bornheim:1979-filosofia-e-realidade-nacional
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| + | ====== Filosofia e Realidade Nacional ====== | ||
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| + | //Excerto de "O Idiota e o Espírito Objetivo" | ||
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| + | O problema de uma filosofia especificamente nacional, que encontre no caráter autóctone o seu critério de autenticidade (ia dizer validez), vem sendo reiteradamente colocado no Terceiro Mundo. Evidentemente, | ||
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| + | Deveria haver, portanto, uma filosofia brasileira, provida de categorias que desvendassem aquilo que o País é, a sua verdade. Ao menos à primeira vista, tal exigência sequer parece oferecer originalidade maior: por que um determinado país não poderia expressar através de conceitos filosóficos os seus problemas, as suas aporias, o seu modo específico de ser? Esse modo de ser talvez se pudesse constituir em fonte inspiradora para a elaboração de uma filosofia, ou de uma diversidade de doutrinas filosóficas. E, ao menos aparentemente, | ||
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| + | A questão inicial que não se deixa elidir é a seguinte: trata-se apenas de ter uma filosofia, entre tantas que existem, ou muito mais de ser uma filosofia precisa, de tal modo que um determinado país encontrasse como que o seu espelho intelectual numa bem urdida trama de categorias? Com outras palavras: busca-se uma filosofia adjetivamente nacional ou exige-se que ela seja substantivamente nacional? E aqui aponta outra questão preliminar: a Filosofia deve ser nacional? Em que sentido? A sua autenticidade prende-se às fronteiras do moderno conceito de Estado-nação? | ||
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| + | Convém prosseguir nesta problematização. Existe uma filosofia alemã. Ela o é adjetivamente ou substantivamente? | ||
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| + | Um aceno à posição de um Fichte permite-nos avançar no entendimento do problema. Ancorado na pujança da filosofia idealista alemã da época, Fichte recorria, sem nenhum constrangimento ou pretensão de originalidade maior, a conceitos como os de cosmopolita ou cidadão do mundo. Assim é que perguntava: "Qual é a pátria do europeu cristão verdadeiramente educado?" | ||
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| + | Simplificando um pouco os dados da antítese, poderíamos dizer que, na perspectiva do idealista alemão, o peso maior cabe ao cosmopolita, | ||
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| + | Perguntemos mais uma vez: o pensamento que se desenvolve não apenas dentro de certas fronteiras, mas inclusive no espírito de submissão à presença de bem determinadas exigências políticas, é nacional em que sentido? Os problemas colocados por um Comte ou por um Marx são simplesmente franceses, alemães? E o que pensar disso tudo numa época como a nossa, em que a consciência do particular tende a se defrontar, a passos cada vez mais acelerados, com a consciência que obrigatoriamente temos do mundo? Na largueza desse horizonte, não se faz cada vez mais anacrônico falar em filosofia nacional ou em espírito da filosofia alemã? Dir-se-á, e não sem fortes motivos, que justamente a tendência ao nivelamento e à uniformidade que caracterizam os meios de comunicação da " | ||
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| + | Iniciemos com algumas considerações em torno do conceito de cultura, posto que nele encontra a Filosofia o seu espaço mais amplo. Cumpre mesmo salientar que toda a problemática de uma filosofia nacional, de sua possibilidade e de seu sentido, assenta em um conceito bem determinado de cultura, e que vem sendo elaborado pelos antropólogos há apenas alguns decênios. Refiro-me aqui ao conceito diferencial de cultura, enquanto oposto ao seu conceito genérico. | ||
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| + | O conceito diferencial repousa sobre a tardia e desconcertante descoberta de que existe uma pluralidade de culturas, de que uma cultura determinada não poderia servir de padrão para julgar outras culturas. O conceito diferencial de cultura surgiu justamente desse impulso de perspicaz atenção em face da surpreendente variedade de modos de organização da vida social — como se tudo se tivesse instaurado a partir de uma fragmentação profunda da realidade. Ora, esse entusiasmo diferencialista, | ||
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| + | A mais recente resposta dada ao problema da cultura enquanto qualidade genérica está sem dúvida no estruturalismo: | ||
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| + | Seja como for, a tese estruturalista consegue corrigir e complementar a orientação atenta para o exclusivismo do diferencial, | ||
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| + | O pressuposto fundamental da postura diferencialista encontra-se na consciência histórica. Era já em nome da história que o mais ferrenho adversário dos universais culturais, Franz Boas, recomendava aos seus discípulos fixarem-se nas entidades culturais individualizadas, | ||
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| + | Ainda que de modo sumário, convém chamar a atenção para a extrema relevância dessa conquista histórica que representa a elaboração do conceito diferencial da cultura. | ||
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| + | Sabe-se que os gregos eram donos de uma aguda consciência de sua diferença, a ponto de se considerarem superiores. Num texto atribuído a Platão, mas escrito provavelmente por Felipo de Opunte, lê-se que "o que nós, gregos, tomamos aos bárbaros, nós o aperfeiçoamos" | ||
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| + | Esse tipo de mentalidade redutora também pode ser afirmado, de resto, do cristianismo medieval: para o cristão, o estrangeiro, | ||
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| + | Assim, tudo se passava a partir de um conceito homogêneo de cultura, ou de um pré-conceito postulador de uma verdade à qual tudo o que lhe era estranho deveria curvar-se. Em face de uma tradição várias vezes milenar, não causa espécie que esse conceito homogêneo de cultura, de modo implícito ou abertamente, | ||
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| + | Tomo um exemplo da Filosofia: Edmundo Husserl. Obviamente, o ideal da " | ||
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| + | Mas a Filosofia não é apenas isso. Foi somente com a ascensão da burguesia, com o seu expansionismo subsequente e com as profundas transformações sociais daí decorrentes, | ||
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| + | A esse propósito, Darcy Ribeiro fala em " | ||
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| + | Como é fácil perceber, a situação apresenta-se entremeada de paradoxos de toda ordem. Seria completamente descabido pretender que a descoberta das diferenças não represente um avanço, mesmo que o seu pano de fundo implique nada menos que a crise do mundo ocidental. O surto das diferenças traz consigo um necessário alargamento da consciência humana, o que leva a concluir que a consciência das diferenças, | ||
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| + | Paradoxo apenas aparente, porquanto, como já acentuei, é evidente que, se a consciência da diferença leva a transcender as diferenças, | ||
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| + | O traço que deve ser ressaltado em toda essa essencial transformação do conceito de cultura, e que permite aceder à mudança de seu sentido, reside no tipo de comércio que se estabelece entre a dimensão cosmopolita da cultura e a sua vinculação ao regional, ou ao nacional. Em todo o passado do Ocidente, o cosmopolita e o regional constituíam uma realidade homogênea, fazendo com que uma determinada cultura — a grega, por exemplo — pudesse pretender-se a cultura. Não existia nenhuma distância separatória entre os dois extremos, cada ponta tocava imediatamente a outra. Isso explica a habitual cegueira do Ocidente, que se manifestava como indiferença ou como intolerância em relação a todo o outro, a tudo o que correspondesse a um tipo de experiência diferente. É apenas em nosso tempo que essa perfeita homogeneidade começa a descoser-se, | ||
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| + | Retomando aos poucos o nosso tema, observo que a reivindicação de uma filosofia nacional se faz ouvir precisamente em países ocidentais que constituem o chamado Terceiro Mundo — possivelmente apenas nos países que integram a América Latina. Que os Estados Unidos sejam visceralmente caudatários do pensamento europeu, e isso exatamente nas correntes mais representativas da filosofia americana — o pragmatismo e o neopositivismo —, parece não colocar problemas para os americanos. Entre nós, ao contrário, a simples presença de um pensamento alienígena desperta qualquer coisa como um sentimento de inferioridade, | ||
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| + | Toda a problemática das relações entre Filosofia e realidade nacional acaba girando, necessariamente, | ||
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| + | A consciência da diferença nada tem de pacificadora, | ||
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| + | Vale dizer que a origem não está simplesmente no passado, na diferença enquanto já constituída; | ||
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| + | É dentro deste contexto que cabe equacionar o problema das relações entre Filosofia e realidade nacional. Ora, os conceitos de Filosofia e de realidade nacional parecem contrapor-se a ponto de se excluírem. A Filosofia, por definição, | ||
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| + | Evidentemente, | ||
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| + | Se olharmos à nossa volta, constataremos que existe um certo número de pessoas que se dedicam, em salas de aula e na reclusão de bibliotecas, | ||
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| + | Assim, o argumento tradicionalmente mais usual para justificar o aprendizado da Filosofia consiste em dizer que ela ensina a pensar. E a Iniciação à Filosofia se fazia, e ainda se faz, através da assimilação das regras da Lógica de Aristóteles. Aprendia-se, | ||
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| + | Hoje ouve-se com frequência um outro tipo de argumentação para validar a presença da Filosofia nos currículos. É que ela lançaria as bases imprescindíveis de uma formação humanística, | ||
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| + | Evidentemente, | ||
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| + | Retomo as categorias de universalidade e singularidade já utilizadas acima, e acrescento-lhes, | ||
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| + | Não leva a nada pretender que a realidade nacional, enquanto singularidade, | ||
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| + | Assim, apenas a título de exemplo e sem nenhuma pretensão de entrar na análise da questão: a praxis de uma sociedade socialista engendrará os critérios que permitem esclarecer tanto a singularidade quanto a universalidade. Por aí se entende que a realidade nacional possa colocar à Filosofia certas exigências, | ||
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| + | Isso não significa, todavia, que se deva perseguir a consecução de algum tipo de filosofia nacional, em sentido substantivo: | ||
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| + | No intento de clarear o problema, faço algumas breves indicações críticas sobre as duas correntes filosóficas mais importantes da história do desenvolvimento das ideias filosóficas no Brasil, o positivismo e o neotomismo, em relação ao modo de sua incidência na realidade nacional. Os dois exemplos são significativos, | ||
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| + | Ainda que não deva ser exagerada, sabe-se da importância da presença do positivismo no País. O que salta aos olhos é o contraste entre os ideais cientificistas de Comte e a tradição cultural brasileira da época, em tudo estranha a qualquer tipo de padrão científico, | ||
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| + | O que deve ser lastimado não é o fato de ter sido importada uma doutrina completamente alheia ao bacharelismo que dominava a escassa vida universitária do País, mas sim a constatação de que os nossos positivistas não souberam ser suficientemente positivistas e que, carentes das virtudes do espírito crítico, desviassem o já então necessário cultivo da Ciência para a tolice irracional do culto — o que não se justifica simplesmente pelo atraso das infra-estruturas e nem se deixa explicar apenas pelas conhecidas injunções do estado de dependência. ((Veja-se, por exemplo, a bibliografia de Miguel Lemos e Teixeira Mendes arrolada por João Cruz Costa; já os títulos de seus trabalhos revelam o quanto os dois patronos do positivismo brasileiro estavam afastados da divulgação dos ideais especificamente cientificistas. In: Contribuição à história das ideias no Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956. p. 456-8 e 466-7.)) | ||
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| + | A facilidade com que o positivismo se presta hoje à crítica, o tom de galhofa até com que entre nós se costuma acoimá-lo, contradiz em tudo o relevo do tema. Essa importância prende-se a dois pontos. Em primeiro lugar, ao fato de que a mentalidade cientificista tornou-se planetária, | ||
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| + | Um significado bem diferente apresenta a longa dominação do ensino filosófico pelo neotomismo. | ||
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| + | Permito-me, a propósito, fazer duas observações preliminares. Lembro, de um lado, que o neo-tomismo integra o movimento geral da filosofia ocidental da primeira metade deste século. Proliferavam então os " | ||
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| + | É evidente que, entre nós, a presença do neotomismo não se poderia ter furtado a essas coordenadas gerais. Em que sentido, então, o neotomismo incide na realidade nacional? Não se pode dizer, como do positivismo e sem dar maiores explicações, | ||
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| + | Tome-se, a título de mais um exemplo, a doutrina do senso comum, tal como é apresentada por Jacques Maritain em sua Introdução Geral à Filosofia, talvez o livro filosófico mais difundido no Brasil. O senso comum constitui um " | ||
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| + | (1979) | ||
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