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denis_de_rougemont:amor-romance-tristao

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denis_de_rougemont:amor-romance-tristao [13/01/2026 06:22] – created mccastrodenis_de_rougemont:amor-romance-tristao [Unknown date] (current) – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1
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-====== O Amor do Romance de Tristão====== 
  
-  * Observação crítica sobre a aplicação seletiva das leis 
-    * Ao revisar o resumo da lenda, nota-se fato marcante: as duas leis em jogo (cavalaria e moral feudal) são observadas pelo autor apenas nas situações que permitem ao romance prosseguir. 
-    * Essa observação, por si só, não constitui explicação; exige aprofundamento. 
- 
-  * Resposta insuficiente da crítica literária convencional 
-    * Poder-se-ia responder a cada pergunta: as coisas são assim porque, do contrário, não haveria romance. 
-    * Resposta aparentemente convincente por força do hábito da crítica, mas que na verdade nada explica. 
-    * Ela nos remete à questão fundamental: por que é necessário que haja um romance? E precisamente este romance? 
- 
-  * Questão fundamental e seu perigo implícito 
-    * Questão que pode ser chamada de ingênua, mas com sabedoria inconsciente, pois pressente-se seu caráter perigoso. 
-    * Coloca-nos no cerne de todo o problema, com alcance que ultrapassa o caso particular do mito. 
- 
-  * A convenção tácita entre romancista e leitor 
-    * Para quem observa, por abstração, o fenômeno comum ao romancista e ao leitor, vê-se uma convenção tácita, uma cumplicidade. 
-    * Vontade compartilhada de que o romance continue, que rebatam os acontecimentos. 
-    * Sem essa vontade, não há verossimilhança que se sustente (como na história científica). 
-    * Com essa vontade pura, nenhuma inverossimilhança é impossível (como no conto). 
-    * A verossimilhança depende, para uma obra romanesca, da natureza das paixões que se deseja satisfazer. 
- 
-  * Licença poética e revelação do verdadeiro assunto 
-    * Aceita-se a intervenção do criador e as distorções da lógica comum na medida exata em que fornecem pretextos para a paixão que se deseja experimentar. 
-    * O verdadeiro assunto de uma obra é revelado pela natureza dos truques que o autor emprega, perdoados na medida em que se compartilham suas intenções. 
- 
-  * A gratuidade dos obstáculos como chave interpretativa 
-    * Obstáculos externos ao amor de Tristão são, em certo sentido, gratuitos, meros artifícios romanescos. 
-    * A própria gratuidade desses obstáculos pode revelar o verdadeiro assunto da obra, a verdadeira natureza da paixão em jogo. 
- 
-  * Simbolismo onírico e composição do desejo 
-    * Tudo é símbolo, tudo se coaduna à maneira de um sonho, não da vida real. 
-    * Pretextos do romancista, ações dos heróis, preferências secretas supostas no leitor. 
-    * Os fatos são imagens ou projeções de um desejo, do que se opõe a ele, do que pode exaltá-lo ou simplesmente fazê-lo durar. 
- 
-  * Exigência profunda além da felicidade 
-    * Comportamento do cavaleiro e da princesa manifesta exigência ignorada por eles (e talvez pelo romancista), mais profunda que a do próprio felicidade. 
-    * Nenhum obstáculo é objetivamente insuperável, e ainda assim eles renunciam a cada vez. 
-    * Pode-se dizer que não perdem uma ocasião de se separar; se não há obstáculo, inventam-no: a espada nua, o casamento de Tristão. 
-    * Inventam como por prazer, ainda que sofram por isso. 
- 
-  * Identificação entre o demônio do amor cortês e o do romance ocidental 
-    * Seria isso para o prazer do romancista e do leitor? É tudo um, pois o demônio do amor cortês que inspira os ardilos sofredores nos amantes é o próprio demônio do romance amado pelos ocidentais. 
-    * Verdadeiro assunto da lenda: a separação dos amantes. 
-    * Separação em nome da paixão, por amor do próprio amor que os atormenta, para exaltá-lo, transfigurá-lo, em detrimento de sua felicidade e de sua vida. 
- 
-  * Sentido secreto e inquietante do mito: paixão como vertigem 
-    * Começa-se a distinguir o sentido secreto e inquietante do mito: o perigo que expressa e vel ao mesmo tempo. 
-    * Paixão que se assemelha ao vertigem; não é mais hora de se desviar. 
-    * Somos atingidos, sofremos o encanto, conhecemos o tormento delicioso. 
- 
-  * A impossibilidade da condenação e a tarefa da filosofia 
-    * Toda condenação seria vã; não se condena o vertigem. 
-    * A paixão do filósofo não seria justamente meditar no meio do vertigem? 
-    * Talvez o conhecimento não seja senão o esforço de um espírito que resiste à queda e se defende no seio da tentação. 
- 
-==== O amor do amor ==== 
- 
-  * Pergunta ousada sobre a natureza do amor em Tristão 
-    * Questão audaciosa: Tristão ama Isolda? É amado por ela? 
-    * Apenas perguntas estúpidas podem instruir; o evidente esconde algo não evidente. 
-    * Nada de humano parece aproximar os amantes; na primeira reunião, apenas polidez convencional. 
-    * Na segunda vinda de Tristão, hostilidade franca substitui a polidez. 
-    * Livremente, provavelmente nunca se teriam escolhido. 
- 
-  * Ausência de afeto humano e única exceção 
-    * Após beberem o filtro, surge a paixão, mas não uma ternura que os una. 
-    * Em milhares de versos, apenas um traço de afeto mútuo: quando vivem na floresta de Morrois, após a fuga. 
-    * Versos indicam que, por muito que se amem de bom amor, um pelo outro não sente dor. 
- 
-  * As confissões paradoxais ao eremita Ogrin 
-    * Duas visitas a Ogrin são as cenas mais belas e profundas. 
-    * Na primeira, vão se confessar, mas em vez de admitir pecado, afirmam não ter responsabilidade, pois não se amam. 
-    * Tristão diz: Ela me ama por causa da poção; não posso me separar dela, nem ela de mim. 
-    * Isolda ecoa: Senhor, por Deus onipotente, ele não me ama, nem eu a ele, exceto por uma erva que bebemos; foi um pecado. 
- 
-  * Situação paradoxal e transcendência além do bem e do mal 
-    * Situação passionalmente contraditória: amam, mas não se amam; pecaram, mas não podem se arrepender; confessam-se, mas não querem cura nem perdão. 
-    * Como grandes amantes, sentem-se arrebatados além do bem e do mal, numa transcendência das condições comuns, num absoluto indizível. 
-    * A fatalidade suprime a oposição bem/mal, conduz além da origem de todos os valores morais, além do prazer e da dor. 
- 
-  * O amor como potência estranha e não como relação pessoal 
-    * Confissão formal: Ele não me ama, nem eu a ele. 
-    * Como se não se vissem, não se reconhecessem. 
-    * O que os prende ao tormento delicioso não pertence a nenhum dos dois, mas a uma potência estranha, independente de suas qualidades, desejos conscientes e ser conhecido. 
-    * Características físicas e psicológicas são convencionais e retóricas (ele o mais forte, ela a mais bela). 
-    * Como conceber afeto humano entre tipos tão simplificados? 
- 
-  * A amizade moral apenas surge quando a paixão enfraquece 
-    * A amizade mencionada sobre a duração do filtro é o oposto de amizade real. 
-    * A amizade moral só aparece quando a paixão enfraquece. 
-    * Primeiro efeito dessa amizade nascente não é unir os amantes, mas mostrar-lhes que têm interesse em se separar. 
- 
-  * Cena do arrependimento e saudades da corte 
-    * Após três anos na floresta, Tristão, caçando, lembra-se do mundo, da corte, do aparato cavaleiresco, do alto posto que poderia ter. 
-    * Pensa também na amiga, pela primeira vez, imaginando-a em belas câmaras, entre tecidos de seda. 
-    * Isolda, no mesmo momento, tem as mesmas saudades. 
-    * À noite, confessam o novo tormento: Estamos usando mal nossa juventude. 
-    * Decidem se separar; Tristão propõe partir para a Bretanha. 
- 
-  * Diálogo dramático com o eremita Ogrin 
-    * Ogrin os admoesta: O amor vos domina pela força! Até quando durará vossa loucura? 
-    * Tristão responde: Tão longamente a temos levado; tal foi nosso destino. 
-    * Nota: O verso Amors par force vos demeine! é definição pungente da paixão, com força que faz pálido todo romantismo. 
- 
-  * Egoísmo da paixão e lamento da separação 
-    * Ao receber resposta favorável do rei, Tristão exclama: Deus! que separação! Muito doloroso é aquele que perde sua amiga. 
-    * Apieda-se de sua própria pena, não tem um pensamento para a amiga. 
-    * Isolda parece mais feliz junto ao rei que junto ao amigo; mais feliz no infortúnio amoroso que na vida comum no Morrois. 
- 
-  * Retomada posterior da paixão e busca da morte 
-    * Posteriormente, mesmo sem o filtro, os amantes serão retomados pela paixão até a morte. 
-    * Egoísmo aparente desse amor explicaria muitos acasos e malícias do destino que se opõem à felicidade. 
-    * Como explicar esse egoísmo em sua profunda ambiguidade? Egoísmo que busca a morte como cumprimento perfeito e triunfo. 
- 
-  * Resposta mítica: amor pelo ato de amar 
-    * Tristão e Isolda não se amam; amam o amor, o próprio fato de amar. 
-    * Agem como se soubessem que tudo que se opõe ao amor o garante e consagra em seus corações, exaltando-o infinitamente no momento do obstáculo absoluto: a morte. 
-    * Tristão ama sentir-se amar, mais do que ama Isolda, a Loura. Isolda não faz nada para retê-lo; basta-lhe um sonho apaixonado. 
-    * Precisam um do outro para arder, mas não do outro como é; não da presença, mas sim da ausência. 
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-  * Separação como fruto da paixão e amor à paixão 
-    * A separação resulta da paixão mesma, do amor que dedicam à sua paixão mais do que à sua satisfação ou ao objeto vivo. 
-    * Daí os obstáculos multiplicados pelo romance; a indiferença surpreendente desses cúmplices de um mesmo sonho no qual cada um permanece só; o crescendo romanesco e a apoteose mortal. 
-    * Dualidade irremediável e desejada: Muito doloroso é aquele que perde sua amiga, suspira Tristão, mas já sente, no fundo da noite que vem, a chama secreta reavivada pela ausência. 
- 
-==== O Amor da Morte ==== 
- 
-  * Questão radical sobre o obstáculo 
-    * O obstáculo é apenas pretexto necessário ao progresso da paixão, ou está ligado a ela de modo muito mais profundo? 
-    * Ao descer ao fundo do mito, o obstáculo não seria o próprio objeto da paixão? 
- 
-  * Princípio do progresso romanesco: separações e reencontros 
-    * Causas de separação: circunstâncias exteriores adversas e entraves inventadas por Tristão. 
-    * Tristão se comporta diferentemente em cada caso; importante discernir essa dialética. 
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-  * Obstáculos externos e resposta de afirmação da vida 
-    * Quando ameaçados por circunstâncias sociais (Marco, barões, julgamento de Deus), Tristão salta sobre o obstáculo. 
-    * Símbolo: salto de uma cama à outra. 
-    * Paixão violenta, quase animal, faz esquecer dor e perigo na embriaguez do deleite. 
-    * Sangue da ferida o trai; marca vermelha que denuncia adultério ao rei e revela aos leitores o segredo: busca do perigo por si mesmo. 
-    * Enquanto perigo é ameaça exterior, proeza de superá-lo é afirmação da vida. 
-    * Tristão obedece à tradição feudal cavaleiresca: provar valor, ser o mais forte ou astuto. 
-    * Respeito súbito ao direito estabelecido serve apenas para fazer rebater o romance. 
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-  * Obstáculo interior e auto-sacrifício 
-    * Quando nada exterior os separa, atitude se inverte. 
-    * Espada nua entre os corpos ainda vestidos é ocasião de proeza, mas contra si mesmo, às suas próprias custas. 
-    * Obstáculo que ele mesmo cria e que não pode vencer. 
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-  * Hierarquia dos fatos e preferência pelo obstáculo mais grave 
-    * Hierarquia dos fatos contados traduz hierarquia das preferências do contador e do leitor. 
-    * Obstáculo mais grave é aquele preferido acima de tudo, mais próprio para engrandecer a paixão. 
-    * Vontade de se separar assume valor afetivo mais forte que a paixão mesma. 
-    * Morte, objetivo da paixão, a mata. 
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-  * Episódio das espadas trocadas e simbolismo da ação 
-    * Rei substitui sua arma pela de Tristão. 
-    * Significa: substitui obstáculo desejado e livremente criado pelos amantes pelo sinal de seu poder social, obstáculo legal e objetivo. 
-    * Tristão aceita desafio; ação rebate, impedindo paixão de ser total. 
-    * Paixão é o que se sofre; no limite, é a morte. 
-    * Ação representa novo adiamento da paixão, portanto, retardamento da Morte. 
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-  * Dialética dos dois casamentos no romance 
-    * Casamento de Isolda, a Loura, com o Rei: obstáculo de fato, simbolizado pelo marido concreto, desprezado pelo amor cortês. 
-    * Oportunidade de proeza clássica e rebatimentos fáceis. 
-    * Sem o marido, amor de Tristão e Isolda não duraria mais de três anos (limitação do filtro em Béroul). 
-    * Casamento entre os amantes seria negação da paixão; ardor espontâneo consumado é pouco durável. 
- 
-  * Casamento branco com Isolda das Mãos Brancas como obstáculo interior 
-    * Erro do irmão de Isolda das Mãos Brancas, provocado pelo nome, é única razão do casamento. 
-    * Honra serve de pretexto para impedir Tristão de voltar atrás. 
-    * Novo obstáculo representa oportunidade de progresso decisivo: vitória sobre si mesmo e sobre o casamento, arruinado por dentro. 
-    * Castidade do cavaleiro casado responde à espada nua entre os corpos. 
-    * Castidade voluntária é suicídio simbólico; sentido oculto da espada. 
-    * Vitória do ideal cortês sobre tradição celta orgulhosa da vida. 
-    * Purificação do que restava de espontâneo, animal e ativo no desejo. 
-    * Vitória da paixão sobre o desejo; triunfo da morte sobre a vida. 
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-  * Preferência pelo obstáculo como afirmação da morte 
-    * Preferência pelo obstáculo desejado era afirmação da morte, progresso em direção à Morte. 
-    * Mas morte de amor, morte voluntária após série de provas purificadoras. 
-    * Morte como transfiguração, não acaso brutal. 
-    * Sempre se trata de reconduzir fatalidade exterior a uma fatalidade interior, livremente assumida. 
-    * Resgate de seu destino realizado morrendo por amor; vingança contra o filtro. 
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-  * Reversão final da dialética paixão-obstáculo 
-    * In extremis, dialética se inverte: obstáculo não está mais a serviço da paixão fatal. 
-    * Obstáculo tornou-se o objetivo, a finalidade desejada por si mesma. 
-    * Paixão teve apenas papel de prova purificadora, quase penitência, a serviço dessa morte transfiguradora. 
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-  * Segredo último: amor da morte dissimulado 
-    * O amor do amor mesmo dissimulava paixão mais terrível, vontade profundamente inconfessável. 
-    * Vontade que só podia se trair por símbolos como espada nua ou castidade perigosa. 
-    * Sem saber, os amantes, a seu próprio pesar, nunca desejaram senão a morte. 
-    * Sem saber, enganando-se apaixonadamente, nunca buscaram senão o resgate e a vingança daquilo que sofriam a paixão iniciada pelo filtro. 
-    * No fundo mais secreto de seus corações, era a vontade da morte, a paixão ativa da Noite que ditava suas decisões fatais. 
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