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A priori

The Problems of Philosophy by Bertrand Russell, 1912

  • Immanuel Kant é geralmente considerado o maior dos filósofos modernos e, embora tenha vivido durante a Guerra dos Sete Anos e a Revolução Francesa, jamais interrompeu o ensino de filosofia em Königsberg, na Prússia Oriental; sua contribuição mais característica foi a criação da filosofia “crítica”, que, partindo do fato de que existem diferentes tipos de conhecimento, investiga como tal conhecimento é possível e extrai dessa investigação consequências metafísicas acerca da natureza do mundo.
    • Embora a validade dessas consequências possa ser questionada, permanecem fundamentais duas realizações kantianas: o reconhecimento de que existe conhecimento a priori que não é puramente analítico e a demonstração da importância filosófica da teoria do conhecimento.
  • Antes de Kant, considerava-se em geral que todo conhecimento a priori deveria ser analítico, isto é, constituído por proposições nas quais o predicado já estivesse contido no sujeito, como em “um homem calvo é um homem”, “uma figura plana é uma figura” ou “um mau poeta é um poeta”.
    • Tais juízos são chamados analíticos porque o predicado é obtido mediante simples análise do sujeito.
    • Admitia-se que todos os juízos conhecidos com certeza a priori possuíam essa estrutura, de modo que negar qualquer um deles produziria contradição.
    • Assim, o princípio de contradição, segundo o qual nada pode simultaneamente possuir e não possuir determinada propriedade, parecia suficiente para fundamentar toda verdade conhecida a priori.
  • Hume, aceitando a concepção tradicional do conhecimento a priori, percebeu que muitas conexões antes consideradas analíticas, sobretudo a relação entre causa e efeito, eram na realidade sintéticas.
    • Contra os racionalistas, sustentou corretamente que o efeito não pode ser deduzido logicamente da causa mesmo com conhecimento suficiente.
    • Dessa constatação extraiu a conclusão muito mais discutível de que nada poderia ser conhecido a priori acerca da relação causal.
    • Kant, formado na tradição racionalista e profundamente perturbado pelo ceticismo de Hume, reconheceu que não apenas a causalidade, mas também todas as proposições da aritmética e da geometria são sintéticas, pois seus predicados não podem ser obtidos por mera análise do sujeito.
    • O exemplo paradigmático é “7 + 5 = 12”, pois a ideia de 12 não está contida simplesmente nas ideias de 7, 5 ou de sua adição.
    • Kant concluiu assim que toda matemática pura é simultaneamente a priori e sintética, fazendo surgir um novo problema filosófico.
  • A pergunta kantiana “Como é possível a matemática pura?” constitui um problema difícil ao qual toda filosofia que não seja puramente cética precisa responder, e a solução empirista segundo a qual o conhecimento matemático deriva da indução a partir de casos particulares mostra-se insuficiente.
    • O próprio princípio de indução não pode ser provado por indução.
    • As proposições matemáticas gerais, como “dois mais dois são sempre quatro”, podem ser conhecidas com certeza mediante um único caso e não ganham maior validade pela acumulação de exemplos.
    • O conhecimento matemático e lógico precisa, portanto, de explicação diferente daquela utilizada para generalizações empíricas apenas prováveis, como “todos os homens são mortais”.
  • O problema surge porque esse conhecimento possui caráter geral, enquanto toda experiência é particular, tornando surpreendente a possibilidade de conhecer antecipadamente verdades acerca de coisas das quais ainda não se teve experiência.
    • Mesmo sem saber quem viverá em Londres daqui a cem anos, sabe-se que quaisquer duas dessas pessoas somadas a outras duas perfarão quatro.
    • Kant procura explicar essa capacidade de antecipar propriedades de objetos futuros, embora sua solução seja complexa, controversa e interpretada de maneiras diferentes por seus comentadores.
  • Kant sustenta que em toda experiência devem ser distinguidos dois elementos: um proveniente do objeto físico e outro proveniente da própria natureza do sujeito.
    • Os dados sensíveis resultam da interação entre o objeto físico e o sujeito, mas Kant distribui de maneira específica as contribuições de ambos.
    • O material bruto da sensação, como cor e dureza, provém do objeto, enquanto espaço, tempo e as relações estabelecidas entre os dados sensíveis são fornecidos pelo sujeito.
    • O fundamento dessa tese está em que se possui conhecimento a priori acerca do espaço, do tempo, da causalidade e da comparação, mas não acerca do conteúdo bruto das sensações.
    • Tudo aquilo que vier a ser experimentado deverá possuir as características impostas pela própria estrutura do sujeito, razão pela qual essas características podem ser conhecidas antecipadamente.
  • O objeto físico, chamado por Kant de “coisa em si”, é considerado essencialmente incognoscível, enquanto o objeto tal como aparece na experiência é denominado “fenômeno”.
    • Como o fenômeno resulta conjuntamente da coisa em si e da estrutura do sujeito, necessariamente possui as características fornecidas pelo sujeito e, portanto, deve conformar-se ao conhecimento a priori.
    • Esse conhecimento vale para toda experiência atual ou possível, mas não pode ser legitimamente estendido para além dos limites da experiência.
    • Assim, apesar da existência de conhecimento a priori, nada pode ser conhecido acerca da coisa em si ou daquilo que não possa constituir objeto de experiência.
    • Kant procura desse modo conciliar as reivindicações racionalistas com os argumentos empiristas.
  • A “coisa em si” kantiana coincide, por definição, com o objeto físico entendido como causa das sensações, embora não coincida com ele quanto às propriedades que poderiam ser deduzidas dessa definição, pois Kant sustenta que nenhuma das categorias pode legitimamente ser aplicada à coisa em si.
  • A principal objeção ao método kantiano para explicar o conhecimento a priori consiste em que ele não consegue fundamentar adequadamente a certeza de que os fatos devam sempre conformar-se à lógica e à aritmética.
    • Dizer que lógica e aritmética são fornecidas pelo sujeito não basta, porque a própria natureza humana constitui um fato do mundo e nada garantiria que permanecesse imutável.
    • Se a estrutura do sujeito pudesse mudar, tornar-se-ia concebível, segundo essa explicação, que amanhã dois mais dois viessem a ser cinco, destruindo justamente a universalidade e a necessidade que Kant pretende assegurar.
    • Embora a teoria kantiana do tempo como forma imposta pelo sujeito dificulte formalmente essa objeção, ainda seria necessário admitir que a ordem temporal dos fenômenos depende de características subjacentes a eles, preservando a força essencial do argumento crítico.
  • Se as crenças aritméticas são verdadeiras, elas precisam aplicar-se às coisas independentemente de serem pensadas ou experimentadas, pois dois objetos físicos somados a outros dois devem perfazer quatro objetos físicos mesmo que não sejam atualmente percebidos.
    • A afirmação de que dois mais dois são quatro inclui necessariamente essa validade objetiva.
    • A verdade dessa proposição aplicada a objetos físicos é tão segura quanto sua aplicação a fenômenos.
    • A solução kantiana restringe, portanto, indevidamente o alcance das proposições a priori e, além disso, não consegue explicar sua certeza.
  • Para além das doutrinas especificamente kantianas, é comum considerar o a priori como algo de natureza mental, relacionado antes com a maneira pela qual se deve pensar do que com fatos do mundo exterior; essa concepção aparece também na denominação tradicional dos três princípios fundamentais como “leis do pensamento”.
    • O princípio de contradição, por exemplo, costuma ser expresso pela fórmula segundo a qual nada pode simultaneamente ser e não ser alguma coisa.
    • Isso significa que um objeto não pode ao mesmo tempo possuir e não possuir determinada qualidade, como uma árvore ser e não ser uma faia ou uma mesa ser e não ser retangular.
  • É compreensível chamar o princípio de contradição de lei do pensamento porque sua necessidade é reconhecida pelo pensamento e não pela observação exterior, mas dessa circunstância não se segue que ele diga respeito apenas ao funcionamento da mente.
    • Ao reconhecer que uma árvore é uma faia, não é necessário observá-la novamente para saber que ela não pode simultaneamente não ser uma faia.
    • Contudo, acreditar no princípio de contradição não significa acreditar simplesmente que a mente foi constituída de modo a aceitá-lo.
    • Essa explicação psicológica já pressupõe a validade do próprio princípio.
    • A crença fundamental afirma algo acerca das coisas: se uma árvore é uma faia, ela não pode simultaneamente não ser uma faia.
    • O princípio de contradição constitui, portanto, um fato referente às coisas do mundo, e não apenas um fato acerca dos pensamentos.
    • Se ele não fosse verdadeiro quanto às próprias coisas, a compulsão psicológica para aceitá-lo não bastaria para torná-lo verdadeiro.
  • O mesmo raciocínio vale para qualquer outro juízo a priori, pois ao afirmar que dois mais dois são quatro não se formula um juízo acerca dos próprios pensamentos, mas acerca de todos os pares atuais ou possíveis.
    • O fato de a mente humana estar constituída de modo a acreditar nessa proposição não corresponde ao conteúdo da própria proposição.
    • Nenhuma característica da constituição mental poderia tornar verdadeiro que dois mais dois são quatro.
    • O conhecimento a priori, se verdadeiro, não é simplesmente conhecimento da estrutura da mente, mas aplica-se a tudo aquilo que o mundo possa conter, seja mental ou não mental.
  • Todo conhecimento a priori parece referir-se a entidades que, propriamente falando, não existem nem no mundo mental nem no mundo físico, como qualidades e relações expressas por partes da linguagem que não são substantivos.
    • Uma pessoa e seu quarto podem existir, mas a relação expressa pela palavra “em”, presente na proposição “estou em meu quarto”, não existe no mesmo sentido.
    • Ainda assim, essa relação constitui algo que pode ser pensado e compreendido, pois sem ela a própria proposição seria ininteligível.
    • Muitos filósofos, seguindo Kant, sustentaram que as relações são produzidas pela mente, que as coisas em si mesmas não possuem relações e que o pensamento as reúne num único ato, produzindo as relações atribuídas a elas.
  • A concepção segundo a qual as relações são produzidas pelo pensamento enfrenta objeções semelhantes às dirigidas contra Kant, pois não é o pensamento que produz a verdade de uma proposição como “estou em meu quarto”.
    • Um inseto pode estar no quarto mesmo que ninguém tenha consciência desse fato, pois a verdade da relação depende apenas do inseto e do quarto.
    • As relações precisam, portanto, ser situadas num domínio que não é nem mental nem físico.
    • Esse domínio possui importância decisiva para a filosofia, especialmente para os problemas relativos ao conhecimento a priori, e sua natureza precisa ser investigada de maneira mais aprofundada.
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