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rosset:2013:schopenhauer-3
Schopenhauer, estética
ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).
- A estética de Schopenhauer, reconhecida como um dos pontos fortes de sua doutrina, desenvolve temas que podem passar por estranhezas ou paradoxos e que divergem da reflexão estética de seus predecessores e contemporâneos imediatos, embora por vezes se aproximem de problemáticas modernas.
- Não há nela teoria do belo, embora a palavra esteja sempre presente, nem teoria da criação artística, noção que ele contesta.
- Não há tampouco análise da obra de arte enquanto tal, substituída por uma análise de seus efeitos, menos no artista que no “consumidor” de arte (leitor, espectador, ouvinte), sendo o principal deles um prazer intenso ligado à suspensão provisória dos sofrimentos inerentes ao exercício da vida.
- Um último traço particular é a importância concedida, pela primeiríssima vez, à música, e esses quatro pontos comandam o que se segue.
- Em termos schopenhauerianos, a estética repousa inteiramente num postulado simples e pouco evidente: a possibilidade de a representação representar a vontade, o que supõe uma plasticidade das faculdades de conhecer e de querer, em geral apresentadas como independentes e impenetráveis uma à outra.
- Plasticidade semelhante existe em Kant, que não hesita em inverter os papéis do entendimento, da razão e da imaginação conforme as necessidades da causa.
- O “belo” é o objeto da representação do querer, e por isso não pertence a uma categoria particular, a da arte, mas a todo objeto que deixou o domínio de interesse da vontade para juntar-se ao dos objetos de pura contemplação: uma coisa é bela não por se distinguir das demais pela beleza, mas por prestar-se a um olhar não falseado pelos interesses do desejo.
- Dizer que uma coisa é bela é exprimir que ela é objeto de contemplação estética, o que implica que sua visão nos torna objetivos, conscientes de nós como sujeitos cognoscentes puros e isentos de vontade, e que reconhecemos no objeto não uma coisa particular, mas uma Ideia, o que só ocorre se não nos submetermos ao princípio de razão nem seguirmos as relações do objeto que conduzem sempre, em última análise, à vontade.
- “Ideia” designa aqui a vontade considerada numa de suas principais manifestações, algo definível como um modelo geral de forças.
- Daí decorre que o belo não designa um objeto particular tido por estético, mas qualquer objeto que seja objeto de contemplação, podendo toda coisa ser indiferentemente bela.
- Como toda coisa pode ser considerada de modo puramente objetivo, fora de toda relação, e como a vontade se manifesta em cada coisa em algum grau de objetivação, cada coisa é expressão de uma Ideia e, portanto, toda coisa é bela.
- Não há diferença de natureza entre um objeto de arte e um objeto qualquer, pois ambos podem ser contemplados, e o prazer que engendram permanece essencialmente um e idêntico, provocado por obra de arte ou sentido diretamente na contemplação da natureza e da vida.
- Não há, portanto, diferença fundamental entre um objeto concebido com finalidade estética e um fabricado com finalidade utilitária ou comercial, e ao expor um porta-garrafas, uma roda de bicicleta ou um urinol, Marcel Duchamp certamente não suspeita que aplica um preceito da estética de Schopenhauer.
- Um dos pontos mais curiosos e mais agudos de sua reflexão sobre a arte é que a obra jamais é vista como resultado de uma criação, mas de uma reprodução.
- O artista não tem por missão interpretar o mundo à sua maneira pessoal e original, mas exprimir o querer-viver (vouloir-vivre), essência do mundo, da maneira mais expressiva e mais simplificada, desempenho que constitui o privilégio do gênio.
- Para Schopenhauer a obra é imitação que exprime de modo genial a essência de uma realidade dada, isto é, sua parcela de vontade, resumindo-a e exprimindo, mais do que o faz uma expressão “natural”, a forma particular (a “Ideia”) tal como não existe de modo algum no real: uma espécie de “hiper-realidade” (hyper-réalité) do real.
- O gênio, mal entrevê a ideia nas coisas particulares, compreende a natureza como a meias palavras, exprime de modo definitivo o que ela apenas balbuciara e fixa nos grãos do mármore a beleza da forma que ela não alcançara após mil tentativas, como se lhe dissesse: “Toma, era isto que querias exprimir.”
- Essa “imitação” não é imitação das forças do real, e nada é mais alheio a Schopenhauer que a concepção da arte como mimese (mimésis), dominante de Platão ao século XVIII.
- A arte se desinteressa das forças uma vez entradas em ação e procura figurar algo que se pode definir como sua origem e seu modelo: não é o artista que imita a natureza, mas a natureza que tenta reproduzir, com maior ou menor fidelidade, um modelo elaborado pela vontade.
- O objeto da arte não é produzir, pois nenhuma potência do mundo é capaz disso, mas reproduzir a origem das coisas e não as coisas mesmas: o gênio é a faculdade de reproduzir modelos originários, não a de produzir formas originais.
- Como o budismo é uma religião sem deus, a estética de Schopenhauer é um sistema de que as noções tradicionais de beleza e de criação estão excluídas, e a contestação da criação é vizinha da contestação do belo, que já anunciava Duchamp: nesses dois pontos, ele antecipou problemáticas bem posteriores.
- A arte age como calmante e possui, como a poção mágica do druida Panoramix nas aventuras de Asterix, o poder de tornar o homem invencível, capaz de triunfar por um momento das torturas psicológicas de sua existência de vivente sofredor: as perdas são restauradas e as dores cessam, como em Shakespeare, e como em Proust, cuja reminiscência apaga as angústias do presente na passagem da “pequena madeleine”.
- Esse poder de pôr o sofrimento fora de circuito, provisoriamente, vem da faculdade que a representação possui de transformar um objeto de volição em objeto de contemplação: o ator torna-se espectador, como o contemplador do naufrágio nos primeiros versos do livro II do De rerum natura de Lucrécio, que goza de sentir-se ao abrigo do que ruge mais longe e também dentro de si, quando dominava o reino da vontade.
- O privilégio do passado celebrado por Proust vem de que a vontade já não tem parte nele, razão pela qual, diz Schopenhauer antes de Proust, só há penosas aproximações do presente e boas lembranças do passado, pois a parcela de sofrimento é esquecida por já não interessar a uma vontade que perdeu curso.
- O presente pode oferecer o mesmo privilégio, pondo-se ao abrigo de si mesmo, sempre que protegido pelo efeito anestesiante da arte, que transforma fatos que interessam ao desejo em fatos de contemplação ou de observação interessantes em si, sem influência sobre a afetividade do observador.
- A arte é apenas uma ocasião entre outras, como a simpatia schopenhaueriana e a virtude da renúncia, de abrir caminho à contemplação, e é elevada a “flor da vida”, em sentido muito proustiano, embora as dissertações de Proust sobre Bergotte, Elstir ou Vinteuil pareçam insossas e engomadas perto das de Schopenhauer.
- A música é a arte por excelência para Schopenhauer, e logo para Nietzsche, e sua teoria envolve problemas e um enorme paradoxo.
- Ao contrário das outras artes, a música não exprime esta ou aquela forma (ou “Ideia”) da vontade, mas a própria vontade, captada em sua essência primitiva, anterior à diversificação em formas particulares.
- Sendo a vontade a essência do real, a música, que a capta na fonte, exprime melhor que toda arte e toda filosofia algo como a quintessência do real, sua ponta mais avançada e sua manifestação mais aguda.
- Se a música exprime uma vontade geral que preside ao real e não o real, cabe perguntar de que ela é justamente a expressão, e Schopenhauer viu o problema, mas sua resposta é impotente: é muito difícil apreender o ponto comum entre o mundo e a música.
- Igor Stravinsky diz o mesmo ao enunciar sua célebre tese: a música é, por essência, impotente para exprimir o que quer que seja.
- Outra dificuldade, mais séria, é o paradoxo de conciliar a jubilação musical, de que Schopenhauer dá testemunho, com sua teoria de que a música exprime a essência do real.
- Pode-se admitir, como se inclina o autor após Nietzsche, que a música é jubilatória porque exprime, mais que qualquer outra arte, o caráter jubilatório do real, mas como acordar uma teoria que descarta a realidade e exalta a arte tida por exprimir mais que qualquer outra a essência dessa mesma realidade?
- Schopenhauer respondeu de modo ainda mais obscuro que impotente, por uma passagem incompreensível, que diz provir dos Vedas e mistura sânscrito, grego e latim: a música, que parece falar de mundos melhores, não é reduzida a lisonjear o querer-viver, pois o Atman supremo é chamado anandsroup (bem-aventurado), forma da alegria, já que onde quer que haja alegria ela é parte de sua alegria.
- As observações se encerram sobre esse texto enigmático.
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