critchley:autenticidade
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| critchley:autenticidade [27/06/2026 16:33] – created - external edit 127.0.0.1 | critchley:autenticidade [23/10/2026 05:07] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== AUTENTICIDADE (2010) ===== | ||
| + | // | ||
| + | |||
| + | **Inautenticidade, | ||
| + | |||
| + | * A questão real para a Sociedade Internacional de Necronautas (INS) é a questão do sujeito, do eu: na tradição heroica em literatura, o herói corre em direção à morte como uma mosca que bate num campo elétrico e se apaga numa centelha de apoteose autêntica -- algo esteticamente sedutor, mas que a INS rejeita vigorosamente; | ||
| + | * Woody Allen define a comédia como tragédia mais tempo -- o que significaria que a morte trágica é a morte no momento certo; na comédia não se morre, e isso é o que é engraçado e ainda mais trágico; em Beckett o personagem está morrendo mas não consegue morrer; a tradição cômica explora o oposto à ideia heroica de morte que se encontra nos futuristas, em Ernst Jünger ou em Heidegger, onde a morte é um ato de autoafirmação viril, de se despedaçar contra a morte para que isso se torne a possibilidade da autenticidade -- ao passo que o que a morte revela é a inauthenticidade radical constitutiva do eu. | ||
| + | * Em Nostromo de Conrad, o herói trágico homônimo deveria morrer e todos o creem morto -- mas houve uma confusão e Nostromo "não ficou morto", | ||
| + | * Há uma fantasia de coincidir consigo mesmo no momento da morte -- como em L' | ||
| + | * Em Men in Space de McCarthy, um cosmonauta é enviado ao espaço antes do colapso da União Soviética e, após o colapso, ninguém quer se responsabilizar por ele -- os russos dizem que ele pertence à Ucrânia (de onde foi lançado), os ucranianos dizem que é uma questão para a Estônia (onde nasceu); isso é uma história real; o personagem Anton Markov, ao ser baleado, pensa que é um galho tocando suas costas -- não sabe nem que está morrendo; as pessoas derivam pelos destroços de um mundo inautêntico que obviamente desmoronou e continua desmoronando, | ||
| + | * O símbolo-chave do mundo inautêntico é a elipse, e não o círculo perfeito: Deus não é representado por um círculo (transcendência e plenitude) mas por uma elipse (ausência, transcendência fracassada) -- como um foguete enviado na esperança de entrar em órbita, mas que explode como o Challenger e faz os destroços choveram por toda parte; e isso vem diretamente de Derrida: a elipse como marca de uma falta, de desaparecimento, | ||
| + | |||
| + | **A tradição anti-hegeliana: | ||
| + | |||
| + | * A tradição filosófica que inspira McCarthy -- lida do ponto de vista de um romancista, não de um filósofo -- é a tradição anti-hegeliana: | ||
| + | * Blanchot em Literatura e o Direito à Morte descreve dois declives da literatura: o primeiro, a tentativa de incorporar a materialidade na forma -- identificada com Hegel e o Marquês de Sade; o segundo, a tentativa de deixar a matéria ser matéria (" | ||
| + | * Ponge, no poema sobre a laranja, pergunta como expressar a laranja no duplo sentido da palavra -- representar e espremer; ao fazê-lo, a laranja explode: primeiro, líquido âmbar pegajoso na mão; segundo, ela retoma a forma; terceiro, é decepcionante, | ||
| + | |||
| + | **A INS: manifestos, declarações e inautenticidade encenada** | ||
| + | |||
| + | * A INS nasceu de um manifesto quase pastiche de Marinetti, mas fetichizando a morte em vez da tecnologia como faz o futurismo; após distribuir os manifestos numa feira de arte em 1999, galerias propuseram uma exposição; | ||
| + | * Numa declaração conjunta apresentada na Tate Britain, atores foram contratados para representar Critchley e McCarthy; os atores fizeram melhor do que eles próprios fariam -- e também eram mais reais; as primeiras duas perguntas da audiência coincidiram perfeitamente com as respostas preparadas de antemão; um enragé positivista que surgiu (" | ||
| + | * A colaboração intelectual interessa precisamente porque dissolve a unidade de produção acadêmica e literária -- o indivíduo, a lógica da marca (o artista ou pensador como Brillo ou Colgate) -- e permite dizer coisas que não se diria sozinho; nos textos escritos em conjunto não se consegue decidir o que é de um e o que é do outro -- e isso é genuinamente interessante. | ||
| + | * Os textos sobre Joyce e Shakespeare versaram sobre dinheiro: em Finnegans Wake, lida pela lógica da crematística aristotélica (a arte de fazer dinheiro, techne chrematistike, | ||
| + | |||
| + | **Tecnologia, | ||
| + | |||
| + | * A tecnologia não é perigosa e não há poder redentor em oposição a ela -- como sugere a posição de Heidegger e Ellul; a questão é pensar a intricação entre o humano e o tecnológico; | ||
| + | * A INS é anti-humanista mas também anti-pós-humanista: | ||
| + | * O anjo da história olha para o futuro de costas, e a tempestade que sopra por suas asas é aquela coisa horrível chamada progresso, como Benjamin diz; o futuro é pernicicioso porque a função da ideologia é sempre suturar fissuras e divisões para nos dar uma sensação de unidade e propósito sempre direcionada ao futuro; tanto a ideologia do capitalismo quanto a do anticapitalismo estão dirigidas para uma ideologia do futuro; o futuro é o inimigo do pensamento radical e é reacionário -- e o que se deve cultivar em seu lugar é o passado, a memória; as formas de rede social e a cultura tecnológica são formas de oblívio, o desejo de esquecimento. | ||
| + | * A alternativa ao progresso é a repetição -- como no Renascimento, | ||
| + | |||
| + | **Trauma, repetição e inautenticidade em Remainder** | ||
| + | |||
| + | * Em pesquisas sobre trauma para Remainder -- conversas com pessoas que passaram por acidentes e leituras sobre transtorno de estresse pós-traumático -- uma coisa se repetia: apenas a catástrofe parece real depois; a vida cotidiana não parece real, tudo parece falso, apenas aquilo era real; Warhol disse: "desde que levei um tiro me sinto apenas assistindo televisão"; | ||
| + | * O protagonista de Remainder lembra muito pouco... quase nada do acidente e tenta reencenar o que significa ser humano; Remainder é um longo hino à inautenticidade -- tudo é de segunda mão, o mundo está cheio de usurpadores e fraudadores; | ||
| + | * Quando o protagonista de Remainder reencena a morte de um traficante que a polícia tratou com o mínimo de trabalho -- fotografou a cena, limpou o sangue e reabriu a rua para o tráfego -- ele diz: "Não, isso não serve! Algo aconteceu aqui e precisamos voltar a isso, de novo, de novo e de novo. Infinitamente" | ||
| + | * O eu como recorrência ou como repetição -- ainda a maneira de pensar sobre a experiência da consciência: | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
