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1 Conceito de leitura

WEIL, Simone; SPRINGSTED, Eric O. Late philosophical writings. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2015.

1. Um conceito ainda sem nome adequado encontra talvez na palavra leitura sua melhor designação, pois há na leitura um mistério cuja contemplação pode ajudar não a explicar, mas a apreender outros mistérios da vida humana.

2. A sensação é imediata, um fato bruto que apanha de surpresa, como o soco no estômago ou a queimadura que faz recuar a mão antes de se saber o que houve, e ninguém se espanta com esse poder porque se crê que ele vem de fora, da matéria, cabendo ao espírito apenas submeter-se, ao passo que os pensamentos formados por nós mesmos não nos agarram da mesma maneira.

3. O mistério está em que sensações quase insignificantes em si mesmas, como manchas negras sobre papel branco, agarram pelo que significam tanto quanto as mais fortes, como mostra a mãe que desmaia ao ler a carta anunciando a morte do filho enquanto outra, que não sabe ler, permanece impassível, já que não é a sensação, mas o significado, que fere o espírito de fora, como se a dor estivesse na própria carta.

4. A cada instante a vida é agarrada de fora por significados que nós mesmos lemos nas aparências, razão pela qual se pode discutir sem fim a realidade do mundo exterior, pois o que se chama mundo são significados lidos, não reais, que no entanto se impõem como externos, contradição que não cabe resolver, já que a tarefa mais importante do pensamento é definir e contemplar as contradições insolúveis que, segundo Platão, elevam.

5. O que é dado não são sensações e significados, mas apenas o que se lê, como mostram os estudos sobre testemunhos e a dificuldade da revisão de provas, em que se veem letras ausentes e é preciso forçar-se a ler letras em vez de palavras, sendo impossível, sem longo treino, olhar um texto impresso numa língua conhecida sem lê-lo.

6. A bengala do cego, exemplo caro a Descartes, oferece uma imagem análoga à leitura, pois o tato atravessa a pena até a ponta e o salto da pena é sentido diretamente, e do mesmo modo céu, mar, astros e seres humanos são lidos, de sorte que corrigir uma ilusão é modificar uma leitura, como quando o homem emboscado na estrada noturna se torna árvore, o odiado aproxima-se como o próprio odioso e Ester se aproxima não de Assuero, mas da própria majestade e do próprio terror que nele lê.

7. Assim como não se duvida do preto de um livro ou da data impressa num jornal, não se duvida de ter diante de si o odioso, o perigoso, o desprezível ou o amável, e quem lê de outro modo parece de má-fé ou louco, pois o medo nasce do perigo que se lê, e não o contrário, como na explosão ou no matraquear de uma metralhadora reconhecida, num processo que não é reflexo condicionado, mas algo análogo à leitura, em que até combinações inéditas de signos ferem irresistivelmente a alma.

8. Os significados, que abstratamente pareceriam meros pensamentos, surgem de todos os lados, apossam-se da alma e a moldam de instante a instante, de modo que se crê, se julga e se age conforme o que se lê, como na guerra civil em que homens armados leem nos desarmados a evidência de que é preciso matá-los, enquanto em tempo de paz se lê nas aparências a proibição de matar, e cada leitura atual, sem transição possível para outra, reduz as ideias opostas ao estado de fantasmas.

9. Há um poder indireto e limitado sobre o universo, que exige trabalho, para mudar as aparências e talvez também os significados nelas lidos, e o trabalho no sentido comum é exemplo disso, pois toda ferramenta é bengala de cego e toda aprendizagem é aprendizagem de leitura, como a do capitão experiente que, onde o passageiro lê caos e perigo ilimitado, lê na tempestade necessidades, perigos limitados, recursos e a obrigação de coragem e honra.

10. A ação sobre si mesmo e sobre os outros consiste em transformar significados, como quando uma declaração de guerra faz surgir novos significados em torno de quarenta milhões de pessoas ou quando o general leva os soldados inimigos a ler a fuga nas aparências, de modo que guerra, política, eloquência, arte e ensino consistem essencialmente em mudar o que os outros leem.

11. Na ação sobre si ou sobre outrem colocam-se o problema da técnica e o do valor, pois os textos que se apossam da alma e são substituídos por outros exigem uma norma para saber se um vale mais ou é mais verdadeiro que outro, e pensar um texto verdadeiro jamais lido supõe um leitor desse texto, isto é, Deus, o que gera contradição, pois o conceito de leitura não convém ao de Deus e, ainda que conviesse, não permitiria ordenar as leituras numa escala de valores.

12. Assim formulado, o problema concentra todas as questões concretas de valor, pois quem resiste a apropriar-se de um depósito não o faz por ter lido a Crítica da razão prática, mas porque algo no próprio depósito clama para ser devolvido, e buscar um critério para decidir entre essa leitura e a que vê nas aparências os desejos satisfeitos, bem como uma técnica para passar de uma leitura a outra, liga o valor à verdade, à beleza e ao bem, três coisas cuja conexão misteriosa talvez se esclareça, pois não se sabe pensá-las como uma só e no entanto não podem ser pensadas separadamente.

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