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| + | ====== QUE É O EU? (2014: | ||
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| + | O que é o eu? | ||
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| + | Se um homem fica em uma janela para olhar os transeuntes, | ||
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| + | E se me amam por meu discernimento, | ||
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| + | Portanto, não zombemos mais daqueles que buscam honras por cargos e posições, pois não amamos ninguém exceto por qualidades emprestadas (Fr. 323, L. 688). | ||
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| + | Desde o grande artigo de Henri Birault comentando esse fragmento de Pascal [], tem sido comum lê-lo à luz da questão colocada por Heidegger: o substancialismo pelo qual Descartes é criticado não se perpetua naqueles que supostamente o superaram, e em particular em Kant quando ele fala do “eu idêntico” ou em Husserl quando ele introduz seu ego transcendental como um polo de identidade autoconstituído no fluxo da consciência? | ||
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| + | E se sou amado por meu discernimento, | ||
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| + | À luz dessas linhas, fica bastante claro que a noção de moi (substantivo) de Pascal deve ser entendida a partir de seu uso comum na forma pronominal. Temos de ser capazes de voltar desse “eu” para “ama-se a mim, eu?”. E, portanto, desse “eu” para o motivo pelo qual preciso ser amado se quiser ser amado por mim mesmo e não por minhas qualidades. O que posso perder sem perder a mim mesmo? Posso perder tudo o que se enquadra na categoria de qualidades (ou melhor, na subcategoria de qualidades que tornam a pessoa que as possui amável — digna de amor). É por isso que essas qualidades não são o que faz o eu, em outras palavras, o que faz aquilo que eu teria de amar para amar a mim mesmo, sejam quais forem minhas qualidades ou meus defeitos de qualidade. | ||
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| + | O texto de Pascal certamente estabelece isso: se amar alguém é amá-lo por uma qualidade, e por “qualidade” queremos dizer um atributo que pode ser perdido (não apenas a beleza, mas também habilidades como a memória ou o bom senso), então o objeto de amor não é tal e tal pessoa, absolutamente, | ||
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| + | Concluo que o “eu” de Pascal, inclusive nesse fragmento, não faz parte de uma concepção egológica da pessoa, e que deve, de fato, ser entendido no sentido de amor-próprio. Se o “eu” de Pascal não pode ser encontrado, é porque, em sua visão, eu (como um indivíduo empírico particular) não posso ser considerado amável, além das qualidades que de fato me tornam amável. | ||
