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Wolfgang Schirmacher

SCHOPENHAUER, Arthur. The Essential Schopenhauer: Key Selections from the World As Will and Representation and Other Works. 1st ed ed. Erscheinungsort nicht ermittelbar: HarperCollins Publishers, 2010.

Vivendo o desastre: Schopenhauer para o século XXI

1. Associado à ideia de que a vida não vale a pena ser vivida e praticamente ignorado ao morrer há cento e cinquenta anos, Schopenhauer revela-se cada vez mais, por trás da máscara de pessimista, um mestre zen e talvez o maior místico do século XIX, que despertou dois milênios de filosofia ocidental de sua ilusão sobre quem realmente somos ao declarar que a materialidade, a vida do corpo e não da mente, é a força motriz da existência.

2. Sinônimo de uma visão de mundo inteiramente pessimista, Schopenhauer proclamou, contra a tradição representada por Leibniz, que vivemos no pior dos mundos possíveis, e sua honestidade brutal, avessa a adoçamentos, ao politicamente correto e ao respeito pelos precedentes, o mantém fora dos currículos dos grandes livros, embora continue sendo o filósofo mais lido na Alemanha e atraia no mundo inteiro rebeldes, inconformistas, profissionais sem ilusões e, sobretudo, músicos, já que só na música estaríamos sintonizados com a condição autêntica da vida sem interferência da linguagem.

3. Poucos são capazes de ser brutalmente honestos sobre o que significa ser humano, e entre os que aceitam a verdade de Schopenhauer, ao lado de seu irmão de espírito Spinoza, destacam-se os comediantes, verdadeiros filósofos americanos, de Os Simpsons a George Carlin e Jon Stewart, além de Woody Allen, de Borges, que aprendeu alemão para lê-lo no original, e de Bataille, admirador da capacidade de rir diante da morte.

4. O leitor mais intuitivo de Schopenhauer surge em todo aquele que atravessa a adolescência, quando as figuras de confiança caem sob suspeita e o ser humano, espécie não determinada segundo Nietzsche e abertura existencial segundo Heidegger, descobre o eu autêntico abandonando o que deveria ser, uma honestidade intelectual que pode conduzir ao suicídio como expressão de liberdade, embora Schopenhauer tenha formulado o argumento mais convincente contra ele, pois tirar a própria vida apenas confirma a condição insuportável da existência e capitula diante daquilo que se despreza.

5. Na ética de Schopenhauer, a única tarefa digna da filosofia é uma luta incessante até o último suspiro, ciente de que jamais se vencerá o projeto de vida heroico, e seu verdadeiro autor não é o velho amargurado das capas, mas o jovem que escreveu O mundo como vontade e representação, filósofo dos jovens e dos criativos, ameaça constante à manipulação e à socialização, sem o qual não haveria Freud nem Lacan, pois desde cedo compreendeu que a racionalidade do Homo sapiens é apenas um véu mal tecido sobre a crueldade da vontade de viver.

6. Depois de escrever sua obra principal numa Dresden barroca onde levava a vida encantada de um jovem abastado, de abandonar a breve docência em Berlim e de viver frugalmente da herança paterna, Schopenhauer passou vinte e sete anos recluso em Frankfurt, onde ficou conhecido como o Buda de Frankfurt por ter introduzido o budismo no debate filosófico ocidental, e sua tese de que a vida é sofrimento, já presente no cristianismo, vale não como revelação, mas como exemplo do poder filosófico de retomar o trivial e despertar a validade adormecida das evidências, pois, embora a vida seja sofrimento, todos vivem como se não fosse.

7. Considerado por Nietzsche o membro mais perigoso da sociedade por agitar o que foi pacificado para garantir seu funcionamento, o filósofo formula questões numa linguagem acessível a todos, e Schopenhauer, grande escritor alemão, continua a interpelar sobre a razão suficiente num mundo de razão defeituosa, a base da moral quando a ética se torna engenharia social, a liberdade da vontade na era da neurofilosofia, o sentido da arte convertida em investimento e o exemplo de místicos, santos e ascetas diante da pergunta kantiana sobre o que significa ser humano.

8. A ignorância feliz da infância termina cedo, quando a criança descobre que sua existência encantada era um conto de fadas e que está separada de tudo, impotente e obrigada a negociar o que antes recebia de graça, enquanto o poder do grito se esvai, a educação a conduz por meio da linguagem a seu lugar no mundo com falsas promessas e ela se descobre lançada, sem consentimento, em circunstâncias sociais e genéticas, num mundo em que as crianças são tratadas como escravas e em que, na adolescência, se percebe pertencer à espécie mais assassina e predadora, que mata por arrogância ao se presumir senhora e possuidora da natureza.

9. Como a verdade não ousa aparecer nua diante do povo, as religiões mantêm sua influência mesmo depois do Iluminismo, pois a confiança inata na vida, técnica de sobrevivência compartilhada com outras espécies, gera a necessidade de um primeiro princípio, seja Deus ou a Natureza regida por leis científicas, e até a evolução darwinista, ao dar nome ao sofrimento universal, retirou-lhe o aguilhão, de modo que a ciência mente apenas um pouco menos que as religiões, embora tenha ao menos fatos falseáveis, enquanto a religião tem sabedoria compassiva.

10. Buscar o lado bom dos acontecimentos não altera a descrição horrível de que todo ser vivo é o túmulo de outros seres vivos, pois a busca da felicidade fere aqueles que almejavam o mesmo prêmio, a felicidade é apenas um momento entre infortúnios e a crença de estar protegido do sofrimento alheio é a maior das mentiras, já que vítima e algoz são um só, conclusão próxima da de Camus, para quem a vida só vale a pena se a tornarmos digna, enquanto Schopenhauer, sem abandonar o bastão do mestre zen, apenas insinuou a virada da vontade de viver, a plenitude do nada e a compaixão como modo não ensinável de vida ética.

11. A única exceção à regra do pensamento racional é a introspecção, a percepção daquilo que está em mim e só a mim é acessível, caminho autêntico da própria vontade, de onde provém a sobreverdade da poesia, aquelas mentiras que dizem a verdade, próximas da vontade de potência nietzschiana entendida não como programa político, mas como poder estético de criar um mundo humano.

12. Toda a obra de Schopenhauer elabora filosoficamente essa introspecção e seu pensamento único, a certeza intuitiva de que a vida é sofrimento, comparável à intuição de Spinoza e ao eterno retorno de Nietzsche, embora cada repetição da vida vivida seja, como lembra Deleuze, quase imperceptivelmente diferente.

13. Destemido, Schopenhauer encontrou em si a vontade cega, impiedosa e indiferente a toda consideração ética, que encara a vida com a rapacidade de um assassino em série e exige consciência do sofrimento inevitável sem imaginar finais hollywoodianos, mas sua introspecção guardava um chamado oculto à ação, protegido pela regra mística do silêncio, segundo a qual se devem seguir os exemplos dos santos e não suas palavras, num apelo à transformação da vida, ecoado até na décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach, que só pode começar na singularidade e culmina na virada da vontade e no nada como modo autêntico de viver.

14. Apesar dos limites hermenêuticos impostos por suas condições históricas e existenciais, evidentes em seu notório ensaio sobre as mulheres, a filosofia do desastre de Schopenhauer manifesta a mudança extrema trazida pela técnica moderna, que torna o ser humano, como Homo generator, plenamente responsável pela condição humana, e descreve a vontade cega que, diante da miséria da criação e no amor à humanidade, começa lentamente a ver-se, a escutar e a descobrir em si um fim que persevera no ser sem negar os outros, dissolvendo sua indiferença na ética da compaixão.

15. As múltiplas viradas da vontade são lentas demais para serem notadas no curso de uma vida individual, o que justifica a luta contínua contra a injustiça, mas é por meio das tecnologias biológicas e digitais que a vida se transforma, como mostram a contracepção química, que tornou obsoleta a sugestão desesperada de Schopenhauer de renunciar ao sexo, a criação de filhos como escolha e a crescente aceitação de uma morte escolhida como fim genuíno de uma vida plenamente vivida.

16. Viver a filosofia é o mandato de Schopenhauer para o século XXI, pois seu pensamento único concedeu-lhe a virada do corpo, que sente a dor e a compaixão, e mostrou a sexualidade como atividade principal e a vida como jogo mortal, ao mesmo tempo que, contra Kant, afirmou a introspecção como exceção capaz de acessar a coisa em si, explicou a necessidade metafísica de sentido diante da morte e denunciou a ciência, com suas promessas de vencer a doença e a morte, como mera interpretação da vontade na natureza forjada por uma mente corruptível para aliviar nosso desgosto ético.

17. A afinidade de Schopenhauer com o romantismo manifesta-se na exceção concedida à arte, ideia materializada que mostra a condição da vida sem nos envolver em seu sofrimento e oferece uma pausa meditativa em que a vontade silencia, sobretudo na música, som do ser, abrindo caminho da estética à ética, uma ética que não se baseia em normas e ameaças, mas na capacidade de responder às situações existenciais, que não condena o egoísmo, mas a malícia, e que tem como núcleo a compaixão involuntária e irresistível do Tat tvam asi, ato fundador do amor à humanidade e da conduta ética diante de uma vida que oscila entre o sofrimento e o tédio.

18. O Schopenhauer essencial para este século parte da ontologia e da diferença entre vontade e representação, passa à filosofia da arte como estado excepcional de calma diante da vida e retorna ao desastre de viver e à compaixão pelos que sofrem, incluindo os animais, mostrando que o amor à humanidade implica a recusa moral de viver segundo a vontade de viver e molda a vida cotidiana, não se limitando a uma questão metafísica.

19. Por razões de coerência e fluidez, as traduções reunidas, britânicas e americanas, foram uniformizadas na ortografia americana, algumas referências e citações obscuras foram omitidas, muitas notas foram incorporadas ao corpo do texto e certas expressões antiquadas foram mantidas por evocarem a língua e o contexto da época de Schopenhauer.

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