jaspers:giuseppe-lumia-jaspers
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| + | ====== GIUSEPPE LUMIA: JASPERS ====== | ||
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| + | A derivação kierkegaardiana é mais evidente em Karl Jaspers, que chegou à filosofia vindo dos estudos de medicina e, diferentemente de Heidegger, afastado das sugestões da fenomenologia. É diferente o interesse especulativo que move os dois expoentes máximos do existencialismo alemão: Heidegger é movido por interesse pela existência em geral, pelas suas estruturas objetivas e pelas suas modalidades, | ||
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| + | Para Jaspers, os três momentos do filosofar, correspondentes às três partes da sua obra maior, Philosophie, | ||
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| + | A filosofia é para Jaspers pesquisa do ser, Versuch des Seiens. Ora nós podemos procurar o ser ou no mundo das coisas que nos circundam, ou em nós próprios. O primeiro momento do filosofar é constituído pela orientação em face do mundo. Este apresenta-se-nos como mero estar-aí, Dasein, como pura objetividade, | ||
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| + | Atenta a impossibilidade de atingir o ser através da orientação no mundo, só nos resta tentar captá-lo em nós próprios, por meio de um processo de clarificação da existência por obra da razão. Esta não é, para Jaspers, a razão abstrata, que pretende reduzir a esquemas científicos a infinita variedade do real; nem sequer a razão dos idealistas que supõe o seu objeto, pretendendo resolvê-lo em si. É antes razão existentiva, | ||
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| + | Mas, segundo Jaspers, nem no plano da existência nós conseguimos alcançar todo o ser. Com efeito, o homem pode ser encarado sob três aspectos: como realidade, como consciência em geral, ou como espírito. Como realidade — matéria, organismo vivente, consciência individual — o homem não é senão uma parte do mundo, objeto entre os objetos, mero estar-aí: longe de identificar-se com todo o ser, é apenas um ser determinado. Como consciência em geral, o homem é, sim, o legislador da natureza, à maneira kantiana, mas da realidade não colhe senão a forma, que não é, obviamente, todo o ser. Como espírito, o homem alcança além disso uma visão totalitária da realidade como auto-realização da ideia no devir da história; mas esta visão termina por menosprezar a realidade do indivíduo na sua viva interioridade, | ||
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| + | Da objetividade do Dasein emerge então a nossa existência, | ||
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| + | Mas, como vimos, a existência não é todo o Ser. A razão põe-nos em guarda contra a pretensão de alcançar verdades definitivas e exaustivas: podemos alargar cada vez mais o nosso horizonte, organizar as nossas experiências de formas cada vez mais coerentes e unitárias, mas jamais poderemos atingir a absoluta unidade, o ser na sua totalidade, que por isso mesmo é transcendência. O novo horizonte será sempre particular, e nunca atingiremos o horizonte omnicompreensivo, | ||
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| + | A relação entre a existência e a Transcendência constitui o terceiro momento do filosofar, a «metafísica». No horizonte a existência depara com a Transcendência, | ||
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| + | No pensamento de Jaspers o conceito de comunicação tem uma importância central. Segundo ele, a razão só pode explicar-se através da linguagem, e esta pressupõe a comunicação entre os homens. A comunicação é constitutiva da nossa existência, | ||
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| + | No plano da objetividade a comunicação pressupõe a sociedade. Aos problemas da sociedade e do Estado dedica Jaspers uma trintena de densas páginas no segundo volume da sua obra maior, e nelas viu Bobbio, não sem razão, as linhas de uma filosofia do direito «in nuce». Jaspers reconhece a necessidade e o valor positivo da vida social. A sociedade é que ofereceu ao homem as condições objetivas, necessárias ao seu desenvolvimento espiritual, que lhe permitiram tornar-se aquilo que é; e é ainda a sociedade que assegura ao homem as condições necessárias à sua vida, de tal modo que ele permaneceria ainda inserido na sociedade, mesmo que por hipótese conseguisse isolar-se materialmente. Fora da sociedade não pode haver existência. Ao indivíduo não resta outra escolha: «ou reduzir-se a nada, fechando-se na sua subjetividade, | ||
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| + | A sociedade assegura a cada um o espaço para a existência. Ela tornou-se necessária pela vocação do homem, enquanto Dasein, para o domínio (Herrschaft), | ||
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| + | Por sua vez, a propriedade requer a existência de uma ordem que a garanta. E não pode haver ordem fora de uma sociedade que assegure a observância das leis e o respeito das instituições. | ||
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| + | Para Jaspers a sociedade não é concebível senão politicamente organizada como Estado e, ainda segundo ele, «O Estado como tal só existe na luta». Esta não se manifesta só nas relações externas entre os Estados; caracteriza também a sua vida interna, pois é através da luta que se determina a prevalência daquela vontade que depois se tornará decisiva para todos. O Estado oferece precisamente o quadro para a formação da vontade política que deverá impor-se às outras. | ||
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| + | Em seu entender, não devemos esperar do Estado a total satisfação das nossas necessidades. Uma sociedade em que tal satisfação se realizasse funcionaria automaticamente: | ||
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| + | Jaspers é bastante firme ao reivindicar para o indivíduo um destino mais alto que aquele que ele pode realizar no quadro da sociedade. Esta tende a absorver sem resíduos o indivíduo na objetividade que é o seu modo de ser. Já em 1931, em uma obra intitulada Die geistige Situation der Zeit, ao examinar os principais problemas do nosso tempo, Jaspers tinha posto a claro como este perigo é hoje mais grave que nunca. | ||
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| + | Num mundo dominado pela técnica, o homem tende cada vez mais a deixar-se absorver pelas coisas, a identificar-se com uma função, a reduzir-se a uma modesta engrenagem de um mecanismo misterioso e absurdo que o ultrapassa por todos os lados. Neste triunfo do tecnicismo e do funcionalismo, | ||
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| + | Voltando, na sua obra maior, a tratar das relações entre a sociedade e o indivíduo, adverte que essas relações foram colocadas sob o signo de uma permanente e ineliminável tensão (Spannung). Enquanto a vontade do indivíduo prossegue interesses meramente vitais, ela não pode deixar de entrar em conflito com os interesses alheios; por outro lado, enquanto a sociedade prossegue fins meramente econômicos, | ||
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| + | No conflito que inevitavelmente se estabelece entre o indivíduo e a sociedade, o primeiro é portador de valores irredutíveis aos valores sociais. «O indivíduo — escreve mais adiante Jaspers — torna-se uma personalidade plena não apenas quando está em sociedade, na qual se identifica com uma ideia, mas quando está nela com a condição de conservar aquela independência da qual não pode abdicar em favor da sociedade. O indivíduo que se isola cai no nada, mas o mesmo acontece àquele que se dissipa na generalidade da objetividade e da subjetividade sociais». Perante o impulso da sociedade que tenda para o aplanamento, | ||
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| + | Se a sociedade se desdobra toda no domínio da objetividade, | ||
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| + | Nas conferências proferidas em Groningen em 1934, e publicadas nesse ano sobre o título Vernunft und Existenz, Jaspers volta ao tema da comunicação. Nelas parece atenuar a nítida contraposição, | ||
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| + | Jaspers põe em evidência como cada um destes três modos de comunicação tem um valor próprio de verdade: para o primeiro é a verdade do útil, para o segundo a verdade da ciência, e para o terceiro a unidade espiritual. Mas põe-nos em guarda contra a tentação de admitir que um só deles, ou os três em conjunto, esgotem a verdade. O útil permite aos homens comunicarem só no plano das elementares necessidades vitais; a ciência permite a comunicação só no plano do genérico e do abstrato; a unidade espiritual, por último, permite a realização daquela forma de comunicação que pode estabelecer-se entre um órgão e o organismo a que ele pertence, e que tende por isso a reduzir o eu a uma função de um todo. A insuficiência destes três modos de comunicação — a que se exprime na procura da utilidade individual, a que se reduz substancialmente a verdades científicas abstratas, e a que se realiza em volta de uma ideia — suscita a exigência de uma forma de comunicação autêntica, a «comunicação existencial», | ||
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| + | Como já observou Pareyson, na filosofia de Jaspers os motivos mais válidos do existencialismo encontram a sua mais amadurecida e aprofundada elaboração. Quando nos aproximamos do pensamento deste filósofo, não podemos reprimir a nossa respeitosa admiração por um homem que há mais de trinta anos luta com tenacidade e coragem contra todas as formas de intolerância, | ||
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| + | O sentido mais profundo da filosofia de Jaspers está, no nosso modo de ver, em ter transferido a exigência crítica do plano abstrato da consciência em geral para o plano concreto do existente. O Umgreifende de Jaspers, o horizonte omnicompreensivo que nenhum espírito humano é capaz de abarcar, tem função idêntica à das «ideias da razão» no sistema de Kant, com a diferença de que estas últimas são o produto da atividade do eu transcendental, | ||
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| + | Em face das sugestões místicas ou irracionalistas para as quais outras doutrinas existencialistas não deixaram de mostrar-se indulgentes, | ||
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| + | E se a verdade não pode nunca ser alcançada como um todo, a ninguém é lícito assumir como absoluto o seu próprio ponto de vista. O dogmatismo e a intolerância são os grandes inimigos do filosofar, que manifesta a sua fecundidade onde houver comunicação amorosa e diálogo. | ||
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| + | Não surpreenderá, | ||
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| + | Pode dizer-se que só poucos indivíduos excepcionais sabem elevar-se à autêntica comunicação, | ||
