| 5. A tentativa de tudo explicar por meio de discursos racionais e métodos matemáticos parte da ignorância de que, se umas verdades foram expressas em mitos, outras em poesia, outras em música, isto se deve a que tais verdades não podiam ser expressas absolutamente de outra maneira: ao contrário, o naturalismo científico, com sua visão linear da história, com seu progressismo, pretendeu que todo o passado só existiu para vir a dar como resultado a grandeza do presente, com suas maravilhas científicas que, enfim, puderam explicar cientificamente o que no passado se explicava mítica e artisticamente; esta ingenuidade revela até que ponto as explicações científicas não só não conheceram a natureza das cousas como ainda obstruíram a possibilidade de chegar até elas por outros meios que não fossem os “científicos”. Dizer por exemplo que os quatro elementos de Aristóteles e os três princípios de Paracelso correspondiam à infância do conhecimento científico, era ignorar completamente o que significassem aqueles elementos e princípios, na incapacidade de viver a plenitude daquelas visões do mundo, às quais era estranho o agir técnico ou o seu correlato que é o pensar “científico”. Justamente, a possibilidade de encontrar o mundo concreto da experiência vital se apagou em virtude do grosseiro erro que levou a supor que a realidade pudesse ser descoberta no termo dos processos científicos; ora, a ciência não passa dum conjunto de proposições que exprimem relações constantes, graças a cujo conhecimento podemos agir sobre os objetos, mas não explicar esses objetos, nem o porque final da nossa ação sobre eles. O trabalho da ciência nunca foi outro senão o de explicar a realidade por meio de entidades (número, extensão, propriedades etc.) que são elas próprias inexplicáveis; o que é o número? qual é sua essência? é algo em si ou a propriedade de algo? — o que é a extensão, o contínuo, o divisível, o ponto? Todas as questões mais fundamentais são completamente ignoradas por essa mesma ciência, que não passa de uma técnica de ação e que no entanto pretende ser o único meio de explicação e elucidação dos mistérios que pesam sobre a vida e o mundo: ignorando que partem de princípios indemonstráveis, os cientistas pretendem dar conta do que o mundo é, sem saber o que são as fórmulas que usam ou o que eles próprios são; relegaram ao plano da utopia e do devaneio o que há de mais essencial na problemática da vida; na verdade, a ciência não é explicação de cousa alguma, senão que ao contrário é fuga a toda realidade, como bem se ilustra por essa matemática atual, preocupada, não já com as realidades de que deveria ser a expressão e sim unicamente com o seu próprio método na auto-fabricação apenas coerente de cálculos imaginários, de grupos complexos e dificílimos, totalmente desligados do existente. | 5. A tentativa de tudo explicar por meio de discursos racionais e métodos matemáticos parte da ignorância de que, se umas verdades foram expressas em mitos, outras em poesia, outras em música, isto se deve a que tais verdades não podiam ser expressas absolutamente de outra maneira: ao contrário, o naturalismo científico, com sua visão linear da história, com seu progressismo, pretendeu que todo o passado só existiu para vir a dar como resultado a grandeza do presente, com suas maravilhas científicas que, enfim, puderam explicar cientificamente o que no passado se explicava mítica e artisticamente; esta ingenuidade revela até que ponto as explicações científicas não só não conheceram a natureza das cousas como ainda obstruíram a possibilidade de chegar até elas por outros meios que não fossem os “científicos”. Dizer por exemplo que os quatro elementos de Aristóteles e os três princípios de Paracelso correspondiam à infância do conhecimento científico, era ignorar completamente o que significassem aqueles elementos e princípios, na incapacidade de viver a plenitude daquelas visões do mundo, às quais era estranho o agir técnico ou o seu correlato que é o pensar “científico”. Justamente, a possibilidade de encontrar o mundo concreto da experiência vital se apagou em virtude do grosseiro erro que levou a supor que a realidade pudesse ser descoberta no termo dos processos científicos; ora, a ciência não passa dum conjunto de proposições que exprimem relações constantes, graças a cujo conhecimento podemos agir sobre os objetos, mas não explicar esses objetos, nem o porque final da nossa ação sobre eles. O trabalho da ciência nunca foi outro senão o de explicar a realidade por meio de entidades (número, extensão, propriedades etc.) que são elas próprias inexplicáveis; o que é o número? qual é sua essência? é algo em si ou a propriedade de algo? — o que é a extensão, o contínuo, o divisível, o ponto? Todas as questões mais fundamentais são completamente ignoradas por essa mesma ciência, que não passa de uma técnica de ação e que no entanto pretende ser o único meio de explicação e elucidação dos mistérios que pesam sobre a vida e o mundo: ignorando que partem de princípios indemonstráveis, os cientistas pretendem dar conta do que o mundo é, sem saber o que são as fórmulas que usam ou o que eles próprios são; relegaram ao plano da utopia e do devaneio o que há de mais essencial na problemática da vida; na verdade, a ciência não é explicação de cousa alguma, senão que ao contrário é fuga a toda realidade, como bem se ilustra por essa matemática atual, preocupada, não já com as realidades de que deveria ser a expressão e sim unicamente com o seu próprio método na auto-fabricação apenas coerente de cálculos imaginários, de grupos complexos e dificílimos, totalmente desligados do existente. |