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0 Introdução

WUNENBURGER, Jean-Jacques. Esthétique de la transfiguration. Paris: Cerf, 2016.

1. A estética ocidental das imagens visuais é dominada pelo paradigma da mimese, que subordina a beleza da representação à fidelidade ao modelo e atribui à arte a tarefa de duplicar o belo em si para uma pluralidade de olhares, concepção que gerou uma doxologia estereotipada e acadêmica desmentida pelas práticas efetivas, como mostra o trompe-l'oeil, ápice e ao mesmo tempo abolição do gesto artístico, já que a semelhança total apaga as marcas da criação, que é antes variação, diferença e dessemelhança do que repetição.

2. A ideia de mimese foi matizada pela incorporação da diferença, deixando de significar submissão ao Mesmo para designar encenações de uma alteração, e as démarches de desconstrução chegaram a proclamar o fim da transcendência dos modelos e a primazia das cópias e simulacros, num platonismo invertido, pois os artistas sempre deformaram e metamorfosearam a imagem ideal assombrada pela semelhança, num certo iconoclasmo feito de estilização, tipificação e simbolização e de acolhimento de uma falta, ausência ou morte que confere à obra realidade própria e mesmo surrealidade, restando saber se essa estética da diferença exige sacrificar a essencialidade do belo e a substancialidade do referente invisível em favor de uma pura imanência ou se a fenomenologia e a hermenêutica permitem uma ontologia da imagem poiética que introduza uma negatividade na ontologia da imitação sem abolir toda transcendência invisível.

I

1. Cumpre remontar às duas raízes das artes visuais no Ocidente, a platônica, irredutível a uma ortodoxia simplista da relação entre modelo e cópia, já que a imagem é assumida também como typos, distinto de eikon e de eidolon, e a cristã, inseparável do neoplatonismo, que acolhe uma imagem viva e internamente determinada, o agalma, faz de certas imagens encarnação da Ideia mais que reprodução e da manifestação da imagem uma etapa rumo a seu desaparecimento em favor de uma visão imaginal, de modo que a herança platônico-cristã oferece recursos sutis que pluralizam ontologicamente as relações da imagem com o visível e o invisível.

2. Nessa herança, a imagem criada só desvela esteticamente o modelo e sua beleza mediante variações, deslocamentos, alterações e hibridações, a começar por seu encontro com a linguagem, que, latente ou atual, escrita ou sonora, precede, acompanha e prolonga a imagem visual, revelando a incompletude do que se manifesta no espaço e no tempo e a ausência inscrita em seu silêncio, de modo que a passagem da imagem à linguagem visa não a uma equivalência, mas a tornar sensível o que o visível não restitui, exigindo reunir a estética das artes visuais e a das poéticas da linguagem, poética que se abre ela mesma a uma ilegibilidade e indizibilidade, índice da surrealidade de toda obra e de sua profundidade ontofânica.

II

1. As transformações da imagem nas artes plásticas e da linguagem convidam a buscar um paradigma mais radical, capaz de evidenciar uma metanoia, uma revolução espiritual na produção e na contemplação estéticas, pois as imagens marcantes supõem uma superpotência e uma superexistência irredutíveis à representação, associadas, na produção e na recepção, a experiências de iniciação, devoção ou êxtase do sublime e, quanto ao modo de existência, a uma categoria ontológica que não é nem ser nem nada, nem real nem irreal, mas uma existência de terceiro tipo, presente no imaginal das tradições visionárias e místicas ou no corpo de ressurreição da teologia monoteísta.

2. A criação artística das imagens plásticas e poéticas, em sua expressão mais alta, pode esclarecer-se pelo paradigma teológico cristão da Páscoa estética, pois o Filho de Deus, imagem viva do Deus invisível, encarnou-se, aceitou morrer e sair do visível para reaparecer transfigurado, e essa epifania num visível desmaterializado seria a ideia reguladora do verdadeiro trabalho do artista, que desloca o olhar do visível imanente para um sobrevisível, num modelo que implica não imitação nem desconstrução, mas transfiguração do modelo num novo estado ontológico, reunindo o mythos cristão do corpo de ressurreição à tradição do mundo imaginal do neoplatonismo ocidental e oriental e das culturas visionárias tradicionais.

3. Essa hipótese, que arranca a morte e a ressurreição de Deus do plano religioso para fazer delas fonte hermenêutica e simbólica da obra de arte, exige recusar a assimilação da imagem artística a mera re-presentação, pois toda imagem visual ou verbal comporta um modo de presença e uma vida imanente que escapam às categorias clássicas, não tendo a realidade do percebido nem se reduzindo à irrealidade do fictício e oscilando entre presença e ausência, ser e nada, o que a arte não figurativa torna mais evidente, confirmando-se na fabricação e na recepção a força hermenêutica do paradigma da transfiguração, jogo entre desaparecimento do mundo e revelação de outro, e conduzindo a imagem artística a um novo tipo de entidades, o imaginal, que com o corpo de ressurreição permite aproximar-se do modo de ser sutil e desconcertante das obras de arte e explicar a densidade e a singularidade da experiência estética.

III

1. Resta saber se essa hermenêutica estética ainda faz sentido quando as imagens deixam de ser feitas por mão humana e se tornam digitais, pois a nova era tecnológica altera a estética e a metafísica subjacente da imagem, e a época contemporânea, com sua desconstrução da arte tradicional, oferece o melhor momento para medir as fontes, forças e limites dessa estética da transfiguração, já que as artes visuais, pela fotografia, pelo cinema e pela informática, duplicam o real num mundo virtual que funciona como simulacro e engodo, radicalizando o paradigma da imitação na confusão entre real e virtual e abrindo espaço a práticas saturadas de conceitos e valores niilistas.

2. Nesse contexto, trata-se de reabrir espaço para uma estética da imagem feita por mão humana, herdeira de uma filosofia que lhe atribui uma configuração singular entre representação e presença, presença e ausência, realidade e surrealidade, pois a crise da arte diante das novas tecnologias mostra antes seu desaparecimento e a abolição da estética do que sua renovação, podendo ser justamente esse o ponto extremo em que o retorno do paradigma de uma Páscoa estética reabriria um caminho para a renovação da arte.

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