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espinosa:etica:corpo-mente-natureza

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 +====== Corpo, mente, natureza ...======
  
 +O CORPO DO HOMEM
 +
 +O corpo humano compõe-se de muitos indivíduos (de diversa natureza), cada um dos quais é muito complexo.
 +
 +Entre os indivíduos de que se compõe o corpo humano, alguns são fluidos, outros macios, outros por último são duros.
 +
 +Os indivíduos componentes do corpo humano, e por conseguinte o corpo humano mesmo, é afetado de muitos modos pelos corpos externos.
 +
 +O corpo humano necessita para conservar-se de outros muitos corpos, pelos quais se regenera, por assim dizer, continuamente.
 +
 +(Ethica, p. II, post. MV.)
 +
 +A MENTE HUMANA
 +
 +A mente humana não só percebe as afecções do corpo , como também as ideias destas afecções.
 +
 +A mente só se conhece a si mesma enquanto percebe as ideias das afecções do corpo.
 +
 +A mente humana tem um conhecimento adequado da essência eterna e infinita de Deus.
 +
 +Na mente humana não há nenhuma vontade absoluta ou livre; a mente determina-se a querer isto ou aquilo por sua causa, que também está determinada por outra, e esta por sua vez por outra, e assim até o infinito.
 +
 +Na mente não se dá nenhuma volição, ou seja afirmação ou negação, fora daquela que envolve a ideia enquanto é ideia. A vontade e o entendimento são uma e a mesma coisa.
 +
 +(Ethica, p. II, prop. XXII, XXIII, XLVII, XLVIII, XLIX.)
 +
 +O HOMEM NA NATUREZA
 +
 +A maior parte dos que escreveram acerca das paixões e do modo de viver dos homens não parecem tratar de coisas naturais, que seguem as leis comuns da natureza, e sim de coisas que estão fora da natureza.
 +
 +Inclusive parecem conceber o homem na natureza como um império dentro de um império. Pois creem que o homem mais perturba que segue a ordem da natureza, e que ele próprio tem um poder absoluto em suas ações, e não se determina a não ser por si mesmo. Finalmente, atribuem a causa da impotência a inconstância humana, não à potência comum da natureza mas a não sei que vício da natureza humana, pelo qual choram, riem, desprezam ou, como ocorre com muita frequência, aborrecem; e aquele que soube captar com mais eloquência ou agudeza a impotência da mente humana, é tido por divino. (...) Quero voltar aos que preferem aborrecer as paixões e as ações dos homens, ou se rirem delas, melhor que entendê-las. A estes sem dúvida parecerá estranho que tente descrever os vícios e a estupidez dos homens segundo o uso geométrico, e queira demonstrar por uma razão certa o que, segundo proclamam, repugna a razão, o que é vão, absurdo e horrendo. Mas minha razão é esta. Nada acontece na natureza que possa ser atribuído a vício desta; e a natureza é sempre a mesma, e em todas partes é uma e a mesma sua virtude e seu poder de atuação; isto é, as leis e regras da natureza, segundo as quais todas as coisas sucedem, e variam de umas formas para outras, são em todas partes e sempre as mesmas, e portanto uma e a mesma deve ser também a razão para entender as coisas de qualquer natureza: a saber, pelas leis e pelas regras universais da natureza. Portanto, as paixões do ódio, da ira, da inveja etc, consideradas em si mesmas, são consequência da mesma necessidade e virtude da natureza que as demais coisas singulares; e por isso têm certas causas, pelas quais se entendem, e certas propriedades, igualmente dignas de nosso conhecimento que as propriedades de qualquer outra coisa, com cuja contemplação nos deleitamos. Tratarei, pois, da natureza e forças dos afetos e do poder da mente sobre eles, com o mesmo método com que antes tratei de Deus e da mente, e considerarei as ações e os apetites humanos como se fosse questão de linhas, de planos ou de corpos.
 +
 +(Ethica, p. III, prefácio.)
 +
 +O ANSEIO DE PERDURAÇÃO
 +
 +Toda coisa, enquanto é, tende a perseverar em seu ser.
 +
 +O impulso pelo qual toda coisa tende a perseverar em seu ser, não é outra coisa que a essência atual dessa mesma coisa.
 +
 +O impulso pelo qual toda coisa tende a perseverar em seu ser, não envolve um tempo finito, mas indefinido.
 +
 +A mente, tanto enquanto tem ideias claras e distintas como enquanto as tem confusas, tende a perseverar em seu ser em certa duração indefinida, e tem consciência deste impulso.
 +
 +Este impulso enquanto se refere à mente só, chama-se vontade, mas quando se refere a uma vez à mente e ao corpo, chama-se apetite; o qual, portanto, não é outra coisa que a própria essência do homem, de cuja natureza se seguem necessariamente as coisas que servem para sua conservação; e por isso o homem está determinado a fazê-las. Ademais, entre o apetite e o desejo não há nenhuma diferença, referindo-se o desejo, no geral, aos homens enquanto são conscientes de seu apetite, e por isto se pode definir assim: o desejo é o apetite com consciência dele mesmo. Consta, portanto, de tudo isto, que nós não procuramos, queremos, apetecemos nem desejamos qualquer coisa porque julguemos que é bom, mas pelo contrário, julgamos que algo é bom porque o procuramos, queremos, apetecemos e desejamos.
 +
 +(Ethica, p. III, prop. VI-IX e escólio.)
 +
 +OS AFETOS HUMANOS
 +
 +O desejo é a própria essência do homem, na medida em que se a concebe — por qualquer afecção sua — como determinada a fazer algo.
 +
 +A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor a uma maior.
 +
 +A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior a uma menor.
 +
 +Digo passagem, pois a alegria não é a perfeição mesma. Pois se o homem nascesse com a perfeição à qual passa, a possuiria sem afeto de alegria; o que fica mais claro no afeto da tristeza, que é contrário a este. Pois ninguém pode negar que a tristeza consiste na passagem a uma perfeição menor, visto que o homem não se pode entristecer na medida em que participa de alguma perfeição. E não podemos dizer que a tristeza consista na privação de uma perfeição maior; pois a privação nada é, e o afeto de tristeza, pelo contrário, é um ato que, portanto, não pode ser outro que o ato de passar a uma perfeição menor, isto é, o ato pelo qual se diminui ou dificulta a potência de obrar do homem.
 +
 +O amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa externa. O ódio é a tristeza acompanhada da ideia de uma causa externa.
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 +(Ethica, p. III, definições das afeições I, II, III, VI, VII.)
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 +O HOMEM E AS PAIXÕES
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 +À impotência humana para moderar e reprimir os afetos chamo escravidão; pois o homem submetido às paixões não é dono de si, mas escravo da sorte; está de tal modo em poder desta, que com frequência se vê obrigado, embora veja o que é melhor para cie, a seguir o pior. (...)
 +
 +Por virtude e potência entendo o mesmo; isto é, a virtude, enquanto se refere ao homem, é a essência mesma ou natureza do homem, enquanto tem poderio para fazer certas coisas que se podem entender pelas únicas leis dessa mesma natureza.
 +
 +A força pela qual o homem persevera em existir, é limitada, e é superada infinitamente pela potência das causas externas.
 +
 +Não é possível que o homem não seja uma parte da natureza, e que não possa sofrer mais mutações que as que se possam entender só por sua natureza e das quais seja causa adequada.
 +
 +Segue-se daqui que o homem está sempre submetido necessariamente às paixões e segue a ordem comum da natureza e lhe obedece, e acomoda-se a ela quanto o exige a natureza das coisas.
 +
 +(Ethica, p. IV, prefácio, def. VIII e prop. III e IV.)
 +
 +A RAZÃO, A VIRTUDE E O SER
 +
 +Ninguém pode desejar ser feliz, bem agir e bem viver, sem desejar ao mesmo tempo ser, agir e viver, isto é, existir em ato.
 +
 +Não se pode conceber nenhuma virtude como anterior a esta (isto é, o impulso de conservar-se).
 +
 +Agir absolutamente por virtude não é em nós outra coisa que agir, viver, conservar seu ser (estas três coisas significam o mesmo), guiados pela razão, pelo fundamento de procurar a própria utilidade.
 +
 +Ninguém se esforça por conservar seu ser movido por outra coisa.
 +
 +O sumo bem da mente é o conhecimento de Deus, e a suprema virtude da mente, conhecer Deus.
 +
 +Na medida em que os homens estão dominados por afetos que são paixões, podem ser contrários entre si.
 +
 +Só na medida em que os homens vivem guiados pela razão convêm sempre necessariamente por natureza.
 +
 +O homem livre em nada pensa menos que na morte; e sua sabedoria não é meditação da morte e sim da vida.
 +
 +(Ethica, p. IV, prop. XXI, XXII, XXIV, XXV, XXVIII, XXXIV, XXXV, LXVII.)
 +
 +A IMORTALIDADE E A FELICIDADE
 +
 +A mente só pode imaginar qualquer coisa, ou lembrar-se das coisas passadas, enquanto durar o corpo.
 +
 +A mente humana não pode destruir-se absolutamente com o corpo, mas algo dela permanece, que é eterno.
 +
 +O amor intelectual da mente a Deus é o amor mesmo de Deus, pelo qual Deus se ama a si mesmo, não enquanto é infinito, mas enquanto se pode explicar pela essência da mente humana, considerada sob a espécie da eternidade; isto é, o amor intelectual da mente a Deus é uma parte do amor infinito com que Deus se ama a si mesmo.
 +
 +A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a virtude mesma; e não gozamos dela porque reprimamos os impulsos viciosos, mas pelo contrário, porque gozamos dela, podemos reprimir os impulsos viciosos.
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 +(Ethica, p. V, prop. XXI, XXIII, XXXVI, XLII.)
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 +{{tag>Espinosa corpo mente humano afetação}}

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