bornheim:tragedia
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| + | ====== Tragédia ====== | ||
| + | //BORNHEIM, Gerd. O Sentido Da Mascara. São Paulo: Editora Perspectiva, | ||
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| + | 1. Os estudiosos são unânimes em admitir que a tragédia alcançou seu máximo esplendor na Grécia clássica, cuja influência permaneceu soberana sobre toda a dramaturgia ocidental subordinada ao gênero trágico, a tal ponto que mesmo hoje os temas da tragédia continuam sendo frequentemente os velhos mitos do drama ático, ainda que haja evolução do fenômeno trágico e mudança de seu sentido profundo. | ||
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| + | 2. Sempre que se pergunta o que é a tragédia é fatal voltar à Grécia e ler Ésquilo, Sófocles e Eurípides, pois estudando os antigos é que se pode tentar compreender a essência da tragédia e aquilatar, pela comparação, | ||
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| + | 3. A despeito da perfeição da tragédia antiga, não é fácil penetrar o mistério de seu sentido último, recorrendo-se costumeiramente à Poética de Aristóteles, | ||
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| + | 4. Para encontrar teorias sobre a essência da tragédia é preciso consultar filósofos e estetas modernos e contemporâneos, | ||
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| + | 5. Essa impressão é corroborada pelo modo vulgar como se usam palavras como trágico e tragédia, banalizadas e esvaziadas de conteúdo próprio, aplicadas a qualquer evento de intensidade negativa, de modo que o trágico tende a perder sentido enquanto a tragédia propriamente dita permanece relegada ao rol das coisas amorfas. | ||
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| + | 6. A principal dificuldade na compreensão da tragédia não reside nesse processo de dissolução nem na divergência entre teorias, mas na resistência que o próprio fenômeno trágico opõe a qualquer definição, | ||
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| + | 7. Aventura-se, | ||
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| + | 8. O problema não pode ser reduzido ao âmbito exclusivamente estético, pois o trágico é possível na obra de arte porque é inerente à própria realidade humana, sendo necessário compreender qual elemento no homem possibilita a vivência trágica, elemento que se poderia chamar de finitude ou, na expressão consagrada por Sartre, separação ontológica. | ||
| + | * essa separação ontológica não é em si mesma trágica, sendo apenas o elemento possibilitador do trágico, que em certas circunstâncias adquire ou não coloração trágica | ||
| + | * Max Scheler tem razão ao afirmar que o trágico pertence à esfera dos valores, aderindo a certos valores sem ser ele mesmo um valor | ||
| + | * seria irrisório considerar o fenômeno trágico como universal e necessário, | ||
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| + | 9. Justificam-se, | ||
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| + | 10. Quando se busca responder quais são os pressupostos fundamentais da tragédia, pensa-se logo no homem trágico, Édipo, Orestes, Efigênia, e Aristóteles já se ocupa da natureza do herói trágico, mas concentrar todo o esforço elucidador na figura do herói não é suficiente, pois há outro pressuposto, | ||
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| + | 11. Se o homem é um dos pressupostos fundamentais do trágico, outro não menos importante é constituído pela ordem ou pelo sentido que forma o horizonte existencial do homem, natureza da ordem que varia entre os deuses, a justiça, o bem ou outros valores morais, o amor e sobretudo o sentido último da realidade, tornando-se compreensível o conflito trágico apenas a partir desses dois pressupostos. | ||
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| + | 12. A polaridade dos pressupostos é exigência indispensável que torna viável a ação trágica, razão pela qual Aristóteles recusa-se corretamente a compreender a tragédia a partir simplesmente do homem, afirmando que ela é imitação de ação e de vida, e não de homens, pois estes são felizes ou infelizes segundo suas ações, não segundo seu caráter. | ||
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| + | 13. O conflito se compreende como suspenso na tensão dos dois polos, residindo nesse estar suspenso todo o trágico, de modo que o resultado imanente ao conflito deve ser considerado irrelevante, | ||
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| + | 14. Herói e sentido da ordem resolvem-se em termos de conflito e reconciliação, | ||
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| + | 15. Aristóteles não coloca explicitamente a questão do sentido do real, mas fornece indícios passíveis de interpretação, | ||
| + | * há o perigo de subjetivar a natureza do erro e compreendê-lo à maneira moderna, quando na verdade ele se mantém como objetividade capaz de afetar a relação entre deuses e homens e a própria vida pública | ||
| + | * se essa interpretação é correta, Aristóteles atinge, através da amartia, o próprio sentido do real, compreendendo o trágico a partir de seu elemento possibilitador último, embora não chegue a desenvolver o problema | ||
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| + | 16. Se o autor da Poética não autoriza mais que conjeturas, existem na própria Grécia subsídios que podem avançar a explicitação da essência do trágico, sendo frequentes desde Nietzsche as comparações entre a tragédia grega e o pensamento pré-socrático. | ||
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| + | 17. Do ponto de vista do sentido, Zubiri observa que a tragédia representa a forma patética da Sofia enquanto a obra dos filósofos foi a forma poética da Sabedoria, tendo Nietzsche interpretado os fragmentos de Heráclito como expressão de um pensador trágico por excelência, | ||
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| + | 18. O pensador pré-socrático que maior ensejo oferece à compreensão do trágico é talvez Anaximandro, | ||
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| + | 19. Visto desta maneira, o fragmento prende-se à unidade e à multiplicidade como categorias últimas, não podendo porém ser consideradas conceitos últimos, sendo o nervo do problema compreender o sentido da gênese e da destruição, | ||
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| + | 20. O problema pode ser colocado de outra maneira, perguntando qual é o princípio do real, não podendo esse princípio ser a unidade, pois a palavra princípio, arke, significa começar, estar no início de tudo, o que está no início dominando e atravessando o todo. | ||
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| + | 21. Não se pode compreender o princípio à maneira cristã, como algo independente ou anterior ao desenvolvimento daquilo a que dá origem, pois a arke determina o desenvolvimento e nele permanece presente, colocando-se o grande problema do entrelaçamento de unidade e multiplicidade, | ||
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| + | 22. Para os pré-socráticos, | ||
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| + | 23. Transportando essas ideias para o plano da tragédia, deve-se dar razão à tese de Karl Reinhardt, segundo a qual a existência humana está entregue ao conflito derivado do entrelaçamento do ser e da aparência, estando o herói trágico retesado entre esses dois extremos, com sua vida balançando entre a verdade e a mentira. | ||
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| + | 24. Considerado dessa maneira, o objeto fundamental da tragédia não seria o destino único do herói inocente sacrificado, | ||
| + | * não é a essência do herói, restrita à sua individualidade, | ||
| + | * o problema não reside no ser do herói, mas em seu modo de ser, a partir dos equívocos de sua situação mundana revela-se a verdade | ||
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| + | 25. O próprio de quem vive entregue ao mundo da aparência é fazer do homem a medida do real, recusando uma medida que o transcenda, radicando nessa recusa da transcendência o pseudos, a injustiça, a culpa, tornando-se o indivíduo presa de uma medida aparente e incidindo em hybris, oposta à existência que encontra sua medida na lei divina e por isso é justa. | ||
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| + | 26. Neste sentido, o conflito trágico deriva de um não-estar completamente na justiça, vivendo o homem entre justiça e injustiça, entre ser e aparência, consistindo a evolução do trágico na descoberta da aparência e na conquista consequente do ser, sendo o homem um ser híbrido que pode perder de vista sua medida real e transcendente. | ||
| + | * toda tragédia quer saber qual é a medida do homem, perguntando se ele a encontra em sua particularidade ou em algo que o transcende, e respondendo que a segunda hipótese é a verdadeira | ||
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| + | 27. Resumindo a análise, a natureza híbrida do homem se debate entre os dois polos que constituem os pressupostos últimos do trágico, o homem e o mundo dos valores, residindo o trágico no modo como a verdade ou a mentira do homem é desvelada, tratando-se de realidades históricas cuja transformação altera o próprio sentido do trágico, que deixa de existir quando os dois polos perdem sentido. | ||
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| + | **A situação da tragédia dentro das fronteiras do cristianismo** | ||
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| + | 28. A situação da tragédia dentro das fronteiras do cristianismo suscitou discussões variadas e sem unanimidade, | ||
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| + | 29. Antes de abordar o problema em outra perspectiva, | ||
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| + | 30. Nesse sentido histórico pode-se dar razão a Hegel e aceitar sua tese de que a ação trágica se situa entre a realidade objetiva substancial e o subjetivo individual, sendo correta, embora parcial, a afirmação de que o divino constitui o tema próprio da tragédia primitiva, pois é na crise do divino compreendido como substância objetiva que se instala a tragédia. | ||
| + | * enquanto o homem permanece inserido na objetividade religiosa a tragédia não se verifica, mas o fenômeno trágico também perde seu embasamento quando o homem se desprende totalmente dessa religação, | ||
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| + | 31. Estamos agora em condições de enfrentar o problema da tragédia em nossos dias através da perspectiva do subjetivismo, | ||
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| + | 32. É evidente que cristianismo e subjetivismo não se confundem, mas nos tempos modernos o cristianismo passa a pactuar mais intensamente com o subjetivismo, | ||
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| + | 33. Hegel pressentiu o problema em sua Estética, embora não o tenha propriamente enfrentado, sendo preso de modo absorvente pelo ideal da tragédia grega, tratando o drama de Sófocles como protótipo, de modo que ao estudar a diferença entre a poesia dramática antiga e a moderna não consegue desvencilhar-se da perspectiva do dever-ser. | ||
| + | * a diferença entre antigos e modernos radica precisamente na vigência do subjetivismo na tragédia moderna, ponto ao qual Hegel não faz referência maior, vendo apenas um perigo a ser contornado | ||
| + | * com isso, Hegel proíbe-se de examinar a quaestio facti e só examina a quaestio juri, permanecendo ausente o pensamento da própria diferença | ||
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| + | 34. Em segundo lugar, considerando a natureza do sistema filosófico de Hegel, ele é radicalmente antitrágico, | ||
| + | * Hegel parece possibilitar o trágico ao pretender que a verdade do indivíduo esteja na substância total que nele se manifesta, mas isso não passa de aparência, pois a realidade individual perde consistência ou a encontra apenas naquilo que a transcende | ||
| + | * não se trata de dizer que o homem balança entre ser e aparência ou pode incorrer em hybris, pois o homem é desmedida enquanto homem, exceto quando compreendido em termos de Espírito absoluto, na circularidade da razão infinita | ||
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| + | 35. Repita-se que a tragédia supõe dois polos, o homem e sua medida transcendente, | ||
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| + | 36. Com tal concepção da realidade a tragédia não é mais possível, pois o panteísmo, ou uma realidade adstrita ao divino, expulsa a viabilidade do trágico ou o reduz a algo aparente sem fundamento real, terminando a filosofia de Hegel, mais do que explicar, sendo o próprio processo da tragédia, pois não se trata de reduzir a realidade do herói à realidade que o transcende, mas de ver no transcendente a medida do herói. | ||
| + | * o pensamento hegeliano é insensível ao problema da medida do humano, querendo resolver a separação ontológica suprimindo-a, | ||
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| + | 37. Com Kierkegaard o tema da crise da tragédia vem à tona com força que já não dá margem a dúvidas, permitindo-lhe seu pensamento, dotado de aguda sensibilidade para os valores individuais, | ||
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| + | 38. A interpretação de Hegel sintetiza as meditações da época sobre a tragédia, escrevendo Kierkegaard, | ||
| + | * o herói trágico moderno é subjetivamente refletido em si, reflexão que o desliga não apenas do contato direto com Estado, família e destino, mas frequentemente de sua própria vida anterior, não tendo a tragédia moderna primeiro plano épico nem herança épica | ||
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| + | 39. Kierkegaard encontra o fulcro que lhe permite analisar a subjetivação do trágico na transformação do sentido da culpa e de suas consequências, | ||
| + | * o processo de subjetivação explica-se pelo relevo que adquire a reflexão na cultura moderna, quanto mais reflexiva se torna a subjetividade mais o indivíduo se dobra sobre si próprio, enfraquecendo a experiência trágica | ||
| + | * o que lança em crise a tragédia moderna é o deterioramento do sentido de uma ordem objetiva metafisicamente estável, tendo nossa época perdido toda definição substancial da família, do Estado, da geração, cessando por isso o trágico | ||
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| + | 40. Kierkegaard tem razão: o subjetivismo repele a tragédia, e à medida que progride a subjetivação o elemento substancial objetivo é privado de seu vigor, tornando-se problema, nos tempos modernos, o que para a Grécia clássica era dado espontâneo e não problematizado, | ||
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| + | 41. O problema fundamental da tragédia em nossos dias não apresenta novidade, qual é a medida do homem, mas a pergunta se radicaliza ao indagar qual o sentido que pode ter uma medida que transcenda a subjetividade humana, defendendo os intérpretes do trágico campos opostos quanto a ser o fenômeno trágico absurdo ou fundamentalmente positivo. | ||
| + | * Kierkegaard e Nietzsche chegam a associar à tragédia a ideia de alegria, sublinhando Sengle e Lesky a necessidade de um sentido último afirmativo, e Karl Jaspers afirmando que o ser se manifesta no fracasso sem nele se perder, não existindo trágico destituído de transcendência | ||
| + | * Hebbel, Max Scheler e Anouilh preferem o ponto de vista contrário, de que a tragédia desemboca no sem-sentido, | ||
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| + | 42. Por essa razão, o subjetivismo moderno torna a possibilidade do trágico extremamente problemática, | ||
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| + | 43. Não é por acaso que as tentativas de reconciliar o trágico com o absurdo medrem em sociedade dominada pelo niilismo, cabendo perguntar por que dizer trágico o herói absurdo, que é antes um anti-herói, | ||
| + | * nas personagens de Kafka sente-se a presença de culpabilidade oculta, podendo-se falar em desmedida apenas em relação ao ponto de partida, pois a hybris não chega a ser desvelada, não havendo em Kafka a medida que dê razão de ser à desmedida | ||
| + | * assim, a hybris, longe de restringir-se às personagens, | ||
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| + | 44. A experiência trágica fundamental do século vinte é que a tragédia se transfere da esfera humana, ou da hybris do herói, para o sentido último da realidade, confundindo-se com uma objetividade ontológica esvaziada de sentido, uma ontologia do nada, instalando-se a desmedida no que Hegel chama de substância objetiva. | ||
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| + | 45. Esse transporte do trágico para o cósmico ou objetivo paralisa o trágico em uma dimensão própria e especificamente humana, podendo o conflito trágico deixar de existir ou tornar-se imperceptível para o homem, sendo a personagem apenas fragmento dentro da tragicidade cósmica que se perde em sua insignificância, | ||
| + | * é como se a injustiça estivesse instalada no próprio Deus, desfazendo-se qualquer critério capaz de aquilatar a injustiça, invertendo-se a tese hegeliana, pois a positividade absoluta do Espírito passa a ser negatividade | ||
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| + | 46. No caso de Kafka, o escândalo do mundo e o absurdo da existência são levados ao absoluto, incidindo qualquer tentativa de construir um herói trágico no arbitrário ou no gratuito, sendo Kafka um caso limite que permite compreender as dificuldades com que se defronta o fenômeno trágico em boa parte da dramaturgia contemporânea. | ||
| + | * o que em Kafka aparece como absoluto e cósmico, em outros autores se torna relativo ou mitigado, passando a negatividade fundamental a ser relativa ou circunstancial, | ||
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| + | 47. Essa limitação ou relatividade afeta a própria ação dramática, assistindo-se agora a ação que se desdobra de modo inverso ao da tragédia grega, encarnando o herói a justiça, destituído de hybris ou dotado apenas de hybris relativa decorrente das exigências da intriga, enquanto o mundo ou a situação objetiva é injusta, invertendo-se assim a relação trágica. | ||
| + | * tal processo é realizado de modo total e consciente por Sartre em As Moscas, onde, ao contrário de Kafka, busca-se afirmar a liberdade absoluta do indivíduo contra a má-fé que gera a ordem objetiva dos deuses, transformando-se em positividade o que na tragédia grega era considerado desmedida | ||
| + | * o texto de Sartre constitui experiência de antitragédia, | ||
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| + | 48. A severidade dessa análise não permite concluir que a experiência trágica tenha sido banida do mundo humano, devendo-se dar razão a Duerrenmatt: | ||
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| + | 49. Não perdeu atualidade o tema da diferença essencial entre o trágico antigo e o trágico moderno, diferença que permite compreender o quanto se está longe da tragédia em seu sentido próprio, sem que essa diferença possa ser tão absoluta que impossibilite a compreensão e mesmo a experiência do trágico, sendo a situação trágica, deve-se reconhecer, frequentemente mera nostalgia, saudosismo do melhor dos mundos possíveis e do mito, embora toda cogitação do trágico, nostálgica ou não, inspire-se no próprio fenômeno trágico. | ||
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| + | 50. Pode-se concluir dizendo que essa nostalgia ou a possibilidade de uma experiência fragmentada do trágico se resolve nos seguintes termos: na tragédia grega, a vivência da separação ontológica resulta no reconhecimento de uma medida reconciliadora que transcende a separação, | ||
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