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vattimo:2009:3.4

3.4 Conversão

Addio alla verità. 2009

Conversão e catástrofe

1. As religiões mundiais estão tão estagnadas que é difícil imaginar uma verdadeira conversão, pois ninguém se sente impelido a passar do catolicismo ao calvinismo ou vice-versa, e a conversão de um católico ao budismo ou ao hinduísmo exige apenas um acréscimo ou leve modificação de sua visão de vida, excluindo o princípio do diálogo a própria possibilidade de mudança dramática, quando há cinquenta anos Malaparte escandalizava a Itália ao pedir os sacramentos no leito de morte, enquanto mais recentemente políticos comunistas se declaram católicos e Fellini, que não investia muito no sistema de crenças sem ser anticlerical, foi assistido por um cardeal ao morrer, aversão à conversão que não é apenas italiana, como mostra a uniformidade política da União Europeia, a indistinção entre esquerda e direita, a perda de alteridade do mundo comunista após a queda do Muro e a amizade entre Putin e Berlusconi, e mesmo o caso do islamismo, que pune a conversão com a morte, revela que o risco da conversão se liga a seu aspecto político e público, e não a seu significado religioso e salvífico, tornando-se a divisão entre muçulmanos e cristãos sobretudo questão de pertencer a um lado, significado político enraizado na história do cristianismo europeu, em que povos inteiros se converteram pela conversão de seu soberano, nem sempre pessoal.

2. Hoje é muito difícil falar de conversão em sentido catastrófico, pela crescente espiritualização da religiosidade, que leva até os representantes oficiais das religiões a atribuir pouca importância aos sinais externos de pertença, e pela atitude geralmente pacifista da sociedade contemporânea, que confina a guerra à periferia do mundo desenvolvido ou à guerra ao terrorismo, que amplia a definição de crime a toda dissidência prática que perturbe a ordem jurídica, de modo que já não se é material de conversão, vivendo os cidadãos do Primeiro Mundo numa atmosfera de neutralização, no sentido de Carl Schmitt, talvez pelo domínio incontestado do império americano sem rival soviético e ainda sem rival indiano ou chinês, talvez porque os problemas gerais têm poucas soluções possíveis, com a ecologia e a sobrevivência impondo uma restrição técnica a todas as opções, enquanto terrorismo e crime local apenas os camuflam como estratagema consolador, cabendo perguntar se falar de conversão e catástrofe não tem também sentido consolador, fingindo-se crer que algo possa acontecer como transformação ou transfiguração, quando nada acontece e talvez nada possa acontecer sem que deixe de haver continuação e mundo novo em que viver, sem ser convocados a seguir o Messias ao Tabor e sem poder ali residir, situação que não se sabe se corresponde ao fim da história de Fukuyama, já que as coisas continuam e parece excluído justamente o que mais se deseja, conversão, catástrofe e revolução.

3. A experiência de conclusão vivida no plano da ação política e dos projetos teóricos, como no declínio do pensamento utópico, é sintoma do fim da metafísica, que termina com o domínio universal da técnica, realizando o sonho metafísico da organização universal dos entes numa estrutura cada vez mais previsível de causas e efeitos, sonho ainda não totalmente realizado, prolongando-se a longa despedida do Deus morto de Nietzsche, mas já real em termos sociais e políticos, de modo que parece cada vez mais impossível uma mudança radical, mesmo local como a Revolução Francesa, para não falar da Russa, vivendo-se no Gestell heideggeriano, traduzido como framework, que evoca a expressão policial de ter sido incriminado e enquadrado, preso numa rede sem saída.

4. Nem todos foram ainda enquadrados, sobretudo no Terceiro Mundo, estando o Segundo, Rússia e China, já absorvido pelo sistema econômico ocidental, o que ecoa a ideia de Marcuse de que o proletariado revolucionário estaria nas massas do Terceiro Mundo, e a única inovação política ocorre em países que resistem ao imperialismo americano, como Cuba, Venezuela e Bolívia, mas nem essas realidades anunciam uma revolução autêntica de tipo marxiano, nem se pode esperar uma mutação radical das relações de classe, pois, paradoxalmente, quanto mais as massas participam dos processos políticos, menos é possível vislumbrar mudança radical, como mostram os sindicatos, que lutam duramente contra o poder econômico, mas precisam obter melhorias ao final de cada greve e protegem o sistema contra o colapso geral, nunca sendo agentes revolucionários, cabendo perguntar se já houve uma revolução popular, o que nem a Francesa nem a Soviética foram, e reconhecer o caráter mitológico da ideia de mudança radical, expressão mais ideológica do que realista da necessidade de mudança em termos de conversão e catástrofe, sendo a própria conversão, como a de Paulo em Damasco, transmitida em textos mitológicos e não em primeira mão, como dizem os versos de Hölderlin segundo os quais o homem só suporta a plenitude divina por momentos, sendo depois a vida sonho deles.

5. A ideia de uma transformação radical e profunda da vida pessoal e da sociedade talvez já não seja pensável, não apenas como condição da modernidade recente, mas como indício do caráter mítico e ideológico da revolução, como sugere Sartre na Crítica da razão dialética, para quem o único momento autêntico da revolução é a fusão do grupo, experiência momentânea de plenitude divina logo seguida pela reconstituição das distinções burocráticas e de uma nova classe dominante, e, embora não se possa atribuir tais interesses a Heidegger, que após a aventura nazista evitou associar sua filosofia a situações políticas, o fim da metafísica inclui a condição social e política de seu mundo e do atual, sendo razoável, com base em seus textos, propor uma interpretação da Verwindung, distorção, aceitação e resignação, atenta a suas implicações políticas, sociais e psicológicas.

6. Evocar conversão e catástrofe exprime a necessidade de mudança radical e a consciência de sua problematicidade, ligada à unificação acelerada do mundo contemporâneo sob o impacto paralelo do imperialismo, da globalização econômica e da técnica, responsáveis pela ausência de evento autêntico, ausência expressa não só em Heidegger, para quem o ser é Ereignis, evento, mas também em Levinas e Derrida, que buscam a alteridade, o novo e o inesperado, e no esclarecimento rortiano da hermenêutica pela ciência anormal de Kuhn.

7. O conceito heideggeriano de fim da metafísica aponta também saídas dessa condição de finalidade, pois, ao tentar concluir Ser e tempo, Heidegger descobriu que a metafísica não pode ser superada, isto é, que revolução e conversão não são possíveis, restando apenas a Verwindung, palavra cotidiana investida de sentido especial como alternativa praticável à Überwindung, superação, à luz da qual conversão e transformação radical deixam de ser questões de escolha individual, razão pela qual a autenticidade, Eigentlichkeit, desaparece dos textos e cede lugar ao Ereignis, de mesma raiz etimológica, conduzindo a Kehre dos anos 1930 da postura existencialista às posições ontológicas tardias, em que a conversão concerne ao ser enquanto tal e não às relações individuais com os entes, ligando-se assim à possibilidade ou impossibilidade da revolução, pois é no mundo do fim da metafísica, do Gestell e da racionalização técnica generalizada, que homem e mundo perdem os traços metafísicos de sujeito e objeto, como confirmam descrições sociológicas da ausência de evento autêntico e da falta preocupante de projetualidade do mundo desenvolvido, voltado apenas a manter seu modo de vida, privilégios e consumo, do qual a guerra ao terrorismo faz parte, e do Terceiro Mundo dominado pelo mesmo modelo, de modo que o lema da história parece ser que quanto mais muda mais permanece igual, e a dificuldade heideggeriana de superar a metafísica é também o sentido da experiência do sonho impossível de conversão.

8. Resta saber se a Verwindung oferece uma saída real ou apenas uma postura subjetivista de distanciamento irônico diante da ordem política, econômica e técnico-metafísica existente, já que, significando comumente convalescença, continuar trazendo as marcas de uma doença curada, parece indicar atitude passiva e fatalismo ontológico semelhante ao momento estoico e cético da Fenomenologia hegeliana, mas o prefixo ver- alude também a uma distorção, mudança de direção, leve desvio, de modo que sua importância reside na alusão a uma mudança factível, em lugar da superação e da revolução, justamente por não incluir a força e a violência de uma transvaloração geral de todos os valores, sem ser mudança puramente interior, pois em 1933 Heidegger não pensava numa conversão íntima, mas, erradamente, num esforço histórico e político de transformação, e a ideia de Verwindung, surgida mais tarde, é em parte distanciamento desse erro, que era também um mal-entendido de sua própria diferença ontológica ao supor que o ser pudesse ser novamente experimentado como plenamente presente, sendo legítima uma leitura política desse conceito, já que Heidegger não se interessava por mudanças puramente teóricas, de modo que se trata de uma Verwindung não só para filósofos, mas para o mundo, sem renunciar à pretensão de universalidade da filosofia, pois tomá-la como saber especial e disciplina acadêmica, à maneira de John Searle, implica um compromisso com a ordem estabelecida e com uma divisão do trabalho que exclui de antemão qualquer necessidade de conversão, modo que nem Husserl, em seu momento mais científico, aceitaria, por ver o filósofo como profissional da condição humana.

9. Husserl e toda a tradição conceberam a filosofia como conversão e revolução, e a novidade da Verwindung heideggeriana é que, como Marx, não crê numa conversão puramente interior, mas inclui a condição geral do mundo, o Gestell, que Marx chamava sociedade capitalista, e, diferentemente de Marx, considera que no mundo do fim da metafísica conversão e revolução já não são possíveis, restando apenas a Verwindung.

10. Como algo mais do que postura espiritual e subjetiva do filósofo ou intelectual público, a Verwindung encontra exemplos na desconstrução de Derrida e no princípio de anarquia de Reiner Schürmann, mas o intelectual que leva a sério a tarefa da conversão não pode limitar-se à desconstrução puramente textual dos seguidores americanos de Derrida nem pensar a anarquia apenas teoricamente como distanciamento genealógico dos primeiros princípios da metanarrativa metafísica, devendo converter-se no sentido de buscar contato prático com os fenômenos de desconstrução prática da ordem ainda metafísica da sociedade, que não pode ser radicalmente superada, já que nenhuma revolução do proletariado mundial teria êxito nas relações reais de poder, mas pode ser distorcida pelas múltiplas iniciativas anárquicas de resistência que surgem aqui e ali no Gestell, sem esperança metafísica de construir uma nova ordem global, sonho já esgotado da filosofia tradicional, sendo talvez essa a única conversão possível.

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