação a mim. Todas as coisas, inclusive as que não são corpóreas! Porque se as há, — até agora não as encontramos em nossa análise, — terão, (já o veremos), de manifestar-se por meio de corpos. As imagens de Homero não são corpóreas e não existiriam, não seriam para nós, se não tivessem sido escritas em pergaminhos. Ao serem, imediata ou mediatamente, | ||
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| + | Nada disso, porém, — está claro — é fenômeno autêntico ou radical. Trata-se já de interpretações imaginárias, | ||
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| + | O haver aparecido, neste inventário que fazemos do mundo vital, esta coisa, — a mais próxima de cada um, — que é o seu corpo e, — em choque ou atrito com ele, todos os demais corpos, e a sua localização em perspectiva e regiões, — não nos deve fazer esquecer que, ao mesmo tempo, — portanto: nem antes, nem depois, mas ao mesmo tempo, — as coisas são para nós instrumentos ou estorvos para a nossa vida, o seu ser não consiste em ser cada uma por si e em si; ao contrário: elas têm somente um ser para. Torne-se clara esta noção de "ser para" como a que expressa o ser originário das coisas enquanto " | ||
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| + | Aqui não nos ocupamos do que são em absoluto as coisas, supondo-se que as coisas sejam em absoluto. Limitamo-nos rigorosa e metòdicamente a descrever o que as coisas são patentemente, | ||
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| + | Mesmo sem querer descobrir a pólvora, — ela se vai descobrindo por si, — tal como essas duas séries de serviços articulados, | ||
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| + | Temos, assim, que as coisas, enquanto serviços positivos ou negativos, se articulam umas com as outras, formando arquiteturas de serviçalidade, | ||
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| + | O homem vive em um enorme âmbito, — o Mundo, o seu, o de cada um, — ocupado por " | ||
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| + | O mundo de nossa vida e, portanto, nossa vida nele, estão constituídos por uma orientação de lados diversos que chamei " | ||
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| + | Há muito tempo sustento nos meus escritos que a poesia é um modo de conhecimento ou, por outras palavras, que o dito pela poesia é a verdade. A diferença entre a verdade poética e a científica, | ||
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| + | Com isso podemos dar por terminado o estudo da estrutura formal que possui o mundo em que cada um vive. Note-se que esse mundo, já quanto à sua estrutura, muito pouco se parece com o mundo físico; quero dizer, com o mundo que a física nos revela. Conste, porém, que não vivemos nesse mundo físico, simplesmente o pensamos, o imaginamos. Porque, se disse antes que, há muitos anos, sustento que a poesia é uma forma do conhecimento, | ||
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| + | Já é hora de, prescindindo dessa estruturação formal do mundo, darmos uma olhada ao seu conteúdo, para as coisas que nele aparecem, assomam, brotam, surgem, em suma, existem, afim de descobrirmos entre elas algumas que possamos, que devamos chamar sociais e sociedade. Aqui nosso tema nos obriga a não nos demorarmos no caminho, apesar das interessantes questões que nos vão saltar à vista. Podemos, velozmente e sem pouso, atravessar num voo quanto evidentemente não possa pretender ser social ou que, pelo menos, não o seja com evidência e saturadamente. Com efeito, as coisas que há no mundo se acham, por muito antiga tradição, classificadas em minerais, vegetais, animais e humanas. Pergunte-se cada um se o seu próprio comportamento diante de uma pedra pode qualificar-se de social. Evidentemente, | ||
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| + | Observe-se o novo tipo de realidade que, diante daquilo que não são pedras e vegetais, aparece em nosso mundo quando encontramos o animal. Se, para descrever a relação real, diante da pedra, dizemos: a pedra e eu somos dois, falamos inadequadamente. Porque nesse plural " | ||
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| + | A conduta do animal conosco poderia resumir-se e simbolizar-se dizendo-se que o animal nos está chamando a nós, constantemente, | ||
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| + | O que não parece questionável é que dizer "o animal e eu somos" tem já alguma dose de sentido, que faltava em absoluto em "a pedra e eu somos" | ||
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| + | Ora, não é isto o que primeiramente chamamos " | ||
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| + | Essa escala, portanto, tabulará também a quantidade de co-existência de que posso usufruir com o animal. Ela nos manifestaria até que ponto, mesmo no melhor caso, essa co-existência é escassa. Posso adestrar ou ensinar o animal e então criar-me a ilusão de que ele co-rresponde a maior número de gestos e outros atos meus, mas advirto logo que no adestramento ele não responde a partir de si mesmo, do seu centro espontâneo, | ||
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| + | Repito a minha pergunta: Podemos reconhecer na relação do homem com o animal um fato social? Não podemos decidir sobre isso, assim, sem mais nada. De início nos retinha, para responder afirmativamente, | ||
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| + | Só podemos convercer-nos de que a nossa relação com ele é ou não social se a compararmos com fatos que sejam inquestionavelmente, | ||
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| + | É o caso plenário, diáfano, evidente, que nos permite entender os casos confusos, débeis, ambíguos. | ||
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| + | Essas considerações demarcaram o montão de fenômenos únicos, entre os quais pode aparecer de modo palmar e irrecusável algo que seja social. Do conteúdo do mundo só nos ficam por analisar as coisas a que chamamos " | ||
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| + | Como aparecem no meu mundo vital esses seres a que chamo "os outros homens?" | ||
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| + | Antes, no mundo como mundo mineral, vegetal, animal, nada nos preocupava. É a tranquilidade que sentimos no campo. | ||
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| + | Porque a sentimos? Vamos vê-lo, mas com duas palavras Nietzsche já disse o essencial: " | ||
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| + | Aqui está a origem super-suspicaz da nossa inquietude. Vamos falar de seres, — os homens, — que se caracterizam porque sabemos que têm uma opinião sobre nós. Por isso nos pusemos em guarda, de alma alerta: no doce horizonte do mundo paradisíaco — assoma um perigo: o outro homem. E, — não há dúvida! — mais ou menos, e pouco a pouco, isto se vai animar. E vamos todos perturbar-nos um pouco. | ||
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| + | Efetivamente, | ||
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| + | Não me detenho para penetrar nesse sugestivissimo assunto: a função expressiva, — de certo modo o sugestivo por antonomásia, | ||
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| + | Baste dizer por agora que o corpo do outro, quieto ou em movimento, é um abundantissimo semáforo, que nos envia constantemente os mais variados sinais, indícios ou indicações daquilo que se passa no " | ||
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| + | A fisionomia desse corpo, sua mímica e sua pantomimica, | ||
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| + | Por isso, nada o namorado agradece tanto como o primeiro olhar. Mas é preciso ter cuidado. Se os homens pudessem medir a profundidade de que provém o olhar da mulher, muitos erros e muitas penas se poupariam. Porque há o primeiro olhar que se concede como uma esmola, — pouco profundo, o suficiente para ser olhar. Mas há também o olhar que vem do mais profundo, trazendo consigo a sua própria raiz do abismo do ser feminino, olhar que emerge como carregado de algas e pérolas e de toda a paisagem submersa, essencialmente submerso e oculto que é a mulher quando é de verdade, isto é, profundamente, | ||
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| + | Repito, do fundo da radical solidão que é propriamente a nossa vida, uma ou outra vez, tentamos uma interpenetração, | ||
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| + | //PS: Ortega y Gasset, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, | ||
