James, William
Giovanni Reale
O Pragmatismo e William James
John Dewey distinguiu os estilos filosóficos de Peirce e James ao afirmar que o primeiro escreveu como lógico e o segundo como humanista, sendo James o responsável por projetar o pragmatismo como filosofia no mundo.
- Peirce representou a versão lógica do pragmatismo; James, a versão moral e religiosa
- James era graduado em medicina e lecionou fisiologia e anatomia em Harvard
- Foi James quem lançou o pragmatismo como nova filosofia em 1898, tornando-o mundialmente conhecido
O Pragmatismo como Método e Fuga dos Falsos Absolutos
O pragmatismo, na concepção de James, representa o empirismo em sua forma mais radical e menos criticável, voltando-se para a concreteza, os fatos, a ação e a liberdade, em oposição a sistemas fechados e absolutos fixos.
- “Um pragmático vira resolutamente as costas… a uma série de posições caras aos filósofos de profissão” — afasta-se da abstração, das soluções verbais, das razões a priori, dos princípios fixos e dos falsos absolutos
- O pragmatismo privilegia o empirismo sobre o racionalismo, a liberdade sobre o dogma
- Não defende nenhum resultado particular: é exclusivamente um método
O pragmatismo se configura como atitude de pesquisa voltada para resultados, consequências e fatos, e não para primeiros princípios ou categorias abstratas.
- A disposição pragmatista consiste em desviar o olhar das coisas primeiras e das pretensas necessidades para dirigir-se às coisas últimas e aos fatos
- O método pragmático busca identificar os efeitos práticos concebíveis de uma ideia, as sensações esperadas e as reações a preparar
- A concepção desses efeitos, imediatos ou remotos, constitui todo o significado positivo do objeto
A Verdade de uma Ideia se Reduz à sua Capacidade de Operar
Para James, as ideias tornam-se verdadeiras na medida em que ajudam a estabelecer relações satisfatórias entre as partes da experiência, ligando-as de modo útil, seguro e economicamente eficiente.
- Uma ideia é verdadeira enquanto permite avançar e transitar satisfatoriamente pela experiência, simplificando e economizando esforço
- James identifica essa posição com a concepção instrumental da verdade, ensinada em Chicago e difundida em Oxford, segundo a qual a verdade das ideias equivale à sua capacidade de “operar”
- A verdade de uma ideia foi assim identificada com sua utilidade para melhorar ou tornar menos precária a condição vital do indivíduo
A equivalência entre verdade e utilidade rendeu a James diversas críticas, levando-o a retificar algumas teses em escritos posteriores.
- A crítica principal apontava que a satisfação imediata do sujeito não garante o consenso amplo nem a validade assegurada pelas técnicas de controle experimental
- Em O Significado da Verdade (1909), James retificou suas teses: o verdadeiro é útil, desde que se acrescente que é útil para o intelecto, que exige coerência e referência aos fatos
- No ensaio Pragmatismo (1907), James já sustentava que a verdade de uma ideia não é propriedade estagnada, mas um processo de verificação — “um acontecimento, um processo: mais precisamente, o processo de sua ocorrência”
- Ideias verdadeiras são as que se pode assimilar, convalidar, confirmar e verificar; falsas são as que não permitem esse mesmo percurso
- As ideias ou teorias verdadeiras são aproximações melhores das ideias anteriores, resolvendo problemas de modo mais satisfatório
- “A posse da verdade, longe de ser um fim em si mesma, é apenas um meio para outras satisfações vitais”
Os Princípios da Psicologia e a Mente como Instrumento de Adaptação
As imprecisões de James ao interpretar a regra pragmática de Peirce e ao amalgamar autores distintos — como Schiller, Papini, Duhem, Poincaré, Mach e Avenarius — geraram críticas variadas à sua teoria do significado e da verdade, sem contudo invalidar o caráter de janela aberta sobre as ações humanas que o pragmatismo jamessiano ainda representa.
- Antonio Santucci reconhece que o pragmatismo de James permanece, ainda nos dias de hoje, como janela aberta no edifício epistemológico sobre as ações humanas
- James amalgamou o convencionalismo de Duhem e Poincaré, o empiriocriticismo de Mach e Avenarius e elementos voluntaristas, sem sempre distingui-los com clareza
Em 1890, James publicou os dois volumes dos Princípios de Psicologia, obra de fontes avançadas para a época, que faz da mente um instrumento dinâmico e funcional à adaptação ambiental.
- As fontes da obra incluem a psicofísica de Fechner — para quem o estímulo cresce em proporção geométrica enquanto a sensação cresce em proporção aritmética —, a psicologia evolucionista e emergentista de Wundt, a psicopatologia de Binet e as doutrinas evolucionistas de Darwin e Huxley
- James adota a fórmula spenceriana segundo a qual a essência da vida mental e da vida corporal consiste na “adaptação das relações internas às externas”
- Essa fórmula, embora vaga, é considerada por James imensamente mais fértil que a velha psicologia racional, pois situa a mente no concreto de suas relações com o ambiente
- A vida psíquica é caracterizada por um finalismo que se expressa como energia seletiva já no ato elementar da sensação
- James criticava os associacionistas, que reduziam a vida psíquica à combinação de sensações elementares, e os materialistas, que identificavam fenômenos psíquicos com movimentos da matéria cerebral
- A consciência aparece a James como corrente contínua — stream of thought —, cuja única unidade reside no fato de que “o pensamento difere, a cada momento, do pensamento do momento anterior e se apropria dele, juntamente com tudo o que este último considera seu”
- A “experiência pura” é concebida como o imenso fluxo vital que fornece o material para a reflexão ulterior — noção que remete a Mach e Avenarius, enquanto o “fluxo vital” evoca o élan vital de Bergson
- A relação sujeito-objeto é, para James, derivada
Conceber a mente como instrumento de adaptação levou James a ampliar o objeto de estudo da psicologia, incluindo condicionamentos sociais e fenômenos como hipnotismo, dissociação e subconsciente.
- James não apenas conduziu análises refinadas e críticas agudas sobre esses temas, como delineou núcleos doutrinários posteriormente desenvolvidos pelo comportamentismo, pela psicologia da Gestalt e pela psicanálise
A Questão Moral: Generalização e Escolha dos Ideais
A ética de James, presente em vários escritos e explicitamente desenvolvida em O Filósofo Moral e a Vida Moral (1891) e A Vontade de Crer (1897), parte da premissa de que as questões morais não podem ser decididas pelo recurso às experiências sensíveis.
- “As questões morais, antes de mais nada, não são do tipo cuja solução possa esperar por uma prova tangível” — uma questão moral não é sobre o que existe, mas sobre o que é bom ou seria bom que fosse
- A ciência pode dizer o que existe ou não existe, mas para as questões mais urgentes é preciso consultar as “razões do coração”
- Há decisões inevitáveis sobre o sentido último da vida, a liberdade humana, a dependência do mundo de uma inteligência ordenadora e a unidade monística do mundo — questões teoricamente irresolvíveis que só podem ser enfrentadas por uma escolha pragmática
Não é a Ciência que nos Diz o que é Bom e o que é Mau
Os fatos físicos existem ou não existem e, como tais, não são bons nem maus; o bem e o mal existem apenas em referência ao fato de satisfazerem ou frustrarem as exigências dos indivíduos, gerando um universo de valores frequentemente em conflito.
- “Ser melhor não é uma relação física” — o bem e o mal existem apenas em relação às exigências dos indivíduos
- As exigências individuais, refletindo enorme variedade de impulsos e necessidades, geram um universo de valores muitas vezes contraditórios
- Devem ser preferidos os ideais que, se realizados, impliquem a destruição do menor número possível de outros ideais e resultem no universo mais rico de possibilidades
- Esse universo não é dado, não está garantido, e se apresenta como mera regra caracterizadora da vontade moral enquanto tal
Poucos filósofos exaltaram as energias do indivíduo como James, que o defendeu contra toda forma de autoritarismo e absolutismo ideológico, destacando sua iniciativa e originalidade frente ao determinismo social.
- Contra Spencer — para quem a ordem moral resultaria de um progresso contínuo e necessário, indiferente às iniciativas individuais — James, em Os Grandes Homens e seu Ambiente (1880), sublinha a iniciativa e a originalidade do indivíduo na esteira da ideia darwiniana das variações espontâneas sobre as quais o ambiente age
- As comunidades definham sem o impulso inovador e criativo dos indivíduos; os impulsos, por sua vez, morrem sem a simpatia das comunidades
- James valorizava o respeito pelos outros, a tolerância das ideias e a preocupação para que os melhores talentos e qualidades excelentes pudessem se afirmar
- Em 1903, James escrevia: “O grande partido internacional e cosmopolita da liberdade… Nós somos apenas sua seção americana, que luta contra as forças das trevas daqui… a luz contra as trevas, o direito contra a tirania, o amor contra o ódio”
- Em O Equivalente Moral da Guerra (1904), James propunha uma conscrição civil — e não militar — na qual as virtudes militares se exerceriam contra as adversidades da natureza e em obras de justiça social, rumo a “il graduale avvento di una specie di equilibrio socialista”
A Variedade da Experiência Religiosa e o Universo Pluralístico
A obra A Variedade da Experiência Religiosa (1902) propõe uma rica fenomenologia da experiência religiosa, em oposição à leitura positivista que a associava a fenômenos degenerativos.
- James, como empirista radical, recusa que o levantamento da riqueza das experiências humanas seja bloqueado por juízos de valor
- A vida religiosa é inconfundível: coloca os homens em contato com uma ordem invisível e transforma sua existência
- O estado místico é, segundo James, o momento mais intenso da vida religiosa, operando como ampliação do campo perceptivo e abrindo possibilidades inacessíveis ao controle racional
- A atitude mística não pode se tornar garantia de uma teologia particular — para James, a experiência mística deve ser defendida da filosofia
James passa da descrição à valoração da experiência mística, concebendo Deus como ser que potencializa as ações humanas em um universo pluralístico, sem ser responsável pelo mal.
- Deus é concebido como “a alma e a razão interior do universo” — uma pessoa espiritual que transcende o ser humano e o convida a cooperar
- Em Um Universo Pluralístico (1909), James tenta libertar a experiência religiosa da angústia do pecado, arraigada na tradição puritana da Nova Inglaterra
A Concepção de um Deus Finito
James concebe Deus não como a totalidade das coisas, mas como sua tendência ideal — um ser sobre-humano finito, que opera em um ambiente externo, tem inimigos e limites, e convida à cooperação.
- “Deus… não representa a totalidade das coisas… mas apenas sua tendência ideal; é uma pessoa sobre-humana que nos chama a cooperar com seus desígnios”
- “Eu, por outro lado, acredito que o único Deus digno desse nome deve ser finito” — o absoluto, se existir, é a totalidade mais ampla da qual Deus representa apenas a porção ideal
- O absoluto dificilmente pode ser compreendido como hipótese religiosa no ponto de vista comum dos seres humanos — “emoção cósmica” seria o nome mais adequado para a reação que pode suscitar
- Segundo James, Deus não é o todo; é, para usar a imagem de Whitehead, um Deus-companheiro
Ao contrário de Huxley — para quem a religião era “um abismo de imoralidade” — James volta-se à religião com olhar profundamente humano, tratando-a como postulado prático e hipótese vital fruto de uma escolha inevitável.
- O ser humano religioso empenha na sua fé seus dias e seu destino, descobrindo-se sem garantias e rico de possibilidades
- Diferentemente dos positivistas, James elaborou uma filosofia radicada na concretude, captando os elementos humanos e as exigências práticas urgentes ligadas à filosofia e à religião
- Em James confluem as esperanças e os entusiasmos do Novo Mundo e as tensões de uma sociedade industrial em expansão, mas ele jamais professou o culto da ciência
- James recomendava a ciência como fidelidade aos fatos e como baluarte contra o pensamento insignificante, mas sustentava que a vida vai além da ciência
- “A desumanidade das ciências” significava para James uma ameaça à felicidade e à realização do indivíduo
