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 +====== ESTADO DEVOCIONAL E CAMINHO GNÓSTICO. ======
 +//L'esprit moderne et la Tradition, in Paul Serant, Au seuil de l'ésotérisme. Grasset, 1955.//
  
 +  * A gênese da consciência ocidental, de Descartes a Husserl, culmina numa interiorização do mundo que se prolonga na exploração concertada da transfiguração, ocupação decisiva do novo age do conhecimento, fenômeno que não constitui descoberta da época atual.
 +    * Místicos em estado de exultação e artistas visitados pela inspiração comunharam em todos os tempos com um mundo transfigurado.
 +    * A torpor de Adão no momento da criação de Eva era transfigurante; a embriaguez de Noé marcou o instante em que o poder de transfiguração, antes recebido passivamente, foi posto pela primeira vez à disposição do homem.
 +    * O Dilúvio ocorreu para tornar experimentável a separação entre o mundo da banalidade, onde Sem e Jafé permaneceram, e o da transcendência, no qual Cam penetrou pela primeira vez, segundo Carlo Suarès.
 +    * A. Huxley estudou o poder transfigurante das drogas; o vinho é apenas a primeira delas, e toda a história humana consiste na ascensão dos poderes do homem absorvendo a droga do mundo.
 +    * A transfiguração situa-se na linha brilhante onde vida e morte encontram seu limite comum, e a virtualidade da transfiguração habita cada instante, tornando todo momento que passa diluviano.
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 +  * A questão central é por que a época atual representa, para o Ocidente, um progresso decisivo não apenas no estudo da transfiguração mas em sua prática consciente, no seu assujeitamento à vontade clara.
 +    * As antigas justificações da prece aparecem como insuficientes, e a consciência moderna busca um fundamento positivo para o estado místico que o próprio esoterismo tradicional já não satisfaz.
 +    * A irrupção das exigências da filosofia no domínio da ciência oculta arrisca tanto banalizar o oculto até negar sua existência própria quanto demonstrar que o esoterismo tradicional não é senão a persistência de um modo primitivo de conceitualização.
 +    * A resposta às questões reside numa constatação simples: o esoterismo ainda está na história, o Eu transcendental não está mais; a consciência é originária e funda o tempo, não o contrário.
 +    * As noções de inconsciente, subconsciente e supraconsciente são monstros filosóficos; não é o esoterismo que ilumina a consciência, mas a consciência que permite reconstituir e iluminar por dentro o corpo dogmático do esoterismo.
 +    * Husserl viu em sua fenomenologia o meio de fundar uma metafísica nova que seja não apenas doutrina mas poder; essa nova metafísica converge com o deslocamento atual de todas as disciplinas paracientíficas, do simbolismo psicanalítico à astrologia estrutural.
 +    * Assim como Descartes superou e integrou o pensamento escolástico e Morin de Villefranche superou Ptolemeu, Husserl supera e integra Descartes num ponto de convergência que toca o indultrapassável absoluto em relação com a crise histórica última do Ocidente.
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 +  * O único obstáculo ao despertar do Eu transcendental é, no sentido pascaliano, o divertimento, pois o homem da visão natural é perpetuamente divertido, tendendo a dilatar seu Eu no mundo até abolir toda individualidade.
 +    * O sofrimento, em todas as suas formas, é o sinal da recontração e do retorno do corpo sobre si mesmo, seu reancoragem no Eu imóvel.
 +    * A dilatação vital, no máximo de sua tensão, conhece seu orgasmo resolutório, sustentado apenas pela esperança e pelo terror dessa conclusão; todo orgasmo é diluviano.
 +    * O simbolismo do dilúvio é o da reunificação paroxística, e o orgasmo sexual ilustra esse simbolismo de modo universal, significando a todos a virtualidade universal da transfiguração.
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 +  * A partir da dialética do interno e do externo impõe-se experimentar o acesso consciente e voluntário à realidade natural transfigurada, o que equivale a tentar dominar o orgasmo, conquista de todos os poderes.
 +    * O estudo do modo de ação das drogas, mesmo por simples analogia, permite estruturar estados reputados obscuros ou inefáveis e reconstituir sua gênese.
 +    * A prece reduzida à repetição mecânica de fórmulas estupefaz certas funções para excitar outras e inscreve-se na série indefinida das drogas, iluminando a via dita devocional.
 +    * À artificialidade das drogas opõe-se uma naturalidade superior capaz de integrar sem esforço a tentação da droga e seus frutos, via gnóstica ainda puramente teórica cujo esforço presente tende a abrir-se para abolir-se enquanto esforço.
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 +  * Toda embriaguez contém fatores de euforia e de agressividade, sendo a euforia produto da dilatação do corpo e a agressividade produto de seu necessidade de reapoderamento.
 +    * Existem embriagueses inspiradas e embriagueses vulgares; a droga não dilata o corpo físico à horizontal senão para libertar o corpo psíquico ou o corpo mental à vertical, nos dois sentidos dessa vertical, em direção a Satã e a Lúcifer.
 +    * Droga é tudo o que aumenta a tensão do casal telurismo-niilismo; daí as ambiguidades da embriaguez: o inspirado exausto cai na devassidão, os místicos tornam-se libertinos, e o mesmo impulso produz assassinos e heróis.
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 +  * Uma das primeiras chaves da transfiguração artificial reside na ruptura de equilíbrio das diferentes camadas do corpo normalmente fundidas num estado de estabilidade relativa chamada saúde.
 +    * Os exercícios de ascetismo impõem ao corpo, de fora, superesforços que tendem a rupturas da mesma ordem que as produzidas pelas drogas.
 +    * A visão nasce nesse empobrecimento voluntário não como seu produto mas como seu correlativo; o zumbido da recitação do rosário, as posturas rituais, as danças regradas e a recitação fascina o olhar e fixa o corpo.
 +    * Em Oriente essas são posturas de relaxação; no Ocidente, onde o corpo reivindica mais, são posturas de coerção; seja na ascese do fakir, do monge ou do iogue, o mecanismo é o mesmo.
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 +  * As técnicas de deslocamento e fixação do corpo, também chamadas técnicas de desintegração, colocam em jogo meios repetitivos e por isso não acrescentam nenhum elemento desconhecido ao saber já possuído pelo corpo.
 +    * O problema é saber por que uma transfiguração ligada a formas repetitivas participa da torpor adâmica de Sem-Jafé e não da embriaguez lúcida de Cam, e por que se reclama uma outra transfiguração, consciente de si e claramente integradora.
 +    * A questão de se o corpo se fixa pelo desejo de rezar ou se reza pelo fato de o corpo estar fixo permanece sem resposta, como toda oposição linear entre causalidade e finalidade situada no tempo sucessivo, que é parodia do verdadeiro tempo.
 +    * Os Romanos raciocinavam por causalidade, os Etruscos por finalidade; permanecendo no tempo, não se pode encontrar resposta para os problemas da suspensão do tempo.
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 +  * A razão do descrédito da via devocional no espírito ocidental é que não se pode reconstituir claramente sua marcha de transfiguração nem transformá-la, no sentido spinoziano, em conhecimento do terceiro gênero.
 +    * Nenhum místico tem certeza de que os meios repetitivos que acompanharam sua efusão não o deixarão noutra ocasião à margem desse estado, como Moisés diante de Canaã.
 +    * Os elementos não repetitivos da prece, seus efeitos integráveis, pertencem a um extramundo onde a consciência clara ainda não tem acesso.
 +    * A febre, em suas manifestações repetitivas, contém elementos de irreversibilidade invisíveis mas reais; seria ingênuo pensar que o místico, após a adoração, retorna ao que era, sem que uma parcela infinitesimal do homem futuro tenha germinado nele.
 +    * Os efeitos biológicos surpreendentes da prece, os fenômenos de acostumamento e as curas de Lourdes constituem transfigurações reais, mas são casos-limite e singulares.
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 +  * Toda a vocação ocidental é a de descer dessas alturas particulares onde os sinais do invisível são indecifráveis e remontara ao universal por vias próprias, não pelas vias do égrégore.
 +    * A via devocional não basta mais ao Ocidente; toda filiação que pressuponha a intervenção de Deus deve ser previamente reduzida em vista de uma tentativa de integração clara, distinta e sempre repetível.
 +    * O dom pictórico de uma jovem de quinze anos que o perde um ano depois, o silêncio de Rimbaud aos dezoito anos após lançar seus clarões, ilustram o abandono eventual ao qual o dom sem fundamento expõe o homem.
 +    * Van Gogh era a infeliz mão de algum égrégore cuja visão permanecera infantil e patética; copiar Van Gogh não é reencontrar o olhar de Van Gogh, e cada um deve encontrar sozinho seu gênero de loucura.
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 +  * A prece, a poesia e a música são poderes dados antes que a técnica do homem deles se apodere e os decomponha, mas essa reflexão degrada e destrói o antigo poder para preparar uma expressão nova.
 +    * Stendhal escreve A Cartuxa em cinquenta e dois dias no entusiasmo da inspiração; ao se decompor para melhor se recompor, escreve Lucien Leuwen pausadamente mas nunca escreve as cenas de amor deixadas em espera.
 +    * A reflexão sobre a poesia, a música e a prece prepara uma expressão nova transcendente à antiga quando atravessa seu deserto dos quarenta dias; Platão, ao expulsar os poetas da República, aguardava justamente esse retorno ao cabo de uma prova necessária.
 +    * O gesto de Napoleão tomando a coroa das mãos do papa e a colocando ele mesmo na própria cabeça marca a maioridade da idade ocidental, cuja vocação é experimentar o inefável por meios que o inefável não circuncida.
 +    * O instrumento de universalidade maior, do qual nenhum homem é jamais privado, é a razão lógica, o jogo demonstrativo do discurso por dedução.
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 +  * Toda via em direção à transfiguração que admita a decomposição e o encadeamento de um discurso como prelúdio da contemplação será chamada via gnóstica, por oposição à via devocional, distinção que não deve ser tomada como absoluta.
 +    * A meditação sobre o sentido dos ritos e da liturgia, em si gnóstica, pode tornar-se um dos principais suportes da devoção; inversamente, os cantos e as orações podem tornar-se os adjuvantes mais preciosos da meditação.
 +    * A lógica formal, suporte do discurso coerente, é afinal ela própria apenas um instrumento exterior ao mesmo título que os ritos ou a salmodia.
 +    * São Boaventura, místico especulativo, pôde suceder a São Francisco, contemplativo, à frente dos Franciscanos sem que essa sucessão parecesse contrária à vocação mística da Ordem, marcando simplesmente o jogo das complementaridades.
 +    * A consciência devocional aparece como possuída, a consciência gnóstica como possuidora; a primeira é ingênua, a segunda transcendental, mas ambas se correspondem como o estado de sono ao estado de vigília.
 +    * Se a via devocional parece no Ocidente opor-se radicalmente à via gnóstica, essa falsa alternativa se deve à decadência dos fariseus a quem Jesus já clamava que tinham retirado do templo a chave do verdadeiro sacerdócio.

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