| 7. Nietzsche, no fim do século XIX, levantou o desesperado clamor de que a vida não tinha mais sentido porque Deus tinha morrido. A negação da realidade do mundo tinha conduzido à negação da realidade de Deus: E que sentido poderia ter o mundo sem Deus? Tudo quanto sempre se concebeu como ordem vital, ou mundo, ou harmonia, ou kosmos supunha a realidade concreta de Deus; os seres reais só podiam ser interpretados no seu vir-a-ser pela composição da potência e do ato, supondo Deus como Ato Puro, como Perfeito, como razão de ser do que se perfazia; os seres só podiam ser essência e existência, com a condição de um Deus que fosse o Ente e o Existente Absoluto; tudo o que se move supunha o motor imóvel, o contingente o necessário, o temporal o Eterno; as quatro causas supunham Deus. A História supunha Deus. Ora bem, quando principia o ocaso de Za-ratustra e Nietzsche exclama que Deus morreu, tudo quanto tinha até então existido já havia perdido o seu valor e o seu sentido. E na proporção em que se perdiam valor e sentido acentuavam-se as declamações sobre a dignidade do homem e dos direitos do homem; num mundo feito só de fabricações científicas, só de artefatos, não faltaram os positivistas que quiseram fabricar também ideias que dessem um sentido à vida que o perdera; nos moldes pré-fabricados da ciência, que só atinge a quantidade e para a qual tudo é massa e espaço, a realidade sacral dos antigos, o mundo a que os gregos denominaram kosmos e os romanos mundus, se havia convertido numa engrenagem mecânica, em massas e corpos, dentre os quais a terra era um ponto minúsculo no tamanho do universo e o homem um ponto minúsculo na terra; tudo era agora cientificamente explicável e a ciência tinha até a perfídia de reconhecer os seus próprios limites, como se ela tivesse dado alguma explicação ao que se considerava dentro desses limites! Subitamente o secreto desespero do homem que destruiu Deus e para o qual não há mais sentido em cousa alguma, tendo-se o mundo — kosmos — transformado em caos — desordem —, irrompe da consciência de Zaratustra que proclama Deus morreu! []. O louco da praça pública perguntava angustiado: “Aonde foi Deus? Os homens o mataram, eles e eu! Mas como podemos fazer tal cousa! Como foi que pudemos tragar todo o mar! Quem foi que nos deu a esponja para cancelar todo o horizonte ao derredor? Que cousa foi que fizemos quando desvinculamos esta Terra dos elos que a aproximavam do Seu Sol? Para onde se move agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Ou não caímos talvez sem cessar no abismo? E por detrás e pelo lado e por adiante e por todas as partes? Existem pois ainda um acima e um abaixo? E não estamos errando talvez por um infinito nada? E não nos perseguem até os espaços com o seu hálito? E não faz mais frio agora? Não desce por acaso a Noite sem trégua e algo mais do que a Noite? Não devem acender-se as lanternas em pleno dia?. . . [[F. Nietzsche, Gaya Scienza, af. 125.]] | 7. Nietzsche, no fim do século XIX, levantou o desesperado clamor de que a vida não tinha mais sentido porque Deus tinha morrido. A negação da realidade do mundo tinha conduzido à negação da realidade de Deus: E que sentido poderia ter o mundo sem Deus? Tudo quanto sempre se concebeu como ordem vital, ou mundo, ou harmonia, ou kosmos supunha a realidade concreta de Deus; os seres reais só podiam ser interpretados no seu vir-a-ser pela composição da potência e do ato, supondo Deus como Ato Puro, como Perfeito, como razão de ser do que se perfazia; os seres só podiam ser essência e existência, com a condição de um Deus que fosse o Ente e o Existente Absoluto; tudo o que se move supunha o motor imóvel, o contingente o necessário, o temporal o Eterno; as quatro causas supunham Deus. A História supunha Deus. Ora bem, quando principia o ocaso de Za-ratustra e Nietzsche exclama que Deus morreu, tudo quanto tinha até então existido já havia perdido o seu valor e o seu sentido. E na proporção em que se perdiam valor e sentido acentuavam-se as declamações sobre a dignidade do homem e dos direitos do homem; num mundo feito só de fabricações científicas, só de artefatos, não faltaram os positivistas que quiseram fabricar também ideias que dessem um sentido à vida que o perdera; nos moldes pré-fabricados da ciência, que só atinge a quantidade e para a qual tudo é massa e espaço, a realidade sacral dos antigos, o mundo a que os gregos denominaram kosmos e os romanos mundus, se havia convertido numa engrenagem mecânica, em massas e corpos, dentre os quais a terra era um ponto minúsculo no tamanho do universo e o homem um ponto minúsculo na terra; tudo era agora cientificamente explicável e a ciência tinha até a perfídia de reconhecer os seus próprios limites, como se ela tivesse dado alguma explicação ao que se considerava dentro desses limites! Subitamente o secreto desespero do homem que destruiu Deus e para o qual não há mais sentido em cousa alguma, tendo-se o mundo — kosmos — transformado em caos — desordem —, irrompe da consciência de Zaratustra que proclama Deus morreu! []. O louco da praça pública perguntava angustiado: “Aonde foi Deus? Os homens o mataram, eles e eu! Mas como podemos fazer tal cousa! Como foi que pudemos tragar todo o mar! Quem foi que nos deu a esponja para cancelar todo o horizonte ao derredor? Que cousa foi que fizemos quando desvinculamos esta Terra dos elos que a aproximavam do Seu Sol? Para onde se move agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Ou não caímos talvez sem cessar no abismo? E por detrás e pelo lado e por adiante e por todas as partes? Existem pois ainda um acima e um abaixo? E não estamos errando talvez por um infinito nada? E não nos perseguem até os espaços com o seu hálito? E não faz mais frio agora? Não desce por acaso a Noite sem trégua e algo mais do que a Noite? Não devem acender-se as lanternas em pleno dia?. . . [[F. Nietzsche, Gaya Scienza, af. 125.]] |