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3 Opiniões

STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: La transparence et l'obstacle. Paris: Plon, 1957 (Edição definitiva revista e ampliada, com sete ensaios adicionais: Paris: Gallimard, 1971, Coleção Bibliothèque des Idées).

A SOLIDÃO

1. Se os intérpretes se contradizem é porque Rousseau apenas esboçou a possibilidade de uma síntese que restabeleceria a unidade perdida, possibilidade que se faz pressentir em um horizonte muito indistinto como o ponto virtual em que as linhas desunidas deveriam vir a encontrar-se.

2. Rousseau pensou historicamente o problema das origens da desigualdade, mas não se preocupou em resolver o problema escatológico do fim da desigualdade na história humana, e o Contrato social é um postulado sem ponto de referência histórico que coloca a necessidade de uma liberdade civil resultante da alienação consentida por todos os homens da independência natural.

3. Conduzida rigorosamente, a reflexão filosófica teria obrigado Rousseau a interrogar-se sobre as condições de uma síntese que interessaria o conjunto da sociedade, e para isso seria preciso não apenas sonhar o momento perfeito em que a sociedade desabrocha na liberdade, mas formular os meios de ação concreta que permitiriam ter acesso a isso.

4. Para pensar pacientemente as condições históricas de um retorno à unidade seria preciso que Rousseau fosse capaz de esquecer de si mesmo, mas um Rousseau capaz de se desprender de si mesmo não é mais Jean-Jacques Rousseau, pois ele está demasiadamente apressado em alcançar essa felicidade que a história não lhe pode assegurar desde já.

5. Tudo se passa como se a impaciência de Jean-Jacques transportasse o problema para o nível de sua própria vida a fim de aí buscar uma solução imediata, e depois do esforço para formular um pensamento referente ao mundo e à história universal ei-lo que se recolhe no plano da subjetividade, como impelido para a interioridade pela própria urgência das questões que colocou em termos históricos e sociais.

6. A época não está pronta para resolver esses problemas, e Jean-Jacques não está desejoso de abandonar a si mesmo e de sair para o mundo da ação, pois se há alguma coisa a fazer a tarefa não diz respeito ao mundo exterior, mas ao eu.

7. Após haver colocado os problemas na dimensão histórica, Rousseau acaba por vivê-los na dimensão da existência individual, e essa obra que começa como uma filosofia da história termina em experiência existencial, anunciando ao mesmo tempo Hegel e seu opositor Kierkegaard, duas vertentes do pensamento moderno: a marcha da razão na história e o trágico de uma busca da salvação individual.

8. O autor do segundo Discurso interroga-se sobre o que vai fazer de sua vida e parece-lhe que não se espera dele uma nova obra literária em que resolveria as antíteses que tão violentamente confrontou, mas que sua existência se torne um exemplo e que seus princípios se tornem visíveis em sua própria vida.

9. A ele cabe em primeiro lugar mostrar o que é a natureza e essa unidade primitiva que a civilização compromete, e a decisão diz respeito e engaja a partir daí a ele tão-somente, e não a coletividade humana de que tão brilhantemente analisou a evolução.

10. Pode-se perguntar se toda a teoria histórica de Rousseau não é uma construção destinada a justificar uma escolha pessoal, pois não forjou ele princípios e explicações históricas com o fim único de desculpar e de legitimar sua estranha vida, sua timidez, sua inépcia, seu humor desigual e essa Thérèse tão rude com quem viveu, de modo que o conflito que Jean-Jacques denuncia na história tem também todos os aspectos de um conflito pessoal.

11. Rousseau está só e as personagens que encontra estão todas mascaradas, pois todos colocam seu ser no parecer, e ele medita solitariamente sobre o destino coletivo dos homens, mas sua meditação não é desinteressada, pois lhe permitirá pôr na conta da história e da sociedade as faltas de sua vida pessoal.

12. Ele demonstrará que tem razão de ser só e singular, e sua preocupação consistirá menos em provar a verdade de seu sistema que a legitimidade de sua atitude, de modo que pouco a pouco a apologia pessoal substituirá o pensamento especulativo.

13. No momento em que culpa os vícios da sociedade ele não tem ninguém a seu lado e não quer ter nenhum aliado, tornando-se mais solitário à medida que levanta um protesto mais geral, e sua crítica, que atribui a culpa a um mal radical, não quer ter nada em comum com a crítica que os filósofos dirigem contra as instituições abusivas.

14. A crítica dos filósofos ainda é, aos olhos de Rousseau, uma expressão do mal social, pois longe de ser sua inimiga é o seu produto mais elaborado e mais envenenado e trabalha ativamente pelo pior, e não só os filósofos não constituem exceção à vaidade e à corrupção universais como tiram proveito desse mundo mau que tende à sua própria destruição.

15. Sua influência não faz mais que agravar a separação das consciências e a fragmentação da unidade cívica, e mais tarde Rousseau retomará a mesma ideia sob uma forma paranóica ao imaginar uma liga perseguidora em que entrariam ao mesmo tempo os filósofos e os poderes públicos, de modo que os enciclopedistas e Choiseul são cúmplices no mal e, ao invés de combater-se, ajudam-se mutuamente.

16. Os filósofos fazem ainda parte do mundo que criticam, e Rousseau poderá acusá-los simultaneamente de estarem interessados na conservação das instituições viciosas e de serem os destruidores dos laços sociais verdadeiros, pois parasitas de uma sociedade que se desgrega, lançam o ridículo sobre as noções que deveriam unir os homens no interior de uma ordem mais justa.

17. Eles sorriem desdenhosamente às velhas palavras de pátria e de religião, mas isso neles não passa de um furor de distinguir-se, um meio de sucesso social em uma sociedade que deixou ela mesma de ser uma pátria e que zomba de sua própria religião, pois nos salões, onde triunfam a aparência e a opinião, pode-se dizer tudo mas não se crê em nada do que se diz, e os protestos dos filósofos fazem parte da tagarelice social, discursos inautênticos sobre um mundo inautêntico.

18. Para não ser o pior desses discursadores Rousseau se separa e procura ser exceção, e se sua recusa houvesse visado apenas à arbitrariedade das instituições, à injustiça do poder absoluto e ao absurdo de certos usos e abusos, nada ainda o afastava decisivamente dos enciclopedistas e nada fazia de sua solidão o complemento necessário de seu pensamento.

19. Mas a revolta de Rousseau, dirigida contra a própria essência da sociedade contemporânea, é de tal envergadura que, para sustentar sua validade, deve vir de um homem que excluiu a si mesmo da sociedade, pois ele não pode garantir a seriedade de seu desafio a não ser colocando-se só e contra todos em um lugar exterior à sociedade mentirosa.

20. Sendo o mal co-extensivo ao universo social, a mentira e a hipocrisia prevalecem por onde quer que se estenda a sociedade, e então é preciso a qualquer custo sair dela, é preciso tornar-se uma bela alma.

21. A veemência e o absoluto de sua crítica arrastam Rousseau à solidão, e se deseja ser levado a sério vai precisar ser muito mais que um escritor de oposição, vendo-se obrigado a tornar-se a oposição viva, pois sua crítica só contará realmente no momento em que sua vida inteira for a contradição exemplar.

22. Aquele que se torna escritor para denunciar a mentira da sociedade se coloca em uma situação paradoxal, pois ao fazer-se autor, e sobretudo quando inaugura sua carreira com um prêmio de academia, entra no circuito social da opinião, do sucesso e da moda, sendo então logo de saída suspeito de duplicidade e contaminado pelo pecado que ataca.

23. À medida que sua solidão se tornar mais absoluta, Rousseau se confirmará cada vez mais na ideia de que sua estreia literária foi o começo de uma maldição, e o único resgate possível consiste em fazer ato público de separação, pois um desarraigamento se torna necessário e um perpétuo afastamento fará as vezes de justificativa.

24. Tornando-se homem de letras, o acusador jamais será suficientemente desculpado de seu compromisso com o mal, que nele se perpetua à medida que segue no ato de escrever, e a própria escusa, enquanto permanece pública, é ainda um laço com o mundo da opinião e não apaga a culpa, de modo que no limite seria preciso fazer silêncio e tornar-se nulo para os outros, mas Rousseau não se poderá calar nem fazer de outra maneira que não escrever sua vontade de tornar-se nulo.

25. O problema que se coloca a Rousseau consiste em suprimir uma distância perpetuamente renascente entre sua vida e seus princípios, e é preciso que toda a sua conduta se oponha ao artifício do mundo corrompido que ele denuncia e do qual entretanto participa ainda em demasia, de modo que deve fazer com que seu protesto não seja considerado como a linguagem ordinária da literatura.

26. A proposição de que a sociedade é contrária à natureza tem como consequência imediata que eu me oponho à sociedade, e é o eu que se encarrega da tarefa de recusar uma sociedade que é negação da natureza, de modo que a negação da negação se torna fundamentalmente uma atitude.

27. A clareza racional que ele reivindica não é a razão dos argumentadores, fonte de certeza intelectual, pois deseja esclarecer suas ideias somente para melhor encontrar a justificação de sua existência, e uma vida cuja singularidade permanecesse injustificável estaria condenada à desrazão absoluta: à insignificância.

28. O que importa é escapar a esse contra-senso, e em compensação Jean-Jacques desdenha de estabelecer-se na razão comum tal como os outros a preconizam, pois não quer sacrificar sua solidão mas salvá-la, e é à verdade racional, ao mesmo tempo íntima, universal e desconhecida dos outros homens, que atribui o poder santificador.

29. Não se sublinhou suficientemente, no relato da reforma pessoal, a curiosa mistura de orgulho e de ironia, pois ele afirma altivamente a grandeza de seu empreendimento e dele já debocha como de um logro, sendo um ato inaudito de coragem e um acesso de febre e de tolo orgulho.

30. Num sentido, o desafio solitário que ele lança à sociedade pode ser interpretado como a ideologia de um tímido e de um doente que espera tirar o melhor partido possível de sua inadaptação a ponto de fazer dela seu mais alto título de glória, pois já que não pode viver entre os outros, que seu afastamento e seu ar embaraçado tenham ao menos a significação de uma conversão apaixonada à virtude.

31. Num outro sentido, tratou-se de transformar uma carreira de escritor num destino heroico, destacando a vida fora da aventura literária, ajustando severamente a conduta real ao ideal de virtude que de início se impusera por seu atrativo livresco e, enfim, fortalecido por essa verdade conquistada pela existência, manifestando um pensamento escrito cujo tema paradoxal será a recusa da literatura.

32. Pela primeira vez o problema da superação existencial da literatura se coloca fora das direções oferecidas pela espiritualidade religiosa tradicional, pois a renúncia às vaidades do mundo e a conversão a um outro mundo moral não encaminham Rousseau para a Igreja, mas para a Floresta e para a vida errante.

33. Enquanto aqueles que se refugiam na Igreja podem manter o silêncio, pois a Igreja fala então em seu nome pela boca dos santos e dos doutores, Rousseau, que só tem justificação nele mesmo, jamais poderá penetrar no silêncio e jamais terá terminado de retomar a palavra, pois jamais terá terminado de explicar o verdadeiro sentido de sua solidão.

34. Ele sabe que sua solidão pode também ser interpretada como a solidão do mau e do orgulhoso, e Rousseau, que se sentiu atingido pela declaração de Diderot de que só o mau está só, lhe responderá pelo resto de sua vida, pois o equívoco não lhe é tolerável.

35. A luta não teria sido tão trágica para Rousseau se para ele se tratasse apenas de singularizar-se e de manifestar sua diferença, pois ele não deve somente desempenhar o papel do outro, mas, diante de uma sociedade má, manifestar o que é radicalmente diferente do mal, isto é, fazer aparecer aos olhos dos homens o bem que eles ignoram.

36. A tensão trágica em Rousseau não resulta apenas da própria separação e ruptura, mas da necessidade de fazer coincidir a todo momento sua solidão com o bem e a verdade essenciais, tais como os reconhece em seu foro íntimo e tais também que possam ser reconhecíveis por todos.

37. A subjetividade de Rousseau exige privilégios, não apenas para ser plenamente reconhecida pelos outros, não para impor ao mundo o espetáculo de uma singularidade irredutível, mas para se fazer aceitar como a intérprete legítima de uma verdade que os outros deixaram cair no esquecimento, de modo que, ao opor-se aos outros, Rousseau não busca unicamente impor seu eu singular, mas faz o esforço heroico de coincidir com os valores universais: liberdade, virtude, verdade, natureza.

38. Rousseau se estabelece na solidão a fim de poder falar legitimamente em nome do universal, e não se deve atribuir a ele um romantismo que não faz mais que prefigurar muito remotamente, pois a intuição subjetiva, se não tem o caráter intelectual que tinha em Descartes e em Malebranche, a eles se assemelha pelo fato de que pretende desembocar no universal, e de que esse universal não é essencialmente irracional ou supra-racional.

39. Recolher-se em si mesmo é com certeza aproximar-se de uma maior clareza racional e de uma evidência imediatamente sensível, por oposição ao contra-senso que reina na sociedade, e as incertezas de Rousseau sobre o valor da razão se esclarecem se se percebe que a razão não lhe parece perigosa salvo na medida em que ela pretende apreender a verdade de uma maneira não imediata, isto é, por meio de argumentos sucessivos, por uma sequência ou uma cadeia de raciocínios.

40. Quando Rousseau condena a razão, incrimina sobretudo a razão discursiva, e volta a ser racionalista logo que pode remeter-se a uma razão intuitiva capaz de iluminação imediata, pois a escolha essencial não se dá entre a razão e o sentimento, mas entre o caminho mediato e o acesso imediato.

41. Rousseau opta pelo imediato e não pelo irracional, e a certeza imediata pode pertencer alternadamente ao sentimento, à sensação ou à razão, de modo que, com a condição de que o imediato seja salvaguardado, ele não estabelece primazia entre os imediatos sensíveis e os imediatos racionais, revelando-se razão e sentimento perfeitamente conciliáveis.

42. Rousseau acusa apenas a razão raciocinante, que Kant chamará de entendimento, e que inspira os insensatos juízos dos homens, pois essa razão instrumental aprisiona os homens na subjetividade turva da opinião e da ilusão, e Rousseau denunciará seu absurdo, em comparação ao qual as falsas clarezas do raciocínio comum são um contra-senso.

43. Por um paradoxo que nele não se deixou de reprovar, Rousseau se faz um estrangeiro para protestar contra o reino da alienação que torna os homens estranhos uns aos outros, e a decisão pela qual abraça a causa da verdade ausente o leva a reivindicar o destino do exilado, sendo o movimento pelo qual se torna defensor da transparência perdida também o movimento pelo qual se torna um errante.

44. Exilado e errante em relação ao mundo da alienação e para envergonhá-lo, ele pretende ter fixado suas ideias e estabilizado seu interior pelo resto de sua vida, estabelecendo sua morada na verdade, e é por isso que se vai tornar um sem-morada, um homem que foge de asilo em asilo e de retiro em retiro na periferia de uma sociedade que velou a natureza original do homem e falseou toda comunicação entre as consciências.

45. Porque sonha com transparência total e com comunicação imediata, precisa cortar todos os laços que o poderiam prender a um mundo turvo, onde passam sombras inquietantes, faces mascaradas e olhares opacos.

46. O véu que descera sobre a natureza e a opacidade que invadira a paisagem de Bossey desaparecerão quando Rousseau houver conquistado a solidão, e a felicidade perdida lhe será devolvida, parcialmente é verdade, pois se redescobre o brilho da paisagem e da natureza é às custas de uma ruptura mais decisiva com seus semelhantes.

47. Com a condição de se manter à margem da sociedade, a solidão de Rousseau é um retorno à transparência, pois os vapores do amor-próprio e o tumulto do mundo embaciavam aos seus olhos o frescor dos bosques e perturbavam a paz do retiro, e foi tão-somente depois de se ter desprendido das paixões sociais e de seu triste cortejo que a redescobriu com todos os seus encantos.

48. Uma vez esquecida a sociedade, uma vez banida toda lembrança e toda preocupação com a opinião dos outros, a paisagem reconquista aos olhos de Jean-Jacques o caráter de um sítio original e primeiro, e é aí que está o encanto redescoberto e o encantamento verdadeiro.

49. Rousseau pode então redescobrir a natureza de maneira imediata, sem que nenhum objeto estranho se interponha, nenhum traço intempestivo do trabalho humano, nenhum estigma de história ou de civilização, procurando algum lugar selvagem na floresta onde nada que mostrasse a mão do homem anunciasse a servidão e a dominação.

50. E nessa natureza que voltou a ser imediatamente sensível, salva da maldição da opacidade, Rousseau vai revestir o papel profético e anunciar a verdade oculta, pois mergulhado na floresta ali buscava e encontrava a imagem dos primeiros tempos dos quais traçava orgulhosamente a história.

51. Mas para alguém que quer reencontrar puramente a natureza, Rousseau tem demasiado prazer em proclamar que se afastou dos vãos prazeres do mundo, pois o esquecimento não é completo e o desapego não é total, e se não lamenta o mundo, dele se lembra para o condenar.

52. No momento em que penetra na floresta e se refugia nas verdades fundamentais, não perde de vista o universo factício que recusa e as pequenas mentiras que despreza, e não goza do imediato senão proferindo o anátema sobre o mundo dos instrumentos e das relações mediatas, de modo que não se afastou a ponto de esquecer o erro dos outros.

53. Por mais paradoxal que isso pareça, no mais profundo de seu isolamento ele permanece ligado à sociedade pela revolta e pela paixão anti-social, pois a agressividade é um vínculo.

54. A única maneira, para Jean-Jacques, de conjurar a opacidade ameaçadora é ele próprio tornar-se a transparência, vivê-la, permanecendo visível e oferecido aos olhos dos outros, esses prisioneiros da opacidade, e apenas então o ato pelo qual se anuncia uma verdade universal e o ato pelo qual o eu se mostra tornam-se um só e mesmo desvelamento.

55. A verdade, para se manifestar, precisa ser vivida por uma testemunha, e a testemunha vive uma dupla relação: sua relação com a verdade e aquela que a une à sociedade diante da qual testemunha, de modo que jamais terá terminado de prestar suas contas.

56. Ele deverá provar que é realmente aquele que possui o direito de lançar semelhante desafio, e precisa conquistar a certeza de uma relação essencial com a verdade, isto é, confundir a existência pessoal com a própria essência da verdade, produzir uma palavra em que o eu se afirmaria apenas para desaparecer numa transparência impessoal através da qual valores eternos se manifestariam: liberdade, virtude.

57. Ao que a experiência subjetiva tem de precário e de conjectural, Rousseau não se pode acomodar, e empenha-se em erigi-la em absoluto, pois é apenas sob a guarda do absoluto que pode superar sua inquietação e seu medo de ser culpado.

58. Para chegar a isso, as palavras virtuosas, as rupturas purificadoras e as recusas dolorosas não são ainda suficientes, pois não basta ter vendido seu relógio, ter abandonado a espada e a roupa branca fina e ter fugido das grandes cidades, sendo ainda preciso dar outras provas, aceitar outros sacrifícios e resistir à provação das desgraças, das perseguições e das tempestades mais terríveis.

59. A testemunha da verdade jamais terá conquistado a certeza definitiva daquilo que ela é e da verdade que pretende proporcionar aos homens, e jamais estará livre das provas que se esperam dela, havendo em Rousseau um apelo angustiado para a infelicidade porque a infelicidade é uma consagração, e a testemunha da verdade espera o martírio como a prova suprema de sua missão.

60. A crítica da sociedade se transmuta assim em uma epifania da consciência pessoal, não porque se trate por princípio de dar à existência individual um valor superior ao da existência coletiva, pois a sociedade não é má porque nela os homens vivem em comum, mas porque os móbeis que os associam os tornam irremediavelmente estranhos à transparência original.

61. É a opacidade da mentira e da opinião que Rousseau acusa, e não a sociedade como tal, e igualmente não busca ele a solidão por ela mesma, pois a solidão é necessária porque permite ter acesso à razão, à liberdade e à natureza.

62. Supondo-se que uma sociedade possa edificar-se na transparência e que todos os espíritos consintam em abrir-se uns para os outros abdicando de toda vontade secreta e particular, essa é a hipótese do Contrato social, e então nada permite privilegiar o indivíduo à sociedade, pois em uma organização social que favorecesse a comunicação das consciências nada seria mais pernicioso que o recolhimento do indivíduo em si mesmo e em sua vontade particular.

63. A crítica tradicional quis ver uma misteriosa ruptura entre o Contrato social e o resto da obra, mas de fato Rousseau permanece profundamente fiel ao princípio da transparência, pois se a transparência se realiza na vontade geral é preciso preferir o universo social e se ela só se pode consumar na vida solitária é preciso preferir a vida solitária, de modo que as hesitações e oscilações de Rousseau dizem respeito unicamente ao lugar, ao momento e às condições em que a transparência poderá lhe ser restituída.

64. Uma transparência solitária permanece uma transparência fragmentária, e Rousseau quer que ela seja total.

65. O recolhimento na singularidade, longe de enfraquecer a influência histórica de Rousseau, ao contrário a reforçou, pois se ele mudou a história e não apenas a literatura, essa ação não se operou apenas sob o efeito de suas teorias políticas e de suas concepções sobre a história, mas resulta numa porção talvez mais considerável do mito que se elaborou em torno de sua existência excepcional.

66. Ele era sem dúvida sincero ao afastar-se do mundo e ao desejar tornar-se nulo para os outros, mas sua maneira de se distanciar do mundo transformou o mundo, e por volta do fim de sua vida não se preocupou mais com o futuro das nações a não ser para inquietar-se com o que nelas seria feito de sua memória, importando ao autor dos Diálogos e dos Devaneios não que a humanidade futura reforme suas leis, mas que mude de atitude em relação a Jean-Jacques.

MAS A UNIDADE É NATURAL?

1. Rousseau criticará mais tarde o ardente entusiasmo com que se consagrou à unidade, perguntando se não violentou sua natureza espontânea e se, em seu impulso para a verdade abstrata e geral, não se tornou infiel à sua verdade própria, que consistia nessa fraqueza, nessa mobilidade e nessa instabilidade que teria desejado superar.

2. A vocação pública da Natureza colocou Jean-Jacques em contradição com sua própria natureza, e no momento em que procura fundar a unidade de sua existência ei-lo que se torna prisioneiro da tensão e do paradoxo interiores.

3. Epiteto, que Rousseau praticava, aconselha a representar nossa vida como um papel de teatro, mas esse papel nós não o escolhemos e devemos ater-nos àquele que nos foi atribuído, pois segundo a moral estoica o homem deve querer-se a si mesmo, mas querer-se tal como o Destino ou Deus o querem.

4. O esforço de ficção pelo qual o sábio representa sua personagem vai ao encontro do ato de humildade pelo qual aceita um papel que lhe é imposto por antecipação, pois ele não se inventa, apenas se esforça em mostrar-se igual à sua parte e em ser bom ator em uma comédia dell'arte na qual não poderá mudar as peripécias nem o desfecho.

5. Seu desempenho é apenas questão de estilo, cabendo-lhe representar com naturalidade, com grandeza e mesmo com liberdade um papel que ele já não é livre para escolher nem para modificar, e a virtude estoica se torna assim uma espécie de virtuosismo, pois é preciso uma maravilhosa habilidade para encontrar o justo equilíbrio entre a inteira submissão à necessidade e o talento de fazer boa figura na situação imposta.

6. Um pouco mais de desempenho e a constância do sábio se torna mentira e vazia ostentação, um pouco menos desse orgulho teatral e a aceitação do destino se torna covardia, e nenhuma dúvida há de que no momento de sua reforma Jean-Jacques tenha acreditado realizar esse equilíbrio, pois soube que representava e não o escondeu de si mesmo, mas tinha a convicção de representar enfim seu verdadeiro papel.

7. O primeiro gesto é o mais ostentatório, pois ele recusa teatralmente o que dá à vida civilizada o aspecto de um teatro, mas esse gesto de ator corresponde à vontade de ser fiel a si mesmo.

8. No entanto, no momento em que escreve suas Confissões, Rousseau coloca sua reforma na conta de uma espécie de embriaguez, pois não era o equilíbrio de uma sabedoria segura nem a virtuosidade de uma perfeita correspondência entre o ser e o parecer, e o impulso inicial veio de fora, com Diderot desempenhando por ocasião da conversação de Vincennes o papel da Serpente tentadora que convida a provar do fruto proibido.

9. O relato das Confissões manifesta uma estranha ambivalência em relação às circunstâncias que marcam o começo da carreira de escritor, pois de um lado tudo parece explicar-se por uma iluminação e por uma metamorfose internas, mas de outro lado Rousseau incrimina influências estranhas e sugestões nefastas às quais teve a fraqueza de ceder.

10. O acontecimento tem então uma dupla face, pois de um lado Rousseau se sentiu visitado por um fogo realmente celeste e o relato das Confissões inflama-se a essa lembrança, mas os mesmos fatos, revividos e repensados em Wootton ou em Monquin, revelam bruscamente a face de obscuridade e de perdição, e as Confissões fazem coexistir essa dupla interpretação do passado, apresentando os mesmos acontecimentos como atos de inspiração soberana ou como os grilhões de um destino implacável.

11. Quer tenha sido visitado pelo céu, quer tenha sido influenciado por amigos malévolos, uma e outra explicação invocam uma espécie de alienação, pois uma força estranha, perseguidora ou inspiradora, coagiu Rousseau a ser infiel a si mesmo, e em um caso como no outro não era mais ele mesmo.

12. A ambiguidade das perspectivas é surpreendente, pois as Confissões narram o esforço heroico empreendido por Jean-Jacques para desprender-se da alienação da opinião e do julgamento de outrem, mas o relato apologético da reforma pessoal lhe confere também o sentido de uma alienação sofrida.

13. Embriaguez, loucura, fogo celeste, má sorte: ele foi impelido para fora de si mesmo no próprio ímpeto em que pretendia redescobrir-se e fundar sua unidade, e uma espécie de exagero incontrolado arrastou-o involuntariamente para a carreira das letras, de modo que essa busca da unidade foi para Jean-Jacques um desvio para fora de sua verdadeira natureza.

14. Esta queria o repouso, a ociosidade, a despreocupação e o livre abandono aos desejos contraditórios, e ele não era feito para outra coisa, mas a paixão da verdade precipitou-o num mundo eminentemente estranho, e o Rousseau das Confissões, ao voltar aos anos de febre, parece não mais poder compreender e não sabe por qual julgamento decidir-se, admirando sua coragem, apiedando-se ironicamente de suas ilusões e assustando-se por ter-se tornado um outro.

15. Em O zombador, que é anterior à reforma, Rousseau pintara a si mesmo móvel, variável e inconstante, incapaz de fixar-se em uma forma estável, dizendo que nada é tão dessemelhante dele quanto ele mesmo e que seria inútil tentar defini-lo de outra maneira que não por essa variedade singular.

16. Ele se descreve ora como um duro e feroz misantropo, ora em êxtase em meio aos encantos da sociedade e às delícias do amor, ora austero e devoto, ora franco libertino, exibindo sob a influência muito próxima de Diderot e a mais distante de Montaigne uma desenvoltura de que não saberá sustentar o tom por muito tempo.

17. Mas reencontramos nos Diálogos, mais de vinte anos depois, um auto-retrato que não deixa de ter analogia com o do Zombador, pois Rousseau insiste novamente em sua variabilidade, na leviandade dos motivos e dos móbeis que o fazem mudar de humor, dizendo que ele não tem sequência suficiente em suas ideias para conceber verdadeiros projetos e que todo o vigor de sua vontade se esgota em resolver, já não o tendo para executar.

18. A mesma oposição que oferecem os elementos de sua constituição se reencontra em suas inclinações, em seus costumes e em sua conduta, pois é ativo, ardente, laborioso e infatigável, mas também indolente, preguiçoso e sem vigor, altivo, audacioso e temerário, mas também temeroso, tímido e indeciso, passando de um extremo ao outro com uma inacreditável rapidez sem sequer notar essa passagem.

19. Aqui ainda a variabilidade se explica a partir de uma causa constante, de uma qualidade permanente que Rousseau chama de sensibilidade ou paixão, de modo que a extrema mobilidade é reabsorvida em uma vida invariável, simples e rotineira, e todas essas irregularidades de conduta são as agitações de um natural ardente que imprime a marca às mais diversas ações.

20. Jean-Jacques não cessa de afirmar que há nele uma unidade subjacente que se exprime na espontaneidade da variação e da mudança de humor, e é preciso saber ler, à força de simpatia, essa unidade de caráter, como é necessário ver em sua obra a execução de um projeto único.

21. Para fazer sentir essa permanência na mobilidade, Rousseau retoma no início do segundo Diálogo uma metáfora que utilizara em O zombador, a periodicidade das mudanças atmosféricas, descrevendo-se assim da primeira vez antes de abandonar-se vertiginosamente à exaltação de escrever e da segunda vez no momento em que se esforça em escapar ao triste destino e à sujeição a que se entregou ao tornar-se um escritor.

22. Antes, vagava livremente, era errante, esperava alguma grande ocasião de fixar sua personagem, de mostrar-se ao público e de estabelecer sua morada na glória, mas depois dos seis anos em que o fogo celeste o visitou e em que a glória o obrigou a habitar moradas esplêndidas, Jean-Jacques é novamente um errante e um nômade.

23. Dessa vez não é mais a vagueação da espera e da busca aventurosa do sucesso, é a vagueação da fuga, pois ele foge para escapar à maldição da glória que conquistou e procura sair dela, e talvez de início sua fuga para longe da glória não fosse absolutamente sincera, talvez se divertisse ao ouvir o rumor crescer atrás dele enquanto se afastava para outros refúgios.

24. Mas o rumor o alcança e se converte naquela saraivada de pedras que se abate sobre sua casa, e a glória não pode ser uma morada, de modo que ele agora procura em vão uma ilha onde possa ser esquecido e onde possa, abandonando-se docemente aos impulsos contraditórios de seu desejo, satisfazer sua verdadeira natureza.

25. Se apenas lhe fosse permitido redescobrir a vagueação inocente e a instabilidade sem consequências de seus anos de juventude, se apenas pudesse romper o malefício e conseguir que o deixem viver a seu modo segundo sua fraqueza e sua preguiça, mas no refúgio da rua Plâtrière ele tenta recompor essa despreocupação, embora a inquietude da perseguição e da difamação o obsede.

26. Trata-se aqui de uma tentativa de conjurar a sorte, pois a felicidade e a paz interior Rousseau as proclama para lhes dar mais realidade e para fazer frente à ameaça que sente pesar sobre ele, e quando recompõe a lembrança de sua juventude faz dela o tempo do devaneio voluptuoso e do deslumbramento inocente porque tem necessidade de ter um passado que seja um refúgio.

27. Rousseau força a realidade para compor o mito de sua existência, pois o livre devaneio de sua juventude foi interrompido por um malefício estranho, ele se deixou afastar de sua felicidade e agora retorna a si mesmo, e a água que se turvara volta a ser límpida no final, mas menos reflexos atravessam-na e sua transparência é mais vazia e mais fria.

O CONFLITO INTERNO

1. A extrema variabilidade não implica que a consciência se encontre em estado de conflito, pois o Rousseau proteu de O zombador e o Jean-Jacques infinitamente variável dos Diálogos vivem uma sucessão de instantes dessemelhantes, mas em cada um desses instantes eles aderem a si mesmos.

2. Se se buscar o estado do mundo o mais contrário ao seu natural, encontrar-se-á esse aí, pois a reforma, Jean-Jacques se dá conta disso, não era mais que uma de suas costumeiras mudanças bruscas, mas estava destinada a pôr fim a todas as mudanças e assim introduziu nele a mais violenta contradição.

3. Rousseau entra em guerra contra a mentira universal, e o novo eixo que pretendia dar à sua vida e à sua palavra não coincidia mais com a linha sinuosa e variável de sua verdadeira natureza, e à descontinuidade dessa natureza primeira ele acrescenta a inconsequência mais grave de querer elevar-se acima dela.

4. Em vez de viver em uma disseminação de instantes dispersos, descobre a tensão e a insatisfação, pois sem deixar de sofrer a variabilidade interna e as intermitências imprevisíveis do humor faz delas o motivo de um dilaceramento essencial, não conseguindo repudiar os dados instáveis da experiência imediata nem integrá-los na unidade da exigência moral.

5. Tendo tomado a defesa da noção abstrata de natureza e de virtude e tendo em seguida procurado a realização existencial de seu ideal, Rousseau acha-se em conflito com sua própria natureza empírica, e cada uma de suas fraquezas naturais e cada um de seus saltos de humor torna-se um testemunho de acusação contra a sinceridade de sua defesa virtuosa e contra a legitimidade do exemplo que pretende oferecer ao mundo.

6. Ele não pode escapar à diversidade contraditória de sua vida espontânea, que persiste nele como uma ameaça hostil à qual opõe uma exigência de unidade coerente que jamais poderá ser satisfeita, e a partir daí tudo está ameaçado e em risco, pois os termos opostos entre os quais a tensão se exerce são postos em discussão um pelo outro.

7. A busca da unidade coerente é uma ameaça para a espontaneidade da experiência imediata, e esta, embora comprometida em seu surgimento autêntico, permanece bastante poderosa para fazer fracassar a procura da unidade contra a natureza e para torná-la derrisória, de modo que o repouso não é mais possível e essa tensão gera um movimento que já não se pode deter.

8. Se Rousseau quer finalmente voltar à sua natureza variável e entregar-se ao império do sensível e do sentimento imediato, já não poderá dele gozar inocente e prazerosamente, pois deverá justificar-se e explicar-se, devendo portanto escrever, isto é, passar pela meditação da linguagem e da literatura, e ainda que seja para denunciar seu erro não poderá fazer de outra maneira que não mergulhar ainda mais profundamente no erro.

9. O próprio retorno à natureza só poderá consumar-se com o excesso que caracterizara o esforço contrário, pois por ter desejado a unidade que o libertaria das oscilações imprevisíveis de seu humor Jean-Jacques desencadeou um mecanismo de oscilações extremas cuja amplitude o arrastará para além dos limites toleráveis.

10. A revolução que arrebata Jean-Jacques em sentido contrário não lhe restituirá a estabilidade que não pôde conquistar de uma outra maneira, e destinado doravante às oscilações maiores do espírito não poderá reencontrar a calma relativa e as oscilações de menor amplitude que foram seu quinhão antes que a vocação literária o houvesse arrastado.

11. Pergunta-se então se a própria noção de natureza conserva um sentido, pois esse movimento oscilatório não permite o repouso nem o retorno estável ao estado natural, e o estado natural será no máximo um lugar virtual a meia distância dos extremos, mas nesse lugar o movimento não se detém.

12. Doravante só se pode pensar em si mesmo como naquilo que falta, naquilo que não cessa de esquivar-se, sempre fora de si e fora do repouso na identidade estável, ou então operar uma mudança semântica radical que permitirá chamar de natureza, verdade ou essência o movimento mesmo pelo qual se escapa ao repouso.

13. A oscilação recupera desse modo uma validade de que parecia desprovida, pois o eu não é esse repouso que não se pode jamais alcançar, mas a inquietude que impede o repouso, e a verdade se manifesta ao arrancar-se ao que se considerava como um dado primitivo em que se acreditava encontrar o verdadeiro eu.

14. A partir daí todos os gestos, todos os erros, todas as ficções e todas as mentiras anunciam a natureza, pois se é autenticamente essa infidelidade a um equilíbrio que solicita sempre e que sempre se recusa, e não há loucura ou delírio que não se reabsorva na totalidade do eu, totalidade de que todos os aspectos são igualmente contestáveis e igualmente ilegítimos e cujo conjunto funda o valor e a legitimidade irredutível do sujeito.

15. É por isso que tudo deverá ser contado, confessado e desvelado, a fim de que um ser único se manifeste a partir da mais completa dispersão.

16. Com raríssimas exceções, jamais se tratou para Rousseau de esconder sua verdadeira identidade, mas ao contrário de conquistar uma nova identidade com a qual pudesse confundir-se sem retorno, pois não se mascarava para enganar os outros, mas para mudar sua própria vida.

17. Quando Rousseau mente, acredita em sua mentira, como ao ler a Jerusalém libertada se sente convertido em Tasso, como se tornara romano ao ler Plutarco, e ele se absorve em sua ficção a ponto de não mais deixar intervalo entre a antiga realidade que abandona e a ficção que o fascina, despersonalizando-se para entrar em sua nova personagem sem deixar nenhum resíduo.

18. Ele está convencido de ter um pólipo no coração, como o histérico está persuadido de que sua perna está paralisada, e não sabe ou não quer saber que simula, pois é a ele próprio que se trata de mistificar, como escreve Marcel Raymond ao comentar o episódio do concerto em que Rousseau se faz passar pelo compositor Vaussore de Villeneuve.

19. Ele não se contenta em representar a personagem de Vaussore, quer sê-lo e possuir-lhe os talentos e a habilidade musical, convertendo-se nele tão completamente que tem pressa em disso fornecer a demonstração imediata organizando o concerto que acabará em catástrofe, pois um impostor temeria ter de fornecer suas provas, mas Rousseau presta-se alegremente à experiência porque vai enfim viver sua nova identidade e deixar agir seu novo eu.

20. Jean-Jacques não apenas se transportou inteiro para seu papel, como espera que esse papel o arrebate, comande-lhe os gestos e as palavras eficazes e faça-o saber música e reger uma orquestra, pois Rousseau confia-se e abandona-se à sua personagem.

21. Nessa maneira de tornar-se um outro pode-se ver por certo um golpe de força da vontade, mas esse golpe de força acompanha-se de uma passividade vertiginosa, pois o que começou por um ato da vontade prolonga-se em uma espécie de hipnose em que já se trata apenas do abandono àquilo que o papel Vaussore ordena fazer.

22. Pode-se falar aqui de comportamento mágico, porque a magia consiste precisamente em provocar forças que em seguida se deixa agir sobre si, e essas forças operam por si mesmas, escapam ao nosso controle e, uma vez despertadas, livram-nos da necessidade de querer e de dirigir nossos atos, bastando então consentir naquilo que nos acontece, pois o ato mágico, começado por nós, consuma-se sem nós.

23. Tal é a metamorfose mágica de Jean-Jacques: o golpe de força inicial o entrega a uma identidade fictícia que só lhe resta sofrer, e ele passa assim do domínio dos atos voluntários ao do destino, em que, sua louca cabeça o convence disso, o talento, a glória e a felicidade vão chegar-lhe como maravilhosas recompensas.

24. O recurso à magia constitui para Rousseau uma maneira de alcançar os fins sem pôr em ação os meios normais, pois ele atinge seu objetivo em virtude de um salto instantâneo que elude o contato com o obstáculo e suprime todas as etapas intermediárias, e a magia é o reino dos atos imediatos que torna inútil a laboriosa mediação do trabalho e do estudo.

25. Marcel Raymond sublinhou que o desejo de Rousseau busca realizar-se sem aceitar os embaraços que a condição humana lhe impõe, pois ele quer ser instantaneamente compositor e músico sem ter de aprendê-lo, como consequência de uma graça imanente que resultaria da própria intensidade do desejo.

26. O concerto de Lausanne é um fracasso, mas Le devin triunfará e os Discursos e a Heloísa seduzirão as almas sensíveis, pois ao chamado da magia uma palavra e um poder reais despertam em Rousseau e ele vai realmente ser possuído por seu papel, e essa é sua sorte: não é mais traído por sua personagem como o fora em Lausanne e pode a ela entregar-se plenamente.

27. Foi abandonado pela ficção Vaussore, mas não será abandonado pela ficção Jean-Jacques Rousseau, e esse papel que o arrasta para a glória o arrastará também para a infelicidade.

28. A própria embriaguez que por ocasião da reforma acompanha sua efervescência de virtude anuncia sua natureza mágica, pois o que começou como uma escolha deliberada transforma-se em gozo passivo, e no ápice do ímpeto voluntário Rousseau não domina mais sua exaltação e vê-se arrebatado por uma vaga vertiginosa.

29. Ele, que sabe tão bem que não há virtude sem força, entrega-se ao paradoxo de uma embriaguez virtuosa em que sua vontade desarmada se deixa submergir, tendo apenas de deixar-se ditar sua virtude, mas essa virtude inspirada não é mais que um devaneio fascinante e a energia da alma está inteiramente absorvida pelo deleite da fascinação.

30. O reino da virtude, em vez de estar fundado na vontade lúcida, dissipa-se assim na inconsistência de uma exaltação que se esgota em si mesma, mas não é menos verdade que a exaltação exige a solidão, atira-se para o sacrifício e talvez para o martírio, e Jean-Jacques já não vê aí a face de seu próprio desejo, reconhecendo o comando inelutável do destino.

31. O mesmo homem que se comprazia nas metamorfoses de um proteu, o aventureiro que corria as estradas sob o nome de Vaussore ou de Dudding, agora que tem um decreto de prisão e foge de Montmorency não sabe mais como fazer para esconder seu verdadeiro nome no momento em que está em jogo a sua liberdade, e treme-lhe a mão no instante em que se prepara para fazer uma falsa assinatura.

32. Não tem o direito de desobedecer à virtude, não mentirá, expor-se-á ao perigo e suportará seu destino, mas nesse ato de coragem e de desafio Rousseau se comporta como vítima de um encantamento, havendo nessa sinceridade forçada o mesmo excesso compulsivo, a mesma paralisia da vontade e o mesmo feitiço mágico dos momentos de desorientação em que Rousseau se tornava um outro e se deixava arrastar por seu papel.

33. Vimos de um lado que a reforma pessoal introduz na alma de Jean-Jacques a contradição e o conflito, mas de outro acabamos de nele constatar o singular poder de identificar-se quase completamente com a personagem que deseja parecer, pois consegue viver autenticamente tal papel que no princípio era apenas uma quimera de seu espírito.

34. Ao longo de todo o relato de sua reforma pessoal, Rousseau faz alternar uma e outra explicação com o risco de desconcertar o leitor, pois afastou-se de si mesmo em um esforço contrário ao seu natural, mas em compensação o que inicialmente era apenas um princípio arbitrariamente escolhido tornou-se uma paixão sincera e a afetação de virtude transformou-se em verdadeira embriaguez.

35. A ideia se antecipa ao sentimento, mas este não se deixa preceder por muito tempo, pois se apressa em cobrir seu atraso e toda a energia do eu se coloca a serviço desse ideal do eu que no começo não era mais que uma ficção, e o eu penetra então em uma verdade de que é o autor, em uma identidade que não preexistia nele.

36. Todo o temperamento de Rousseau está na rapidez de que fala ao dizer que seus sentimentos se elevaram com a mais inconcebível rapidez ao tom de suas ideias, e essa rapidez descreve a impetuosidade de uma alma que transporta sua vida para o nível a que apenas a sua reflexão tinha acesso.

37. Um sistema intelectual se torna uma paixão e a ideologia ganha forma de experiência vivida, não apenas porque a moral exige que cada um viva segundo ela, mas porque a sinceridade, isto é, a simples afirmação transparente do ser natural, tem como consequência transformar este ser e fazê-lo tornar-se o que deve ser.

38. Reconhecendo-se tal como é, ele se torna um outro e adquire uma nova fisionomia, pois a tautologia do reconhecimento é o princípio de uma gênese e de uma metamorfose, e não se poderia dizer melhor que a sinceridade salva a alma e a transfigura.

39. Rousseau formula sem dúvida aqui uma moral toda profana, mas ela só se compreende em referência a um modelo religioso, pois o ato voluntário pelo qual pareço o que sou representa o papel teológico do Cristo mediador que regenera a alma do crente, mas segundo Rousseau parecer o que sou é um ato imediato que me transforma sem que eu tenha de agir explicitamente sobre mim e sem que eu tenha de recorrer a um poder ou a uma graça que me seriam externos.

40. A graça que me transfigura é imanente à minha consciência, pois não saio de mim para me tornar o que devo ser.

41. A sinceridade é reconciliação consigo mesmo e uma saída para fora da divisão interna, mas essa divisão interna não é original, sendo apenas o eco interiorizado da revolta pela qual Jean-Jacques se opõe a uma sociedade inaceitável, e mesmo para uma análise que se pretendesse puramente existencial o problema da revolta possui um direito de primazia e de anterioridade em relação ao problema da sinceridade.

42. A preocupação de sinceridade em Jean-Jacques constitui uma resposta parcial, no plano do eu e só nesse plano, a uma situação que desde a origem ultrapassa o eu e diz respeito às suas relações com a sociedade de 1750, mas no exato momento em que ela obriga a consciência a afastar-se da vida social para se preocupar com seus conflitos particulares, a sinceridade espera que os outros lhe prestem atenção.

43. Voltada para os problemas de dentro, ela visa indiretamente o fora, pois vale a pena descrever-se sinceramente porque na sociedade com a qual se rompeu poderiam existir já homens capazes de nos compreender, e a sinceridade esboça a restauração de uma relação social, não no plano da ação política, mas no da compreensão humana.

44. No que a efusão sincera se manifesta como um estado de alma pré-revolucionário, que corre o risco de suplantar qualquer ação verdadeira para as belas almas que se satisfazem com seu próprio entusiasmo.

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