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rosset:2014:start

Paraíso

ROSSET, Clément. L'endroit du paradis: trois farces. Paris: Les Éditions de Minuit, 2014.

  • Epígrafe
  • I. O escudo de Aquiles
  • II. A guerra e a paz
  • III. A oferenda musical
  • Post-scriptum: Fantasia sobre a criação do mundo

Fantasia sobre a criação do mundo

  • A tese judaico-cristã de um Deus criador do mundo sempre esbarrou num problema que a teologia cristã jamais resolveu: não se entende por que Deus, plenamente feliz e completo em si mesmo (ele se ama com amor infinito, segundo Spinoza), teria tido a ideia de acrescentar um mundo à sua felicidade, como se esta não fosse inteira sem tal complemento.
    • A teologia clássica dispõe de duas hipóteses explicativas, nenhuma plenamente satisfatória: a criação por indigência (per finem indigentiae), isto é, por carência, e a criação por assimilação (per finem assimilationis), isto é, por desejo de partilha.
    • Na primeira hipótese, é preciso admitir que Deus sem o mundo não era absolutamente perfeito, pois lhe faltava algo.
    • Na segunda, mal se compreende por que Deus quereria fazer partilhar a sua perfeição, o que seria aliás contraditório; e, se quisesse fazer amigos, contrariando o que pensa Aristóteles na Ética a Eudemo, então se entediava e, por conseguinte, tampouco era perfeito.
  • Descartes oferece uma interpretação da criação ao declarar, nas Cogitationes privatae, que Deus realizou três milagres, um deles precisamente a criação do mundo, mas assimilar a criação a um milagre não esclarece exatamente o problema colocado.
  • Outra solução do enigma é imaginável se Deus, em sua perfeição, também “dorme às vezes”, como Horácio diz de Homero, e portanto sonha.
    • Num de seus sonhos, é provável que tenha visto criaturas que cantavam e dançavam de maneira encantadora, o que lhe despertou, ao acordar, o desejo de dar corpo ao sonho e aos dançarinos.
    • Para tanto, era preciso dar-lhes um lugar onde existir, o qual só pode ser um mundo qualquer, com tempo e espaço que Deus cria na mesma ocasião; tal mundo é necessário para que ele renove o prazer conhecido no sonho.
    • Tão forte é esse desejo que Deus se põe imediatamente ao trabalho, e seis dias bastam, conforme a Bíblia, na linguagem ainda antropomórfica do Gênesis, que fala de dias quando ainda não há dias.
    • Essa explicação se aproxima mais da ideia de assimilação que da de indigência, pois Deus assimila os dançarinos reais aos que vira em sonho; o mundo é uma audácia de Deus, que consente em dispersar-se, comparável à de Plotino ao ousar desmembrar o Uno.
  • Assim se explicam a criação e a existência de um mundo, ou de um paraíso paralelo a Deus, que lhe permite participar, quando lhe apraz, da felicidade dos homens, como sugere Nietzsche na passagem de O andarilho e sua sombra citada anteriormente.
    • Sem a música, o mundo e a vida seriam um erro, disse e repetiu Nietzsche.
    • Com efeito, um mundo sem música não seria privação para Deus nem dano à sua perfeição; seria uma criação supérflua, um erro, pois Deus bastaria.
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