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3 Carmen
ROSSET, Clément. Le régime des passions et autres textes. Paris: Les Éditions de Minuit, 2001.
- Passada a reprovação unânime que condenou Carmen nas primeiras representações na Ópera-Cômica, em 1875, a obra logo se impôs e conquistou a França, a Europa e o mundo inteiro, a ponto de ser hoje, ao que parece, a obra lírica mais representada do mundo; cabe indagar por que é destino de tantas obras-primas provocar, ao surgir, rejeição e escândalo.
- No caso de Carmen, embora a música de Bizet tenha sido então criticada, não há dúvida de que o objeto real do suposto delito foi o libreto que Meilhac e Halévy extraíram, modificando-a consideravelmente, da novela de Mérimée.
- Ter tomado a música por “complicada” e “wagneriana” era o cúmulo, dada a limpidez da partitura e o que dela diz Nietzsche em O caso Wagner, ao opor Bizet e Wagner como polos antitéticos da música; a acusação de “wagnerismo”, porém, não tinha então sentido musical preciso, visando vagamente os inimigos da França e os responsáveis pela derrota de 1870.
- A música de Bizet só foi rejeitada por chocar o libreto, como se joga fora o bebê com a água do banho; não foi logo compreendida por ser nova, ao passo que a de suas óperas anteriores, agradável mas mais convencional, passara facilmente, enquanto o libreto de Meilhac e Halévy, a quem ainda se cobrava a colaboração com Offenbach, outro suposto traidor da pátria, foi muito bem, bem demais, entendido.
- Por sua crueza e ferocidade, simplicidade e verdade, tinha tudo para repelir um público habituado às fórmulas pacatas e inofensivas do libreto de ópera na França do século XIX, gênero que beira o surrealismo pelo excesso de convenções e de “supercodificação”, sensíveis mesmo nas melhores óperas do século, como as de Gounod.
- Nietzsche diz de Carmen: é enfim o amor, o amor recolocado em seu lugar na natureza, não o amor da “moça ideal”, sem vestígio de “Senta-sentimentalidade”.
- As modificações que Meilhac e Halévy impuseram à novela de Mérimée são importantes porque, ao alterar em profundidade a psicologia de dois protagonistas, tornaram penosa, no limite do suportável, uma ação dramática que em Mérimée era apenas fria e cruel.
- Resumindo: fizeram de Carmen, que em Mérimée era só ladra e supersticiosa, uma vadia, e de Don José, que era uma espécie de bandoleiro teimoso “de olhar sombrio e fixo”, um covarde; só a ária das cartas, no ato III, evoca a personalidade de Carmen concebida por Mérimée, e nem é o melhor trecho musical, pouco condizente com a obra, como, no ato I, o célebre dueto de amor entre Micaëla e Don José, tão admirado por Wagner.
- Nietzsche escreveu que a ação da ópera conserva de Mérimée a lógica na paixão, a linha reta, a dura necessidade; o autor crê, porém, que Meilhac e Halévy desviaram essa “lógica da paixão”, aplicando-a não a uma amante volúvel e a um brigadeiro brutal, mas a uma cigana perversa e a um brigadeiro covarde e vacilante.
- Na novela Don José é condenado à morte, mas não fez mais que uma bocada de Carmen, ao contrário da ópera; é o “real” que reaparece em Carmen (e em todo o naturalismo ambiente), como Nietzsche captou, mas um real atroz, mesquinho e deprimente, como no Wozzeck de Berg, história de outro soldado azarado.
- O “segredo” de Carmen é que Bizet teve o gênio de compor, a partir desse libreto deprimente, uma partitura não trágica como a de Wozzeck, mas animada de alegria inesgotável, o que produz efeito ainda mais trágico que o obtido por Berg, pela distorção estabelecida de saída entre a tristeza da ação dramática e a jubilação quase permanente da orquestra, sensível desde o prelúdio inicial.
- Essa alegria parece dizer a cada instante: não só sofrem, como todos riem e zombam; que querem, amigos, são vítimas da vida (há milhões de outras), e vítimas nem muito reluzentes; assim um marechal de Napoleão I, visitando após a batalha uma planície juncada de mortos e moribundos, teria consolado um soldado agonizante: “Falta de sorte, meu velho, o senhor é uma vítima da guerra.”
- Deixam-se de lado as virtudes propriamente musicais da obra, que todos conhecem: ciência, originalidade, invenção constante nas melodias e sobretudo nas harmonias.
- O gênio de Carmen consiste antes de tudo em ter sabido exprimir melhor que nunca (talvez com exceção de Mozart em Così fan tutte) o divórcio entre o que diz um libreto e o que “pensa” a música que se crê acompanhá-lo, mas que na verdade o desafia: alegria musical contra as tristezas da vida, e no fim é a música que vence, e com ela o amor da vida, que volta de longe, depois de ter visto, por assim dizer, de todas as cores.
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