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vattimo:2018:1

1 Metafísica

VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.

1. Qual metafísica, qual necessidade?

1. Cabe perguntar antes de tudo se há ou não uma exigência, velha ou nova, de metafísica, já que num mundo em que o controle sobre a vida dos cidadãos e as políticas de segurança se tornam cada vez mais opressivos as verdades da metafísica tradicional parecem ser aquilo de que já não se necessita, sendo antes necessária uma atitude crítica que se despeça dos absolutismos do passado e de suas trágicas implicações sociais.

2. Responder a uma pergunta filosófica exige, como ensina Ser e tempo, questionar primeiro quem a formula, e, embora não seja claro de onde vem a demanda de metafísica, é evidente que a exigência de certezas seguras e indubitáveis sobre as quais fundar a vida individual e social é imposta pelas auctoritates, como mostram o apelo constante do papa a estruturas fixas e valores não negociáveis e, com outra autoridade e sentido, as pretensões das leis econômicas e dos valores que deveriam inspirar a política, como a tese de que a democracia deve impor-se no mundo pela guerra, mesmo violando os ordenamentos dos povos, assumindo a chamada comunidade internacional o dever e o direito de derrubar ditadores, como Kadafi e Assad, ou de intervir onde julgue violados os direitos humanos fundamentais, tese envolta numa aura de sacralidade muitas vezes usada para encobrir a imposição ideológica dos interesses de certos grupos, assim como as leis econômicas que se apresentam como objetivas, naturais como a lei da gravidade e resultantes de pesquisas científicas de sujeitos aparentemente neutros.

3. É provavelmente a referência científica à neutralidade, sobretudo a da ciência econômica, que leva a falar de uma nova necessidade de metafísica, devendo o termo ser entendido com ênfase no prefixo meta, para além de seu sentido literal grego, como exigência de algo além da física, isto é, além da certeza científica.

4. Essa necessidade pode ter origens diversas, pois, para a Igreja e as autoridades espirituais fundadas em certezas reveladas e transcendentes ou na constituição natural do homem e do mundo, que envolve também os direitos humanos, o além designa um conhecimento mais válido e superior ao da razão científica, configurando-se um conflito entre duas pretensões de absolutez, a das Igrejas e a da comunidade científica, que lembra a disputa medieval entre Papado e Império, analogia útil para ver a ciência como encarnação recente do poder secular oposto ao poder tradicional das auctoritates fundadas na transcendência, hipótese pertinente quando se considera que a ciência moderna se desenvolveu junto com o poder político e econômico, servindo-se hoje de máquinas e laboratórios caros que a obrigam a buscar financiamentos públicos ou privados aos quais deve prestar contas, orientando as pesquisas em certas direções, como armas em vez de fármacos ou remédios para as doenças dos mais ricos em vez das dos mais pobres.

5. Esses significados da necessidade de metafísica ligados a relações de poder suscitam a questão de saber se não haveria uma necessidade mais genuína, como a da Revolução Francesa, início da modernidade, cujo iluminismo e cuja Declaração dos direitos do homem e do cidadão também se apresentavam como posição metafísica, afirmando uma verdade universalmente válida para todo intelecto, mas sustentada por razões de poder, ou melhor, de falta de poder, pois as revoluções que afirmaram direitos humanos universais contra monarcas e classes dominantes não foram movidas pelo amor à verdade universal desses princípios, descobertos antes a partir da condição de exclusão, conforme a tese clássica, ainda metafísica, de Marx, segundo a qual o proletariado, excluído dos bens materiais e livre de interesses particulares, conheceria e encarnaria a verdade essencial da humanidade, residindo a diferença entre a necessidade metafísica das auctoritates, que lamentam a perda da moralidade civil e religiosa pelo niilismo pós-moderno, pelo multiculturalismo e pelo excesso de liberdade, e a das revoluções francesa e americana ou de todos os que se legitimam pelos direitos humanos universais no fato de que umas invocam a metafísica para conservar o status quo, a moral familiar tradicional, o poder sacralizado das hierarquias religiosas, a validade objetiva da ciência oficial ou a indiscutibilidade das opiniões dominantes da grande imprensa e da televisão, enquanto as outras apelam a ela como verdade crítica que se opõe ao status quo e pretende mudá-lo, como sugere o título de Richard Rorty segundo o qual, cuidando-se da liberdade, a verdade cuidará de si mesma.

6. Nessa perspectiva, a necessidade de metafísica nada tem de nova, coincidindo sua história com a do homo sapiens e do homo politicus que vive em sociedade diante de relações de poder, ao contrário do mítico animal das florestas na guerra de todos contra todos, que não precisava de metafísica para legitimar suas pretensões, e, se hoje há de fato uma nova necessidade, é porque paradoxalmente se retorna à condição mítica do homem primitivo, expressa no aforismo que abre Humano, demasiado humano, segundo o qual os problemas filosóficos têm hoje quase a mesma forma interrogativa de dois mil anos atrás, por viver-se numa sociedade capitalista de selvageria indiana, em que, segundo o niilismo invocado ao falar do pós-moderno, os valores supremos se desvalorizam e se difunde o politeísmo dos valores de que falava Weber, em que nada funciona como referência definitiva e é impossível falar do ponto de vista divino das verdades universais, exprimindo também os diversos significados da necessidade de metafísica esse politeísmo possibilitado pelo niilismo como evento.

7. A necessidade de metafísica caracteriza toda a história da civilização do homem que, vivendo em comunidade, requer legitimação tanto nas relações com os outros quanto perante sua consciência moral, frentes incorporadas nas expectativas da comunidade, e é hoje sentida de modo muito mais urgente porque as próprias condições da civilização conduziram ao politeísmo dos valores e à escola da suspeita, deixando-se de crer em pretensões universais pelo encontro, no mundo globalizado, com culturas e metafísicas diversas e pela contestação concreta do universalismo europeu e ocidental nas revoltas dos povos ditos primitivos, de modo que essa necessidade se apresenta em duas formulações irredutíveis, a das auctoritates interessadas em conservar a ordem que garante seu poder, sejam papas ou comunidades científicas autorizadas e financiadas por governos e empresas, e a dos excluídos que querem mudar o status quo e buscam legitimar seus projetos, tendo o meta dois sentidos, uma verdade além do visível e do conhecimento comum, em poder das auctoritates, ou uma verdade projetual fundada não em fatos e dados, mas na própria força do projeto dos excluídos.

8. Essa situação, que pode parecer perigosa e pouco filosófica para um contexto científico e acadêmico, remete a eminentes filósofos do passado, Nietzsche como teórico do niilismo consumado e Heidegger como crítico da metafísica enquanto pretensão de espelhar uma realidade, essências aristotélicas ou ideias platônicas, a ser respeitada também como norma de conduta, pois a morte de Deus, morto por seus próprios fiéis, corresponde ao que hoje se chama pós-modernidade, sendo a integração progressiva do mundo sob a pressão do poder técnico e político moderno que determina o fim dos valores e o politeísmo em que não há lugar para o universal, acrescentando Nietzsche o desejo de que surjam muitos deuses, isto é, morre o princípio unitário do mundo moderno, imperialista, colonialista, técnico-científico e metafísico, esgota-se a possibilidade de convivência pacífica assegurada pela unidade da dominação de Impérios, potências supranacionais e Igrejas, e os muitos deuses significam o reconhecimento de que existem muitas metafísicas que devem poder negociar seus espaços de validade, não sendo a verdade universal fundamento e princípio de tudo, mas algo que só pode ser alcançado ao final, pela negociação de um consenso livre entre os muitos deuses.

9. Na alternativa entre a metafísica das auctoritates e a dos excluídos, reconhece-se nesta última a metafísica boa, não só por amor aos excluídos nem pela simpatia ainda metafísica de Marx pelos expropriados que captariam a verdade sem véus ideológicos, mas por uma ideia de ser e de filosofia proveniente de Heidegger, que em Ser e tempo criticou definitivamente a concepção do ser como estrutura estável e dada a ser espelhada pelo pensamento e respeitada como norma, metafísica que exclui de seu perímetro a liberdade, a história e a abertura estrutural da existência, crítica formulada nos anos 1920 não só por razões teóricas, mas em consonância com artistas e intelectuais de vanguarda que reconheciam que a metafísica da objetividade produzira, ao fim de seu percurso, a objetivação universal do ser humano e preparara o que a Escola de Frankfurt chamaria sociedade da administração total, típica da razão totalitária, contra a qual Heidegger e os existencialistas opunham uma nova ontologia capaz de imaginar a liberdade e o futuro, e, como então, a nova exigência de metafísica não é teórica, mas nasce de uma administração ainda mais total e infinitamente mais visível, quando quase ninguém crê em verdades metafísicas universais e os novos deuses, ou o novo deus em que se possa esperar, já não podem ser o deus dos filósofos de Pascal, não podendo essa necessidade ser pensada como dado necessário ou verdade universal, diante das ruínas produzidas pelas pretensões universalistas do pensamento ocidental, perseguições religiosas, colonialismo e fundamentalismos de toda espécie, razão pela qual as forças da tradição, Igrejas, Estados, ciência oficial e ética, invocam a metafísica, aspirando, ao perder credibilidade, a controlar as consciências e a fé nos muitos deuses por princípios unificadores e absolutos, contra os quais se ergue a aspiração a uma metafísica que, segundo o lema de Rorty, promova a liberdade em relação à verdade objetiva, que sempre exige um poder absoluto para ser avaliada, sendo também metafísico o empenho necessário para tornar possível uma sociedade em que diversas metafísicas se confrontem livremente e negociem acordos sem se anular em nome de uma verdade absoluta, empenho mais ligado ao preceito religioso, não só cristão, da caridade do que à busca de princípios últimos que garantam a paz sob a condição de serem reconhecidos como verdadeiros.

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