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vattimo:2011:3.1

3.1 Hermenêutica anárquica

ZABALA, Santiago; VATTIMO, Gianni. Hermeneutic Communism: From Heidegger to Marx. New York: Columbia University Press, 2011.

A veia anárquica da hermenêutica

1. As histórias da hermenêutica filosófica divergem quanto à sua origem, situando-a ora no século XVII, quando Johann Dannhauer introduziu o termo latino hermeneutica como requisito das ciências da interpretação de textos, ora em Flácio, com a Clavis scripturae sacrae, ora em Aristóteles, com o Peri hermeneias, divergência que, além de pôr em dúvida a existência de uma origem ou desenvolvimento unificado, indica sua veia anárquica e sua oposição aos cânones históricos estabelecidos, sendo um dos raros pontos de acordo seu caráter de ação prática, em contraste com as imposições conservadoras das filosofias descritivas.

2. Essa ação prática remete à origem da disciplina em Hermes, mensageiro dos deuses célebre por sua velocidade, que exercia a atividade prática de transmitir anúncios, advertências e profecias do Olimpo, razão pela qual no Íon e no Banquete de Platão a hermenêutica aparece como teoria da recepção e prática de transmissão e mediação, devendo Hermes traduzir o que ultrapassa a compreensão humana numa forma inteligível, mas, acusado de furto, traição e anarquia por suas mensagens jamais exatas, ele mostra que a alteração do sentido original não é erro, mas a verdadeira contribuição da interpretação, que, diferentemente das descrições voltadas ao ideal de explicação total, acrescenta nova vitalidade ao sentido, essência vitalista na qual Dilthey, primeiro a traçar sistematicamente a história da hermenêutica, viu a prioridade da interpretação sobre a investigação científica, a crítica teórica e a construção literária.

3. Embora as alterações hermenêuticas atravessem toda a história da disciplina, em Orígenes, Agostinho e Schleiermacher, três pensadores de séculos distintos tornam particularmente evidente a veia anárquica do projeto político da interpretação: Martinho Lutero na religião, Sigmund Freud na psicologia e Thomas Kuhn na ciência.

4. A operação hermenêutica de Lutero dirigiu-se contra a hegemonia do magistério da Igreja Católica, que se pretendia única intérprete válida do texto bíblico, e suas Noventa e Cinco Teses e a tradução da Bíblia para o alemão provocaram uma revolta geral contra o papado, pois contra esse domínio espiritual, cultural e político Lutero sustentava que o sentido literal da Bíblia contém seu próprio significado espiritual e que ela interpreta a si mesma, valorizando tanto o texto linguístico quanto a capacidade do intérprete de julgar por si, já que a Escritura só é compreendida quando experienciada, de modo que a interpretação não pode ser ditada de cima, mas deve ser vivida a partir de dentro, fazendo parte da existência por trazer nova vitalidade ao texto e reforçar a própria fé do intérprete.

5. A tradução da Bíblia por Lutero constituiu uma operação política revolucionária fundada na natureza vital da interpretação, pois transformou um livro estrangeiro, acessível apenas por meio de um establishment imposto de cima, num documento aberto à interpretação de todos os alfabetizados, que passaram a lê-lo sem a permissão ou intervenção da Igreja Católica, impacto comparável ou superior ao de Dante na Itália ou de Rousseau na França e que levou Hegel a considerar Lutero, só por isso, um dos maiores benfeitores dos povos de língua alemã, de modo que, sem descartar as tradições da Igreja, também efeito da história da Bíblia, cabe reconhecer sua ação política de privar pela primeira vez o pontífice romano da autoridade absoluta sobre as Escrituras, defendendo os fracos e exercendo a natureza anárquica latente da interpretação ao reconhecer o direito de cada um de interpretar por si.

6. Assim como a operação de Lutero nasceu da rejeição da imposição eclesiástica, a revolução psicológica de Freud surgiu para superar os fatos impostos pela cultura científica positivista do início do século XX, cuja teoria empirista concebia a mente como tábula rasa sobre a qual se inscrevem impressões, compreensão comum também a Descartes que pressupunha valores morais correlatos no mundo social e fazia prevalecer a objetividade sobre o sujeito, reduzido a espelho da natureza, ao passo que Freud sustentou que as ações são motivadas não por mecanismos puros, racionais e lógicos, mas por forças, motivos e impulsos desconhecidos em constante choque entre consciente e inconsciente, de modo que formas de irracionalidade como autoengano, depressão, ambivalência e fraqueza da vontade, problemáticas no modelo cartesiano, tornaram-se parte da normalidade humana, transgredindo anarquicamente a linha divisória entre o ser humano racional ou normal e o irracional ou anormal.

7. Freud não se limitou a explicar a normalidade do anormal, mas mostrou que a relação dinâmica entre ambos é a mesma que existe entre o ser humano e a sociedade, na qual os problemas podem surgir de instintos reprimidos impostos de cima, de determinações inconscientes como as pulsões de morte ou sexuais, ou de suas interpretações objetivas pelas psicologias positivistas, que atribuíam o sofrimento do paciente à mera falta de informação sobre a própria vida, quando, na verdade, a mente implica fatores inconscientes que determinam os conscientes e rejeitam certas expressões, de modo que a interpretação é a única via de acesso à mente e a seus fatores não objetivos, e contra a interpretação dos sonhos por símbolos fixos Freud aplicou a associação livre, que obriga o paciente, e não o intérprete, a relatar pensamentos ocultos ou esquecidos, emancipação que lançou dúvidas irreversíveis sobre a formação objetiva da racionalidade humana.

8. A interpretação dos sonhos, publicada em 1900 contra as psicologias racionalistas da época, reconheceu que a meditação consciente não pode ser imposta aos sonhos, via régia para o conhecimento do inconsciente que as psicologias descritivas não conseguem percorrer por se limitarem às expressões conscientemente recordadas, e embora pouco reconhecido nas histórias da hermenêutica, o projeto freudiano desenvolve e radicaliza a hermenêutica psicológica de Schleiermacher e Dilthey, que duvidavam que o autor pudesse reconstruir o sentido de sua obra mesmo conhecendo todas as técnicas de sua produção, já que, assim como a reconstrução completa da vida de um paciente não resolve necessariamente seus problemas, a história da produção de uma obra não explica seu sentido ao autor, e por isso, como notou Habermas, Freud ultrapassa a arte da interpretação ao exigir que a análise apreenda não só o sentido de um texto possivelmente distorcido, mas o sentido da própria distorção do texto.

9. Thomas Kuhn também usou a veia anárquica da interpretação para libertar seu campo do objetivismo, mas, diferentemente de Lutero e Freud, reconheceu explicitamente em passagens autobiográficas o efeito fundamental da filosofia da interpretação sobre sua visão inovadora das revoluções científicas, razão pela qual Richard J. Bernstein viu nele um dos primeiros exemplos da recuperação da dimensão hermenêutica, isto é, interpretativa, da ciência.

10. Quando Kuhn publicou A estrutura das revoluções científicas em 1962, o domínio do empirismo lógico sobre a filosofia da ciência era incontestável, e a inovação científica só podia provir da acumulação de conhecimento como aproximação crescente da verdade, orientação normativa que, ao pressupor a verdade como única medida comum do desenvolvimento científico, desacreditava a história da ciência como mero registro de erros passados, ao passo que para Kuhn as mudanças históricas confirmam que a ciência não é uniforme, mas atravessa fases distintas nas quais não progride rumo à verdade, mas muda de paradigma, tornando as teorias antigas diferentes e não incorretas, relação que ele explicou, com Feyerabend, pela incomensurabilidade, segundo a qual ciências guiadas por paradigmas diferentes não compartilham medida comum porque os próprios padrões de avaliação mudam, de modo que a incomensurabilidade é interpretação, sem a qual cientistas antigos, medievais e contemporâneos teriam deduzido os mesmos resultados ao observar a lua.

11. O progresso científico consiste numa alternância entre ciência normal, semelhante à resolução de quebra-cabeças em que o êxito depende da observância estrita das regras, ciência revolucionária, que revisa crenças e métodos, e ciência extraordinária, que surge quando um paradigma dominante, modelo de problemas, métodos e soluções para uma comunidade científica, entra em crise diante de anomalias e discrepâncias que resistem às soluções esperadas e impossibilitam o progresso, momento em que o paradigma é questionado e emerge um rival que não o substitui simplesmente, pois de início permite apenas certo progresso ainda dependente da aceitação da comunidade, numa fase pré-paradigmática carente do consenso de que gozava a ciência normal, até que, aceito por um número maior de comunidades, o novo paradigma torne de novo possível o progresso coletivo e novas soluções de quebra-cabeças.

12. Das intuições hermenêuticas de Kuhn decorre que a verdade não é a principal preocupação que move o progresso científico e que o conhecimento científico muda não pelo confronto com fatos duros, mas por uma luta social entre interpretações concorrentes das comunidades científicas, de modo que a revolta de Lutero contra a autoridade pontifícia, a desmontagem freudiana da constituição racional da mente e a transgressão kuhniana do domínio do empirismo lógico sobre o desenvolvimento unilinear da ciência são igualmente anárquicas, por resistirem a convenções, estruturas e princípios, e hermenêuticas, por pressuporem a possibilidade, o projeto e o direito de interpretar de outro modo, direito no qual os fracos emergem politicamente como portadores de nova vitalidade, que desafia as normas conservadoras das filosofias descritivas e se torna o projeto sobre o qual Heidegger e Nietzsche definem a essência do ser humano.

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