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4.5 Escanção

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

O MOMENTO DO CORPO

O ESCANÇÃO ELOQUENTE

1. Nos dois domínios que constituem o homem, alma e corpo, Montaigne está decidido a escutar a experiência íntima e direta de preferência ao que dizem e prometem as artes especializadas, quanto à alma a teologia e a filosofia e quanto ao corpo a medicina.

2. As artes que nos prometem a saúde do corpo e da alma muito prometem mas não há nenhuma que cumpra menos suas promessas, e entre nós os que exercem essas profissões são os que menos mostram sua eficiência, podendo-se dizer deles que vendem drogas medicinais mas não que sejam médicos.

3. Montaigne vai aplicar-se em inverter os papéis, pois no lugar das artes que fazem da vida seu objeto e pretendem dirigi-la coloca a própria vida tal como dela tem diretamente a experiência, elevando-a à categoria de arte, e seu ofício e sua arte é viver.

4. O sujeito singular se liberta do discurso geral que a ele se refere e reivindica para si mesmo apenas para si a autoridade do saber, de um saber radicalmente diferente do qual vimos que quase se confundia com o sentir.

5. Montaigne se diz convencido de que no que concerne ao corpo esse novo saber nascido da experiência própria torna supérflua a intrusão de toda regulamentação externa, e a concorrência com a ciência médica não o assusta.

6. Ele pode apoiar-se mesmo em autoridades antigas e toma como garantia em primeiro lugar o imperador Tibério e depois mais honrosamente o Sócrates das Memorabilia e o Platão da República, os quais asseguram que a experiência pessoal da doença, da dieta e da terapêutica constitui a condição necessária e suficiente para se manter com saúde.

7. A plena autarquia pretende que o indivíduo deva seu regime apenas a si mesmo e que seja em qualquer circunstância o seu próprio curandeiro, e quando se trata de medicina a experiência está à vontade e a razão cede-lhe seu lugar.

8. Dizia Tibério que bastava ter vivido vinte anos para saber o que nos convém e o que nos é nocivo e poder portanto dispensar o médico, e deve ter aprendido isso com Sócrates, o qual recomendava a seus discípulos como estudo principal o da própria saúde.

9. Proclamando a medicina que assenta seus mandamentos na experiência, observa Platão que o médico precisava então ter sido vítima de todas as doenças que pretende curar e nas circunstâncias em que lhe cumpre pronunciar-se, assim para curar a sífilis devia primeiramente contraí-la.

10. Os testemunhos antigos invocados por Montaigne tratavam de uma medicina cujos meios de ação consistiam principalmente na dietética, compreendida não apenas como a disciplina do regime alimentar mas também como a regulação salutar do conjunto das atividades e do estilo de vida do indivíduo.

11. Montaigne toma como aliados homens que combatiam a profissionalização do conhecimento da dieta, especialização erudita que os escritos hipocráticos mais antigos atestam que não era evidente para todo mundo.

12. Às três autoridades invocadas por Montaigne acrescentam-se os argumentos extraídos da ampla tradição primitivista veiculada pela literatura da Antigüidade, pois os homens das primeiras eras por ignorantes que fossem levavam uma existência mais inocente, mais feliz e sobretudo mais sã.

13. Nesse aspecto Montaigne representa um elo importante entre o primitivismo dos antigos e as idéias antimédicas que Rousseau exprimirá no Discurso da desigualdade e no Emílio e cuja repercussão é ainda perceptível nos debates de nossa época.

14. Projetando no mundo dos canibais as imagens míticas da idade de ouro, Montaigne não deixa de celebrar a perfeita saúde de que gozam, pois a região em que esses povos habitam é muito agradável e o clima é temperado a ponto de raramente se encontrar um enfermo.

15. Na Apologia de Raimond Sebond Montaigne atribui nossas doenças tanto à agitação de nosso espírito quanto ao nosso recurso intempestivo aos serviços da medicina, e compara a existência de um homem escravizado a essas idéias imaginárias com a de um lavrador que se entrega ao fluxo normal da vida sem se preocupar com o que diz a ciência.

16. Dizem que no Brasil as pessoas só morrem de velhice, o que se atribui à pureza e à calma do ar que respiram e que a seu ver provém antes da serenidade e da tranqüilidade de suas almas isentas de paixões, de desgostos e de preocupações que excitam e contrariam.

17. Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade, e Montaigne estabelece perfeita homologia entre o selvagem e o homem do povo, da qual Rousseau mais uma vez se lembrará.

18. Não há povo que não tenha permanecido durante séculos sem médicos e esses séculos, os primeiros, foram sempre os mais felizes, e entre nós o povo miúdo passa muito bem sem eles, podendo essa denominação de medicina aplicar-se a tudo o que contribui para a conservação da saúde.

19. Para desqualificar a medicina das universidades e a linguagem doutoral dos sábios, Montaigne apenas retoma objeções antitécnicas bastante clássicas e apela a um discurso devidamente transmitido pela cultura, a apologia da apatia como prevenção da doença e o elogio da automedicação instintiva, a fim de lançar a dúvida sobre os benefícios ilusórios da cultura.

20. Atribuir por exemplo a saúde dos indígenas do Brasil à tranqüilidade e serenidade de suas almas antes que às vantagens do ar não é afastar-se da linguagem médica, é fazer uma escolha entre duas das categorias causais estabelecidas pela própria medicina, entre as seis coisas não naturais cujo bom uso constitui a higiene.

21. Montaigne no entanto fala como leigo, como simples particular, e faz questão de o fazer saber, não se autorizando com nenhum título para desenvolver suas objeções contra os práticos portadores de diplomas.

22. No que bem se vê que Montaigne já não pertence à era na qual a renascença das letras está acompanhada do respeito por todas as fontes da Antigüidade, mas pertence bem mais à época mais tardia em que o espírito crítico de início desenvolvido para reconstituir o texto dos antigos volta-se contra as doutrinas que esses textos veiculam.

23. Montaigne se pretende plenamente livre dos conceitos e dos decretos de uma ciência que outros persistem em reverenciar mas que são contestados de dentro por seus representantes dissidentes, e ele prefere escutar não os discursos dessa ciência mas o objeto de que fala, nosso corpo, que pode igualmente falar em seu lugar e de maneira mais direta.

24. Montaigne propõe de início para seu uso pessoal mas com a preocupação de nos conquistar para a sua causa uma antimedicina fundada no que aprendeu sobre seu próprio corpo e não no que dele diz a duvidosa técnica que se atribuiu competência na matéria.

25. A ciência do corpo pode e deve compreender-se como ciência possuída pelo corpo e não como ciência aplicada a descrever o corpo e a manipular-lhe as energias íntimas sem eficácia demonstrada, e é preciso que o corpo com a discreta assistência de nosso julgamento pessoal torne-se o sujeito de seu próprio conhecimento.

26. Semelhante apelo à sabedoria do corpo que confia contra o obscurantismo dogmático no obscuro trabalho em nós das forças naturais inscreve-se na contracorrente de um poderoso impulso da renascença científica que visa corrigir e superar os mestres da Antigüidade particularmente na descrição do corpo humano.

27. Montaigne convida a renunciar à medicina no momento mesmo em que outros trabalham com sucesso em aperfeiçoá-la, pois estes pela dissecação, pela exigência do olhar e pela preocupação com a minuciosa representação gráfica depuram e enriquecem o conhecimento do organismo humano em sua qualidade de objeto natural.

28. Os progressos da anatomia desde Da Vinci e Vésale fizeram do corpo um espetáculo a céu aberto no estado de cadáver anônimo exposto à vista dos observadores que povoam as arquibancadas de um teatro anatômico, e em prazo mais ou menos longo esse inventário exato aumentará os poderes de uma ciência cujas promessas Montaigne considera ilusórias.

29. Ora tudo o indica, Montaigne permanece indiferente às correções objetivas que a ciência anatômica rejuvenescia fornece às velhas ideias aceitas, e enquanto os anatomistas refutam as asserções de Galeno e o ultrapassam em precisão Montaigne retorna bem aquém de Galeno a um socratismo que confia ao indivíduo vivo o cuidado de regular ele próprio todos os aspectos de sua vida.

30. Mas esse retorno a uma atitude deliberadamente reconduzida para aquém das ambições do conhecimento objetivo faz de Montaigne à sua revelia o precursor do protesto que se desenvolverá uma vez estabelecida a descrição sistemática do corpo humano estudado nos parâmetros da substância extensa.

31. Embora o conhecimento do corpo objetivado apreendido na terceira pessoa esteja longe de estar acabado, cada uma das grandes etapas em que se aperfeiçoava o modelo verossímil de um corpo-máquina suscitou a réplica de um pensamento adverso que recusava em nome da experiência íntima as demonstrações que faziam do homem uma coisa sem relação com a apreensão direta da subjetividade viva.

32. Isso significa afirmar igualmente a atualidade de Montaigne, que nesse e em muitos outros aspectos é o precursor mais direto de Rousseau, e seu recuo para uma sabedoria pré-científica prefigura a reflexão que somos inclinados a encetar em uma situação que se pode qualificar de pós-científica.

33. Sua nostalgia de uma saúde conservada sem arte aparenta-se incontestavelmente à necessidade que experimentamos hoje de uma arte que completasse em nossa experiência corporal os poderes puramente práticos de que a técnica e a ciência nos dotaram.

34. Em diversas épocas os desenvolvimentos da ciência objetiva e racional suscitaram a confusa rebelião daqueles que consideravam que tal saber por suas generalizações abstratas exercia o seu rigor contra a essência concreta e contra a originalidade singular de seu objeto.

35. Quer se trate do mundo natural quer do próprio homem, a manobra defensiva consiste em restabelecer esses objetos em sua dignidade e em suas prerrogativas de sujeitos aptos a apreender-se a si mesmos imediatamente.

36. O que Montaigne exporá de sua saúde corporal será portanto uma antimedicina mas habilitada a fazer frente à medicina pelo fato de que pode com mais razão invocar a experiência em que a medicina assenta seus mandamentos.

37. A relação de autor a leitor no que tem de singular será o veículo desse saber rebelde que se manifesta em uma livre conversação sobre o prazer de viver, e confie-se então na experiência de um indivíduo único, concedendo-se-lhe tomar como destinatário não a comunidade erudita mas outro indivíduo singular.

38. Montaigne viveu bastante para que se julgue no direito de expor as práticas que o levaram tão longe, e quem o quiser tentar que atente para suas informações.

39. Na frase que acabamos de ler o ensaio tal como nele se exercita Montaigne vê-se atribuir uma acepção suplementar, pois pelo jogo de uma metáfora que com igual direito poderia passar por uma metonímia o ato sensível da gustação designa a experiência corporal em seu conjunto.

40. A metáfora gustativa se duplica aqui com uma metáfora convival, pois Montaigne fez o ensaio dos pratos e das bebidas no banquete da vida antes do leitor que se decidirá talvez a reunir-se a ele, a festejar com ele, imitando-o.

41. Essa antimedicina substitui o conhecimento pelo gozo assim como substitui a experiência raciocinadora pela experiência íntima e como retém no complexo semântico da palavra arte a acepção que lhe associa a produção do prazer e não mais a que a liga a uma habilidade técnica.

42. A techné do médico é suplantada pelo saber viver do indivíduo exposto à doença, e é preciso restituir a essa frase toda a sua energia paradoxal.

43. Dizer o acontecimento corporal naquilo que pode ter de único e de não repetível, Montaigne o fizera no relato de sua queda de cavalo e de seu desfalecimento, e esse acontecimento mais tarde podia ser interpretado como o ensaio antecipador de sua perda mais decisiva, a morte.

44. Mas como dizer o uso da vida, o costume corporal, não é mais questão de um relato, é preciso descrever o detalhe dos hábitos, e ainda que se estivesse resolvido a falar displicentemente é preciso adotar certo sistema de referências para evocá-los.

45. Onde encontrar esse sistema senão no uso descritivo comum tal como foi ele próprio profundamente influenciado pelo discurso médico, pois a atenção se dirige a uma ordem de fatos cuja importância e cujo caráter de realidade foram constituídos geração em geração sob a influência dos conceitos fixados pelos médicos.

46. Montaigne anuncia que exporá as práticas que o levaram tão longe ao sabor da memória, mas a própria lembrança não revela tudo e não reteve tudo, escolheu os materiais que lhe pareciam dignos de expor, e sua escolha e sua própria percepção foram guiadas por uma linguagem em que as categorias médicas desempenham um papel maior do que ela presume ou reconhece.

47. Para dizer o corpo melhor do que o faz a medicina é preciso encontrar uma linguagem adequada e inteligível, e a linguagem comum oferece seus serviços, ora ela está criada de reminiscências médicas, daí a dificuldade de sair da linguagem médica para falar no caso contra a medicina.

48. O leitor por pouco que tenha percorrido os livros médicos da época perceberá que Montaigne só pode narrar-se apropriando-se da linguagem dos médicos, fazendo uso de suas categorias e virando-as em seu proveito segundo a regra que aplica em todos os seus empréstimos.

49. Desse recurso sub-reptício aos conceitos da medicina e da modificação que Montaigne lhes impõe ao inseri-los em suas afirmações pessoais, um excelente exemplo nos é fornecido por um detalhe, a conclusão do ensaio Do arrependimento.

50. Montaigne podia ter lido em Ambroise Paré que a velhice por mais bem-disposta que seja é por natureza como uma espécie de doença, e Paré daí concluía que parece melhor nutri-la com alimentos contrários a seu temperamento para retardar as causas da morte, frialdade e secura, que a persegue bem de perto.

51. Montaigne no último parágrafo do ensaio Do arrependimento o repete mas segundo o seu ritmo e em um movimento de invenção pessoal em que a reflexão moral se poetiza, pois parece-lhe que na velhice nossas almas estão sujeitas a doenças e imperfeições mais importunas do que na mocidade.

52. É uma doença terrível que se infiltra naturalmente em nós sem que o percebamos, e é preciso ter-se preparado cuidadosamente e tomado grandes precauções para evitar a decadência com que nos castiga ou ao menos para atrasar-lhe a marcha.

53. Sinto que apesar de toda a minha resistência ela ganha terreno palmo a palmo, luto na medida de minhas forças mas sem saber até onde poderei chegar, e o que quer que aconteça entretanto quero que saibam de que altura cai.

54. Quanto ao valor terapêutico do calor contra a frialdade e secura da velhice, Montaigne também não o esquecerá, mas é no capítulo A propósito de Virgílio que dele falará não a propósito dos alimentos mas do reaquecimento provocado pelo amor, que poderia ser aprovado pela arte médica como um antídoto apropriado.

55. As páginas sobre A força da imaginação comportam ideias e exemplos amplamente influenciados pelos escritos do filósofo-médico Ficino e muitas vezes alegados na literatura médica.

56. O longo desenvolvimento que Montaigne consagra à sua saúde corporal em Da experiência pode inscrever-se quase inteiramente sob a rubrica do que a medicina denomina coisas não naturais ou coisas indiferentes, nome que lhes é dado porque não estão diretamente ligadas à natureza dos indivíduos mas à maneira pela qual ordenam ou sofrem suas condições de existência.

57. As coisas não naturais são em si indiferentes mas o uso que delas fazem os indivíduos pode influir em sua saúde, e nesse domínio da higiene o médico leva em consideração a maneira de viver de seu paciente e o interroga sobre seus hábitos.

58. Paré expõe excelentemente a opinião reinante ao dizer que tais coisas estão compreendidas na segunda parte da medicina dita Higiene, não porque algumas delas sejam sempre salubres e outras insalubres por sua natureza mas apenas porque são feitas ou tornadas tais por uso cômodo ou incômodo.

59. Tal uso consiste em quatro condições, a saber, em quantidade e qualidade, na ocasião e na maneira de usar que se observares farás com que essas coisas que de si são indiferentes sejam sempre salubres, pois dessas quatro dependem todas as regras e preceitos dessa parte da medicina.

60. Essas coisas não naturais como diz Galeno estão compreendidas entre quatro gêneros e expressões universais que se chamam sumenda, admovenda, educenda e facienda, e comumente são divididos em seis: o ar, beber e comer, trabalho ou exercício e repouso, dormir e velar, excreção e retenção, e as perturbações da alma.

61. Paré toma o cuidado de acrescentar que em todos esses domínios e especialmente no que se refere à alimentação é preciso ter a maior consideração pelo costume, o qual contribui para o temperamento próprio do indivíduo.

62. Não é suficiente apenas ter conhecido a quantidade e qualidade dos alimentos mas é preciso também prestar atenção ao costume e maneira de tomá-los, se é verdade que segundo o dizer dos principais médicos o costume é outra natureza, pois este algumas vezes muda o próprio temperamento natural e deixa outro adquirido.

63. Portanto o costume deve ser conservado não apenas nos sãos mas também nos doentes, pois se prontamente o quereis mudar de pior para melhor fareis certamente mais mal do que bem.

64. Devemos surpreender-nos de ver Montaigne ao começar o desenvolvimento de Da Experiência sobre a saúde corporal insistir no império do costume, e existe aí da parte de um homem que quer libertar-se da tutela médica uma excessiva docilidade à própria linguagem dos médicos.

65. Doente ou com saúde seu modo de vida é idêntico, usa o mesmo leito, as horas de refeição não mudam, come e bebe as mesmas coisas, nada acrescenta nem retira, apenas faz o que exigem sua disposição e seu apetite, e consiste sua saúde em manter sem perturbações o seu estado habitual.

66. Montaigne crê firmemente que não podem prejudicá-lo as coisas a que está há tanto tempo acostumado, pois nossos hábitos moldam nossa vida a seu bel-prazer como a bebida de Circe que modifica a nossa natureza a seu talante, e quantos povos não consideram ridículo o nosso medo do sereno e como zombam disso os nossos campônios.

67. Montaigne se põe a enumerar exemplos surpreendentes dos efeitos do costume, e agora a crítica epistemológica do costume que impede nossos espíritos de apreender a verdade nativa cede o passo à constatação médica da necessidade para quem quer conservar sua saúde de não interromper uma maneira de viver habitual.

68. Por certo Montaigne não quis tornar-se escravo de seus hábitos, pois sua melhor qualidade consiste em ser flexível e pouco obstinado, mas com a idade o costume tornou-se mais imperioso e é longa a lista dos hábitos a que Montaigne não pode renunciar.

69. O hábito sem que o percebesse já imprimiu em mim sua marca e muitas coisas já considero difícil não as fazer ou as fazer diferentemente, e ele enumera uma longa série de pequenas necessidades que o costume lhe impôs.

70. Montaigne como se vê não contradiz aqui a medicina por seu exemplo particular, traz-lhe confirmação multiplicando os detalhes que o caracterizam na singularidade de sua existência, e quando generaliza redescobre num estilo mais expressivo a generalidade do discurso médico.

71. Segundo o dizer de Hipócrates as mutações súbitas e repentinas são perigosas, e por essa razão se queremos mudar a maneira de viver habitual que é viciosa é preciso fazer essa mudança pouco a pouco a fim de que a natureza não se irrite e que sem grande perturbação possa adquirir novo costume.

72. Montaigne o dirá mais sucintamente ao afirmar que não vê melhor meio de os enfermos assegurarem sua cura do que o de continuarem a levar a vida a que estão acostumados, pois qualquer mudança é prejudicial.

73. Em suma Montaigne preenche com base em sua experiência pessoal o questionário que a medicina coloca em termos gerais e do qual ele próprio enumerara as rubricas no ensaio final do segundo livro, quando evocara os múltiplos considerandos de que o médico devia manter-se informado com o risco de se enganar se um deles fosse mal estabelecido.

74. Montaigne não pode por certo dar resposta a todas as perguntas com que vê preocupada a medicina, e a posição dos astros e sua influência tão distante e tão conjetural o deixa indiferente, mas no que se refere à sua doença entreteve devidamente seu leitor no ensaio Da semelhança dos filhos com os pais insistindo no fenômeno quase miraculoso da transmissão hereditária.

75. Há nas obras da natureza qualidades e condições cujas causas escapam ao nosso entendimento, e prodigioso é com efeito o que o sêmen prolífico engendra e traz a marca não somente da constituição física de nossos pais mas ainda de seus pensamentos e tendências.

76. Ao indicar no sêmen prolífico paterno a causa necessária de seu mal, Montaigne não deixa de sublinhar os limites de nossa compreensão incapaz de apreender para além da causa necessária as verdadeiras causas suficientes.

77. Em matéria de patologia o paciente bem sabe que não é admitido no conhecimento das causas, mas com razão duvida de que o médico delas saiba mais do que ele, e o que dirá por ter tido a experiência das doenças que elas próprias são como animais que têm uma duração de vida limitada.

78. Essa concepção ontológica da doença cuja ideia Montaigne encontrou nos filósofos e nos médicos mas para a qual credita sua experiência própria ensinou-lhe ainda que a experiência não os perdoa por falta de paciência, pois os males têm sua vida, com limites determinados, suas doenças e seus estados de saúde.

79. No que se refere ao seu temperamento, sua temperatura e seus humores, Montaigne os deu a conhecer na própria linguagem da medicina no ensaio Da presunção, pois seu temperamento está entre jovial e melancólico, algo de sanguíneo, e portanto não terá de voltar a isso demoradamente.

80. Essas confidências puderam parecer fúteis ou escabrosas a leitores que não estavam a par das matérias a que se referia sistematicamente a pesquisa do médico, mas ao examiná-las de perto não há nada do que Montaigne evoca que aparentemente se obrigar ao menor movimento sistemático.

81. Seguindo a ordem em que são enunciadas por Ambroise Paré, Montaigne quase se deixou persuadir de que o sereno é mais perigoso antes do pôr-do-sol, e sobre o beber e o comer falará várias vezes segundo seu procedimento casuístico.

82. A questão do jejum, da quantidade de alimento e do ritmo das refeições ocupa os parágrafos seguintes, e quanto ao beber o desenvolvimento é retardado pela interposição de um breve parágrafo consagrado ao vestuário, que também faz parte tradicionalmente da higiene médica.

83. Sobre o dormir e velar e em seguida sobre o trabalho, exercício e repouso, Montaigne tem muito para nos dizer, e não é sem importância que a primeira das ações que menciona seja o falar, pois verifica que quando está doente ou machucado falar o cansa e o prejudica tanto quanto uma loucura qualquer.

84. Já que a questão da vigília e do sono se liga tradicionalmente à do exercício, não se ficará surpreso de que Montaigne depois de ter confessado sua propensão para a preguiça passe ao outro extremo, sua capacidade quando é preciso de entregar-se a esforços contínuos sacrificando as horas que consagra habitualmente ao sono.

85. Montaigne faz questão de lembrar-nos de que aceitou bravamente seu quinhão de corvéias militares, e quando é preciso liberta-se dessa propensão para a preguiça e dá-se visivelmente bem, embora a mudança lhe seja penosa.

86. Nem tudo foi dito ainda sobre o exercício, e algumas páginas adiante depois de haver tratado do comer, do beber, do ar e de uma leve fadiga visual Montaigne acrescenta algumas informações como o fato de ter o andar vivo e firme.

87. Mas se trata já do problema mais particular das relações entre a alma e o corpo, e Montaigne reconhece a dificuldade que experimenta ao permanecer atento e calmo, e da mesma maneira a confidência relativa ao modo voraz com que come introduz a questão da concorrência entre comer e falar.

88. Nova rivalidade entre atividades corporais e espirituais, pois nossos deleites invejam-se mutuamente e lutam entre si, e Montaigne tratando ainda das coisas não naturais prepara já o tema da interdependência aceita entre alma e corpo que ocupará as páginas conclusivas do ensaio.

89. As transições são tão numerosas que tornam irreconhecível uma construção muito bem traçada em suas grandes massas, e é ainda no registro do exercício que se pode referir o que diz Montaigne da expressividade de sua fisionomia, pois seu rosto e seus olhos revelam imediatamente seu estado de saúde.

90. Trata-se no caso de sintomatologia médica, e o rosto é agora considerado espelho da saúde e da doença, mas quando a tez de Montaigne se alterava os médicos ficavam perplexos e não podendo descobrir uma causa orgânica ou humoral contentavam-se com a sexta das coisas não naturais, as paixões da alma, sem aí ver com maior clareza.

91. Ocorre então com os indícios relativos ao estado físico o mesmo que com os indícios de moralidade discutidos no ensaio sobre a fisionomia e mais geralmente com toda causalidade presumida, pois parece a Montaigne que as formas e as linhas do rosto pelas quais se inferem algumas características internas não têm relação direta com a beleza e a feiúra.

92. Mas antes das paixões da alma a lista que lemos em Paré mencionava a excreção e a retenção, e nesse ponto Montaigne responde escrupulosamente ao questionário, pois não há razão para que deixe em branco essa subdivisão.

93. Reis e filósofos precisam diariamente esvaziar os intestinos e também as mais belas damas, e Montaigne pode pois dizer o que pensa desse ato, sendo preciso também aí que um costume se imponha e que essa ação seja deixada para a noite em horas certas.

94. Indiscrição e impudor certamente, mas como omitir se se quer replicar ponto por ponto aos médicos um capítulo a que eles próprios atribuem tanta importância.

95. Quanto aos seus cálculos que fazem parte também do domínio das excreções, Montaigne consagra-lhes longo desenvolvimento, pois entre todas as suas condições corporais é a única em que a doença se imiscui, e em toda outra parte o costume estabelece um equilíbrio salutar enquanto aqui desponta ao contrário a ameaça interna.

96. Ora precisamente sobre esse ponto Montaigne faz questão de declarar uma vez mais como fizera no ensaio II, XXXVII seu antagonismo em relação aos procedimentos e aos comportamentos dos médicos, e o melhor partido que possa adotar declara ele é a resignação.

97. É injusto queixar-se do que pode ocorrer a todos, pois a gota, os cálculos e a indigestão são inerentes à idade como o calor, as chuvas e os ventos comuns às longas viagens, e é necessário aprender a sofrer o que não há como evitar.

98. Estabelecido esse princípio, que necessidade há de recorrer aos médicos sobretudo quando sua intervenção se limita a formular previsões alarmantes, pois mesmo quando sente que a saúde se altera consulta raramente os médicos porque são indivíduos que quando nos têm nas mãos nos enchem a cabeça com seus prognósticos.

99. Vendo-o outrora abatido pela doença esmagaram-no ultrajosamente com sua ciência e suas atitudes ameaçando-o com dores violentas e até com a morte próxima, e isso não o desmoralizou mas irritou-o e magoou-o, e embora não se conturbasse o seu espírito sentia-se algo incomodado, e a discussão provoca agitação.

100. Agitação é uma paixão da alma, e a sexta das coisas não naturais se encontra assim estreitamente ligada à doença causada pelo distúrbio da excreção, pois segundo a doutrina médica geralmente ensinada as paixões da alma podem ora provocar a doença ora ao contrário ser agitadas pela doença.

101. Para Montaigne dizer como resiste aos cálculos é matar dois coelhos de uma cajadada, pois continua a prestar conta de suas excreções e nos revela o que são suas paixões diante dos cálculos em que bem sente que a morte o espreita.

102. Como se vê a importância do assunto requer um destaque todo particular, e Montaigne destina a essa matéria uma posição central no meio da parte mediana do ensaio consagrada a seu hábito corporal, e além disso vai dramatizar a questão dando-lhe um desenvolvimento considerável fora de proporção com os outros assuntos tratados.

103. Assim imediatamente depois de ter evocado a ciência dos médicos e seus veredictos brutais, recorre a uma longa prosopopéia para fazer ouvir um discurso dirigido em sentido oposto ao dos homens da arte, consistindo o procedimento em citar as palavras que seu espírito dirige habitualmente à sua imaginação para socorrê-la e reconfortá-la.

104. Sou todo cuidados com minha imaginação, se pudesse evitar-lhe-ia todo trabalho e pena, é preciso auxiliá-la, lisonjeá-la, enganá-la mesmo se possível, e é tarefa de que meu espírito entende e se soubesse persuadir como argumenta prestar-me-ia grande serviço.

105. O destaque adquire assim a forma de um discurso no discurso, e havia pouco no momento de começar a descrever seus costumes Montaigne apelara ao leitor, e agora o leitor é interpelado mais uma vez ainda mais diretamente.

106. Em meio aos múltiplos artigos fornecidos pela lembrança Montaigne dá a palavra a um novo locutor que vem ocupar a cena em seu lugar e requer a atenção redobrada do leitor, e nessa apóstrofe do espírito à imaginação um debate interior nos é relatado sob forma alegórica entre duas das faculdades que segundo a doutrina tradicional constituem o senso interno.

107. Duas instâncias do eu cindiram-se, pois um ele que é o espírito prega e tenta persuadir um tu que é a imaginação, isto é, o ser que corre o risco de inquietar-se e de se deixar ganhar pela perturbação e o sofrimento, e na hierarquia das funções do senso interno o espírito ocupa a posição superior.

108. Montaigne nos convida assim a ouvir um discurso que procede do mais alto recurso interior, em que o mal assustava antes de eu o conhecer e os gritos e lamentos dos que o exageram por falta de resignação faziam que o temesse muito.

109. O espírito acrescenta que se tens consciência encara o castigo como doce e paternal em comparação com outros, e que o mal que não se mereceu é o único de que se tem o direito de queixar.

110. Pensa como te chegou tarde a descarga no momento em que tua vida já se tornou vã e estéril, ela substitui os prazeres e as licenciosidades adolescentes, e tiras certa vaidade do receio e da piedade que a doença inspira.

111. É agradável ouvir dizer que energia, que paciência, pois vêem-te suar, empalidecer, tremer, vomitar sangue, verter lágrimas, expelir urinas espessas e escuras ou deixar de urinar porque um cálculo cruelmente se incrustou na uretra.

112. Não obstante conversas com os presentes como de costume, gracejas, desmentindo as dores com tuas palavras e superando o sofrimento, e essa apóstrofe em que são exibidos todos os recursos da retórica não esgota todos os argumentos dirigidos à imaginação pelo espírito.

113. Muito resta ainda por dizer, mas Montaigne muda de registro e à apóstrofe sucedem-se afirmações na primeira pessoa nas quais parece que Montaigne retoma a palavra como o fazia anteriormente ao dizer que é grato à sorte por o assaltar tão freqüentemente com as mesmas armas, moldando-o assim e educando-o e fortalecendo-o.

114. Poderíamos crer que Montaigne mais uma vez se dirige a nós diretamente como faz por toda a parte nos Ensaios, mas três páginas adiante saberemos que se tratava ainda de uma autocitação, isto é, de uma continuação do discurso no discurso.

115. Com esses argumentos uns fortes outros frágeis e agindo como Cícero agia no combate à velhice, essa outra enfermidade, procuro adormecer e distrair a imaginação e tento pensar as chagas, e se porventura vierem a agravar-se verei outras escapatórias.

116. A argumentação exemplar sobre os cálculos oferecida ao leitor na parte central do inventário corporal prolongou-se até essa espécie de conclusão, e no intervalo Montaigne nos terá dito em um alongamento que redige um diário de sua doença e que forja uma memória de papel.

117. A argumentação muda de natureza, pois de moral que era quando o espírito repreendia a imaginação não hesita em imitar a linguagem da medicina para arranjar uma hipótese encorajadora sobre o desfecho do mal, e os raciocínios elaborados por Montaigne assemelham-se surpreendentemente aos dos médicos mas para contradizê-los.

118. A idade atenuou o calor de meu estômago, menos bem-feita a digestão os alimentos alcançam os rins menos elaborados, e pode também acontecer que em dado momento se debilite igualmente o calor de meus rins e que não produzindo mais secreções arenosas tenha a natureza de inventar outro modo de evacuação.

119. Os anos acabaram com meus defluxos, por que não acabariam também com esses cálculos, mas que necessidade há de conceber hipóteses fisiológicas sobre a feliz evolução da doença e por que não considerar também o gozo que se experimenta por ocasião da remissão uma vez passada a crise.

120. Nada me parece mais delicioso do que o que sinto quando depois de expelir um cálculo recupero de imediato a saúde inteira e perfeita, e haverá na dor experimentada algo comparável ao prazer da repentina melhora.

121. Muito mais bela é a saúde depois da enfermidade e segue-a tão de perto que posso distingui-las ambas na sua luta encarniçada, e dizem os estóicos que os vícios são úteis porque valorizam a virtude, com maior razão pode-se dizer que a natureza nos deu o sofrimento a fim de realçar a excelência do prazer e da tranqüilidade.

122. Quando lhe tiraram os ferros sentiu Sócrates a sensação agradável de se libertar do entorpecimento que o peso causara às pernas e constatou então a estreita ligação existente entre o sofrimento e a volúpia, tão intimamente associados que se sucedem e se engendram reciprocamente.

123. Se na prosopopéia do espírito o acesso de litíase nos era representado em sua fase mais aguda, a nova argumentação apóia-se na acalmia que se sucede, e a experiência do alívio corresponde certamente a uma vivência corporal autêntica e sua transposição na metáfora da bela luz é ao mesmo tempo figura de linguagem e transcrição de uma sinestesia profundamente experimentada.

124. No entanto Montaigne faz questão de reforçar sua afirmação pela autoridade dos estóicos e pela de Sócrates, pois mesmo quando declara fazer pouco de toda ciência estranha não pode negligenciar testemunhos tão precisos para confirmar o que ele próprio sentiu.

125. Afinal precisa contar com a resistência ou com a má vontade do leitor diante da experiência individual exclusiva de Michel de Montaigne, e os que não quiserem admitir sua opinião sobre a ignorância humana hão de concordar diante do pensamento de Sócrates, o mestre dos mestres.

126. Com essas considerações a argumentação ainda não chegou a seu termo e ainda tem muitos outros recursos, pois Montaigne deduz que os vômitos violentos e freqüentes o purgam e cita outra vantagem particular de sua doença, que age sem o impedir de agir.

127. Ainda encontra em sua moléstia uma comodidade especial, é um mal que não nos dá muitos motivos de dúvida ao passo que os restantes nos enchem de incerteza acerca de suas causas, condições e progressos, o que é infinitamente penoso, e ele não sabe que fazer de médicos pois o que sente já revela em que consiste e onde se localiza.

128. O cálculo pode então ser vivido no presente, no sentir, sem especulação retrospectiva assim como sem adivinhação do futuro, e se o privilégio do cálculo é de ser vivido na ausência de toda previsão aborrecida a argumentação de Montaigne toma o cuidado de fornecer-lhe a prova ocupando ela sim todas as posições temporais.

129. Remonta ao passado, recorda-se dos acessos transcorridos seguidos do retorno à saúde, e na longa autocitação por mais que a primeira parte tenha recorrido ao presente do indicativo a representação do discurso confere a este um aspecto findo e rememorado.

130. O segundo movimento em que Montaigne recorre novamente ao eu e se exprime em seu próprio nome enuncia-se mais nitidamente no presente mas em um presente no qual uma memória de papel é necessária, e enfim Montaigne nos adverte de que sua argumentação não está acabada.

131. Se preciso no futuro dirigirá a si mesmo outras exortações de mesmo estilo, e já encontramos essa antecipação hipotética, e ora a redação dos Ensaios por camadas sucessivas permite aqui a Montaigne em uma das raras passagens em que ele próprio assinala um acréscimo confirmar sua promessa à maneira de post-scriptum ou de atualização.

132. Em verdade de uns tempos para cá os mais ligeiros movimentos fazem que urine sangue puro, e isso não o impede entretanto de ir e vir como antes e de acompanhar seus cães à caça com um ardor juvenil, pois esse grave acidente não lhe causa senão um entorpecimento passageiro e alguma irritação na parte do corpo em que se situa o cálculo.

133. Essa recrudescência da doença deve provir de um cálculo grande que lhe comprime os rins e se forma a expensas desse órgão, o qual assim se esvai aos poucos e com ele sua vida, não sem que sinta um pequeno alívio como quem expila uma coisa incômoda e supérflua.

134. A doença reapareceu, e se fosse a morte que se anunciasse nessa recaída, nesse aspecto não seria tão temível e não custaria muito caro.

135. Ao longo do percurso durante toda a consolação que Montaigne dirige a si mesmo e que nos oferece em espetáculo, a rubrica do excremento urinário e de outras evacuações que são sua consequência foi devidamente completada, e as paixões da alma foram manifestadas tais como o espírito se esforça por tomá-las sob seu domínio.

136. Pois é nesse campo preciso das funções corporais que deve manifestar-se a fraternal assistência do espírito, e como se viu o pensamento desdobra-se e lança mão de tudo, desde a interpretação penitencial da doença até as ideias tranqüilizadoras sobre sua evolução como resultado da idade e de um progressivo resfriamento geral.

137. O calor dos rins que petrifica a fleuma pode enfraquecer-se como já o fez o do estômago, o fogo vital baixa e a cura pode acompanhar o progresso da velhice, e afinal qualquer que tenha podido ser a acuidade em certos momentos da dor, essa evacuação de que não fica senão um entorpecimento passageiro é aquela pela qual não sem alívio a própria vida se evacua.

138. Como não aproximar essa frase de algumas outras passagens dos Ensaios em que de maneira metafórica o próprio texto é designado um excremento, pois no final do ensaio A propósito de Virgílio Montaigne fala com uma condescendência depreciativa das páginas que acaba de escrever.

139. A metáfora corporal coloca em pé de igualdade o escoamento da vida e o escoamento do texto, e é o próprio corpo do indivíduo que se dissipa e se dispersa esvaziando-se das substâncias que digeriu e cozinhou.

140. Quanto ao pequeno alívio que experimenta Montaigne no momento mesmo em que sua vida se esvai aos poucos, lembra-nos a insistência com que no relato de sua queda de cavalo fala da doçura que acompanha o langor no qual se sente penetrar em direção a um estado que à reflexão assemelha-se perfeitamente à morte.

141. Aí reconhece a quietude que se apodera de nós ao sermos dominados pelo sono, e quando Montaigne fala do exercício inesperado que o familiarizou com a morte não esquece que também a respiração aos olhos da medicina comporta um elemento excrementício.

142. Parecia-lhe que a vida estava suspensa a seus lábios e ele fechava os olhos a fim de ajudá-la a desprender-se de si, e parece que o último suspiro é ao mesmo tempo evacuação e alívio, e Montaigne não se cansa de evocar a doçura dessa experiência.

143. Da dor à doçura extremas, na distância de uma paronomásia, tal é o diapasão da experiência do mal e da doença, e a doença mesma Montaigne experimentou-a em sua oposição que é ao mesmo tempo sua ligação com a saúde e a volúpia.

144. A experiência do corpo que nos faz sentir a estreita ligação existente entre o sofrimento e a volúpia prepara-nos para aceitar a ideia de outra ligação igualmente estreita, a da alma e do corpo, e vêem-se suceder-se assim as antíteses aceitas, as entidades irmanadas e a afirmação de sua coexistência obrigatória ou de sua necessária união.

145. As páginas conclusivas de Da experiência em termos inesquecíveis insistirão nos mútuos serviços da alma e do corpo e na necessidade de sua cultura simultânea, e se em seu tema o ensaio chega à aliança dos opostos é importante observar que em seus aspectos formais e mais particularmente em seu modo de enunciação o ensaio nos oferece um exemplo notável de contradição superada.

146. Manifesta-se uma homologia entre o conteúdo de pensamento em seus elos essenciais e a elocução inventada por Montaigne, pois ele faz desembocar a experiência de uma vida inteira no elogio discretamente lírico da assistência recíproca que devem prestar-se a alma e o corpo e o formula em um discurso no qual a espontaneidade referida à vida corporal alia-se necessariamente aos artifícios empregados pela razão erudita.

147. Para quem lê o ensaio Da experiência de início nada parece mais nítido do que a distinção entre os sistemas discursivos elaborados pela razão nas ciências e nas artes e a verdade que se dá a conhecer em nós e sobretudo em nosso corpo pelo sentir e pela experiência direta em tudo aquilo que a torna singular, diferente e por isso mesmo mais apta a se universalizar.

148. Levada a sério essa distinção teórica deveria ter consequências no plano da enunciação e deveria incitar o ensaísta a repudiar a linguagem das ciências e das artes no momento em que contra estas ele empreende comunicar sua experiência para dizer-se a si próprio segundo a conformidade à natureza de que francamente faz profissão.

149. Ora da mesma maneira que o costume e o hábito se ingerem na natureza até produzir uma segunda natureza, da mesma maneira que o socorro do espírito é chamado a confortar o corpo sofredor, Montaigne a despeito do ordo neglectus a que se abandona só consegue expor sua forma de vida por meio das categorias fixadas pela arte médica.

150. Trata-se do campo definido desde a medicina grega pelos conceitos de dieta e de higiene e distribuído segundo a tradição galênica nas seis rubricas das coisas não naturais, e a classificação médica das faculdades da alma, o conceito humoral de temperamento e as diferentes funções fisiológicas reconhecidas pela medicina constituem o fio condutor ou o lugar de passagem obrigatório de um discurso que se pretende antimédico e que ambiciona dizer o corpo natural em sua singularidade irredutível.

151. Obrigado a passar pela linguagem codificada de uma arte para dizer o que teria desejado manifestar diretamente sem arte, Montaigne ornamenta seu discurso e confunde suas pegadas, e não se poderia acusá-lo de abandonar seu tom desigual e extravagante mesmo quando responde ao questionário da medicina.

152. Ele não expulsou a linguagem da medicina, rompeu-lhe a unidade e a coerência sistemática para dispersar-lhes os disjecta membra em uma marchetaria em que são acolhidas todas as linguagens, e trata-se aqui de uma arte que consiste em negar a arte.

153. O mais notável de seus desvios, a longa apóstrofe de seu espírito à sua imaginação, não afasta Montaigne da linguagem médica senão por um acréscimo de arte, pois esse inimigo da eloqüência escreve aí uma grande peça de retórica eloqüente.

154. Não há motivo para se surpreender quando a fim de dizer o corpo naquilo que o fere mais profundamente Montaigne simula ceder a palavra a um locutor independente, a uma terceira pessoa, e nessa eloqüente apóstrofe a si mesmo a retórica chega a evocar o móvel principal da dramaturgia clássica.

155. O artifício se acentua e assistimos ao espetáculo, pois fazem-nos ouvir as exclamações admirativas dos espectadores, e assim o corpo em seus piores sofrimentos nos é mostrado de fora tal como é visto por todos, ator do ato de um só personagem.

156. No momento culminante do sofrimento como se toda a linguagem vinda diretamente do corpo fosse impossível, Montaigne enumera do exterior e no afastamento da lembrança representada os sinais percebidos pelos parentes e amigos reunidos no cerimonial que cerca aquele que se supõe agonizante mas que na circunstância mantém admiravelmente sua conversa com os presentes como de costume.

157. Tudo se dramatiza e se dialetiza, pois o espírito que interpela a imaginação de Montaigne evoca a cena do leito de sofrimento em que para que a existência permaneça diálogo até seu termo Montaigne entretém os assistentes e graceja com os presentes, e estamos no auge da arte.

158. A experiência vivida no que tem de literalmente pungente nos é comunicada como uma cena patética, êxito da ars moriendi segundo a verdadeira filosofia, inserida em um discurso consolador ele próprio inserido na exposição do costume e das atitudes a que Montaigne submeteu sua vida corporal, exposição que ele destina ao leitor-conviva.

159. O corpo afinal só se poderia dizer indiretamente por meio do olhar do espírito alegorizado que evoca por sua vez a cena de martírio tal como a observam outros espectadores, e pelo menos reconheçamos que o apelo à verdade de dentro torna inevitável a intervenção de um olhar de fora.

160. A experiência do corpo para enunciar-se reclama a estreita ligação com a linguagem da arte mesmo quando se trata de entregar as armas à natureza, e ali mesmo onde o indivíduo sofre em seu âmago carnal há sentido dizível apenas no ponto de encontro com outrem.

161. Suar, empalidecer, corar e tremer são para nós leitores acontecimentos que vivemos ao nos identificarmos com o homem dilacerado por suas pedras e simultaneamente com os espectadores que seu texto depois põe em cena em torno dele e que o veem sofrer, e porque ele assim se ofereceu a nós de fora temos a sensação de participar do que experimenta por dentro.

162. Assim sucede com o corpo sofredor, e o corpo amoroso por sua vez só poderá dizer-se apesar da vontade de dispensar o artifício e a dissimulação por intermédio de um artifício e de uma simulação supremos, a poesia.

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