derrida:ser:1965-1-11
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| + | ====== 11-1-1965 ====== | ||
| + | //DERRIDA, Jacques. Heidegger--la question de l’être et l’histoire: | ||
| + | **11 de Janeiro de 1965** | ||
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| + | * Na aula anterior demorou-se longamente no campo problemático da primeira garantia da questão do ser -- o Faktum da pré-compreensão da significação da palavra " | ||
| + | * O Faktum da linguagem esboçou a resposta à questão de por que a questão do Ser-História deve passar pelo momento preliminar de uma analítica da historicidade do Da-sein: como o ser não surge nem aparece fora da linguagem, ele é história, mas surge através de um ser falante -- ser falante ao qual, pelo qual ou através do qual a questão do ser precisamente se coloca. | ||
| + | * Outros modos de proceder -- como os de Lacan e Lévi-Strauss -- são ameaçados pela hipóstase metafísica precisamente quando menos se esperaria, por falta de uma pré-crítica filosófica das noções em questão, pois substituem a função gramatical da linguagem do ser pela de símbolo ou mito e o Dasein falante pelo homem, como se já se soubesse o que se fala sob esses três nomes. | ||
| + | * Lacan escreve: "A ordem do símbolo não pode mais ser concebida como constituída pelo homem, mas deve ser concebida como o constituindo." | ||
| + | * Lacan escreve: "O homem fala, portanto, mas é porque o símbolo o fez homem." | ||
| + | * Lévi-Strauss escreve: " | ||
| + | * A estrutura formal da questão é: o ser é o Gefragtes; se o ser é o ser de um ente, o Befragtes só pode ser um ente interrogado quanto ao seu ser; mas para que, ao ser interrogado, | ||
| + | * As formas de entes são numerosas: existência (Dass-sein), | ||
| + | * Há um problema de exemplaridade -- de jure, de justificação do privilégio --, e Heidegger não quer esquivá-lo: | ||
| + | * A metáfora da leitura que funciona silenciosamente nessa passagem não é um acidente de estilo: ela faz do Gefragtes um sentido (Sinn) e do Befragtes um texto no qual esse sentido é decifrado -- transformando o Sinn em Bedeutung --, e o Da-sein será determinado como o texto correto, enquanto as outras formas de ente serão textos apócrifos, más criptas que ocultam distanciando, | ||
| + | * Essa metáfora da leitura não é um acidente em lugar algum onde tenha funcionado -- que é dizer em todo o discurso ocidental de Platão a Heidegger; e Freud, na Traumdeutung, | ||
| + | * Heidegger define seu método como apofântica fenomenológica cuja significação metodológica é Auslegung -- explicitação/ | ||
| + | * Heidegger vai mais longe: pensa que a hermenêutica de que fala é a hermenêutica em sentido próprio, da qual derivaria a hermenêutica como método de decifração de documentos nas disciplinas humanísticas -- história, teologia, e assim por diante; e "a hermenêutica elabora a historicidade do Dasein ontologicamente como condição ôntica de possibilidade da ciência histórica -- ela contém as raízes do que só pode ser chamado ' | ||
| + | * A questão de saber se a reversão da metáfora pode ser justificada aqui -- como se tentou provar na última aula em torno da noção de habitação -- é: pode-se dizer que o Da-sein é ele mesmo um texto, quando se estaria tentado a pensar que, sendo ele o único que escreve textos, não é ele mesmo texto? | ||
| + | * Heidegger responderia que, por um lado, não se sabe o que é um texto sem referência à possibilidade da fala; por outro, que a passagem da fala vocal para a inscrição não é o surgimento de um modo essencialmente novo de linguagem, por duas razões. | ||
| + | * Primeira razão: Heidegger pensa -- de modo muito platônico -- que a emergência da escrita é uma degradação, | ||
| + | * Segunda razão: a fala viva, o legein, o dizer, foi sempre já um texto, mesmo que não seja um texto inscrito numa exterioridade sólida -- um texto é um tecido, escrito ou não, impresso ou não; não há frase sem retenção do início ao fim da frase enunciada, e essa necessidade essencial e originária do traço, do engramma, na própria linguagem não escrita, significa que a fala é sempre já escrita, sempre já texto; e isso explica a menção ocasional do elogio da letra em Heidegger: na "Carta sobre o Humanismo", | ||
| + | * O ser exemplar a partir do qual se partirá deve ser determinado em sua exemplaridade pela única possibilidade da questão; o único pressuposto da questão é que ela seja posta, e o ente privilegiado da questão do ser será o ente questionante -- o ser interrogado com vistas ao ser é nós mesmos: "o ente que nós, os questionantes, | ||
| + | * A aparente arbitrariedade da denominação esconde uma necessidade profunda: não determinar o ser-aí cedo demais por outra categoria -- " | ||
| + | * O Da do Da-sein -- que não tem sentido espacial -- designa provavelmente um movimento, a transcendência que, indo do ente ao ser do ente, entrega o sentido do ser ele mesmo; a questão está lá -- das Fragen ist da; o ser em questão está lá. | ||
| + | * Da-sein não é o homem: não significa que o Da-sein seja algo diferente do homem, mas que não se acede ao Da-sein a partir do que se pensa conhecer sob o nome de homem -- animal rationale, zōon politikon, e assim por diante; e quando Heidegger em duas ou três ocasiões deixa entender que o Da-sein é o homem, a iluminação da definição vai de Da-sein para homem e não ao contrário. | ||
| + | * A acusação de antropologismo de Husserl a Heidegger -- nas anotações a Sein und Zeit e no Nachwort -- e a tradução catastrófica de Dasein como " | ||
| + | * A acusação de círculo vicioso é, por princípio, invalidada desde o início, pois refere-se a um modelo lógico de prova e de estrutura dedutiva de raciocínio que não é o que se deve seguir aqui: "Não pode haver ' | ||
| + | * De modo mais concreto: os entes podem ser determinados em seu ser sem que o conceito explícito do sentido do ser esteja já disponível; | ||
| + | * O círculo hermenêutico não é a esterilidade iterativa do "andar em círculos" | ||
| + | * A circularidade é historicidade -- isto é, a gravidade de um já-aí que pesa e dá seu lugar à questão do ser que sempre já começou a nos provocar, que nos surpreende porque não está à nossa disposição, | ||
| + | * Há uma "Rück oder Vorbezogenheit" | ||
| + | * A historicidade do Da-sein aparece como tema em Sein und Zeit em dois pontos de desigual importância: | ||
| + | * O primeiro gesto necessário para aceder à historicidade originária do Da-sein é um de re-dução ou re-gressão a um ponto anterior a duas histórias, a duas significações do conceito de história que são comumente tomadas como primárias e fundacionais, | ||
| + | * A primeira é a história universal, a Weltgeschichte: | ||
| + | * A segunda é a história como ciência histórica: é inútil perguntar ao historiador enquanto tal o que é a historicidade; | ||
| + | * A historicidade como constituição do ser do Da-sein é o que Heidegger chama Geschehen -- termo de difícil tradução, que se pode esclarecer pelo jogo de seu funcionamento no discurso heideggeriano e pelo sistema de significações a ele associadas: Geschichte e Geschick (Destino); é o movimento originário, | ||
| + | * "Em seu ser fático, o Dasein é sempre já como e 'o que' ele já era" -- o Da-sein é seu passado -- e isso não significa que o passado está atrás dele como outro lugar ou força causal; o Dasein é intrinsecamente seu passado (Vergangenheit), | ||
| + | * "Esta historicidade elementar do Dasein pode permanecer oculta para ele. Mas ela também pode ser descoberta de certa maneira e cultivada explicitamente. [...] Mas a ciência histórica -- mais precisamente, | ||
| + | * Parafrasando: | ||
| + | * "Se o Dasein teve acesso à sua possibilidade própria [...] de interrogar sobre o sentido do ser em geral [...] e se a visão da historicidade essencial do Dasein abriu-se nessa interrogação, | ||
| + | * Hegel e Heidegger insistiram ambos no fato de que a ciência histórica pressupõe a Geschichtlichkeit, | ||
| + | * Para Hegel, a palavra Geschichte une as duas significações -- realidade histórica e narrativa histórica -- de modo não fortuito porque a memória em sentido profundo e produtivo (Mnemosyne e Geist) é o poder de se reunir, de herdar de si mesmo, de recitar-se -- poder que é o fundamento comum da experiência histórica e da ciência histórica; e isso implica que não há história estritamente individual, mas apenas ao nível do povo constituído como Estado -- instituição racional e concreta --, pois o indivíduo separado do Estado tem o mesmo estatuto do animal. | ||
| + | * Hegel escreve nas Lições sobre a Filosofia da História Universal: "A palavra ' | ||
| + | * Para Hegel, um povo sem Estado não vive numa historicidade deficiente mas numa não-historicidade; | ||
| + | * Essa petrificação e naturalização do espírito ou da historicidade não é um fenômeno acidental que tenha ocorrido aqui ou ali: é a ameaça que espreita toda comunidade, povo ou nação, sob a forma da de-politização ou da concepção natural, biológica ou organicista do político. | ||
| + | * Na próxima aula tratar-se-á de uma intenção análoga mas diferente em Husserl, sobre a origem da historicidade e os povos ditos sem história; e ver-se-á então como Heidegger rompe com essa metafísica hegeliano-husserliana da história -- metafísica espiritualista que determina a história demasiado rapidamente a partir da possibilidade do conhecimento e da autoconsciência, | ||
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