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Pascal David

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Les âges du monde: fragments dans les premières versions de 1811 et 1813. Tr. et postface Pascal David. Paris: Presses Univ. de France, 1992.

Genealogia do tempo

1. As Idades do Mundo representam obra à parte na produção filosófica de Schelling por diversos títulos, devendo-se sua singularidade sobretudo ao fato de a fecundidade schellingiana ali se exercer, e depois se exaurir, na retomada de um mesmo projeto cujas diferentes realizações convidam o leitor a transpor o limiar do ateliê do pensador, sendo porém equivocado supor tratar-se, nas versões de 1811 e 1813, de meros esboços da terceira e última versão conhecida, a de 1815.

  • embora essas Urfassungen ou “primeiras versões” estivessem longe de satisfazer o próprio Schelling, que por duas vezes, em 1811 e depois em 1813, entregou ao impressor o texto de um primeiro livro das Idades do Mundo para finalmente se retratar e retirar as provas
  • surpreende, porém, constatar não se tratar de três versões de um mesmo texto, mas, como escreve o editor alemão Manfred Schröter em sua Introdução, de três desenvolvimentos autônomos e diferentes dados por Schelling ao tema, aparentados e mesmo oriundos uns dos outros, mas apresentando três impulsos distintos para resolver a mesma tarefa, sendo tão diferentes a arquitetura e o conteúdo que a comparação mal dispõe de pontos de apoio
  • à exceção da Introdução e de passagens semelhantes assinaladas por Schröter numa tabela de concordância, têm essas três versões em comum, à primeira vista, sobretudo seu inacabamento, dando todas apenas o primeiro dos três livros inicialmente previstos

2. Não apenas diferem profundamente essas três versões entre si, como estreitam progressivamente seu campo de investigação, devendo-se por isso subscrever o juízo de Jean-François Marquet segundo o qual somente desde a publicação das Urfassungen tornou-se possível vislumbrar em toda a sua amplitude a arquitetura das Idades do Mundo, sendo o texto de 1811 o único a oferecer o esquema de conjunto da obra, não passando as versões de 1813 e 1815 do “alargamento” de um setor particular desse plano, o que acarreta, é verdade, um transtorno na economia geral da obra, podendo-se por isso comparar com razão a importância da publicação por Schröter em 1946 das primeiras versões das Idades do Mundo à dos escritos teológicos de juventude de Hegel editados por Nohl no início do século.

3. Antes de abordar essa arquitetura interior da obra, busca-se melhor circunscrever sua ambição, apresentando-se as Idades do Mundo como meditação sobre o tempo destinada a expor um “sistema dos tempos”, concebido este como “genealogia do tempo”, expressão que parece definir mais explicitamente o projeto do livro, o qual permanecerá, contudo, inacabado.

  • podem por isso as Idades do Mundo ser caracterizadas como conjunção de um projeto grandioso e de um desmoronamento, cabendo perguntar se este último não seria também ele “grandioso”, falando os intérpretes de Schelling em “alta ruína dos Weltalter” e em “ambição grandiosa… vinda aqui se abismar”
  • evocam-se aqui os “abismos de metafísica sem fundo nem margem” de que fala Rousseau na Nova Heloísa, ou o “verdadeiro abismo para a razão humana” que se descobre a Kant diante da necessidade incondicionada exigida por essa mesma razão ao examinar a prova cosmológica da existência de Deus
  • estando no cerne das Idades do Mundo a questão do Grund ou fundamento, do Abgrund ou abismo, e do Ungrund, o “não-fundo” ou “fundo sem fundo” de que fala Schelling seguindo Jacob Boehme, sendo essa obra tão fundadora em sua ambição quanto abissal nas perspectivas que sob ela se abrem, “desobrada” por dentro como um trabalho de Penélope, tendo podido ser qualificada de “livro de destino do idealismo alemão”, permanecendo deficiente toda interpretação da filosofia das Idades do Mundo que não se pergunte por que Schelling fracassou em sua concepção

4. Caracterizando-se sumariamente o idealismo alemão como a tentativa de levar a seu termo, superando-o e radicalizando-o, o projeto kantiano de pôr a filosofia “na via segura de uma ciência”, ainda que a obra de Kant devesse “permanecer de pé como fortaleza não conquistada na retaguarda da nova frente”, respondem as Idades do Mundo, já desde sua abertura, a essa caracterização, começando-se por examinar as grandes linhas do texto da Introdução, pouco alterado nas diferentes versões.

5. Trata-se desde logo, com efeito, de ciência, não sendo esta, porém, aos olhos de Schelling, mera concatenação de conceitos, não podendo consistir naquelas “longas cadeias de razões” de que costumam servir-se os geômetras, à maneira de Descartes, sendo antes a ciência vida, um todo vivo, um ser vivo que nela se desenvolve, e se desenvolve livremente, não arbitrariamente mas movido por necessidade que lhe é própria, reencontrando-se aqui o tom das críticas que Hegel dirigia por volta de 1800 à reflexão que “fixa” a vida, sendo por isso radicalmente estranha a essa vida diante da qual a filosofia não passa de saber morto e esclerosado quando se confunde com a reflexão.

6. Desse ser vivo originário ou primordial que se desenvolve na ciência, tem a alma humana uma Mitwissenschaft, um conhecimento que é co-nascimento, enquanto ela própria é “haurida na fonte das coisas”, tendo a natureza uma história que é também nossa história.

  • oferecendo a matéria, que parece ter exercido duradoura fascinação sobre Schelling, numerosas ilustrações disso, tanto no que tem de atraente quanto no que tem de repulsivo, no brilho do ouro e no clarão dos olhos como no odor das gavelas, ao qual remeterá curso posterior, questionando-se quem poderia imaginar que o sabor amargo da água do mar e o odor repulsivo das gavelas sejam pacíficos produtos da natureza, não tendo sido antes engendrados pelo desalento, pela angústia e pelo desespero, encontrando-se diante da natureza como diante de um livro fechado, ou de uma história naufragada
  • dormindo assim a imagem originária das coisas na alma humana, obscurecida e esquecida, senão extinta, cabendo ao filósofo despertá-la, encontrando-se ele nisso na mesma situação de qualquer historiador, se é verdade que a ciência é história, não consistindo a história propriamente dita em mostrar-se curioso das coisas praticadas em séculos passados, nem mesmo em saber a grosso modo tudo o que se passou
  • não sendo digno desse nome o historiador que se contenta em traçar o quadro de uma época passada, mas aquele em quem essa época encontra sua ressurreição, como diria Michelet, sendo historiador aquele em quem a situação histórica estudada encontra eco, sendo nesse sentido toda história contemporânea

7. Mesmo que a alma humana tente sozinha remontar à fonte das coisas, não se vive por isso na contemplação, devendo o saber proceder necessariamente por etapas, de modo mediato e reflexivo, residindo aí a diferença a preservar entre filosofia e teosofia, cabendo a esta o mérito de fazer justiça à natureza, ao contrário de uma metafísica tornada hiperfísica, não havendo porém que escolher entre uma ciência morta e uma intuição viva, sendo a ciência verdadeira, aquela que as Idades do Mundo pretendem promover e fundar, ao mesmo tempo viva e reflexiva, devendo por isso passar pela dialética, ser por ela conduzida e acompanhada, como a palavra pelo ritmo, antes de poder retornar à simplicidade da história, enquanto não chegar o momento em que todas as ciências se tornem uma só para “refluir, como outras tantas correntes isoladas, no oceano universal da poesia”, quando soar a hora de uma nova mitologia.

8. Apresentam-se assim as Idades do Mundo como história científica do Absoluto concebido como Ser vivo primordial, lembrando-se o problema central enfrentado pelas Cartas sobre o dogmatismo e o criticismo de 1795-1796: como pode o Absoluto sair de si mesmo e opor-se um mundo?

  • não tendo Schelling abandonado esse Absoluto em 1811, chamando-o agora de das Urlebendige, ou ainda das Urwesen, esse Ser nomeado por seu prefixo Ur-, sempre com precedência num “profundo outrora, outrora jamais suficiente”, como diria Valéry, não tendo aqui esse prefixo sentido arqueológico mas antes genealógico ou matricial, não sendo o primeiro elo de uma cadeia mas o germe primeiríssimo em seu estado inicial de envolvimento, contração e reclusão primitiva
  • exigindo por conseguinte a história desse Ser, de seu de(s)envolvimento, que se remonte a seu estado primitivamente envolvido, não sendo essa remontada possível senão pedindo-se à lembrança que supra o saber, e sob condição de tomar todas as coisas humanamente, insistindo as Idades do Mundo repetidamente nesse antropomorfismo declarado, único recurso disponível para perscrutar esse período longínquo e sombrio que uma locução francesa chama tão bem, e de modo tão schellingiano no fundo, de “noite dos tempos”
  • dando a Introdução à versão de 1813 ilustração bem proustiana desse antropomorfismo, ao perguntar em que maravilhosas correspondências, em que íntimos nós de relações não se vê o homem transposto muitas vezes, quando um instante presente lhe parece já ter ocorrido há muito tempo, ou quando tem a impressão de ter testemunhado acontecimento de um passado distante

9. Não podendo, portanto, a história científica do Absoluto apresentar-se como “sistema dos tempos” senão a partir dos tempos que nos são familiares sob os nomes de passado, presente e futuro.

10. Escalonando-se as redações das Idades do Mundo de 1811, no mais tardar, a 1815, foi mais longa ainda sua gestação, escrevendo Schelling a Cotta em janeiro de 1811 que os Weltalter eram “obra projetada havia vários anos”, e falando dela, em carta a Pauline Gotter de 30 de janeiro do mesmo ano, como de obra “esboçada e elaborada interiormente durante muitos anos”, dando a ver essa obra, fruto de longa e paciente elaboração sempre retomada e por fim abandonada, em suas diferentes versões, os remanejamentos e retomadas do filósofo tido por não cessar de se corrigir e remanejar, a ponto de ser qualificado de Proteu, constituindo por isso os Weltalter uma das obras mais emblemáticas da filosofia schellingiana, não sendo talvez acaso corresponderem ao labor daquele período dito “intermediário” que vai da chegada de Schelling a Munique até sua partida para Erlangen.

11. Devendo-se em grande parte esses remanejamentos e retomadas testemunhados pelas primeiras versões à dificuldade de fazer disso um Livro que o autor deseja que cada um leia sem prevenção nem ideia preconcebida, como obra de autor desconhecido, sendo assim livro essencialmente anônimo, como aquele “grandioso poema heroico que o próprio tempo dita” e cuja hora ainda não soou, como também um “velho livro”, segundo gosta de dizer Schelling, ou ainda “o mais velho livro do mundo”, a saber a Bíblia, cujos livros oferecem mais que os tesouros da Índia e da Pérsia, remontando a época em que os muros de Persépolis ainda não estavam cobertos de nenhuma escrita cuneiforme, nem os obeliscos de hieróglifos.

  • sabendo-se que Schelling conhecia o hebraico, mostrando as duas primeiras versões das Idades do Mundo, e não menos os surpreendentes rascunhos ou projetos de introdução que se tem a sorte de conhecer, até que ponto o Gênesis, o Êxodo, o Eclesiastes, Ezequiel ou os Provérbios de Salomão nutriram a meditação schellingiana
  • parecendo as Idades do Mundo ter acalentado a esperança de ser o Livro do que foi, do que é e do que será, tal como aliás previsto no plano inicial, o Livro depois do qual se podem fechar todos os livros por contê-los todos, esperança também de ser, depois dos Discursos à nação alemã de Fichte, o livro de uma refundação da nação alemã, como diz expressamente um projeto de prefácio
  • podendo-se, diante desse Livro projetado ou sonhado que acabará por naufragar entre os livros, pensar na definição mallarmeana do livro como “sobreposição de páginas como um cofre que defende contra o bruto espaço uma delicadeza nativa redobrada”, redobrado, ao mesmo tempo, nas dobras do passado, esse sistema dos tempos que o Primeiro Livro começara a desdobrar
  • sendo notável constatar que numerosos elementos dessa frase de Mallarmé encontrariam eco no léxico e na sintaxe schellingianos, da matéria como repleção de espaço e resistência a todo móvel que por seu movimento nela se esforçasse por penetrar até o redobramento no passado do princípio contraente, dando origem à matéria e à corporeidade, e ao redobramento que todo desdobramento pressupõe, tal como todo desenvolvimento pressupõe um envolvimento prévio do qual é o desenvolvimento, passando pela “delicadeza nativa” da Urlauterkeit ou uranfängliche Lauterkeit, essa Pureza ou Limpidez primordial onde toda existência está engolfada, tal como faz Cronos no sentido próprio na mitologia grega, e onde a divindade ainda é demasiado pura para poder sequer ser qualificada de existente

12. Questiona-se como devia desdobrar-se o sistema dos tempos e por que os tempos se desdobram em sistema, se dão as Idades do Mundo esclarecimento novo à questão do sistema tal como se coloca a Schelling desde os primeiros escritos até as Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana de 1809, propondo-se deter-se nessas questões antes de tentar apreender o caráter próprio da doutrina do tempo exposta pelas Idades do Mundo em contraste com a dos escritos anteriores, para chegar ao projeto inédito de uma “genealogia do tempo”, buscando-se mostrar que a irrupção do tempo na filosofia de Schelling — pois, mesmo tratando os escritos anteriores do tempo, trata-se bem de uma irrupção — desse “Bloco calmo aqui embaixo caído de um desastre obscuro”, inaugura a primeira ruptura com a concepção metafísica do tempo.

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