agamben:linguagem-morte:4
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| + | ====== Jornada IV ====== | ||
| + | //Giorgio Agamben. Il linguaggio e la morte. Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi, 1982.// | ||
| + | **Quarto dia** | ||
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| + | * Dasein, ser-o-aí, das Diese nehmen, tomar o Isto: se o que se acabou de dizer sobre o significado dos shifters é verdadeiro, deve-se então interpretar de modo novo essas expressões, | ||
| + | * Pergunta-se, | ||
| + | * Benveniste, nos estudos citados, funda o caráter de índice dos shifters numa " | ||
| + | * Jakobson, retomando uma expressão de Peirce, fala a esse propósito de uma " | ||
| + | * pergunta-se de que modo algo como uma indicação é, nesse caso, possível, e em que sentido se pode falar de uma " | ||
| + | * Basta refletir sobre essas perguntas para perceber que contemporaneidade e relação existencial só podem fundar-se na voz, não sendo a enunciação e a instância de discurso identificáveis como tais senão através da voz que as profere, e só supondo-se a ela uma voz pode algo como um ter-lugar do discurso ser mostrado. | ||
| + | * como um poeta havia entendido antes e, talvez, mais claramente que os linguistas (Valéry: "o eu ou o mim é a palavra associada à voz, é como o sentido da própria voz, esta considerada como signo" | ||
| + | * esse é o problema que uma antiga tradição de pensamento apresenta como problema lógico fundamental, | ||
| + | * Ao definir o aparelho formal da enunciação, | ||
| + | * é evidente que esse modo de colocar o problema da voz — embora útil — não interessa ao horizonte desta pesquisa, pois apenas alarga à pronúncia vocal dos fonemas o campo da significação, | ||
| + | * a importância da voz como expressão dos afetos já fora amplamente reconhecida pela retórica antiga, bastando remeter ao tratamento da voz como parte da actio na Institutio oratoria de Quintiliano, | ||
| + | * A voz que está em questão na indicação dos shifters situa-se, em relação ao estilo vocal, numa dimensão diversa e mais original, que constitui, como se verá, a própria dimensão ontológica fundamental, | ||
| + | * a própria definição que Prisciano dá do pronome contém um remetimento, | ||
| + | * sabe-se, além disso, que os lógicos e gramáticos medievais discutiam se a voz deveria ser incluída na lista aristotélica das categorias, podendo cada um dos λεγόμενα, | ||
| + | * a voz, assim considerada, | ||
| + | * Uma passagem do De Trinitate permite captar exemplarmente essa dimensão de significado da voz, passagem (X 1.2) que constitui um dos primeiros lugares em que se apresenta, na cultura ocidental, a ideia hoje familiar de " | ||
| + | * o que mais haveria a buscar nele para melhor conhecê-lo, | ||
| + | * isola-se aqui uma experiência da palavra em que esta já não é mero som (istas tres syllabas) e ainda não é significado, | ||
| + | * importa notar que o lugar dessa experiência, | ||
| + | * No século XI, a lógica medieval retomou a experiência agostiniana da voz ignota para nela fundar a dimensão de significado mais universal e originária, | ||
| + | * reformulando o experimento agostiniano, | ||
| + | * Experiência já não de um mero som e ainda não de um significado, | ||
| + | * É nessa perspectiva que se deve olhar para pensadores do século XI, como Roscelino, cujo pensamento não é conhecido diretamente, | ||
| + | * flatus vocis não é aqui o mero som, mas, no sentido visto, a voz como intenção de significar e como pura indicação de que a linguagem tem lugar, sendo essa pura indicação a sententia vocum, o significado da voz em si, anterior a toda significação categorial, em que Roscelino identifica a dimensão de significado mais universal, a do ser | ||
| + | * que o ser, as substantiae universales, | ||
| + | * nesse sentido deve-se entender, restituindo a Roscelino um lugar fundamental na história da ontologia moderna, o testemunho de João de Salisbury, segundo quem fuerunt et qui voces ipsas genera dicerent, e o de Anselmo, que fala dos " | ||
| + | * o " | ||
| + | * Retornando ao problema da indicação, | ||
| + | * uma voz como mero som (uma voz animal) pode certamente ser índice do indivíduo que a emite, mas não pode de modo algum remeter à instância de discurso enquanto tal nem abrir a esfera da enunciação | ||
| + | * a voz, a φωνή animal, é, sim, pressuposta pelos shifters, mas como aquilo que deve necessariamente ser retirado para que o discurso significante tenha lugar | ||
| + | * O ter-lugar da linguagem entre o retirar-se da voz e o evento de significado é a outra Voz, cuja dimensão onto-lógica se viu emergir no pensamento medieval e que, na tradição metafísica, | ||
| + | * segundo uma tradição que domina toda a reflexão ocidental sobre a linguagem, da noção de γράμμα dos gramáticos antigos até o fonema da fonologia moderna, aquilo que articula a voz humana em linguagem é uma pura negatividade | ||
| + | * A Voz abre, com efeito, o lugar da linguagem, mas o abre de tal modo que ele está sempre já tomado numa negatividade e, antes de tudo, sempre já entregue a uma temporalidade, | ||
| + | * Que a temporalidade se produza na enunciação e através da enunciação já havia sido visto por Benveniste, que classifica os tempos verbais entre os indicadores da enunciação. | ||
| + | * poder-se-ia crer que a temporalidade fosse uma estrutura inata do pensamento, mas, na realidade, ela é produzida na e através da enunciação, | ||
| + | * poder-se-ia mostrar, através de uma análise dos sistemas temporais em diversas línguas, a posição central do presente, não fazendo o presente formal senão explicitar o presente inerente à enunciação, | ||
| + | * A essa análise excelente basta acrescentar, | ||
| + | * justamente por isso, a presença não é, como poderiam fazer pensar as palavras de Benveniste, algo simples, custodiando antes em si o segredo poder do negativo | ||
| + | * A Voz, como shifter supremo que permite captar o ter-lugar da linguagem, aparece, portanto, como o fundamento negativo sobre o qual repousa toda a onto-lógica, | ||
| + | * se, nas palavras de Aristóteles, | ||
| + | * é, além disso, essa negatividade que articula a cisão do campo da linguagem em significar e mostrar, que se viu constituir a estrutura originária da transcendência | ||
| + | * Torna-se, talvez, agora mais claro por que Hegel, no início da Fenomenologia, | ||
| + | * Se a análise até aqui conduzida é correta, dever-se-ia poder reencontrar, | ||
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| + | * Com o isolamento da dimensão indicada pelo termo Voz, a filosofia responde a um problema que, em referência à sua formulação implícita no Περί ερμηνείας aristotélico, | ||
| + | * Se, nesse trecho, o caráter significante da linguagem é explicado como um processo de interpretação (ermeneia) que se desenrola entre três termos que remetem um ao outro — aquilo que está na voz interpreta e significa os afetos na alma, que, por sua vez, correspondem aos pragmata —, o que permanece problemático é justamente o estatuto dos grammata, perguntando-se por que Aristóteles faz intervir esse " | ||
| + | * já os comentadores antigos haviam percebido que, uma vez concebida a significação como um remetimento que vai das vozes aos afetos na alma e, destes, às coisas, era necessário introduzir um quarto elemento que assegurasse a interpretação das próprias vozes, sendo o gramma esse quarto hermeneuta que assegura a inteligibilidade da voz | ||
| + | * Enquanto, porém, intérprete último, o gramma é o fundamento que sustenta todo o círculo da significação, | ||
| + | * desenvolvendo o que estava, em certo sentido, já implícito na formulação aristotélica (τά έν τη φωνη, aquilo que está na voz, e não simplesmente a voz), os gramáticos antigos definem assim o gramma como φωνή εναρθρος άμερής, | ||
| + | * como signo e, ao mesmo tempo, elemento constitutivo da voz, o gramma assume assim o estatuto paradoxal de um índice de si mesmo (index sui) | ||
| + | * Isso significa que, desde o início, a reflexão ocidental sobre a linguagem coloca o gramma, e não a voz, no lugar original, pois, como signo, o gramma pressupõe a voz e seu retirar-se, mas, como elemento, tem a estrutura de uma pura autoafecção negativa, de um rastro de si mesmo. | ||
| + | * à pergunta "o que está na voz?", a filosofia responde: nada está na voz, a voz é o lugar do negativo, é Voz, isto é, pura temporalidade, | ||
| + | * A partir desse ponto de vista é possível medir a agudeza, mas também o limite, da crítica de Derrida à tradição metafísica. | ||
| + | * deve-se certamente render homenagem a Derrida como ao filósofo que identificou com mais rigor — desenvolvendo o conceito levinasiano de rastro e o heideggeriano de diferença — o estatuto original do gramma e do significante em nossa cultura, mas é também verdade que ele acreditou, desse modo, ter aberto o caminho para a superação da metafísica, | ||
| + | * a metafísica não é, com efeito, simplesmente o primado da voz sobre o gramma; se metafísica é aquele pensamento que põe na origem a voz, é também verdade que essa voz é, desde o início, pensada como retirada, como Voz | ||
| + | * identificar o horizonte da metafísica simplesmente na supremacia da φωνή e crer, portanto, poder ultrapassar esse horizonte através do γράμμα significa pensar a metafísica sem a negatividade que lhe é coessencial | ||
| + | * a metafísica é sempre já gramatologia, | ||
| + | * Uma crítica decisiva da metafísica deveria necessariamente implicar um confronto com o pensamento hegeliano do Absoluto e com o Ereignis heideggeriano, | ||
| + | * talvez a identificação da estrutura de rastro da origem como problema fundamental seja, aliás, ainda mais antiga, estando já pensada no το ϊχνος τοϋ άμορφου μορφή das Enéadas VI 7.53 (a forma, o princípio da presença, como rastro — ίχνος — de um sem forma); talvez já no επέκεινα τής ουσίας platônico, isto é, na situação da ideia do bem além do ser (Rp. 509b, 9), como no το τί ήν είναι aristotélico (o ser que sempre já era) | ||
| + | * Também a crítica de Lévinas à ontologia, que encontrou sua expressão mais bela e acabada numa retomada do επέκεινα τής ουσίας platônico e neoplatônico (Lévinas 1978), não faz, na verdade, senão trazer novamente à luz a estrutura negativa fundamental da metafísica, | ||
| + | * todavia, a ênfase posta na ética no pensamento de Lévinas permanece — do ponto de vista do seminário — ainda por interrogar | ||
