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2 Representação

YOUNG, Julian. Schopenhauer. London/New York: Routledge, 2005.

Metafísica: o mundo como representação

Idealismo parcial versus idealismo radical

1. A tarefa filosófica de esclarecer o que o mundo é assume, em Schopenhauer, o caráter de decifração de um enigma cujas implicações existenciais ultrapassam a satisfação da curiosidade intelectual e alcançam a própria condução da vida.

2. A contemplação artística, ao abandonar as perguntas sobre onde, quando, por que e para que as coisas existem e concentrar-se exclusivamente no que elas são, revela uma afinidade fundamental entre arte e filosofia, poesia e pensamento.

3. A determinação do que o mundo é não pode resultar da simples observação, porque a filosofia kantiana problematiza a possibilidade de conhecer diretamente a realidade.

4. A descoberta kantiana de que o intelecto sempre se interpõe entre as coisas e o sujeito implica que a experiência cotidiana oferece apenas fenômenos, e não coisas em si, tornando necessário procurar a essência do mundo para além daquilo que a observação proporciona.

5. O idealismo pode assumir uma forma parcial, referente ao modo como um objeto material aparece ao sujeito, ou uma forma radical, referente à própria existência desse objeto.

6. O idealismo parcial de Locke distingue as qualidades secundárias, como cores, sabores, sons e odores, existentes apenas na experiência subjetiva, das qualidades primárias, como massa e extensão, que pertencem aos próprios objetos e asseguram sua existência independente da mente.

7. O idealismo radical de Berkeley estende às qualidades primárias os argumentos da relatividade perceptiva empregados por Locke contra a objetividade das qualidades secundárias, concluindo que todas as qualidades dependem da mente e que os objetos, constituídos por elas, tampouco existem independentemente dela.

8. Schopenhauer interpreta o idealismo transcendental de Kant como um idealismo radical semelhante ao de Berkeley quanto à condição dos objetos materiais, apoiando-se na afirmação de que a supressão do sujeito pensante faria desaparecer todo o mundo corpóreo e adotando essa posição como sua própria doutrina.

9. A interpretação schopenhaueriana atribui as alterações da segunda edição da Crítica da razão pura à tentativa kantiana de atenuar um idealismo ridicularizado como contrário ao senso comum, considerando que sua própria formulação intransigente recupera a posição autêntica que Kant teria obscurecido.

10. A caracterização do mundo espaço-temporal como fantasma ou sonho não elimina a distinção interna entre realidade e ilusão, pois a vida desperta apresenta uma continuidade sistemática que os episódios oníricos não integram.

11. A distinção entre verdade como correspondência e verdade como coerência permite compreender que as crenças cotidianas, embora não correspondam a objetos existentes independentemente da mente, podem ser consideradas verdadeiras quando se ajustam à organização global da experiência e falsas quando a contradizem.

12. O compromisso oficial de Schopenhauer com o idealismo radical torna-se impreciso pelo emprego alternado de metáforas de sonhos e fantasmas, que sugerem a inexistência de objetos independentes, e de véus e ilusões, que sugerem apenas sua percepção inadequada, exigindo distinguir qual modalidade de idealismo opera em cada parte de sua filosofia.

Leia Kant!

1. A principal justificativa schopenhaueriana para aceitar o idealismo radical consiste em remeter à Estética transcendental de Kant, cujas demonstrações recebem o estatuto de verdades incontestáveis.

2. A Estética transcendental possui, nessa avaliação, mérito suficiente para imortalizar Kant, dada a força persuasiva de suas demonstrações.

3. A compreensão desse recurso a Kant exige esclarecer o argumento desenvolvido na Estética transcendental.

4. Kant distingue as proposições analíticas, verdadeiras em virtude do significado dos termos e incapazes de ampliar o conhecimento do mundo, das proposições sintéticas, cuja verdade não decorre de definições e acrescenta informações ao conhecimento.

5. Embora a maioria das proposições sintéticas dependa da experiência, as proposições matemáticas seriam sintéticas a priori por ampliarem o conhecimento com uma certeza anterior a qualquer verificação empírica, cuja possibilidade Kant procura explicar mediante o idealismo transcendental.

6. A certeza a priori da geometria euclidiana exigiria que espaço e tempo não fossem realidades independentes da mente, pois essa independência deixaria aberta a possibilidade de experiências futuras contrárias às propriedades que se consideram necessárias.

7. Espaço e tempo, enquanto formas da intuição, funcionam como estruturas que organizam todo o material sensível e impõem à experiência características provenientes da constituição da mente, em vez de simplesmente reproduzirem propriedades das coisas em si.

8. A crítica usual à concepção kantiana da matemática sustenta que a geometria euclidiana ou é analítica e não descreve o espaço físico, ou recebe uma interpretação física e se torna empiricamente verificável, perdendo a necessidade a priori que Kant lhe atribui.

9. A insuficiência dos exemplos matemáticos kantianos não refuta por si só a idealidade do espaço e do tempo, pois Schopenhauer reconhece numerosas outras proposições espaço-temporais que considera simultaneamente informativas e certas a priori.

10. A dificuldade decisiva do argumento kantiano encontra-se em um problema mais fundamental do que a classificação das verdades matemáticas.

11. A demonstração de que espaço e tempo estruturam a experiência em virtude da constituição da mente não exclui que também caracterizem as coisas em si, permitindo uma correspondência total ou parcial entre a realidade independente e sua manifestação fenomênica.

12. A pintura de Magritte intitulada Enfim livre pode ser interpretada como uma ironia dirigida à busca de uma realidade situada além das aparências, pois a paisagem descoberta através de uma abertura coincide exatamente com aquela representada na superfície que supostamente a ocultava.

13. O reconhecimento da espacialidade e da temporalidade como formas da experiência não estabelece o idealismo radical, porque permanece possível que essas mesmas determinações pertençam à realidade em si.

14. A primeira antinomia da razão pura oferece a Kant um argumento suplementar contra a realidade independente do espaço e do tempo, procurando demonstrar que essa suposição conduz às conclusões contraditórias de sua finitude e de sua infinitude.

15. A rejeição schopenhaueriana da demonstração kantiana das antinomias impede que ela complete a fundamentação de seu idealismo radical, tornando necessário um argumento adicional que ultrapasse os recursos aceitos da filosofia de Kant.

O realismo como autocontradição

1. A proposição inaugural de que o mundo é representação recebe de Schopenhauer o estatuto de uma verdade imediatamente certa, embora sua interpretação como idealismo radical contrarie as convicções espontâneas do senso comum.

2. A evidência da proposição de que o mundo é representação dependeria de sua compreensão adequada, assim como a evidência dos axiomas geométricos se manifesta a quem apreende seu significado.

3. A defesa schopenhaueriana do idealismo procura mostrar que a atribuição de existência independente da mente ao mundo cotidiano envolve uma contradição reconhecível pela compreensão da própria relação entre fenômeno e coisa em si.

4. O princípio de que não há objeto sem sujeito é fundamentado na alegação de que imaginar um mundo sem seres cognoscentes introduz inevitavelmente a atividade de um intelecto que o representa, contradizendo a exclusão inicialmente pretendida.

5. A tentativa de imaginar um mundo objetivo sem sujeito cognoscente produziria apenas a representação desse mundo por um ser que o percebe, reintroduzindo precisamente aquilo que se pretendia eliminar.

6. A impossibilidade de imaginar uma árvore sem consciência decorreria, nesse argumento, de que imaginá-la equivaleria a imaginar a própria consciência percebendo-a.

7. A representação de uma árvore sem qualquer observador oferece um contraexemplo à identificação entre imaginar um objeto e imaginar-se percebendo esse objeto.

8. A representação de alguém consciente de uma árvore descreve uma situação distinta daquela em que apenas a árvore é representada.

9. A diferença entre representar uma árvore isolada e representar sua percepção por alguém revela que o argumento idealista confunde situações distintas e depende de um expediente sofístico.

10. A determinação cultural ou subjetiva de toda representação não implica que o sujeito esteja representado em seu conteúdo, assim como enxergar pelos olhos ou falar mediante uma linguagem não significa enxergar os próprios olhos ou falar sobre a própria linguagem.

11. O princípio de que não há objeto sem sujeito é trivialmente verdadeiro quando se refere a objetos da consciência, mas não demonstra que todos os objetos materiais sejam apenas conteúdos conscientes, de modo que seu emprego em favor do idealismo radical pressupõe justamente o que deveria provar.

Idealismo evolucionista

1. Um argumento adicional em favor do idealismo radical combina originalidade e importância histórica com dificuldades que comprometem sua força demonstrativa.

2. A fisiologia cerebral e a biologia evolucionista permitiriam, segundo Schopenhauer, alcançar por meio das ciências naturais a mesma conclusão idealista obtida por Kant mediante a reflexão filosófica.

3. A identificação entre intelecto e cérebro, associada à enorme diferença entre estímulos sensoriais e percepção organizada, sustenta que o mundo dos objetos é construído pela atividade cerebral a partir das sensações e, nessa medida, depende da mente.

4. A fundamentação científica do idealismo pressupõe a existência de cérebros, nervos e retinas, adotando um realismo sobre entidades materiais que lhe permite justificar, no máximo, um idealismo parcial e impede demonstrar coerentemente a dependência mental de todos os objetos.

5. A construção cerebral da experiência permanece compatível com sua correspondência à realidade independente, e o êxito evolutivo dos organismos parece inicialmente favorecer a hipótese de que suas representações descrevam adequadamente o ambiente.

6. A resposta schopenhaueriana sustenta que o cérebro evoluiu como instrumento de sobrevivência e reprodução, destinado a identificar fins e motivos práticos, e não a revelar a natureza absolutamente verdadeira das coisas, razão pela qual a busca de exatidão não constitui necessariamente uma vantagem adaptativa.

7. A percepção de uma ponte por um viajante apressado, de peças de xadrez por um jogador e de pessoas segundo suas funções sociais exemplifica uma consciência que apreende os objetos primordialmente conforme sua utilidade, deixando de perceber suas demais características.

8. A seleção evolutiva favorece a economia de esforço e a rapidez das respostas, levando o cérebro a processar apenas as informações necessárias à ação e a apresentar as coisas esquematicamente como instrumentos ou entes disponíveis para usos determinados.

9. A adaptação pode favorecer não apenas a simplificação, mas também a falsificação da experiência, quando classificações inexatas permitem respostas suficientemente rápidas para aumentar as chances de sobrevivência.

10. A explicação adaptativa da percepção oferece uma resposta relevante à objeção de que construções mentais poderiam reproduzir fielmente a realidade, mas não resolve o problema de fundamentar o idealismo radical em pressupostos científicos realistas.

11. Uma possível reconstrução do argumento como redução ao absurdo faria a imagem científica da realidade destruir sua própria pretensão de verdade, pois a evolução que ela descreve produziria representações humanas falsificadoras entre as quais se incluiria essa mesma imagem científica.

12. Essa reconstrução não encontra apoio explícito em Schopenhauer e conflita com sua admissão de que certos gênios artísticos ou filosóficos podem superar a percepção prática e alcançar uma apreensão objetiva, possibilidade que também poderia ser reivindicada pelo gênio científico.

13. A ausência de uma prova convincente do idealismo radical não elimina a força da psicologia evolucionista em favor do idealismo parcial, suficiente para mostrar que a experiência cotidiana não revela diretamente o que as coisas são em si.

14. Se a percepção não basta para descobrir a essência do mundo e as capacidades humanas de conhecimento se limitam a perceber e pensar, torna-se necessário investigar a natureza, as possibilidades e os limites da razão.

Razão

1. A crença de que a razão confere aos seres humanos uma dignidade essencialmente superior à dos outros animais favorece sua desqualificação e a negação de seus direitos.

2. A tradição racionalista atribuiu à razão uma capacidade extraordinária de ultrapassar a experiência comum e demonstrar, por seus próprios recursos, a existência de Deus, da liberdade e da imortalidade.

3. A crítica kantiana, em continuidade com o empirismo britânico, limita as pretensões racionalistas ao estabelecer que conceitos sem conteúdo sensível são vazios e que os limites da experiência delimitam o conhecimento cognitivamente significativo.

4. A filosofia pós-kantiana de Fichte, Hegel, Jacobi e Schelling abandona, na avaliação schopenhaueriana, essa limitação crítica ao reivindicar um acesso racional imediato ao Absoluto e à realidade última.

5. A própria concepção kantiana da razão como fonte da obrigação moral teria favorecido essa restauração dogmática, pois a transformação da razão em oráculo prático abriu caminho para sua transformação em oráculo teórico do suprassensível.

6. A recuperação dos limites empiristas da razão exige reconhecer que ela dispõe apenas de formas de elaboração e não produz por si mesma o material do conhecimento.

7. A razão somente concebe e organiza conteúdos recebidos, sem possuir recursos próprios para gerar a matéria de suas representações.

8. A razão pode ser comparada a um programa de computador que processa informações fornecidas e deriva outras delas, mas não produz informação sem dados de entrada.

9. A crítica schopenhaueriana da razão divide-se entre a rejeição de sua suposta capacidade de fundar autonomamente o conhecimento moral e a rejeição de sua suposta capacidade de produzir conhecimento teórico independentemente da experiência.

Razão prática

1. A concepção humeana atribui à razão uma função exclusivamente instrumental na ação, permitindo determinar os meios de alcançar fins desejados sem estabelecer quais fins devem ser desejados.

2. A concepção kantiana sustenta, em contraste, que a própria racionalidade impõe certos fins morais ao agente.

3. A fundamentação kantiana da moral afirma que o imperativo categórico pertence à razão e permite derivar as obrigações morais reconhecidas intuitivamente, fazendo da ação imoral uma forma de irracionalidade.

4. A distinção entre virtude e racionalidade sustenta a rejeição schopenhaueriana da ética kantiana, pois a razão pode orientar a realização de fins sem produzir a motivação para eles, e uma conduta racionalmente eficaz pode permanecer moralmente condenável.

5. A felicidade, entendida como tranquilidade de espírito, constitui um fim compartilhado pelos seres humanos em virtude de sua condição humana, independentemente de sua racionalidade ou de suas diferenças individuais.

6. O estoicismo representa o ponto mais elevado do uso meramente racional da vida ao procurar reduzir o sofrimento mediante a diminuição dos desejos ou do apego a eles, ajustando aquilo que depende do sujeito à realidade que escapa a seu domínio.

7. A insuficiência do estoicismo diante da dor física intensa e seu recurso extremo ao suicídio revelam que ele oferece sobretudo um endurecimento contra o destino, sem alcançar a verdadeira paz de espírito ou a vida bem-aventurada.

8. A tentativa estoica de conciliar desejos e conforto material com o desapego ignora que o hábito produz dependência, ao passo que a pobreza efetiva dos cínicos elimina concretamente os meios pelos quais essa dependência se estabelece.

Percepção

1. A tese kantiana de que intuições sem conceitos são cegas significa que a experiência de objetos depende de regras conceituais capazes de organizar a multiplicidade das sensações em unidades reconhecíveis.

2. Schopenhauer aceita que os conceitos dependem da experiência sensível para obter conteúdo, mas rejeita que a percepção dependa de conceitos para apresentar objetos, elevando assim a autonomia do conhecimento perceptivo.

3. A distinção entre razão conceitual e entendimento perceptivo permite a Schopenhauer sustentar que o mundo empírico é construído intelectualmente, embora sua constituição ocorra inteiramente sem a participação de conceitos.

4. A construção dos objetos cotidianos pelo entendimento resulta do exercício de sua função fundamental de estabelecer inferências causais.

5. As intuições puras e inatas de espaço e tempo constituem a estrutura na qual o cérebro organiza o mundo externo, enquanto o conhecimento sintético a priori exprime as condições que limitam essa atividade construtiva.

6. A estrutura espaço-temporal pode ser figurada como uma grade cujas posições, em cada momento, estão vazias ou ocupadas por matéria, correspondendo respectivamente à ausência ou à presença de objetos.

7. A localização de matéria nessa estrutura decorre de uma inferência causal que identifica a explicação mais provável das sensações experimentadas no próprio corpo.

8. A atribuição de sensações visuais e táteis a uma mesma posição espaço-temporal constitui a percepção de um objeto determinado, como uma bola de bilhar.

9. A elaboração perceptiva normalmente ocorre de maneira automática e inconsciente, mas pode tornar-se reconhecível quando a exploração tátil de um objeto no escuro permite construir sua forma a partir dos efeitos produzidos sobre as mãos.

10. O entendimento não apenas infere objetos externos a partir de estados corporais, mas também estabelece relações causais entre os próprios objetos, tornando possível a prudência cotidiana.

11. O conhecimento intuitivo das relações causais permite utilizar mecanismos e executar ações complexas, como jogar bilhar, sem possuir a formulação abstrata das leis físicas correspondentes.

12. Os animais compartilham com os seres humanos o conhecimento intuitivo, pois representam objetos e reconhecem relações causais de maneira suficientemente elaborada para orientar comportamentos sagazes e avaliar situações de risco.

13. A atribuição de toda a constituição perceptiva do mundo ao entendimento, tanto nos seres humanos quanto nos demais animais, exige esclarecer qual função ainda cabe aos conceitos.

Conceitos

1. A determinação da natureza dos conceitos constitui simultaneamente uma investigação sobre aquilo que a razão é.

2. A razão possui como função fundamental formar conceitos por abstração, assim como o entendimento possui como função fundamental estabelecer inferências causais.

3. Os conceitos surgem pela supressão das características particulares de diferentes representações perceptivas e pela conservação de seus elementos comuns, adquirindo uma universalidade que os distingue da determinação singular própria da percepção.

4. Os conceitos são representações de representações, reproduzindo de maneira abstrata e esquemática os conteúdos perceptivos dos quais derivam.

5. O pensamento propriamente dito surge quando a razão combina conceitos em juízos mediante funções lógicas e deriva novos juízos por meio de regras de inferência.

6. A concepção schopenhaueriana da lógica como descrição de leis inevitáveis do pensamento incorre em psicologismo, pois a ocorrência de erros mostra que as regras lógicas estabelecem como se deve pensar, e não como efetivamente se pensa em todos os casos.

7. Os conceitos constituem os significados das palavras e tornam possível a generalidade característica da linguagem, cuja ausência nos animais decorreria de sua incapacidade de abstrair conceitos, apesar de possuírem representações perceptivas e entendimento.

8. A teoria dos conceitos como imagens abstraídas enfrenta a dificuldade de que o pensamento e a compreensão linguística normalmente não são acompanhados por uma sucessão de imagens mentais correspondentes.

9. A resposta schopenhaueriana sustenta que se pensa por palavras que representam conceitos, enquanto estes permaneceriam disponíveis como um repertório mental consultável, sem esclarecer plenamente a natureza ou o funcionamento desse repertório.

Conhecimento intuitivo versus conhecimento conceitual

1. A caracterização da razão como reflexo empobrecido da percepção fundamenta a preferência schopenhaueriana pelo conhecimento intuitivo nas atividades práticas da vida cotidiana.

2. A origem abstrativa dos conceitos torna-os menos sensíveis à riqueza das situações particulares, fazendo do pedantismo a submissão inadequada do entendimento a regras e máximas gerais.

3. A aplicação rígida de regras conceituais pode prejudicar práticas como jogar bilhar, esgrimir, afinar instrumentos e cantar, porque os conceitos não apreendem suficientemente as diferenças sutis exigidas pela execução.

4. O pedantismo moral pode produzir ações erradas mesmo quando bem-intencionadas, pois a orientação exclusiva por máximas gerais dificulta perceber as particularidades relevantes de cada circunstância.

5. A reflexão também pode ser inferior à intuição porque exige tempo, tornando-se um obstáculo em situações que requerem respostas imediatas.

6. A universalidade conceitual proporciona, contudo, uma vantagem decisiva ao permitir a ciência, a filosofia e a orientação da vida por máximas gerais, libertando parcialmente os seres humanos da submissão aos estímulos presentes e favorecendo uma conduta estável.

Crítica a Schopenhauer sobre razão e percepção

1. A defesa schopenhaueriana da autonomia perceptiva depende de mostrar que o conhecimento dos objetos, de suas posições e de suas relações causais se constitui sem qualquer participação conceitual.

2. A teoria abstrativa dos conceitos fracassa ao exigir que eles sejam imagens mentais, embora nem o pensamento nem a compreensão dos significados linguísticos dependam da presença ou da consulta dessas imagens.

3. A independência do conhecimento empírico em relação aos conceitos assim definidos torna-se uma afirmação trivial, porque essa definição não corresponde ao funcionamento de nenhuma modalidade de conhecimento.

4. Uma alternativa consiste em compreender a posse de um conceito como a capacidade de empregar adequadamente uma palavra ou sua equivalente em outra língua.

5. A identificação entre conhecimento conceitual e conhecimento linguisticamente articulável confirma a existência de conhecimento não conceitual, sobretudo nos animais, cujo comportamento demonstra reconhecimento de objetos e domínio de relações causais sem uso de linguagem.

6. A concepção kantiana oferece outra definição de conceitos, entendendo-os como regras de síntese e classificação que organizam sensações em objetos e permitem distinguir diferentes tipos de coisas independentemente do emprego de palavras.

7. A formação linguística e social produz grande parte dessas regras nos seres humanos, permitindo que uma mesma situação seja percebida como atividade desordenada por um observador e como uma partida esportiva organizada por outro.

8. A origem frequentemente linguística das regras de organização perceptiva não impede que algumas resultem da evolução biológica e estejam incorporadas a animais sem linguagem, cujo conhecimento seria então não linguístico, mas conceitualmente estruturado.

9. A controvérsia schopenhaueriana com Kant diz respeito precisamente aos conceitos entendidos como regras constitutivas da percepção, cuja participação a teoria das inferências causais inconscientes pretende dispensar.

10. A teoria schopenhaueriana pode explicar a localização de objetos já reconhecíveis, mas não a constituição das classes de objetos que pressupõe, razão pela qual depende implicitamente da atividade conceitual kantiana que procura refutar.

Significatividade

1. A preferência de Schopenhauer pela filosofia britânica decorre de sua clareza expositiva, considerada compatível com a profundidade, enquanto sua aversão aos contemporâneos alemães se dirige à obscuridade que impede compreender e avaliar suas formulações.

2. A dependência financeira dos filósofos profissionais ameaça a independência do pensamento, sobretudo em um contexto no qual questionar fundamentos religiosos também significa questionar a autoridade política que sustenta seus cargos e salários.

3. A clareza da filosofia britânica relaciona-se ao princípio lockiano de que conceitos genuínos devem poder ser reconduzidos à experiência sensível, pois palavras sem ideias identificáveis constituem expressões destituídas de significado.

4. A origem perceptiva dos conceitos fornece a Schopenhauer um critério de significatividade e de identificação da fraude filosófica, exigindo que toda abstração possa ser reconduzida às percepções que a fundamentam.

5. A verificação de um conceito exige a possibilidade de apresentar percepções que mantenham com ele a relação de exemplos.

6. A impossibilidade de oferecer essa comprovação perceptiva transforma os supostos conceitos em palavras vazias, assim como a falta de reservas compromete um banco que emite notas sem poder resgatá-las.

7. A distinção entre conceitos autênticos e pseudoconceitos depende da possibilidade de restabelecer seu vínculo com a experiência sensível, princípio que Schopenhauer considera inaugurador de uma nova época filosófica capaz de superar a obscuridade especulativa.

Observações sobre o critério de significatividade de Schopenhauer

1. O exame do critério schopenhaueriano de significatividade requer quatro observações sobre sua fundamentação e suas consequências.

2. A exigência de fundamentar o significado na experiência pode ser preservada independentemente da teoria que deriva os conceitos por abstração, pois a origem psicológica de um conceito e a justificação de sua significatividade constituem problemas distintos.

3. A exigência de exemplos perceptivos precisa abranger experiências possíveis, e não apenas efetivas, para preservar a significatividade da ficção, bastando que se possa especificar como seria encontrar aquilo a que uma expressão se refere.

4. A terceira dificuldade envolve a pretensão de alcançar a realidade por meio de uma intuição intelectual ou racional.

5. A hipótese kantiana de uma intuição intelectual divina descreve um conhecimento independente das sensações e da atividade organizadora do intelecto, que proporcionaria acesso imediato à realidade em si.

6. Kant restringe essa intuição a uma hipótese sem disponibilidade humana, enquanto seus sucessores, na interpretação schopenhaueriana, apresentam seus sistemas como resultados de um contato direto com a coisa em si ou com o Absoluto.

7. A reivindicação de uma faculdade capaz de contemplar imediatamente o Absoluto, o Infinito ou o suprassensível provoca a crítica satírica de Schopenhauer contra as pretensões oraculares dos filósofos profissionais.

8. A combinação entre o critério empirista do significado e a mediação intelectual de toda experiência impede falar significativamente de um Absoluto exterior a essa mediação, ameaçando a possibilidade da metafísica tradicional e a atividade profissional daqueles que dela dependem.

9. A suposta intuição intelectual oferece uma saída fictícia para essa dificuldade ao atribuir a poucos indivíduos um acesso privilegiado à coisa em si, convertendo a investigação filosófica em uma forma de autoridade espiritual sem comprovação.

10. A rejeição schopenhaueriana da intuição intelectual é relevante tanto por contestar a possibilidade de ultrapassar comunicavelmente as condições da própria mente quanto por desautorizar interpretações que fazem de sua metafísica um conhecimento imediato da coisa em si.

11. O compromisso de Schopenhauer com o empirismo cria uma tensão interna em seu projeto metafísico, pois a pretensão de determinar o que existe além das aparências parece incompatível com um critério que limita o discurso significativo à experiência e com a recusa de qualquer acesso intelectual imediato à realidade em si.

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