User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
schelling:clara:4

4 Interlúdio

Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

1. Chegou, quase à mesma hora, dias ou semanas depois, um livro de filosofia que, entre coisas estranhas, estava escrito em linguagem completamente incompreensível e transbordava de barbarismos, encontrando-o Clara sobre a mesa e questionando por que os filósofos de hoje não podem escrever, ao menos em parte, como falam, não se referindo à obscuridade que emana das profundezas e que existe apenas para os acostumados a olhar além da superfície, pois o mais profundo deve ser ao mesmo tempo o mais claro, distinguindo-se profundidade de obscuridade como se distingue o crescimento naturalmente abundante de uma raiz sã da mistura intencional de ingredientes que, separados, nada deixam além de morte e materiais inúteis.

2. Respondeu-se preferir ver o filósofo com uma guirlanda amistosa nos cabelos a com uma coroa de espinhos, lembrando o dito de Pascal de que, ao encontrar conteúdo excelente escrito de forma natural, esperava-se encontrar um escritor mas se encontrava um ser humano, comportando-se o profundo como seu aparente oposto, o sublime, que tanto mais efeito tem quanto mais vestido de palavras simples, sendo a linguagem do povo como vinda da eternidade e a linguagem artificial das escolas como de ontem, surpreendendo que isso não ocorra na filosofia justamente quando sua atenção se torna mais geral, estendendo-se até às mulheres, questionando-se por que não se fala a todo o povo com a linguagem usada com os entes queridos ao tratar de coisas superiores.

3. Recordando Clara que, ainda vivo Albert, tinham discussões que bastaria escrever para se tornarem estimulantes de modo geral, perguntou-se por que as discussões filosóficas não se escrevem mais habitualmente dessa forma, respondendo-se haver muito a dizer sobre isso, exigindo discussões filosóficas não sosas certo tipo de personalidade, não faltando homens ilustrados nem oradores impertinentes capazes de envergonhar um astuto Sócrates, faltando porém o próprio Sócrates, uma personalidade tão reconhecida quanto determinada, travando-se além disso as discussões filosóficas por meio de livros à distância, como um jogo de xadrez entre a Europa e a América, sem emoção dramática possível.

4. Sugerindo Clara que se erigissem pequenos palcos capazes de resumir e focalizar um longo debate, apresentando-o vivamente diante dos olhos, respondeu-se que isso dependeria do que se pretendesse fazer, pois a imitação e representação de certas personalidades facilmente seria tomada como a personalidade real em si mesma, o que não ocorria aos antigos mas seria hoje possível sob certas mãos.

5. Perguntando Clara por que não tomar então personagens do passado, já que não do presente, respondeu-se que não da antiguidade, como em certas tragédias ditas gregas, propondo ela então uma época mais próxima ou recente, questionando quantas personalidades filosóficas esplêndidas ofereceria o século XV ou XVI, como na corte dos Médici, ou mesmo época ainda mais recente, respondendo-se desejar que o discurso filosófico se assemelhasse mais à comédia que à tragédia, tomando seu material antes do presente que do passado, pois a fiel observação do modo de falar e vestir de épocas antigas atenta contra a liberdade da obra de arte, devendo por isso ser tomado do presente ou como presente para ter efeito vivo.

6. Sugerindo então Clara um meio-termo — discussões ideadas a partir das qualidades da época, como que extraídas do presente, sem imitar pessoa particular alguma —, repetiu a pergunta de por que não se poderiam escrever as discussões tal como realmente as têm entre si, inventadas ou não, respondendo-se que ninguém seria capaz de descrever integralmente uma Clara tal como ali presente, com todo o encanto e ternura de sua fala, exigindo além disso o discurso conhecimento suficiente do entorno e das relações para imaginar essa Clara como pessoa real.

7. Observando Clara, sorrindo, que fundamentar historicamente uma discussão como aquela não exigiria capacidade de imaginação extraordinária, concordou-se, acrescentando-se que se recriminaria amargamente falta de imaginação a quem promovesse tais discussões, pois poucos pensariam que o exterior deve estar subordinado e o inventado ir para o interior, enquanto, saltando à vista o ingrediente histórico, diriam tratar-se de híbrido entre romance e discussão filosófica, conhecendo-se romances apreciados mas envergonhados por título de “discussões morais” que não condiz com seu conteúdo.

8. Questionando Clara o que haveria de tão mau nessa composição, tendendo o romance em grande medida ao diálogo em seu movimento entre o dramático e o épico, permanecendo em aberto se alguma forma estaria mais próxima da discussão filosófica da época do que essa, respondeu-se não saber, mas que o romance contradiz por natureza a unidade de tempo e ação, essencial ao discurso filosófico como à tragédia, ocorrendo tudo de maneira completamente interior e devendo estar decidido num só ponto, sem deslocar-se do local original em razão do encadeamento das ideias.

9. Perguntando Clara, sorrindo, se assim não se desvaneceria o encadeamento de ideias que repousa sobre nuances delicadas, passageiras e muitas vezes apenas momentâneas, confirmou-se que sim, considerando ela essa objeção a mais importante de todas, podendo porém ser evitada na execução ou reconstituída numa unidade mais alta, respondendo-se que se deveria então considerar o assunto e fazer as provas correspondentes, pois a obstinação de cada forma de arte só se conhece no exercício.

10. Manifestando Clara sentir vivamente o benefício de expor assim as ideias filosóficas para a época, que tanto deseja a ciência, questionou se as muitas queixas contra o absurdo impulsionado por sistemas e teorias filosóficas não teriam seu fundamento sobretudo no uso de uma linguagem artificial, concordando-se e observando-se que palavras artificiais podem ser repetidas até por alguém de outro modo medíocre, que as recombina de forma própria, ainda que tola e ridícula.

11. Replicando Clara que quem pode apresentar a questão em discurso agradável e natural deve realmente possuí-la e estar por ela completamente penetrado, nada esperando do filósofo incapaz de tornar suas ideias fundamentais compreensíveis a qualquer pessoa educada ou criança inteligente, questionou aonde levará essa separação entre acadêmicos e povo, prevendo o tempo em que o povo, cada vez mais ignorante quanto às questões mais altas, se levantará e pedirá contas aos acadêmicos, exigindo o batismo de fogo do espírito por sentir-se necessitado e próximo dele.

12. Conversou-se ainda um pouco mais sobre essa relação, em parte naquele momento, em parte também mais tarde.

schelling/clara/4.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki