User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
schopenhauer:1851:sofrimento

Sofrimento do mundo

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga und Paralipomena: Kleine philosophische Schriften. 2 volumes. Berlin: A. W. Hayn, 1851.

“On the Suffering of the World.” In: Arthur Schopenhauer, Parerga and Paralipomena. Volume II. Translated by E. F. J. Payne. Oxford: Oxford University Press, 1974, pp. 291–305.

Se o sofrimento não é o objetivo primeiro e imediato de nossa vida, então nossa existência é a coisa mais inútil e inadequada do mundo. Pois é absurdo supor que a dor infinita, que abunda por toda parte no mundo e decorre da carência e da miséria inerentes à vida, possa ser sem propósito e puramente acidental. Nossa suscetibilidade à dor é praticamente infinita; mas a que diz respeito ao prazer tem limites estreitos. É verdade que cada infortúnio isolado parece ser uma exceção, mas o infortúnio em geral é a regra.

Assim como um riacho não forma redemoinhos enquanto não encontra obstruções, da mesma forma a natureza humana, assim como a animal, é tal que não percebemos nem notamos realmente tudo o que ocorre de acordo com nossa vontade. Se percebêssemos isso, a razão seria inevitavelmente que não ocorreu de acordo com nossa vontade, mas deve ter encontrado algum obstáculo. Por outro lado, tudo o que obstrui, cruza ou se opõe à nossa vontade — e, portanto, tudo o que é desagradável e doloroso — é sentido por nós imediatamente, de uma vez só e com muita clareza. Assim como não sentimos a saúde de todo o nosso corpo, mas apenas o pequeno ponto onde o sapato aperta, também não pensamos em todos os nossos assuntos que estão indo perfeitamente bem, mas apenas em alguma ninharia insignificante que nos incomoda. Nisso repousa a natureza negativa do bem-estar e da felicidade, em oposição à natureza positiva da dor, um ponto que já destaquei com frequência.

Consequentemente, não conheço maior absurdo do que o da maioria dos sistemas metafísicos que declaram o mal como algo negativo; quando, na verdade, é precisamente ele que é positivo e se faz sentir. Por outro lado, o que é bom, ou seja, toda felicidade e satisfação, é negativo, isto é, a mera eliminação de um desejo e o fim de uma dor. Em consonância com isso está o fato de que, via de regra, encontramos prazeres muito abaixo, mas dores muito além, das nossas expectativas. Quem quiser testar sumariamente a afirmação de que o prazer no mundo supera a dor, ou, pelo menos, que os dois se equilibram, deve comparar os sentimentos de um animal que está devorando outro com os desse outro.

O consolo mais eficaz diante de qualquer infortúnio ou sofrimento é olhar para outros que são ainda mais infelizes do que nós; e isso todos podem fazer. Mas qual é, então, o resultado para a humanidade como um todo? Somos como cordeiros brincando no campo, enquanto o açougueiro os observa e seleciona primeiro um e depois outro; pois, em nossos dias felizes, não sabemos que calamidade o destino, neste exato momento, nos reserva: doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, perda da visão, loucura, morte e assim por diante. A história nos mostra a vida das nações e não encontra nada para relatar, a não ser guerras e insurreições; os anos de paz aparecem aqui e ali apenas como breves pausas, como intervalos entre os atos. E, da mesma forma, a vida do indivíduo é uma luta perpétua, não apenas metaforicamente contra a carência e o tédio, mas, de fato, contra os outros. Em toda parte ele encontra um adversário, vive em constante conflito e morre com a arma na mão.

Contribui não pouco para o tormento de nossa existência o fato de que o tempo está sempre nos pressionando, nunca nos deixa respirar e está atrás de cada um de nós como um capataz com um chicote. Somente aqueles que foram entregues ao tédio não são pressionados e atormentados pelo tempo. No entanto, assim como nosso corpo inevitavelmente explodiria se a pressão da atmosfera fosse removida dele, da mesma forma, se a pressão da carência, das dificuldades, da decepção e da frustração do esforço fosse removida da vida dos homens, sua arrogância aumentaria — não até o ponto de explodir, mas sim até manifestações da mais desenfreada loucura e até mesmo da insanidade. Em todos os momentos, todos, de fato, precisam de uma certa dose de cuidado, ansiedade, dor ou dificuldade, assim como um navio requer lastro para seguir em um curso reto e estável.

Trabalho, preocupação, labutar e dificuldade são certamente o destino de quase todos ao longo de suas vidas. Mas se todos os desejos fossem realizados assim que surgissem, como então as pessoas ocupariam suas vidas e gastariam seu tempo? Suponha-se que a raça humana fosse transferida para a Utopia, onde tudo crescesse automaticamente e os pombos voassem já assados; onde todos encontrassem imediatamente sua amada e não tivessem dificuldade em mantê-la; então as pessoas morreriam de tédio ou se enforcariam; ou então lutariam, estrangulariam e assassinariam uns aos outros, causando assim a si mesmas mais sofrimento do que aquele que lhes é agora imposto pela natureza. Assim, para tal raça, nenhuma outra cena, nenhuma outra existência, é adequada.

Devido à natureza negativa do bem-estar e do prazer, em contraste com a natureza positiva da dor — fato para o qual acabei de chamar a atenção do leitor —, a felicidade de qualquer vida deve ser medida não por suas alegrias e prazeres, mas pela ausência de tristeza e sofrimento, ou seja, daquilo que é positivo. Mas, nesse caso, a sorte dos animais parece ser mais suportável do que a do homem. Vamos examinar os dois casos com um pouco mais de detalhe.

Por mais variadas que sejam as formas pelas quais a felicidade e a infelicidade do homem se manifestam e o levam a buscá-las ou a fugir delas, a base material de tudo isso é, no entanto, o prazer ou a dor física. Essa base é muito restrita, a saber: saúde, alimentação, proteção contra a umidade e o frio e satisfação sexual, ou então a falta dessas coisas. Consequentemente, no prazer físico real, o homem não tem mais do que o animal, exceto na medida em que seu sistema nervoso mais desenvolvido aumenta a suscetibilidade a todo prazer, mas também a toda dor. Mas quão mais fortes são as emoções despertadas nele do que aquelas despertadas no animal! Quão incomparavelmente mais profundamente e poderosamente seus sentimentos são estimulados, e, em última análise, apenas para chegar ao mesmo resultado, a saber: saúde, alimentação, vestuário e assim por diante.

Isso decorre principalmente do fato de que, para ele, tudo é intensificado poderosamente por seu pensamento sobre o ausente e o futuro, pelo que a ansiedade, o medo e a esperança realmente surgem pela primeira vez. Mas, então, esses sentimentos pesam muito mais sobre ele do que a realidade presente dos prazeres ou das dores, às quais o animal está confinado. Assim, falta ao animal a reflexão, esse condensador de prazeres e dores que, portanto, não podem ser acumulados, como acontece no caso do homem por meio de sua memória e previsão. Pelo contrário, para o animal, o sofrimento do momento presente permanece sempre, mesmo quando se repete inúmeras vezes, meramente como o sofrimento do momento presente, tal como na primeira ocasião, e não pode ser acumulado. Daí a invejável tranquilidade e placidez dos animais. Por outro lado, por meio da reflexão e de tudo o que a ela está ligado, desenvolve-se no homem, a partir desses mesmos elementos de prazer e dor que ele tem em comum com o animal, um aumento da suscetibilidade à felicidade e à infelicidade, capaz de levá-lo a um êxtase momentâneo — e, às vezes, até fatal — ou, então, às profundezas do desespero e do suicídio. Analisando mais de perto, as coisas parecem seguir o seguinte curso. A fim de intensificar seu prazer, o homem aumenta deliberadamente suas necessidades, que originalmente eram apenas um pouco mais difíceis de satisfazer do que as do animal; daí o luxo, as iguarias, o tabaco, o ópio, as bebidas alcoólicas, a pompa, a ostentação e tudo o que vem junto com isso. Além disso, em consequência da reflexão, há uma fonte de prazer — e também de dor — aberta exclusivamente ao homem, uma fonte que lhe causa uma quantidade excessiva de sofrimento; na verdade, quase mais do que todas as outras juntas. Refiro-me à ambição e ao sentimento de honra e vergonha; em palavras simples, o que ele pensa da opinião que os outros têm dele. Ora, sob mil formas diferentes e muitas vezes estranhas, isso se torna o objetivo de quase todos os seus esforços que vão além do prazer ou da dor física. É verdade que ele certamente tem, em relação ao animal, a vantagem de prazeres verdadeiramente intelectuais, que admitem muitos graus — desde a mais ingênua brincadeira ou conversa até as mais elevadas realizações da mente. Mas, como contrapeso a isso do lado do sofrimento, surge no homem o tédio, que é desconhecido ao animal — pelo menos em seu estado natural —, mas que atinge levemente os mais inteligentes apenas quando domesticados, enquanto que, para o homem, torna-se um verdadeiro flagelo. Vemos isso naquela multidão de infelizes que sempre se preocuparam em encher os bolsos, mas nunca a cabeça, e para quem a própria riqueza agora se torna um castigo, entregando-os nas mãos do tórrido tédio. Para escapar disso, eles agora correm em todas as direções e viajam para cá, para lá e para todos os lugares. Assim que chegam a um lugar, perguntam ansiosamente sobre suas diversões e clubes, assim como um pobre faz a respeito de suas fontes de ajuda; pois, é claro, a carência e o tédio são os dois pólos da vida humana. Por fim, devo mencionar que, no caso do homem, há associada à satisfação sexual uma seleção obstinada, peculiar somente a ele, que às vezes se eleva a um amor mais ou menos apaixonado. [ … ] Dessa forma, isso se torna para ele uma fonte de muito sofrimento e pouco prazer.

Enquanto isso, é notável como, por meio da adição do pensamento — que falta ao animal —, uma estrutura tão elevada e vasta de felicidade e infelicidade humanas se ergue sobre a mesma base estreita de alegrias e tristezas que o animal também possui. Com relação a isso, seus sentimentos estão expostos a emoções, paixões e choques tão violentos que sua marca pode ser lida nas rugas permanentes em seu rosto; e, no entanto, no fim das contas e na realidade, trata-se apenas das mesmas coisas que até mesmo o animal obtém, e de fato com um gasto incomparavelmente menor de emoção e angústia. Mas, em meio a tudo isso, a medida da dor aumenta no homem muito mais do que a do prazer e é agora, de maneira especial, intensificada de forma considerável pelo fato de que a morte lhe é de fato conhecida. Por outro lado, o animal foge da morte meramente por instinto, sem realmente conhecê-la e, portanto, sem nunca realmente se deparar com ela, ao contrário do homem, que sempre tem diante de si essa perspectiva. E assim, embora apenas alguns animais morram de morte natural, a maioria deles tem apenas tempo suficiente para propagar sua espécie e, então, se não antes, torna-se presa de algum outro animal. Por outro lado, somente o homem, em sua espécie, conseguiu tornar a chamada morte natural a regra, à qual há, no entanto, exceções importantes. No entanto, apesar de tudo isso, os animais ainda têm a vantagem, pela razão que apresentei. Além disso, o homem alcança seu prazo de vida realmente natural com a mesma raridade que os animais, pois seu modo de vida antinatural, suas lutas e paixões, e a degeneração da raça daí resultante raramente lhe permitem ter sucesso nisso.

Os animais estão muito mais satisfeitos do que nós com a mera existência; a planta está totalmente satisfeita, o homem de acordo com o grau de sua embotamento. Consequentemente, a vida do animal contém menos sofrimento, mas também menos prazer, do que a do homem. Isso se deve principalmente ao fato de que o animal permanece livre de preocupações e ansiedades, juntamente com o tormento que elas causam, por um lado, mas também carece de verdadeira esperança, por outro. E, assim, ele não participa daquela antecipação de um futuro alegre por meio de ideias, juntamente com a encantadora fantasmagoria — fonte da maior parte de nossas alegrias e prazeres — que acompanha essas ideias e é proporcionada adicionalmente pela imaginação; consequentemente, nesse sentido, ele está sem esperança. É ambas as coisas porque sua consciência se restringe ao que é percebido intuitivamente e, portanto, ao momento presente. Assim, somente em relação aos objetos que já existem neste momento na percepção intuitiva é que o animal tem um medo e uma esperança extremamente breves; enquanto a consciência do homem possui um horizonte intelectual que abrange toda a vida e vai até mesmo além dela. Mas, em consequência disso, os animais, quando comparados a nós, parecem ser realmente sábios em um aspecto, a saber, em seu desfrute calmo e imperturbável do momento presente. O animal é a personificação do presente; a paz de espírito evidente que ele assim compartilha frequentemente nos envergonha com nosso estado muitas vezes inquieto e insatisfeito, que provém de pensamentos e preocupações. E mesmo aqueles prazeres da esperança e da antecipação que acabamos de discutir não se obtêm de graça. Assim, o que um homem desfruta antecipadamente, por meio da esperança e da expectativa de uma satisfação, posteriormente diminui o prazer real dessa satisfação, já que a coisa em si passa a satisfazê-lo em menor medida. O animal, por outro lado, permanece livre tanto desse prazer antecipado quanto dessa diminuição do prazer e, portanto, desfruta da coisa real e presente em si, na íntegra e sem diminuição. Da mesma forma, os males pesam sobre o animal apenas com seu próprio peso real, enquanto para nós são frequentemente multiplicados por dez pelo medo e pela previsão. [ … ] É justamente essa absorção completa no momento presente, peculiar aos animais, que contribui tanto para o prazer que tiramos de nossos animais de estimação. Eles são o momento presente personificado e, até certo ponto, nos fazem sentir o valor de cada hora livre de fardos e sem nuvens, enquanto que, com nossos pensamentos, geralmente a ignoramos e a deixamos de lado. Mas a capacidade acima mencionada dos animais de se satisfazerem mais do que nós com a mera existência é abusada pelo homem egoísta e insensível, e é frequentemente explorada a tal ponto que ele não lhes permite absolutamente nada além da mera existência. Por exemplo, o pássaro que foi feito para voar por metade do mundo fica confinado a um pé cúbico de espaço, onde lentamente definha até a morte e chora; e o cão altamente inteligente, o amigo mais verdadeiro e fiel do homem, acorrentado por ele! Nunca vejo um cão assim sem sentir a mais profunda simpatia por ele e uma profunda indignação contra seu dono. Lembro-me com satisfação de um caso, relatado há alguns anos no The Times, em que um lorde mantinha um cão de grande porte acorrentado. Um dia, enquanto caminhava pelo quintal, lhe deu na cabeça de ir acariciar o cão, e então o animal rasgou-lhe o braço de cima a baixo — e com toda a razão! O que ele quis dizer com isso foi: Você não é meu dono, mas meu demônio, que transforma minha breve existência em um inferno! Que isso aconteça a todos que acorrentam cães.

Se o resultado das observações anteriores for que o poder ampliado do conhecimento torna a vida do homem mais infeliz do que a do animal, podemos reduzir isso a uma lei universal e, assim, obter uma visão muito mais ampla. Em si mesmo, o conhecimento é sempre indolor. A dor diz respeito apenas à vontade e consiste em refreá-la, impedi-la ou frustrá-la; no entanto, um requisito adicional é que esse refreio seja acompanhado pelo conhecimento. Assim, da mesma forma que a luz ilumina o espaço somente quando existem objetos para refleti-la; assim como um tom requer ressonância e o som, em geral, só se torna audível à distância por meio de ondas do ar vibrante que se refletem em corpos sólidos, de modo que seu efeito é notavelmente fraco no topo de montanhas isoladas e uma canção ao ar livre produz pouco efeito; assim também, da mesma forma, a restrição da vontade, para ser sentida como dor, deve ser acompanhada pelo conhecimento, que, em si mesmo, porém, é alheio a toda dor.

Assim, a dor física já é condicionada pelos nervos e sua conexão com o cérebro; e, portanto, uma lesão em um membro não é sentida se os nervos que o ligam ao cérebro forem seccionados, ou quando o próprio cérebro perde suas funções por meio do clorofórmio. Pela mesma razão, consideramos que, assim que a consciência se extingue quando uma pessoa está morrendo, todas as convulsões subsequentes são indolores. Segue-se, naturalmente, que a dor mental é condicionada pelo conhecimento; e é fácil perceber que ela aumenta com o grau de conhecimento. [ … ] Podemos, portanto, expressar figurativamente toda essa relação dizendo que a vontade é a corda, seu impedimento ou restrição é a vibração da mesma, o conhecimento é a caixa de ressonância e a dor é o tom.

Agora, de acordo com isso, apenas o que é inorgânico e também as plantas são incapazes de sentir dor, por mais que a vontade possa ser contida em ambos. Por outro lado, todo animal, mesmo um infusório, sente dor porque o conhecimento, por mais imperfeito que seja, é a verdadeira característica da existência animal. À medida que o conhecimento aumenta na escala animal, o mesmo ocorre com a suscetibilidade à dor. Ela é, portanto, ainda extremamente pequena no caso dos animais mais inferiores; assim, por exemplo, os insetos continuam se alimentando mesmo quando a parte traseira do corpo está quase arrancada e pendurada por um mero fio de intestino. Mas mesmo nos animais mais evoluídos, devido à ausência de conceitos e pensamento, a dor não se assemelha em nada àquela sofrida pelo homem. Mesmo a suscetibilidade à dor só poderia atingir seu ponto máximo quando, em virtude de nossa faculdade da razão e de sua capacidade de reflexão, existe também a possibilidade de negar a vontade. Pois, sem essa possibilidade, tal suscetibilidade teria sido uma crueldade sem propósito.

Na juventude, sentamo-nos diante do curso iminente de nossa vida como crianças no teatro antes de a cortina se levantar, que ficam ali sentadas em alegre e ansiosa expectativa das coisas que estão por vir. É uma bênção não sabermos o que realmente virá. Pois, para quem sabe, as crianças podem, às vezes, parecer como delinquentes inocentes que estão condenados não à morte, é verdade, mas à vida, e ainda não compreenderam o significado de sua sentença. No entanto, todos desejam chegar à velhice e, assim, a um estado de vida sobre o qual se possa dizer: “Hoje está ruim e, a cada dia, ficará pior, até que aconteça o pior de tudo.”

Se imaginarmos, da forma mais aproximada possível, a soma total da miséria, da dor e do sofrimento de todos os tipos sobre os quais o sol brilha em seu curso, admitiremos que teria sido muito melhor se fosse tão impossível para o sol produzir o fenômeno da vida na Terra quanto na Lua, e se a superfície da Terra, como a da Lua, ainda estivesse em um estado cristalino.

Também podemos considerar nossa vida como um episódio inutilmente perturbador no repouso bem-aventurado do nada. De qualquer forma, mesmo o homem que teve uma vida razoavelmente boa se torna cada vez mais consciente, quanto mais vive, de que a vida, no geral, é uma decepção, ou melhor, uma farsa; em outras palavras, tem o caráter de uma grande mistificação ou até mesmo de uma fraude. Quando dois homens que foram amigos na juventude se reencontram após uma separação que durou toda a vida, o sentimento que mais se destaca em suas mentes ao se verem — na medida em que isso lhes traz lembranças dos velhos tempos — é de completa decepção com a vida como um todo. Nos anos passados, sob o amanhecer cor-de-rosa de sua juventude, a vida lhes parecia tão promissora; ela fez tantas promessas e cumpriu tão poucas. Esse sentimento é tão predominante quando se reencontram que nem mesmo consideram necessário expressá-lo em palavras, mas ambos o assumem tacitamente e passam a conversar com base nisso.

Quem vive duas ou três gerações sente-se como o espectador que, durante a feira, assiste às apresentações de todos os tipos de malabaristas e, se permanecer sentado na cabine, vê-as se repetirem duas ou três vezes. Como os truques foram concebidos apenas para uma única apresentação, eles não causam mais nenhuma impressão depois que a ilusão e a novidade se dissipam.

Enlouqueceríamos se contemplássemos os arranjos suntuosos e excessivos, as incontáveis estrelas fixas flamejantes no espaço infinito que não têm outra função senão iluminar mundos, sendo esse o cenário de miséria e desolação e, no caso mais afortunado, não produzindo nada além de tédio — pelo menos a julgar pelo exemplar com o qual estamos familiarizados. Ninguém é motivo de grande inveja, mas muitos milhares são motivo de grande pena. A vida é uma tarefa a ser cumprida; nesse sentido, defunctus é uma bela expressão. Imaginemos, por um momento, que o ato da procriação não fosse uma necessidade nem fosse acompanhado de intenso prazer, mas uma questão de pura deliberação racional; seria então possível que a raça humana realmente continuasse a existir? Não sentiria cada um tanta compaixão pela geração vindoura a ponto de preferir poupá-la do fardo da existência, ou, pelo menos, não gostaria de assumir a sangue frio a responsabilidade de impor-lhe tal fardo? O mundo é apenas um inferno e, nele, os seres humanos são, por um lado, as almas torturadas e, por outro, os demônios.

Suponho que terei de ouvir novamente que minha filosofia é sombria e desoladora simplesmente porque digo a verdade, enquanto as pessoas querem ouvir que o Senhor fez todas as coisas muito bem. Vão para suas igrejas e deixem nós, filósofos, em paz! De qualquer forma, não exijam que eles adaptem suas doutrinas ao seu modelo! Isso é feito por patifes e pseudo-filósofos, dos quais vocês podem encomendar quaisquer doutrinas que desejarem. Brahma cria o mundo por meio de uma espécie de pecado original, mas ele próprio permanece nele para expiar isso até que se redima dele. Essa é uma ideia bastante boa! No budismo, o mundo surge em consequência de uma perturbação inexplicável (após um longo período de calma) na clareza cristalina do estado abençoado e obtido penosamente do Nirvana e, portanto, por meio de uma espécie de fatalidade que, no entanto, deve ser entendida, em última instância, em um sentido moral; embora a questão tenha seu análogo exato e sua imagem correspondente na física, no surgimento inexplicável de uma nebulosa primordial, da qual se forma um sol. Assim, em consequência de deslizes morais, ele também se torna gradualmente pior e pior fisicamente, até assumir seu atual estado lamentável. Uma excelente ideia! Para os gregos, o mundo e os deuses eram obra de uma necessidade insondável; isso é bastante razoável, na medida em que nos satisfaz por enquanto. [ … ] Mas que um Deus Jeová crie este mundo de miséria e aflição [ … ] e depois se aplauda [ … ], isso é algo intolerável. [ … ] Se a demonstração de Leibniz estivesse correta — de que, de todos os mundos possíveis, este é, ainda assim, sempre o melhor —, ainda assim não teríamos uma Teodiceia, uma defesa da criação de Deus. Pois o Criador criou, de fato, não apenas o mundo, mas também a própria possibilidade; consequentemente, ele deveria ter organizado isso de modo a permitir a existência de um mundo melhor.

Mas, de modo geral, tal visão do mundo como a obra bem-sucedida de um Ser onisciente, onibenevolente e, além disso, onipotente é contradita de forma flagrante, por um lado, pela miséria e pela desgraça que preenchem o mundo e, por outro, pela óbvia imperfeição e até mesmo pela distorção burlesca do mais perfeito de seus fenômenos; refiro-me ao fenômeno humano. Aqui se encontra uma dissonância que jamais poderá ser resolvida. Por outro lado, esses mesmos exemplos concordarão com nosso argumento e servirão como prova dele, se considerarmos o mundo como obra de nossa própria culpa e, consequentemente, como algo que seria melhor nunca ter existido. Enquanto, na primeira hipótese, os seres humanos se tornam uma acusação amarga contra o Criador e fornecem material para o sarcasmo, na segunda eles aparecem como uma denúncia de nossa própria natureza e vontade verdadeiras, o que tem o objetivo de nos humilhar. Pois elas nos levam à visão de que nós, como descendentes de pais dissolutos, viemos ao mundo já sobrecarregados de culpa e que, somente porque temos de estar continuamente pagando essa dívida, nossa existência se revela tão miserável e tem a morte como seu desfecho. Nada é mais certo do que o fato de que, falando de maneira geral, é o grande pecado do mundo que produz os muitos e grandes sofrimentos do mundo; e aqui não me refiro à conexão física e empírica, mas à metafísica. De acordo com essa visão, é somente a história da Queda do Homem que me reconcilia com o Antigo Testamento. De fato, aos meus olhos, é a única verdade metafísica que aparece no livro, embora esteja revestida de alegoria. Pois a nada nossa existência se assemelha tanto quanto às consequências de um passo em falso e de uma luxúria culpada. Não posso deixar de recomendar ao leitor reflexivo uma dissertação popular, mas extremamente profunda, sobre esse assunto, de autoria de Matthias Claudius, que traz à luz o espírito essencialmente pessimista do cristianismo e aparece na quarta parte do Wandsbecker Bote com o título “Maldita seja a terra por tua causa”.

Para termos sempre à mão uma bússola segura que nos guie na vida e nos permita sempre enxergá-la sob a luz correta, sem jamais nos desviarmos, nada é mais adequado do que nos acostumarmos a considerar este mundo como um lugar de penitência e, portanto, uma colônia penal, por assim dizer. [ … ] Essa visão do mundo também encontra sua justificativa teórica e objetiva não apenas na minha filosofia, mas na sabedoria de todas as épocas, no bramanismo, no budismo, em Empédocles e em Pitágoras. Cícero também menciona que era ensinado pelos sábios antigos e na iniciação aos Mistérios “que, por causa de erros concretos cometidos em uma vida anterior, nascemos para pagar a pena”. Nada pode ser mais propício à paciência na vida e a uma tolerância serena perante os homens e os males do que uma lembrança budista deste tipo: “Isto é Samsara, o mundo da luxúria e do desejo e, portanto, do nascimento, da doença, da velhice e da morte; é um mundo que não deveria existir. E esta é, aqui, a população do Samsara. Portanto, que coisas melhores você poderia esperar?” Gostaria de recomendar que todos repetissem isso quatro vezes por dia, plenamente conscientes do que estão dizendo.

Mas mesmo no cristianismo genuíno, quando devidamente compreendido, nossa existência é vista como a consequência de uma culpa, de um passo em falso. Se adquirimos esse hábito, ajustaremos nossas expectativas em relação à vida para que se adequem à ocasião e, consequentemente, não mais consideraremos inesperadas e anormais suas dificuldades, aborrecimentos, sofrimentos, preocupações e misérias, grandes e pequenas. Pelo contrário, consideraremos tais coisas perfeitamente normais, sabendo muito bem que aqui todos são punidos por sua existência e, de fato, cada um à sua maneira. Pois um dos males de uma penitenciária é também a sociedade que encontramos ali. Como ela é, qualquer pessoa digna de uma sociedade melhor saberá sem que eu precise dizer. Uma natureza nobre, assim como um gênio, pode às vezes se sentir neste mundo como um prisioneiro nobre nas galeras entre criminosos comuns; e eles, assim como ele, tentarão, portanto, isolar-se. De modo geral, porém, a maneira de ver as coisas acima mencionada nos permitirá considerar, sem surpresa e certamente sem indignação, as chamadas imperfeições, ou seja, a natureza miserável e desprezível da maioria dos homens, tanto moral quanto intelectualmente, que, consequentemente, está estampada em seus rostos. Pois sempre nos lembraremos de onde estamos e, consequentemente, encararemos a todos, em primeiro lugar, como seres que existem apenas em virtude de sua pecaminosidade e cuja vida é a expiação pela culpa de seu nascimento. É exatamente isso que o cristianismo chama de natureza pecaminosa do homem. É, portanto, a base dos seres que encontramos neste mundo como nossos semelhantes. Além disso, em consequência da constituição do mundo, quase todos eles se encontram, em maior ou menor grau, em um estado de sofrimento e insatisfação que não contribui para torná-los mais compreensivos e amáveis. Por fim, há o fato de que, em quase todos os casos, seu intelecto é apenas suficiente para servir à sua vontade.

O critério correto para julgar qualquer homem é lembrar que ele é, na verdade, um ser que não deveria existir de forma alguma, mas que está expiando sua existência por meio de muitas formas diferentes de sofrimento e por meio da morte. O que podemos esperar de tal ser? Nós expiamos nosso nascimento, em primeiro lugar, vivendo e, em segundo lugar, morrendo. Isso também é alegorizado pelo pecado original. [ … ] Assim, temos que moderar nossas exigências em relação à sociedade deste mundo. Quem se mantiver firme nesse ponto de vista poderá chamar o impulso social de tendência perniciosa. De fato, a convicção de que o mundo, e, portanto, também o homem, é algo que realmente não deveria existir, tem o objetivo de nos encher de tolerância uns para com os outros; pois o que podemos esperar de seres em tal situação? De fato, desse ponto de vista, poderia nos ocorrer que a forma de tratamento realmente adequada entre um homem e outro deveria ser, em vez de Senhor, Monsieur e assim por diante, Leidensgefährte, socii malorum, compagnon de misères, meu companheiro de sofrimento. Por mais estranho que isso possa parecer, está de acordo com os fatos, coloca o outro na perspectiva mais correta e nos lembra daquilo que é mais necessário: tolerância, paciência, compreensão e amor ao próximo, coisas de que todos precisam e que, portanto, cada um de nós deve ao outro.

A característica das coisas deste mundo e, especialmente, do mundo dos homens não é exatamente a imperfeição, como muitas vezes se diz, mas sim a distorção, em tudo — seja no âmbito moral, intelectual ou físico. A desculpa, às vezes invocada para muitos vícios, a saber, “que isso é natural ao homem”, não é de forma alguma adequada; a réplica adequada deveria ser: “justamente porque é ruim, é natural; e justamente porque é natural, é ruim”. Para compreender isso corretamente, precisamos ter compreendido o significado da doutrina do pecado original. Ao julgar um indivíduo humano, devemos sempre manter o ponto de vista de que a base desse indivíduo é algo que não deveria existir de forma alguma, algo pecaminoso, perverso e absurdo, aquilo que tem sido entendido como pecado original, aquilo por causa do qual ele está condenado à morte. Essa natureza fundamentalmente má é, de fato, caracterizada pelo fato de que ninguém suporta ser examinado de perto. O que podemos esperar de tal ser? Se, portanto, partirmos desse fato, iremos julgá-lo com mais indulgência; não nos surpreenderemos quando os demônios que se escondem nele se agitarem e derem as caras, e seremos mais capazes de apreciar qualquer aspecto positivo que, apesar de tudo, tenha sido encontrado nele, seja isso consequência de seu intelecto ou de qualquer outra coisa. Em segundo lugar, devemos também ter em mente sua posição e lembrar que a vida é essencialmente uma condição de carência, angústia e, muitas vezes, miséria, na qual todos precisam lutar e se esforçar pela própria existência e, portanto, nem sempre podem mostrar uma face agradável. Se, ao contrário, o homem fosse aquilo que todas as religiões e filosofias otimistas gostariam de fazer dele, a saber, a obra ou mesmo a encarnação de um Deus, na verdade um ser que, em todos os sentidos, deveria ser e ser exatamente como é, que efeito totalmente diferente seria inevitavelmente produzido pela primeira impressão, pelo conhecimento mais próximo e pelo convívio contínuo com cada ser humano, em comparação com o que é produzido atualmente!

O perdão é a palavra para todos. [ … ] Devemos tratar com indulgência todas as loucuras, falhas e vícios humanos, tendo em mente que o que temos diante de nós são simplesmente nossas próprias loucuras, falhas e vícios. Pois são justamente as falhas da humanidade à qual também pertencemos; consequentemente, temos em nós mesmos todas as suas falhas, e assim aquelas pelas quais estamos indignados neste exato momento, simplesmente porque não se manifestam em nós neste momento específico. Portanto, elas não estão à superfície, mas repousam no fundo de nós mesmos e virão à tona na primeira oportunidade, exatamente como as vemos nos outros; embora uma falha seja mais evidente em um homem e outra em outro, e a soma total de todas as qualidades ruins seja, sem dúvida, muito maior em um homem do que em outro. Pois a diferença entre as individualidades é incalculavelmente grande.

schopenhauer/1851/sofrimento.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki