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rosset:2013:schopenhauer-4
Schopenhauer, o injuriar
ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).
- A injúria schopenhaueriana é antes de tudo uma defesa contra a injúria, uma arte da zombaria que é uma espécie de insulto elevado de tom, comparável à resposta graduada da dissuasão atômica: a meia bomba, bomba; a uma bomba, duas bombas, e assim por diante.
- Schopenhauer descreve perfeitamente essa estratégia de dissuasão progressiva, que um século depois ilustraria uma célebre gag de Laurel e Hardy: quando o insultador foi grosseiro, é preciso ser ainda mais grosseiro; se as invectivas já não surtem efeito, parte-se para as vias de fato, também com gradação para salvar a honra, em que bofetadas se tratam com bengaladas, estas com chicotadas, contra as quais alguns recomendam cuspidas, de eficácia comprovada, e só quando esses meios chegam tarde demais se deve recorrer sem hesitar a operações sangrentas.
- Como nota Franco Volpi na introdução a A arte da injúria, o humor de Schopenhauer logo o reconduz da resposta zombeteira à simples zombaria, da “contrainjúria” à injúria pura e simples.
- Basta ler Schopenhauer para colher abundante safra de injúrias em boa e devida forma, que constitui o conteúdo desta coletânea, nova apenas na aparência.
- As Éditions du Rocher já haviam publicado em 1988, catorze anos antes da publicação alemã de A arte da injúria (2002), uma coletânea de injúrias de Schopenhauer, escolhidas e apresentadas por Didier Raymond, da qual a nova se assemelha como uma irmã caçula, com muitos textos em comum.
- Repetem-se também os principais alvos: o trio infernal Hegel-Fichte-Schelling, os professores, os universitários, os teólogos, as mulheres, a tolice (real ou suposta), o barulho sob todas as formas, o conjunto dos povos da Europa, todos execrados, a começar pelo alemão, e os carrascos de animais (ou tidos por tais).
- Falta em Volpi a menção a um aspecto curiosíssimo da apóstrofe schopenhaueriana, bem posto em evidência por Didier Raymond: a tendência frequente de acertar ao lado, de imputar à pessoa ou instituição visada um defeito inteiramente alheio a ela ou um defeito real, mas sem relação com o processo movido.
- Schopenhauer parece ter consciência da eficácia desses ataques “no vazio”, como quando escreve nos Aforismos sobre a sabedoria de vida que a injúria é uma calúnia sumária, sem indicação de motivo, e que quem injuria nada tem de real nem de verdadeiro a produzir contra o outro.
- A injúria inadequada, que erra deliberadamente ou não o alvo (à côté de la plaque), é mais cômica e mais mortífera que um ataque ao cerne do assunto, ao qual sempre se pode responder: o que replicar a quem acusa de um defeito que não se tem e que já é, de todo modo, censura ineptas em si?
- Hegel teria o que responder sobre a validade de seu sistema, mas nada poderia dizer ao saber que Schopenhauer lhe censurava essencialmente ser “repugnante”, e Spinoza, ao saber que a principal fraqueza de sua filosofia seria, segundo Schopenhauer, ter-se mostrado aparentemente indiferente aos cães, pois “parece não ter conhecido os cães”.
- Essas “injúrias” são divertidas e interessantes mais por causa de seu autor que por seu vigor: sob a pena de tão grande pensador, os propósitos aberrantes deixam pasmo, ao passo que noutro autor se acharia sobretudo, mas nem sempre, que lhes falta um pouco de força, de vis insultans.
- Schopenhauer tem por vezes a pena feroz, como ao descrever Fichte como um homem a quem o ensinar nunca deixou tempo de aprender, mas punhaladas tão bem ajustadas não são frequentes, o que tenderia a provar que a arte da injúria, se é menor, nem por isso é fácil.
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