2 Máscara
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
“ESSA MÁSCARA ARRANCADA”
1. A tarefa de arrancar a máscara parece clara: subtrair o que é acrescentado e estranho para revelar a nudez essencial do mundo e de si mesmo.
2. Uma vez dissipado o meio interposto entre nós e o mundo, descobriríamos simultaneamente nossa verdadeira face e o verdadeiro valor de cada coisa, instituindo um elo de verdade entre a vida e o mundo.
3. Perseguido rigorosamente, o esforço de despojamento não tem ponto de parada definido, pois não há sinal seguro de que se tenha tocado o fundo do verdadeiro eu sob as aparências enganadoras.
4. As respostas de Montaigne são ambíguas: em certas passagens trata-se menos de tirar máscaras do que de jamais colocá-las, graças à veracidade espontânea de quem se oferece tal como é no primeiro ímpeto.
5. Em oposição a essa versão otimista, inúmeras páginas dos Ensaios mostram o conhecimento interior como termo sempre fugidio de uma busca infinita, em que o eu verdadeiro recua à medida que o olhar introspectivo crê progredir.
6. A ambiguidade entre um eu intimamente presente e um eu indefinidamente ausente constitui um dos paradoxos fecundos do pensamento de Montaigne, ligado ainda ao equívoco sobre a aptidão da linguagem para nomear veridicamente o ser.
7. Se a espontaneidade é portadora de verdade, instaura-se uma superioridade ontológica do estado nascente, em que cada instante traz uma experiência sensível e um pensamento originais e infalivelmente justos.
8. Mas quem pode prevalecer-se desse privilégio, se as precauções para conservar pura a verdade já a perturbam e tudo é falseado por antecipação pelo costume e pelas regras convencionais da linguagem.
9. A desconfiança pode parecer o começo da sabedoria, pois atrás das seduções da espontaneidade há um poder astuto que engana, e torna-se preciso destruir os obstáculos interpostos e buscar um ali que se dissimula além das aparências.
10. O desfecho de semelhante busca é duvidoso, pois ao tentar apreender uma substância permanente para além das qualidades variáveis da experiência, corre-se o risco de transformar em outras aparências tudo o que se descobre atrás das aparências.
11. Atrás dos discursos ilusórios Montaigne descobre apenas outros discursos do mesmo estofo, e atrás das sensações outras sensações igualmente incertas, sabendo de antemão que não sairá do domínio das palavras humanas carregadas de confusão.
12. Montaigne não é insensível ao apelo heróico de uma sabedoria que recuse a máscara, e no domínio moral permanece atraído por uma conquista cuja realização no plano do saber lhe parece duvidosa, pois é nas decisões fundamentais e nos atos premeditados que os homens teriam o poder de se revelar em sua verdade.
O SER ÚLTIMO: O SUICÍDIO
1. Montaigne envereda por esse caminho ao examinar, nos livros dos antigos, o que ocorre com aqueles que se empenharam na contestação heróica das aparências, e entre essas almas soberanas uma provoca particularmente sua admiração: Catão, vencido mas vitorioso, que morre por suas próprias mãos reunindo no ato supremo o consentimento no destino e a recusa da servidão.
2. Montaigne escolhe representar o instante mais próximo da morte, o momento em que a veracidade do pensamento é referendada pelo sacrifício da vida, mostrando Catão ensanguentado e arrancando as entranhas.
3. Ao pensar em Catão arrancando as próprias entranhas, Montaigne crê que devia haver em sua virtude um excesso de energia e uma têmpera excepcional, encontrando o herói prazer e volúpia na realização de tão nobre gesto.
4. O momento que Montaigne desejaria mandar esculpir é o do último esforço e do suicídio de mãos nuas, perfeito emblema de uma violenta sabedoria romana e republicana do estoicismo, em que o movimento de subtração arranca da vida todo o não-essencial.
5. Ao se dar a morte, Catão dá a si mesmo seu limite e prova de posse absoluta, pois seu ser inteiro se encontra em suas mãos e o gume da sentença prova que o discurso adquiriu definitivamente força de ato.
6. O despojamento das máscaras alcança seu momento final no ponto em que o ser verídico está inteiro imobilizado e definido em seu fim, e a consciência, senhora de si, destrói toda possibilidade de fuga e de hipocrisia.
7. Reduzida a si e liberta dos ouropéis que a dissimulavam, a verdade interior se recobra e resplandece na iminência de morrer, tomando a morte por cúmplice como se só pudesse desvelar-se sobre um fundo de nada.
8. Porque já não há saída em direção a um futuro vivido, o ser se estabelece em um aqui e agora perfeitamente plenos, exibindo um poder infinito que nenhuma força exterior pode limitar, restando aberta a possibilidade de uma imortalidade gloriosa.
9. A morte, e singularmente a morte voluntária, procede a um desnudamento, pois a hora da morte é o espelho verídico em que, pela primeira e pela última vez, o ser alcança a si mesmo e suas qualidades permanentes são enfim ressaltadas.
10. Na última cena, a que se representa entre nós e a morte, não há como fingir, pois a necessidade arranca palavras sinceras, cai a máscara e fica o homem, e é a esse momento que devem relacionar-se todos os demais atos da vida.
11. A hora da morte aclara e fixa irrevogavelmente o sentido até então indeciso de todo o nosso passado, e não é indiferente que Montaigne recorra aqui à palavra ensaio, pois a idéia de pôr à prova é idêntica à que se enuncia no título dos Ensaios.
12. Da afirmação de Cícero de que filosofar é aprender a morrer, Montaigne faz o tema de todo um ensaio, pois aprender a morrer é reunir e fazer convergir em um único ponto todos os objetivos da filosofia, conciliando o saber e a prática.
13. Antecipar o instante da morte é possuir previamente a unidade que falta à maior parte dos homens, pois a vida é uma fuga perpétua e a morte é o traço que barra o horizonte dessa fuga, conferindo coerência ao que sem isso não passa de um amálgama de peças desengonçadas.
14. A morte se torna a única garantia de nossa liberdade, pois só se é senhor de si na medida em que se é senhor da própria morte, e a morte voluntária eleva quase ao poder de um Deus, já que determina-se e define-se inteiramente a si mesmo quem é capaz de dar fim a si mesmo.
15. O privilégio de autenticidade conferido ao estado nascente é retomado a título de ensaio pelo estado agonizante, pois se a verdade não está no primeiro impulso é porque está no último suspiro, e os ultima verba recebem da eternidade que os cerca o valor insuperável de uma verdade derradeira.
16. A morte desmascara, e por isso não deve ser temida, pois o horror é apenas uma máscara com que o vulgo costuma revestir a morte; desmascarada a hedionda aparência, é dela que virá o conhecimento de nossa identidade posta a nu.
17. A morte desmascarada torna-se a morte desmascaradora, dupla revelação que logo será apenas uma, na medida em que a morte interiorizada e voluntariamente possuída se torna minha e faz parte de minha identidade definitiva, confundindo-se a verdade desveladora da morte com a verdade desvelada da vida.
18. Antecipando pelo pensamento a meta fatal da existência e fazendo como se cada instante fosse o último, eu me pertenceria imutavelmente, e a premeditação teria incorporado desde já à vida presente o dia que valoriza todos os outros.
CRÍTICA DA MORTE
1. A argumentação de Montaigne se exalta até inverter o que tenta provar, pois os raciocínios utilizados para tirar da morte sua máscara de pavor acabam por despojar de seu papel excepcional o último dia, que deixa de ser o dia capital.
2. Para conjurar o temor da morte, Montaigne lança mão de todos os meios oferecidos pela tradição, e o primeiro deles é a constatação de que a morte está já presente em nós desde o nascimento, morrendo a cada instante sem que disso nos demos conta.
3. Se a morte está difusa em toda a extensão da vida, a reivindicação heróica já não tem objeto, pois a morte escapa-me da maneira pela qual minha vida me escapa, e pelo próprio excesso de sua intimidade e proximidade não me oferece mais nenhum apoio.
4. O segundo argumento consiste em negar que a morte tenha domínio sobre nós e, conseqüentemente, tirar do homem a possibilidade de ter domínio sobre ela, pois morto ou vivo não lhe escapamos e o tempo perdido não nos pertence.
5. Ao ser exteriorizada, a morte torna-se um exterior absoluto que não nos concerne mais, e longe de me definir em minha individualidade e verdade singular, morrer é o que me torna semelhante a todos os outros seres vivos e me remete à condição comum.
6. A morte perde seu aguilhão, mas em lugar de mesclar-se à totalidade de nossa experiência sensível torna-se o limite banal onde se interrompe, para cada um, toda experiência sensível, não sendo mais o morrer mas o fato de ter cessado de viver.
7. O sábio, decidido a encerrar-se em seu foro íntimo, abstém-se de emprestar uma face imaginária a um nada sem face, sabendo antecipadamente que o instante da passagem para a morte não tem realidade e não é um acontecimento.
8. Depois de afirmar que a morte está sempre em nós, Montaigne declara que estamos sempre aquém da morte, argumentos contraditórios que excluem ambos a possibilidade do desvelamento do ser pela morte voluntária e tornam vã a premeditação da morte.
9. A interrogação escrupulosa das histórias revela que a cena final produz freqüentemente não a unidade mas a contradição, levando ao auge o escândalo da mentira, pois não se pode garantir que uma bela morte não seja uma obra-prima de artifício.
10. Talvez seja preferível renunciar a julgar a vida por seu fim e proceder ao inverso, dirigindo o olhar para a totalidade de uma existência, pois toda morte deve estar de acordo com a vida a que põe fim e sempre se julga a morte pela vida.
11. O suicídio de Catão é apenas a última expressão de uma vida já inteiramente submetida à virtude, e o privilégio da hora final não lhe vem senão da atenção que se lhe consagra, nada ensinando que não se pudesse aprender melhor pela consideração da vida.
12. Ao querer isolar o morrer faz-se dele uma abstração sem conteúdo, pois seu verdadeiro conteúdo está na vida que ele coroa, e a virtude que eclode no último momento não faz mais do que continuar um hábito virtuoso há muito adquirido.
13. Em Catão e Sócrates depara-se uma prática tão perfeita e constante da virtude que se diria ter ela se incorporado à natureza deles, não sendo uma virtude nascida de um esforço nem ditada pela razão, mas a própria essência de suas almas elevada pelo prolongado exercício da filosofia.
14. O desmascarador acreditava dever rejeitar o hábito e o costume para alcançar uma essência estável, mas por uma reviravolta inesperada é preciso voltar a eles, pois uma prática enxertada em um rico temperamento pode constituir a própria essência da alma.
15. O parecer não é o irredutível inimigo do ser, mas seu aliado obrigatório e complemento necessário, pois se a verdade do eu não é apreensível no campo da experiência sensível, também não será revelada no instante da morte, que é apenas a última experiência sensível.
16. Dessa atitude resta uma imagem exemplar, a de Sócrates, fiador de uma humildade consentida e de uma vigilância inflexível, cuja ciência consiste em saber que nada sabe e em prestar atenção a todos os atos da vida ordinária.
17. O estado nascente e o estado agonizante são instantes que encostam no nada e beneficiam-se do contraste, mas não têm direito a nenhum privilégio ontológico, pois a plenitude do ser aí não reside mais nem menos do que no resto da vida.
18. O estado nascente e o estado agonizante não são residências do ser nem receptáculos da essência, mas mutações do mesmo estofo de toda a existência passageira, acidentes de mesma natureza que todos aqueles que atravessam a experiência cotidiana.
19. É a noção da passagem que triunfa, pois ao olhá-los mais de perto o estado nascente se dissimula na própria morte e o estado agonizante se insinua em cada momento da existência, e só a passagem se oferece à pintura.
20. Enquanto a iminência da morte incita o cristão a dirigir seu pensamento para o além, Montaigne reporta seu olhar ao aquém, e a ausência ameaçadora o remete a uma presença acrescida e tornada mais preciosa por sua própria precariedade.
21. Para Montaigne o memento mori transmuta-se em projeto de outorgar a cada instante de vida a mais completa justificação, conciliando a espera do estuário longínquo com a atenção a cada detalhe roçado pelo curso da vida presente.
A FELICIDADE DE SENTIR: ENTRE VIGÍLIA E SONHO
1. A Apologia de Raimond Sebond conclui pela transcendência absoluta do ser, pois a verdade das coisas está fora de alcance e o mundo das essências se furta ao homem à medida que sua inspeção dos fenômenos crê progredir.
2. Um dos piores defeitos humanos, a presunção, consiste em se acreditar possuidor da verdadeira imagem das coisas e da verdadeira figura de Deus, forjando-as segundo a própria conveniência e construindo simulacros.
3. A sabedoria autêntica conhece os limites que o espírito jamais transporá, e essa ignorância forte e generosa estabelece a impossibilidade de saber, pois nada sentimos, nada vemos e tudo se nos esconde.
4. Ao termo de sua busca a razão chega a um suicídio filosófico, e sua mais alta lucidez consiste em sacrificar a si mesma imobilizada na suspensão de todo julgamento, salvo aquele mesmo pelo qual se abstém.
5. A única esperança que resta é que o ser venha a nós e se revele aos nossos olhos no aspecto da Graça, pois o homem só se eleva até a verdade se Deus lhe quiser dar a mão.
6. Passar para o lado do ser é tornar-se um outro, e como no instante da morte o surgimento do ser verdadeiro coincide estranhamente com o último esvaecimento de uma vida continuamente esvaecente, sem que se possa contar com nenhuma possibilidade de reconciliação.
7. Nada é mais estranho a Montaigne do que a noção platônica de participação nas essências, pois permanência, estabilidade, plenitude e substância encontram-se do lado do que é radicalmente outro, estranho, não meu.
8. A fé não é adquirida pelo raciocínio nem pela inteligência, mas é um presente puríssimo de liberalidade alheia, acolhida porque assim o quis uma autoridade situada fora de nós.
9. Não se pode conceber dignamente a grandeza das promessas divinas se delas se tem uma concepção qualquer, sendo imprescindível imaginá-las inimagináveis, inexperimentais, incompreensíveis e essencialmente diferentes daquelas de que se teve uma miserável experiência.
10. O que resta propriamente é o vazio, pois o homem é nu e vazio, uma página em branco, e recolhendo-se em si mesmo não se aproxima de uma plenitude, mas entrega-se ao vazio, sendo o pior lugar que se pode ocupar o de si mesmo.
11. O comum da vida é sofrer uma ausência irrevogável, sentir a duração escoar-se no seio de um vazio ontológico, não conhecer senão a passagem e o parecer, e o único saber consiste nessa dúvida que se expelе a si mesma.
12. Somos arrastados em um fluxo perpétuo, pois tudo o que participa da natureza humana está sempre nascendo ou morrendo, em condições que só dão de nós uma aparência mal definida e obscura.
13. A linguagem, inteiramente formada de afirmações, atribui ainda demasiado ser ao que não o possui absolutamente, e Montaigne critica sua força excessiva e sua presunção ao ser quando se trata de descrever a ilusão não essencial, pois precisaria de outra língua.
14. Uma linguagem que não afirmasse nada e que se negasse a si mesma sem nem sequer formular sua negação corresponderia ao Que sei eu?, pois a dúvida em sua forma interrogativa é feita do encontro de uma afirmação impossível e de uma negação impossível.
15. O ceticismo de Montaigne visa fazer do homem uma página em branco em que o dedo de Deus escreverá o que Lhe aprouver escrever, e para chegar a esse fideísmo cético o pensamento parte de uma posição muito próxima do estoicismo.
16. Do estoicismo ao ceticismo a consciência acentua a afirmação de sua liberdade em relação ao mundo e a torna absoluta, apreendendo-se em sua individualidade irredutível e em sua independência completa diante dos fenômenos, destruindo ao mesmo tempo a idéia de necessidade e a idéia do mundo exterior organizado.
17. Se é rigorosa em seu propósito, a consciência não pode atribuir nenhum valor de verdade à sua própria dúvida, e se chega a imaginar além de sua esfera limitada uma inacessível região do Ser diante da qual se sente humilhada, ei-la convertida em consciência infeliz.
18. Montaigne vai transformar resolutamente a consciência infeliz em consciência feliz, pois o ser está alhures, mas tão forte é a sedução do aqui e tão vigorosa a preferência pelo que é nosso que ele volta aos fenômenos depois de haver estabelecido o afastamento infinito de Deus e das essências puras.
19. A lição do ceticismo é precisamente o retorno às aparências, pois as aparências são intransponíveis, e isso, longe de nos afastar delas, livra-nos da preocupação de buscar uma realidade oculta em nome da qual as desprezaríamos.
20. O homem precisa entregar-se confiando nas aparências e é convidado a dar boa acolhida ao que se apresenta e àquilo que o agita, de modo que, a despeito do vazio que marca o homem e sua condição, a possibilidade de uma plenitude lhe é restituída.
21. O sábio cético não deixa de conduzir sua vida nas condições mais cômodas e melhores, e uma vez que a região das puras essências seja considerada fora de alcance, basta abandonar-se com confiança à percepção fugidia para aí encontrar um completo gozo que conserva seu valor apesar das objeções da metafísica.
22. Ainda que se tenha descoberto que a experiência não dá acesso à própria essência da verdade, ela conserva para nós seu valor de plenitude vivida, pois se não nos põe em comunicação com nenhuma verdade estável, ao menos nos oferece plena medida de presença para nós mesmos.
23. Em seu impulso de pessimismo ontológico Montaigne clama que nada sentimos e nada vemos, mas isso não o impede de manifestar em todas as circunstâncias um desejo muito intenso de sentir, provado por uma linguagem que escolhe suas palavras em função de sua riqueza sensorial.
24. O querer sentir, sempre em estado de alerta em Montaigne, é um querer ser que tende a realizar-se em uma percepção imediata na falta de outro ponto de apoio substancial, e o fenomenismo encerra-se na certeza sensível.
25. Corrigindo o que tinham de excessivo as linhas consagradas ao louvor da indolência, Montaigne acrescenta que se alegra de não estar doente, mas se o está quer sabê-lo, e se o cauterizam ou operam quer sentir.
26. Depois de fornecer a prova de uma separação radical e de ter feito recuar Deus e o Ser a uma distância infinita, Montaigne convida a que nos prendamos, para senti-la, à nossa existência vulgar.
27. A jurisdição da divindade estende-se muito além, ao infinito, e a lei que se invoca diz respeito apenas à esfera em que se vive, pois não se conhece a lei universal, devendo o homem ocupar-se com o que lhe concerne e não com Deus, que não é seu confrade, nem seu concidadão, nem seu companheiro.
28. O afastamento de Deus provoca uma intimidade acrescida do homem com sua condição no próprio seio do mundo das aparências, e o que não era mais nada em relação ao ser absoluto reencontra um direito de presença e de existência.
29. Montaigne diz não tratar de nada expressamente e falar de saber e ciência apenas para que verifiquem que tudo ignora, mas doravante é o nada que conta, e a insciência é a única ciência possível.
30. Esse nada é ao menos nosso, é nosso corpo atravessado de prazeres e alegrias, atacado de doenças e dores, e sabores se oferecem continuamente, sendo tolo quem não os aceitasse e não os experimentasse.
31. No próprio seio do nada cada objeto impõe uma evidência imediata que, por não ser explicável com base em sua natureza intrínseca, não é menos capaz de cumular-nos, e o consentimento ao nada da existência permite gozar de toda presença que aparece.
32. O que de início era apenas vaidade ou vento reencontra uma legitimidade a partir do instante em que se reconhece como nosso, e a imagem negativa do vento se preenche de valores alegres e positivos bastando que o vento se aceite a si mesmo e se aproprie do prazer de sua inconstante mobilidade.
33. Que importa se as causas nos escapam, pois permanecemos no meio das coisas e delas temos o uso perfeitamente pleno, e a partir daí não temos mais o direito de reivindicar a autoridade do Ser para contestar as aparências que nos cercam.
34. Se cessamos de nos deixar cegar pela presunção, devemos admitir que jamais saímos do parecer e que passamos continuamente de uma aparência a outra, sem que se possam interpor recursos contra nossa condição.
35. O problema da máscara na ordem do conhecimento dissipa-se como se dissipou no domínio da ética, pois há máscara apenas se se pode esperar encontrar uma face acessível atrás dela, e a face que buscávamos conhecer recuou ao infinito.
36. Permanecemos em um mundo em que tudo se equivale e no qual dizer que tudo é falso conduz igualmente a dizer que tudo é verdadeiro, tendo diante de nós coisas moventes cujo movimento se produz ao mesmo tempo fora de nós e em nós.
37. É impossível distinguir a mudança que nos habita e o fluxo das coisas que nos cerca, e devolvidos aos fenômenos somos novamente mergulhados em todos eles, unidos por uma solidariedade que nos abre para o mundo e nos implica por inteiro em sua agitação, superando o solipsismo da sensação.
38. No ensaio sobre a incoerência das nossas ações, a própria idéia da máscara é posta em dúvida, pois os melhores autores erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem assentada e lógica, adotando um princípio geral e interpretando as ações para que entrem no molde preconcebido.
39. Somos apenas uma sucessão rápida de instantes dessemelhantes, e se no meio da alegria o rosto mostra de súbito tristeza isso não quer dizer que fingíamos a alegria, mas apenas que mudamos repentinamente e fomos abandonados pela alegria que manifestávamos havia um instante.
40. Nossos estados se sucedem e se contradizem sem que nenhum deles seja bastante estável para alicerçar a superposição do ser e do parecer, e quando uma mesma coisa nos faz rir e chorar não é hipocrisia, mas o resultado da facilidade e flexibilidade que tem a alma.
41. Quando lhe apresentaram a cabeça de Pompeu, César virou o rosto desviando o olhar, e não se dirá fosse hipócrita sua atitude ou contrária a seus sentimentos íntimos, pois seus destinos haviam estado ligados amiúde e muitos interesses lhes tinham sido comuns.
42. Sem dúvida nossas ações em sua maioria são máscara e artifício, e é verdade por vezes que as lágrimas do herdeiro se fazem risos sob a máscara, mas para emitir um juízo em semelhantes circunstâncias cabe considerar a que ponto somos por vezes agitados por paixões diversas.
43. Assim como no corpo um humor domina segundo o temperamento, entre os múltiplos sentimentos que agitam a alma um prevalece, mas não a ponto de impedir que, em virtude da flexibilidade da alma, os mais fracos sobrepujem ocasionalmente o mais forte durante alguns momentos.
44. Nenhum adjetivo nos é aplicável sem restrição, e quem vê alguém emburrado diante de uma mulher e logo em seguida sorridente, pensando que em um caso ou noutro não é sincero, é um imbecil.
45. Assim como a luz do sol não nos atinge de um jato mas em raios sucessivos com tal rapidez e profusão que não se lhes pode apreender a intermitência, lançam-se da alma, sem que nos apercebamos, mil e uma manifestações.
46. A imagem perfeita da mudança já nem sequer é um fluxo contínuo e flexível, mas revela-se como uma descontinuidade infinitamente rápida na qual cada instante inaugura um novo eu que suplanta o eu precedente.
47. A representação do movimento, tomando de empréstimo a imagem da luz solar, abandona um modelo ondulatório para passar a um modelo corpuscular, que torna cada instante vivido mais efêmero e independente, conferindo-lhe o privilégio de uma autenticidade a curto prazo, plenamente legítima mas imediatamente desmentida.
48. Montaigne chama essa sucessão descontínua de esses movimentos todos, mas toma o cuidado de acrescentar que esses movimentos não constituem um conjunto, pois são informes, e o erro consiste em querer a toda força atribuir-lhes uma forma.
49. Constituir um conjunto seria fazer obra artificial, querer impor uma figura constante ao que está sujeito a uma agitação perpétua, e forma, constância, estabilidade e firmeza são apenas ilusões a que só os lógicos profissionais poderão recorrer, presumindo ao atribuir uma identidade única e estável ao que tem mil faces.
50. Montaigne deixa aos artistas o cuidado de distribuir por categorias a variedade imensa dos aspectos, fixando e ordenando a inconstância, e acha difícil não somente ligar nossos atos uns aos outros mas ainda encontrar a qualidade essencial de cada um, já que são tão variegados e numerosos.
51. Afirmava-se que Perseu, rei da Macedônia, era um homem raro porque seu espírito não se fixava em coisa alguma e ele levava todos os gêneros de vida com hábitos tão livres e cambiantes que nem ele próprio nem os outros podiam saber que tipo de homem era, e o mesmo se pode afirmar de todo mundo.
52. Não há aí uma filosofia do devir evolutivo ou da duração pura, e seria errôneo ver aqui uma espécie de pré-bergsonismo, pois Montaigne propõe a idéia de uma espontaneidade que de instante em instante se redescobre no estado nascente e improvisa seus atos sem jamais recomeçar de um saber adquirido.
53. Nada se conserva senão, com a idade, certas formas transformadas em hábitos, e o momento que vivemos não é conseqüência do momento anterior, podendo-se dizer de cada instante que é uma origem absoluta que nos faz nascer para nós mesmos e para o mundo, mas essa origem não tem futuro.
54. Quando Montaigne se queixa de sua falta de memória, não faz mais do que ressaltar o aspecto de esquecimento perpétuo implicado no impulso da espontaneidade inovadora, pois todo novo ato faz surgir um novo eu sobre quem não pesa nenhum passado e que se escoará sem deixar vestígio se não o espreitamos bem de perto.
55. Não se pode buscar nenhum apoio em uma fração de tempo, pois se a seqüência dos instantes é incapaz de constituir um conjunto, o instante isolado o pode ainda menos, sendo turvo, informe, habitado por uma irremediável fraqueza cuja evidência não ultrapassa jamais a do sonho.
56. É por isso que Montaigne define tão comumente seu pensamento como um devaneio, um sonho, uma fantasia, metáfora que evoca um intermédio entre a consciência em vigília e o sono, entre a atividade suspeita dos sentidos e aquela impossível da razão.
57. A fantasia aceita é uma síntese ou solução de compromisso, uma terceira possibilidade que sobrevém depois das etapas precedentes: recusa da ilusão sedutora, depois constatação do malogro de toda visão pura.
58. No sistema metafórico máscara/face, assim como nos pares aparência/essência e artifício/natureza, vê-se freqüentemente renovar uma dialética cujo terceiro termo consiste em um retorno ao primeiro termo, mais bem aceito e compreendido: reconciliação com a inevitável aparência do mundo e reconhecimento da necessidade de um recurso à forma estética e ao artifício para chegar à identidade pessoal.
59. Ao fazer uso da oposição entre sono e vigília, Montaigne encontra termos mais fluidos e fáceis de mesclar, pois vigília e sono são estados misturáveis e sua mistura é o devaneio, ao contrário da metáfora da máscara e da face, que separa com um traço preciso o verdadeiro e o falso e revela menos facilmente seu misto.
60. A oposição máscara/face pode menos facilmente se distender e se despolarizar, pois obriga a fazer passar uma demarcação decisiva entre o oculto e o descoberto, entre a superfície e a profundidade.
61. Montaigne ama na escrita o combate dos contrários e as energias que se descarregam alegremente no conflito das palavras antagonistas, encontrando aí o estimulante que o faz progredir e que o obriga a reabrir todos os debates, mas não tem menos necessidade de chegar a alguma solução média que associe os contrários sem os abolir.
62. A dualidade se oferece tanto ao jogo das exclusões quanto ao dos acoplamentos, como nestas linhas em que o devaneio constitui o resultado do conflito entre sonho e vigília.
63. Os que compararam nossa vida a um sonho foram mais judiciosos talvez do que pensavam, pois em nossos sonhos a alma vive, age e exerce todas as faculdades tal qual quando está acordada, e a diferença ainda não será tão grande quanto entre um dia de sol e a noite, mas apenas como esta e o crepúsculo.
64. Durante o sono não se vê com nitidez, mas acordados tampouco é perfeita a claridade, e o sono profundo apaga por vezes os sonhos, enquanto despertos nunca se está bastante para se livrar de todos os devaneios que são sonhos de gente acordada e piores do que os verdadeiros.
65. Enquanto a antítese da máscara e da face dividia o mundo, a imagem do sonho dá à experiência sensível uma espécie de unidade e uniformidade que exprime a confusão da qual nenhum estado de consciência pode libertar-se, operando o quiasma a mistura e a interpenetração: velamos dormindo e velando dormimos.
66. Essa unidade se enumera em uma infinidade de instantes dessemelhantes mas equivalentes em sua opacidade e imprecisão, e a única constante que impõe um limite à dispersão é que todos eles pertencem, mais ou menos, a um mesmo sonho, a um mesmo sonhador e, mais tarde, a um mesmo livro, coletânea das imaginações de seu autor.
67. Outra comparação, a que transporta para a vida a diversidade sonora do cosmo e o grande diapasão da música das esferas, também admite a possibilidade da mistura, a conciliação dos opostos e sua feliz fusão.
68. Nossa vida, como a harmonia dos mundos, é composta de elementos contraditórios e tons variados, doces e estridentes, agudos e surdos, frágeis e graves, e o músico que gostasse de uns e renegasse os outros não tiraria partido deles, cumprindo-lhe empregá-los todos e misturados, assim como se deve fazer com os bens e os males que são parte integrante da vida, pois nosso ser só é possível com essa mistura.
69. Ao celebrar a mistura, Montaigne redescobre a moral aristotélica do meio-termo e do justo meio, mas a concebe harmonicamente como uma composição musical, sendo síntese e composição a mesma palavra em duas línguas diferentes.
