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 +====== 4 Antropologia ======
 +//KANT, Immanuel. Anthropologie in pragmatischer Hinsicht. Königsberg: Friedrich Nicolovius, 1798.//
  
 +//A concepção antropológica de Kant que subjaz à ideia de construção da paz perpétua (Ana Thais Rocha Soares, Ana Kélvia Capistrano, Francisco Romulo Alves Diniz)//
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 +1. A concepção antropológica de Immanuel Kant articula-se com a ideia de paz perpétua, sobretudo na Antropologia do ponto de vista pragmático, na Ideia de uma História Universal de um ponto de vista Cosmopolita e em A Paz Perpétua, e essa articulação interessa aos direitos humanos porque direitos universais pressupõem um ser humano de identidade comum e uma paz perpétua pressupõe seres racionais capazes de pensá-la e efetivá-la.
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 +2. Defensor de uma paz perpétua e de uma história universal cosmopolita, Kant resume seu projeto filosófico em quatro questões (o que se pode conhecer, o que se deve fazer, o que é permitido esperar e quem é o homem), das quais as três primeiras encontram fundamento na última.
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 +3. As perguntas formuladas na carta a C. F. Staudin, de 1793, revelam que o ser humano pode ser compreendido sob múltiplas perspectivas, mas que, para além de sua dimensão biológica e empírica, ele se define fundamentalmente pela liberdade, que lhe confere o poder e o dever de fazer-se a si mesmo.
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 +4. O percurso pelas quatro questões kantianas busca a compreensão mais completa possível do ser humano, visto que o projeto de Kant procura descrever o homem individual e coletivamente para formular um conceito de natureza humana ao qual se apliquem concretamente os princípios puros de sua teoria moral e de seu conhecimento metafísico.
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 +5. A primeira ruptura de Kant ocorre em relação ao pensamento grego, para o qual a ordem universal, explícita no movimento natural do cosmos, cabia ao homem apenas contemplar, sem possibilidade de nela intervir.
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 +6. Ao tratar a ordem do universo como pressuposta e abolir a causa final aristotélica, Kant faz da ética uma ética das relações humanas definida pela vontade e do conhecimento uma produção da razão humana, limitada ao que pode ser intuído sensivelmente como fenômeno.
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 +7. Na Crítica da Razão Pura, a investigação sobre a existência e a possibilidade de juízos sintéticos a priori parte da distinção entre juízos sintéticos, cujo predicado acrescenta algo ao sujeito e que derivam da experiência, e juízos analíticos, que são a priori por dispensarem a experiência para explicitar o que se pensa num conceito.
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 +8. Em uma revolução comparável à de Copérnico, Kant descobre os juízos sintéticos a priori, universais e necessários como os analíticos, mas capazes de ampliar o conhecimento, descoberta que, impulsionada pela crítica de Hume, o afastou do velho dogmatismo metafísico de Descartes, Leibniz e Wolff.
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 +9. A razão humana enfrenta questões inevitáveis que não pode verificar empiricamente, como as relativas à alma, ao mundo e a Deus, o que a coloca em dificuldade diante do critério de verificação empírica próprio da ciência moderna.
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 +10. Nesse domínio desprovido de experiência, a metafísica permanece tateando sem alcançar o caminho seguro da ciência, razão pela qual Kant elimina o dogmatismo metafísico e concentra-se naquilo que a razão pode alcançar e a experiência pode fornecer.
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 +11. A dimensão teórica mostra o ser humano marcado pelo desejo de saber e espelhado na ciência, mas, como ela se restringe ao conceito de natureza e o homem também se afirma como liberdade, a Crítica da Razão Pura oferece apenas uma concepção parcial da visão antropológica kantiana.
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 +12. A natureza completa-se com a liberdade, fundamento da moral, do direito e da política, e nesse campo a perspectiva deontológica kantiana distancia-se da ética teleológica aristotélica ao orientar as ações por princípios situados além dos interesses e inclinações pessoais.
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 +13. Tomando a liberdade como ponto de partida, Kant estabelece critérios racionais para julgar a moralidade das ações, sendo o imperativo categórico, em suas quatro formulações, o critério suficiente para determinar a validade moral de uma ação.
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 +14. Agir moralmente significa agir de forma desinteressada, por puro respeito à lei moral, ou seja, por dever e não apenas conforme ao dever, pois o dever consiste na necessidade de cumprir uma ação por respeito à lei.
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 +15. A conservação da própria vida, embora seja um dever, só adquire conteúdo moral quando alguém, privado pelo desgosto de toda inclinação a viver, ainda assim a conserva unicamente por dever, e não por inclinação ou medo.
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 +16. Quem age por dever respeita a autonomia de sua vontade e sua própria racionalidade, já que a vontade, entendida como capacidade de deliberar racionalmente, permite ao homem controlar seus desejos e pulsões e é boa não pelo que obtém, mas tão somente pelo querer.
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 +17. A boa vontade confere dignidade moral à pessoa e torna todos os homens iguais na razão, rompendo com a moral grega baseada no tamanho dos talentos e fazendo da moral um grau de desenvolvimento racional em que cada um deseja apenas aquilo que possa valer como lei universal.
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 +18. As vertentes teórica e prática são fundamentais para desvelar o ser humano, mas permanecem parciais enquanto não se consideram aquilo que o homem não pode saber nem controlar, como a questão escatológica.
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 +19. A busca por verdades, por aperfeiçoamento moral e pela transcendência do sensível leva os homens a esperar uma recompensa ligada à crença em Deus, o que suscita o problema da felicidade como princípio moral e evidencia a finalidade como conceito a priori regulador, retomado em A Paz Perpétua.
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 +20. Somente num Estado cosmopolita haveria progresso moral e paz entre os povos, mas o homem ainda não é plenamente moral, pois age movido por móbiles não racionais e, conforme a resposta à pergunta sobre o esclarecimento, permanece menor, preguiçoso e dependente do entendimento alheio.
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 +21. Apesar de o homem ainda viver guerreando por não ser plenamente moral, a história da humanidade alimenta a esperança de que a espécie atinja o mais alto grau de moralidade e de que as relações entre os Estados passem a ser regidas pela razão, distinguindo-se a legislação ética, que faz do dever o móbil, da jurídica, que admite outros móbiles.
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 +22. A última questão, fundamento de todas as anteriores, consiste em descobrir quem é o homem, o que implica investigar seu papel como sujeito racional e aquilo que lhe é permitido esperar.
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 +23. A antropologia kantiana constitui uma tentativa de superar a psicologia empírica da escola wolffiana e, independentemente das controvérsias sobre seu estatuto científico, permite pensar a possibilidade dos direitos humanos e de uma sociedade cosmopolita a partir de uma concepção de homem que ultrapassa o homem empírico.
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 +24. Sem oferecer uma resposta definitiva sobre o que é o homem, Kant chega a um conceito aproximado ao considerá-lo universalmente como ser racional que existe como fim em si mesmo, dotado de valor absoluto, e que por isso deve ser tratado sempre como fim e jamais como meio.
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 +25. O conceito de ser racional distingue o homem dos demais seres da natureza, sobretudo dos animais, porque somente ele, dotado de vontade, conhece as leis inexoráveis da natureza e é capaz de agir conforme a representação de leis, isto é, segundo princípios.
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 +26. Como o ser humano não é apenas racional, mas também empírico e movido por móbiles que nem sempre concordam com a razão, o princípio de sua ação precisa assumir a forma de um comando da razão, o imperativo, que se divide em hipotético e categórico.
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 +27. O imperativo é hipotético quando ordena uma ação boa para alguma outra coisa e categórico quando ordena uma ação boa em si mesma.
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 +28. A análise da existência do ser racional mostra que ele existe como fim em si, com valor absoluto, e que somente um fim em si pode constituir princípio da vontade, de onde se deduz o imperativo de tratar a humanidade, em si e nos outros, sempre como fim e jamais como simples meio.
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 +29. O homem kantiano constitui uma síntese de ser racional que conhece a si mesmo e a natureza, de ser livre e autônomo que ordena suas ações pela vontade e de ser político que cria leis jurídicas para ordenar a vida social, concepção que lançou as bases da filosofia moderna contemporânea e dos direitos humanos.
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 +30. A antropologia pragmática estabelece condições para pensar o homem de modo a construir uma sociedade cosmopolita pacífica, considerando-o como ser livre e produzindo um saber apenas contingentemente universal, que, por valer para a maioria dos casos e não para todos, preserva o espaço de deliberação do homem como ser terreno e racional capaz de escolha e interação.
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 +31. O conhecimento do homem passa pelo autoconhecimento e pela analogia com os outros, de modo que a compreensão cosmopolita do ser humano se forma a partir das próprias faculdades, hábitos, estruturas e costumes de cada um, encontrando-se assim no singular o universal e, em cada homem, toda a humanidade.
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 +32. A concepção antropológica kantiana vincula-se à construção dos direitos humanos e da paz perpétua, e a filosofia do conhecimento de Kant abre dois caminhos: o dos juízos sintéticos a priori, que garantem necessidade e universalidade ao conhecimento, e o da delimitação do saber, que se abre para o mundo das ações.
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 +33. A ação moral, fundada na liberdade como condição de toda ação e da elaboração das leis que regem a conduta humana, revela o caráter eminentemente racional da moral e, em seguida, do direito.
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 +34. O homem não se reduz a conhecer e agir, pois a esperança o lança além dessas condições fundamentais, constituindo também ela fruto de um ajuizamento que aponta para uma realização diante do indizível e exige um móbil para superar a imediatidade.
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 +35. Esses elementos permitem indagar a possibilidade de construir um mundo para além de toda violência.
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 +36. A paz perpétua resulta de uma construção racional que integra aspectos cognitivos, valorativos e escatológicos e se sintetiza na compreensão do homem como ser complexo, livre e capaz de reelaborar-se moral, social e politicamente, de modo que, agindo pela razão e livre das pulsões imediatas, ele possa igualar-se aos semelhantes e viver num Estado cosmopolita, um dos sonhos do filósofo de Königsberg.
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 +{{tag>Kant antropologia}}
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