abellio:abellio-etat-devotionnel-et-voie-gnostique
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| + | ====== ESTADO DEVOCIONAL E CAMINHO GNÓSTICO. ====== | ||
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| + | * A gênese da consciência ocidental, de Descartes a Husserl, culmina numa interiorização do mundo que se prolonga na exploração concertada da transfiguração, | ||
| + | * Místicos em estado de exultação e artistas visitados pela inspiração comunharam em todos os tempos com um mundo transfigurado. | ||
| + | * A torpor de Adão no momento da criação de Eva era transfigurante; | ||
| + | * O Dilúvio ocorreu para tornar experimentável a separação entre o mundo da banalidade, onde Sem e Jafé permaneceram, | ||
| + | * A. Huxley estudou o poder transfigurante das drogas; o vinho é apenas a primeira delas, e toda a história humana consiste na ascensão dos poderes do homem absorvendo a droga do mundo. | ||
| + | * A transfiguração situa-se na linha brilhante onde vida e morte encontram seu limite comum, e a virtualidade da transfiguração habita cada instante, tornando todo momento que passa diluviano. | ||
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| + | * A questão central é por que a época atual representa, para o Ocidente, um progresso decisivo não apenas no estudo da transfiguração mas em sua prática consciente, no seu assujeitamento à vontade clara. | ||
| + | * As antigas justificações da prece aparecem como insuficientes, | ||
| + | * A irrupção das exigências da filosofia no domínio da ciência oculta arrisca tanto banalizar o oculto até negar sua existência própria quanto demonstrar que o esoterismo tradicional não é senão a persistência de um modo primitivo de conceitualização. | ||
| + | * A resposta às questões reside numa constatação simples: o esoterismo ainda está na história, o Eu transcendental não está mais; a consciência é originária e funda o tempo, não o contrário. | ||
| + | * As noções de inconsciente, | ||
| + | * Husserl viu em sua fenomenologia o meio de fundar uma metafísica nova que seja não apenas doutrina mas poder; essa nova metafísica converge com o deslocamento atual de todas as disciplinas paracientíficas, | ||
| + | * Assim como Descartes superou e integrou o pensamento escolástico e Morin de Villefranche superou Ptolemeu, Husserl supera e integra Descartes num ponto de convergência que toca o indultrapassável absoluto em relação com a crise histórica última do Ocidente. | ||
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| + | * O único obstáculo ao despertar do Eu transcendental é, no sentido pascaliano, o divertimento, | ||
| + | * O sofrimento, em todas as suas formas, é o sinal da recontração e do retorno do corpo sobre si mesmo, seu reancoragem no Eu imóvel. | ||
| + | * A dilatação vital, no máximo de sua tensão, conhece seu orgasmo resolutório, | ||
| + | * O simbolismo do dilúvio é o da reunificação paroxística, | ||
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| + | * A partir da dialética do interno e do externo impõe-se experimentar o acesso consciente e voluntário à realidade natural transfigurada, | ||
| + | * O estudo do modo de ação das drogas, mesmo por simples analogia, permite estruturar estados reputados obscuros ou inefáveis e reconstituir sua gênese. | ||
| + | * A prece reduzida à repetição mecânica de fórmulas estupefaz certas funções para excitar outras e inscreve-se na série indefinida das drogas, iluminando a via dita devocional. | ||
| + | * À artificialidade das drogas opõe-se uma naturalidade superior capaz de integrar sem esforço a tentação da droga e seus frutos, via gnóstica ainda puramente teórica cujo esforço presente tende a abrir-se para abolir-se enquanto esforço. | ||
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| + | * Toda embriaguez contém fatores de euforia e de agressividade, | ||
| + | * Existem embriagueses inspiradas e embriagueses vulgares; a droga não dilata o corpo físico à horizontal senão para libertar o corpo psíquico ou o corpo mental à vertical, nos dois sentidos dessa vertical, em direção a Satã e a Lúcifer. | ||
| + | * Droga é tudo o que aumenta a tensão do casal telurismo-niilismo; | ||
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| + | * Uma das primeiras chaves da transfiguração artificial reside na ruptura de equilíbrio das diferentes camadas do corpo normalmente fundidas num estado de estabilidade relativa chamada saúde. | ||
| + | * Os exercícios de ascetismo impõem ao corpo, de fora, superesforços que tendem a rupturas da mesma ordem que as produzidas pelas drogas. | ||
| + | * A visão nasce nesse empobrecimento voluntário não como seu produto mas como seu correlativo; | ||
| + | * Em Oriente essas são posturas de relaxação; | ||
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| + | * As técnicas de deslocamento e fixação do corpo, também chamadas técnicas de desintegração, | ||
| + | * O problema é saber por que uma transfiguração ligada a formas repetitivas participa da torpor adâmica de Sem-Jafé e não da embriaguez lúcida de Cam, e por que se reclama uma outra transfiguração, | ||
| + | * A questão de se o corpo se fixa pelo desejo de rezar ou se reza pelo fato de o corpo estar fixo permanece sem resposta, como toda oposição linear entre causalidade e finalidade situada no tempo sucessivo, que é parodia do verdadeiro tempo. | ||
| + | * Os Romanos raciocinavam por causalidade, | ||
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| + | * A razão do descrédito da via devocional no espírito ocidental é que não se pode reconstituir claramente sua marcha de transfiguração nem transformá-la, | ||
| + | * Nenhum místico tem certeza de que os meios repetitivos que acompanharam sua efusão não o deixarão noutra ocasião à margem desse estado, como Moisés diante de Canaã. | ||
| + | * Os elementos não repetitivos da prece, seus efeitos integráveis, | ||
| + | * A febre, em suas manifestações repetitivas, | ||
| + | * Os efeitos biológicos surpreendentes da prece, os fenômenos de acostumamento e as curas de Lourdes constituem transfigurações reais, mas são casos-limite e singulares. | ||
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| + | * Toda a vocação ocidental é a de descer dessas alturas particulares onde os sinais do invisível são indecifráveis e remontara ao universal por vias próprias, não pelas vias do égrégore. | ||
| + | * A via devocional não basta mais ao Ocidente; toda filiação que pressuponha a intervenção de Deus deve ser previamente reduzida em vista de uma tentativa de integração clara, distinta e sempre repetível. | ||
| + | * O dom pictórico de uma jovem de quinze anos que o perde um ano depois, o silêncio de Rimbaud aos dezoito anos após lançar seus clarões, ilustram o abandono eventual ao qual o dom sem fundamento expõe o homem. | ||
| + | * Van Gogh era a infeliz mão de algum égrégore cuja visão permanecera infantil e patética; copiar Van Gogh não é reencontrar o olhar de Van Gogh, e cada um deve encontrar sozinho seu gênero de loucura. | ||
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| + | * A prece, a poesia e a música são poderes dados antes que a técnica do homem deles se apodere e os decomponha, mas essa reflexão degrada e destrói o antigo poder para preparar uma expressão nova. | ||
| + | * Stendhal escreve A Cartuxa em cinquenta e dois dias no entusiasmo da inspiração; | ||
| + | * A reflexão sobre a poesia, a música e a prece prepara uma expressão nova transcendente à antiga quando atravessa seu deserto dos quarenta dias; Platão, ao expulsar os poetas da República, aguardava justamente esse retorno ao cabo de uma prova necessária. | ||
| + | * O gesto de Napoleão tomando a coroa das mãos do papa e a colocando ele mesmo na própria cabeça marca a maioridade da idade ocidental, cuja vocação é experimentar o inefável por meios que o inefável não circuncida. | ||
| + | * O instrumento de universalidade maior, do qual nenhum homem é jamais privado, é a razão lógica, o jogo demonstrativo do discurso por dedução. | ||
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| + | * Toda via em direção à transfiguração que admita a decomposição e o encadeamento de um discurso como prelúdio da contemplação será chamada via gnóstica, por oposição à via devocional, distinção que não deve ser tomada como absoluta. | ||
| + | * A meditação sobre o sentido dos ritos e da liturgia, em si gnóstica, pode tornar-se um dos principais suportes da devoção; inversamente, | ||
| + | * A lógica formal, suporte do discurso coerente, é afinal ela própria apenas um instrumento exterior ao mesmo título que os ritos ou a salmodia. | ||
| + | * São Boaventura, místico especulativo, | ||
| + | * A consciência devocional aparece como possuída, a consciência gnóstica como possuidora; a primeira é ingênua, a segunda transcendental, | ||
| + | * Se a via devocional parece no Ocidente opor-se radicalmente à via gnóstica, essa falsa alternativa se deve à decadência dos fariseus a quem Jesus já clamava que tinham retirado do templo a chave do verdadeiro sacerdócio. | ||
