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rosset:2008:1.1

1.1 Ilusão oracular

ROSSET, Clément. L'école du réel. Paris: Les Éditions de Minuit, 2008.

A ilusão oracular: o evento e seu duplo

  • É caráter geral e paradoxal dos oráculos realizarem-se surpreendendo pela própria realização: o oráculo faz o favor de anunciar o evento de antemão, de modo que aquele a quem se destina tem tempo de preparar-se e tentar evitá-lo, mas o evento se cumpre tal como predito (ou anunciado por sonho ou outra manifestação premonitória), e esse cumprimento decepciona a expectativa no instante em que ela deveria julgar-se satisfeita.
    • A é anunciado, A se produz, e não se reconhece nele, ao menos não exatamente: entre o evento anunciado e o cumprido há uma sutil diferença que basta para desconcertar quem esperava precisamente aquilo a que assiste; reconhece, mas já não se reconhece, e nada se passou senão o evento anunciado, que, inexplicavelmente, é outro.
  • Uma fábula de Esopo, O Filho e o Leão, ilustra essa particularidade: um velho medroso, cujo filho único, corajoso e apaixonado pela caça, ele viu em sonho perecer sob a garra de um leão, manda aparelhar um aposento elevado e magnífico e ali guarda o filho, com animais de toda sorte pintados para distraí-lo, entre eles um leão.
    • O jovem, entediado, aproxima-se do leão e exclama que é por causa dele e do sonho mentiroso do pai que o encerraram naquela prisão de mulheres, e desfere a mão contra a parede para vazar o olho do leão; uma ponta se crava sob sua unha, causa dor aguda, inflamação e tumor, e a febre o leva à morte: o leão, ainda que de pintura, matou o jovem, a quem o artifício do pai de nada serviu.
  • Feita abstração da moral de Esopo, que manda aceitar bravamente o destino sem tentar ardis contra ele, trata-se do destino e de seus truques (tours): o real, o conjunto dos eventos chamados à existência, é dado como inelutável, e, se se é avisado de antemão dessa necessidade, o destino responde com um ardil que frustra o esforço de defesa e por vezes faz da defesa o meio mesmo de sua realização, de modo que quem tenta impedir o evento temido se faz obreiro da própria perda.
    • Esse é o sentido mais manifesto dessas fábulas, mas há, além dele, outro mais rico e geral, como prova o fato de a fábula continuar a interessar, indicando alguma verdade profunda independente do destino e de seus truques.
    • Mesmo quem sabe que jamais existiu algo como destino, como La Fontaine, que, ao retomar a fábula, tira moral inversa e assimila os efeitos do destino a “efeitos do acaso”, reconhece em toda fábula desse tipo uma reconstituição feita a posteriori, que marca com o selo da necessidade o que foi só encadeamento ocasional; e, ainda assim, reconhece nessas pinturas do destino o eco de certa verdade.
  • Esse algo liga-se, primeiro, ao sentimento de ter sido enganado: diz-se que se foi joguete nas mãos do destino, e, passada a ilusão do destino, resta o sentimento de ter sido joguete, isto é, de ter sido jogado, como se é surpreendido por uma finta na esgrima: guarda-se à esquerda quando se é atacado à direita, e, ao proteger-se, deixa-se sem defesa o ponto vulnerável, de modo que o gesto de esquiva se confunde com o gesto fatal, um só e mesmo gesto, como a misteriosa estrada de Heráclito, que ao mesmo tempo sobe e desce.
    • O oráculo só se cumpriu graças a essa precaução malfadada, e é o ato mesmo de evitar o destino que coincide com seu cumprimento, de modo que a profecia nada anuncia além do gesto de esquiva malogrado; essa estrutura irônica, ou mais precisamente elíptica, é muito frequente e um dos temas favoritos da literatura oracular.
    • Esse defeito da “defesa” é, em primeiro lugar, aspecto banal da finitude humana: para guardar-se com eficácia seria preciso pensar em tudo ao mesmo tempo, mas o homem, embora tenha o privilégio de pensar, não recebeu o dom da ubiquidade intelectual, e é sempre presa fácil, pois, enquanto se guarda aqui, há sempre mil lugares por onde tomá-lo.
    • Essa fragilidade, tema de A toca, de Kafka, dá profundidade à frase dos Nzakara, habitantes da República Centro-Africana, referida pela sra. Retel-Laurentin: quem sabe o que pode acontecer pela outra ponta da aldeia?
  • A logração ligada à má defesa do homem diante do destino não é só índice de finitude: significa também logração de ordem muito diferente, que incide não sobre o destino, ausente e inexistente, mas sobre a própria consciência de quem se sente ludibriado.
    • É evidente que não há destino, e igualmente evidente que há, na ausência de destino, ardil, ilusão e engano; não podendo imputá-los a um destino irresponsável porque inexistente, cumpre buscar-lhes origem mais responsável e tangível: se o evento surpreendeu a expectativa mesmo a satisfazendo, a expectativa é culpada e o evento inocente.
    • A análise da expectativa frustrada revela que se cria, paralelamente à percepção do fato, uma ideia espontânea de que o evento, ao realizar-se, eliminou outra versão do evento, justamente a esperada; é impressão muito forte, para retomar, alterando-lhe algo o sentido, os termos de Hume.
    • Notável é que essa impressão de ter previsto outra coisa persista mesmo quando se pode estabelecer que nenhuma versão do evento era realmente prevista nem representada, nem aliás previsível ou representável, antes de ele ocorrer.
  • Três outros exemplos bastam para ilustrar essa estranha faculdade do oráculo de surpreender sem decepcionar expectativa real: a lenda de Édipo segundo o Édipo Rei de Sófocles, a história de Sigismundo em A vida é sonho, de Calderón, e um conto árabe referido por Jacques Deval em sua peça Esta noite em Samarcanda.
    • Lenda de Édipo: um oráculo predisse aos soberanos de Tebas, Laio e Jocasta, que o filho Édipo mataria o pai e casaria com a mãe; abandonado ao nascer nas encostas de uma montanha, é recolhido pelos soberanos de Corinto, Políbio e Mérope, que o adotam; sabendo da predição, Édipo deixa Corinto às pressas para fugir ao destino, encontra em caminho o verdadeiro pai e o mata, resolve o enigma da Esfinge e entra em Tebas como triunfador para casar com a mãe, viúva do soberano.
    • História de Sigismundo: Basílio, rei da Polônia, fez o horóscopo do filho ao nascer e leu que os astros o destinavam a ser o monarca mais cruel que já houve, “um monstro em forma humana”, que voltaria primeiro sua força selvagem contra o rei para pisoteá-lo; apavorado, encerra Sigismundo numa torre isolada, sem contato com humanos exceto o preceptor Clotaldo, e na maioridade o liberta por um dia e o apresenta à corte para verificar o horóscopo.
    • Enfurecido por vinte anos de cativeiro, Sigismundo comporta-se conforme a predição; reconduzido à torre e logo libertado por insurreição popular, sem saber se sonha ou está desperto, cumpre até o fim o horóscopo, vence o pai, que só pode lançar-se a seus pés e apelar a sua improvável piedade; o horóscopo parara suas predições nesse instante, e o drama termina de modo ao mesmo tempo inesperado e conforme à predição: tornado sábio pela dúvida quanto ao real, Sigismundo ergue o pai e lhe rende as honras devidas a seu posto real.
    • Conto árabe: havia em Bagdá um Califa e seu Vizir; um dia o Vizir chega pálido e trêmulo, pedindo perdão pelo pavor, pois diante do Palácio uma mulher o esbarrou na multidão e, ao virar-se, viu que a mulher de tez pálida, cabelos escuros e garganta velada por um lenço vermelho era a Morte, que lhe fez um gesto; pede então licença para fugir a Samarcanda, aonde chegará antes da noite, e parte a galope numa nuvem de poeira.
    • O Califa sai do Palácio, encontra também a Morte e pergunta por que assustou seu Vizir, jovem e sadio; a Morte responde que não quis assustá-lo, mas, ao vê-lo em Bagdá, teve um gesto de surpresa, pois o espera esta noite, em Samarcanda.
  • A analogia estrutural das três histórias é evidente: em todas a predição se cumpre pelo gesto que tenta conjurá-la, e Édipo, Basílio e o Vizir encontram o destino por o terem querido evitar: é ao deixar Corinto que Édipo vai ao encontro dos verdadeiros pais, ao encerrar o filho que Basílio faz dele o monstro do horóscopo, ao correr para Samarcanda que o Vizir vai à morte que tenta fugir.
    • Essa estrutura é comum à maioria das histórias de realização de oráculos, mas a atenção se volta para particularidade mais singular e profunda: os três heróis seriam igualmente incapazes, se instados, de precisar a natureza de sua decepção; todos foram enganados, mas nenhum saberia dizer qual evento esperado o evento real riscou de modo inesperado, ou “oblíquo”, adjetivo do oráculo de Delfos, Apolo Loxias.
    • O evento temido ocorreu, enganando a expectativa do mesmo evento, que se julga devia ocorrer, mas de outro modo; é impossível dizer em que consiste esse “outro” modo.
  • Basta consultar os interessados e pedir-lhes que precisem qual era em seu espírito a versão do evento temido antes que o real se lhe substituísse: o Vizir responderá que esperava morrer naquela noite, mas não daquele modo nem naquele lugar (Samarcanda), e, perguntado qual outro modo ou lugar, dirá não saber, mas nem esta noite nem em Samarcanda.
    • O rei Basílio responderá que sabia que o filho usaria de violência e o faria tocar a terra, mas não daquela maneira inteiramente inesperada; de que outra maneira? Só podia esperar o evento onde o contrariara e esperava ter tornado impossível a execução, e não se teme, ao forçá-lo, que admita não recear realização precisa do horóscopo, e que sua surpresa não se destaque sobre a negação de outra possibilidade de cumprimento: a versão real não contradiz nenhuma outra versão, ou só uma fantasmática, jamais pensada.
    • O caso de Édipo parece, à primeira análise, mais complexo: mata o pai e casa com a mãe sem conhecer suas identidades, e a realização contradiz uma versão de conteúdo preciso, a morte de Políbio e o casamento com Mérope, que crê serem seus pais; mas é visão abstrata, incapaz de concretizar-se numa história real, pois, avisado da ameaça e deixando Corinto às pressas, decidiu não pôr a mão em Políbio nem em Mérope.
    • Como poderia Édipo matar o pai e casar com a mãe senão matando por acaso um homem e casando por circunstância com uma mulher que fossem justamente seu pai e sua mãe, sem serem Políbio nem Mérope? Insiste-se que a maneira como realiza a profecia é um truque do destino, e a pergunta é qual outro truque se poderia conceber, sem que se obtenha resposta precisa além de reafirmar obstinadamente que o evento era esperado alhures e de outro modo.
    • Poder-se-ia imaginar, no extremo, que, sendo Políbio e Mérope os verdadeiros pais, Édipo matasse um e casasse com a outra por acidente ou engano: um acesso de cólera maníaca, uma crise de sonambulismo, ou um disfarce que o impedisse de reconhecê-los, como na lenda de são Julião Hospitaleiro, que tenta escapar a uma predição e a cumpre matando os pais por engano.
    • O tema do disfarce está, aliás, profundamente presente, em nível simbólico, no destino real de Édipo, pois seus pais verdadeiros se disfarçaram sob traços alheios, emprestando aos rostos de Políbio e Mérope uma máscara viva; mas a hipótese é pouco crível, pois Édipo deixou Corinto e os pais para nunca mais voltar, e seria preciso admitir que Políbio e Mérope partem em busca do filho fugitivo, abandonando o encargo real; e ainda assim não bastaria, pois Édipo sempre fugiria dos pais, onde quer que o descobrissem, e o tempo faltaria a um acesso de cólera ou sonambulismo.
    • Resta a possibilidade de um equívoco graças a disfarce perfeito: uma noite, ao sair de uma taverna tebana onde abusou do vinho, Édipo encontra Políbio, que o procura incógnito, e o mata em briga; dias depois, de novo bêbado, encontra uma pobre na rua, apaixona-se e a toma por esposa: era Mérope, tão bem disfarçada que, após meses de vida conjugal, ele não reconheceu a mãe na nova esposa; versão imaginável, entre muitas outras formas possíveis.
    • Mas que tais itinerários sejam possíveis não explica a surpresa que acompanha a descoberta do viés tomado pela realização do oráculo, ligada ao sentimento confuso de que o evento real tomou o lugar de um evento mais esperado e plausível; todas as versões possíveis aparecem como muito mais improváveis que a versão real, pois, se Políbio e Mérope são de fato os pais, a realização passaria por caminhos bem mais complicados e inesperados.
    • A hipótese de paternidade adotiva é a via mais simples para passar do oráculo à realização, e por isso a surpresa não vem de a forma ser inesperada em relação a outra menos inesperada: como um evento A seria reputado altamente improvável em relação a B, se B é, na melhor hipótese, ainda mais improvável?
    • A realização do destino de Édipo não elimina nenhum possível de probabilidade igual ou superior à do finalmente eleito pela realidade; se a palavra do oráculo pode ser dita “oblíqua”, a via por que Édipo realiza o destino é a via reta por excelência: não passou por desvio algum, e talvez seja isso o “truque” do destino, ir direto ao alvo, não se demorar no caminho, cair exatamente sobre si mesmo.
  • Persiste, apesar da análise, a impressão de ter sido apanhado pelo jogo de uma fatalidade onipotente e astuta que frustra todos os meios empregados para contrariá-la, mas essa fatalidade toma agora sentido mais preciso, pois lhe reconhecemos a vagueza: o evento fatal apanha de surpresa por riscar outro evento em que jamais se pensou, de que jamais se teve ideia.
    • A surpresa tem caráter surpreendente: consiste em refutar o evento real em nome de um evento que jamais se imaginaria, de uma realidade que nunca foi nem será pensada; o evento tomou o lugar de um “outro” evento, mas esse outro evento não é nada.
    • Precisa-se assim a logração de quem espera um evento e se espanta de vê-lo ocorrer: há engano em algum lugar, e reside na ilusão de ser enganado, de crer que há “algo” cujo lugar o evento teria tomado; é o sentimento de ser enganado que é enganoso, e o evento, ao realizar-se, nada fez senão realizar-se, sem tomar o lugar de outro.
  • Não se nega a ambiguidade inerente à palavra profética nem os jogos de duplo sentido constantes nos oráculos e na tragédia; trata-se de compreender que essa ambiguidade não consiste no desdobramento de uma palavra em dois sentidos possíveis, mas na coincidência de dois sentidos que só a posteriori se veem dois na aparência e um na realidade.
    • O Édipo Rei de Sófocles abunda em ilustrações, das quais a mais elementar e profunda é a palavra pela qual Édipo dá a entender que é ao mesmo tempo quem é e o outro que procura: “remontando à origem, eu os porei em luz, egô phanô”; o escoliasta observa que há nesse egô phanô algo de dissimulado que o espectador entende, “pois tudo será descoberto no próprio Édipo”: “eu mostrarei o criminoso” e também “eu me descobrirei criminoso”.
    • Ao dizer egô phanô, “mostrarei” e “aparecerei”, Édipo diz duas coisas ao mesmo tempo, mas não menos evidente é que as duas são uma só e idêntica; ouve-se uma só verdade quando se crê ouvir duas.
    • Tragédia da coincidência, e não da ambiguidade, a peça de Sófocles desenvolve-se num retorno implacável ao único que elimina, cena a cena, a ilusão de uma duplicação possível, de sorte que o trágico sofocliano não está ligado ao duplo sentido, mas à sua eliminação progressiva: o infortúnio de Édipo é ser apenas ele mesmo, e não dois.
    • É desconhecer-lhe o infortúnio, e cair no mesmo laço em que Édipo se prende, dizer como J.-P. Vernant que Édipo é duplo e enigmático como seu discurso e a palavra do oráculo, pois o mistério de Édipo é justamente ser um e não dois, como o mistério da Esfinge, resolvido por Édipo em espécie de pré-estreia de seu destino, é remeter a si mesmo e não ao outro.
  • O mesmo se dá na realização de todo oráculo: o evento esperado vem coincidir consigo mesmo, daí a surpresa, pois se esperava algo diferente, embora vizinho, a mesma coisa mas não exatamente desse modo; a esta coincidência rigorosa do previsto com o efetivamente ocorrido resumem-se, em última análise, todos os “truques” do destino, que entrega o evento mesmo, aqui e agora, quando se o esperava um pouco diferente, um pouco alhures e não já.
    • Tal é a natureza paradoxal da surpresa diante da realização dos oráculos: espanta-se quando já não há por que espantar-se, tendo o fato respondido exatamente à previsão; o evento esperado ocorreu, mas se percebe que o esperado não era este evento e sim o mesmo sob forma diferente: julgava-se esperar o mesmo, mas em realidade esperava-se o outro.
  • É tempo de reconhecer nesse “outro evento”, talvez “esperado” mas nem pensado nem imaginado, que o evento real riscou ao cumprir-se, a estrutura fundamental do duplo: nada o distingue do evento real senão a concepção confusa de que seria ao mesmo tempo o mesmo e outro, definição exata do duplo.
    • Descobre-se assim relação profunda entre o pensamento oracular e a fantasia da duplicação, que explica a enigmática surpresa ligada ao espetáculo do oráculo realizado: a realização surpreende por apagar a possibilidade de toda duplicação, pois, ao vir à existência, o evento previsto elimina seu duplo, e é o desaparecimento desse pálido fantasma do real que surpreende por um momento a consciência.
    • Por isso a fórmula que pontua habitualmente a descoberta do esperado, “era isso mesmo”, implica ao mesmo tempo reconhecimento e desmentido: reconhecimento do fato anunciado e desmentido de o evento não se ter cumprido de outro modo, inseparáveis e significando no fundo o mesmo, um olhar sobre a “estrutura” do único; o único satisfaz a expectativa ao realizar-se, mas a decepciona ao riscar todo outro modo de realização, sina de todo evento no mundo.
  • Em passagem de seu estudo “A lembrança do presente e o falso reconhecimento”, Bergson confirma o laço entre a estrutura oracular (previsão, sentimento do inevitável) e o tema do duplo, ao analisar a ilusão de certos sujeitos que desdobram suas percepções e têm a impressão de viver duas vezes, uma no modo do presente e outra no da lembrança, e nela reencontra o tema do destino.
    • O que se diz e se faz, o que se diz e se faz a si mesmo, parece “inevitável”; assiste-se aos próprios movimentos, pensamentos, ações, como se se desdobrasse sem efetivamente desdobrar-se, e um dos sujeitos escreve que esse sentimento de desdobramento só existe na sensação, pois as duas pessoas são uma só do ponto de vista material.
    • O sujeito acha-se muitas vezes no singular estado de alma de quem crê saber o que vai se passar sem se sentir capaz de predizê-lo; nota-se que o tema da predição aparece aqui, como alhures, ligado ao da surpresa: prevê-se a coisa sem poder esperar sua realização concreta, que terá sempre de que espantar.
  • Toda duplicação supõe um original e uma cópia, e pergunta-se quem, entre o “outro evento” e o evento real, é o modelo e quem o duplo; descobre-se que o “outro evento” não é verdadeiramente o duplo do real, mas o inverso: o evento real é que aparece como duplo do “outro evento”, de sorte que o outro é este real, duplo de um outro real que seria o real mesmo, mas que escapa sempre e do qual nada se poderá dizer nem saber.
    • O único, o real, o evento possuem a extraordinária qualidade de serem de algum modo o outro de nada, de aparecerem como o duplo de uma “outra” realidade que se esvai perpetuamente no limiar de toda realização, no momento de toda passagem ao real; o conjunto dos eventos que se cumprem, isto é, a realidade no conjunto, figura apenas uma espécie de “mau” real, da ordem do duplo, da cópia, da imagem, e é o “outro” que esse real riscou que seria o real absoluto, o original verdadeiro de que o evento real é só dublê enganoso e perverso.
    • O real verdadeiro estaria alhures: nos três exemplos, num parricídio e num incesto diferentes dos que aguardam efetivamente Édipo, numa agressão de Sigismundo alheia às circunstâncias de sua infância e juventude, numa morte fora de Samarcanda; os eventos realmente ocorridos são como macaquices desse real, e o conjunto deles aparece como vasta caricatura da realidade.
    • Nesse sentido a vida é só um sonho, uma fábula mentirosa, ou uma história contada por um idiota, como diz Macbeth; o sentimento de ser logrado pela realidade, constantemente enganado por esse falso real que se substitui in extremis ao real verdadeiro, que jamais se viu e jamais terá lugar, esse sentimento de ser jogado poderia exprimir-se pela expressão popular de que certas realidades e atos são “fora de jogo” (pas de jeu).
    • Vale para toda coisa que, ao cumprir-se, põe-se assim “fora de jogo”, verdade já dita pelos filósofos de Mégara e aprofundada por Bergson nos três primeiros capítulos de O pensamento e o movente: é sina de toda realidade situar-se fora do jogo do possível; o evento real é de algum modo viciado, trapaceia com o real.
    • Em terminologia ingênua, condizente com sentimentos ingênuos, o evento ocorrido não é o “bom”; o bom evento, o único com direito a dizer-se verdadeiramente real, é justamente o que não teve lugar, sufocado antes de nascer por seu duplo viciado, e o evento real, no sentido corrente, é sempre “o outro do bom”.
  • Toda realidade, mesmo não anunciada por oráculo nem prevista por premonição, é de estrutura oracular no sentido definido: é sina de toda coisa existente negar, por sua própria existência, toda forma de realidade outra, e o próprio do oráculo é sugerir, sem precisar, coisa outra que a que anuncia e que se realiza; essa sugestão frustrada pode manifestar-se em toda ocasião, pois todo evento implica a negação de seu duplo.
    • Nisso toda ocasião é oracular (realizando o “outro” de seu duplo) e toda existência um crime (o de executar seu duplo), sina inevitavelmente ligada ao real, que faz dizer a Sigismundo, encerrado na torre, que “o maior crime do homem é ter nascido”, ou a E.-M. Cioran que “perdemos tudo ao nascer”, donde “o inconveniente de ter nascido”.
    • Nesse sentido todo evento é ao mesmo tempo assassinato e prodígio: se, esperando o ônibus, tiro uma senha, digamos a 138, elimino de um só golpe nada menos que 998 outras possibilidades, inconveniente e prodígio, desde que se esqueça que um evento, embora possa produzir-se de qualquer maneira, deve necessariamente produzir-se de uma maneira qualquer; não posso ser ao mesmo tempo Cioran e outro que Cioran, mesmo que me apareça confusamente que só por um arbítrio decepcionante sou justamente Cioran e não outro.
  • A realização de um evento não predito por oráculo, mas simplesmente previsto pelo bom senso, observando a conjuntura e sinais precursores, é sempre surpreendente no mesmo sentido em que o oráculo pode surpreender: a surpresa, nos dois casos, resume-se a que A é bem A e não B; tal é o truque do destino, como o da previsão razoável, fazer escamotear o duplo do único.
    • Anuncia-se de manhã, no rádio, que o presidente está muito mal; anunciada à noite, a morte do presidente surpreende (era mesmo isso, A era mesmo A); é por essa natureza sempre surpreendente do evento que a noção de destino, sugerida pelos oráculos, ganha sentido real e universal.
    • Há algo que existe e se chama destino: designa não o caráter inevitável do que acontece, mas seu caráter imprevisível, independente de toda necessidade e previsibilidade, embora o oráculo o anuncie à sua maneira, e é o destino do homem como de toda coisa existente; seu sentido liga-se à noção inversa, à certeza da imprevisibilidade, de que fala, a meias palavras, a literatura oracular: estar-se-á sempre certo de ser surpreendido, pode-se sempre esperar, de pé firme, nunca poder esperar.
  • A profundidade e a verdade da palavra oracular estão menos em predizer o futuro que em dizer a necessidade asfixiante do presente, o caráter inelutável do que acontece agora; a predição antecipada tem valor sobretudo simbólico, simples projeção no tempo do que espera o homem a cada instante de sua vida presente.
    • A todo momento ele terá de lidar com isso e nada mais: seja a circunstância alegre ou triste, triunfe ou morra, está de qualquer modo acuado, sem escapatória e sem duplo, e era o que o oráculo anunciava de antemão, com razão; “não se escapa ao destino” significa simplesmente que não se escapa ao real.
    • O que é é e não pode não ser, como diz Lady Macbeth ao marido, outra ilustre vítima da literatura oracular: What is done is done; o que existe é para sempre unívoco, os duplos se dissipam no limiar do real, por encantamento ou maldição conforme o evento seja favorável ou desfavorável, restando o evento coincidindo consigo mesmo, como no fim de Macbeth, quando se realiza a predição e “a floresta de Birnam marcha sobre Dunsinane”: A vem confundir-se com A, como Édipo se confunde consigo mesmo no fim de Édipo Rei.
  • Antes de lançar-se num último combate contra o próprio destino, isto é, contra si mesmo, Macbeth pronuncia as célebres palavras: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa”; o pensamento do caos e da insignificância prevalece no momento do contato com o real, pois até o último instante Macbeth, como todo homem, por exemplo à hora da morte, espera que A difira um pouco de A, que o evento não seja exatamente o que é.
    • A coincidência do real consigo mesmo, que é de certo ponto de vista a simplicidade mesma, a versão mais límpida do real, aparece como absurdo maior aos olhos do iludido, isto é, de quem, até o fim, apostou na graça de um duplo; um real que é só o real e nada mais é insignificante, absurdo, “idiota”, como diz Macbeth.
    • Macbeth tem razão: a realidade é efetivamente idiota, pois, antes de significar imbecil, idiota significa simples, particular, único de sua espécie, e tal é a realidade e o conjunto dos eventos que a compõem: simples, particular, única, idiota.
  • Essa idiotia da realidade é fato reconhecido desde sempre pelos metafísicos, que repetem que o “sentido” do real não pode estar aqui, mas alhures: a dialética metafísica é fundamentalmente dialética do aqui e do alhures, de um aqui de que se duvida ou que se recusa e de um alhures de que se espera salvação.
    • Decididamente A não se reduz a A: o aqui deve esclarecer-se por um alhures; “a Ásia pressentiu várias vezes que o problema capital do homem é apreender 'outra coisa'”, escreve André Malraux, fazendo eco à palavra romântica de Wagner nos Wesendonk-Lieder: “Nosso mundo não é aqui.”
    • Não se requer mais um duplo do evento, mas um duplo da realidade em geral, um “outro mundo” chamado a dar conta deste mundo aqui, que permaneceria para sempre idiota se considerado tal como em si mesmo.
  • A ilusão oracular, desdobramento do evento, encontra assim campo de expressão mais vasto no desdobramento do real em geral: na ilusão metafísica.
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