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rosset:1999:1
1 Assombração
ROSSET, Clément. Loin de moi: étude sur l’identité. Paris: Editions de Minuit, 1999.
A assombração de si
- A existência humana pode ser figurada pela fórmula shakespeariana segundo a qual somos feitos da matéria dos sonhos.
- Na manhã de 28 de janeiro de 1998, um sonho oferece o ponto de partida para interrogar a consistência da identidade pessoal.
- No sonho, a identidade oficial aparece como resultado inteiramente falso de coincidências, equívocos, mal-entendidos e erros sucessivos, de modo que nome, idade e demais determinações documentais não corresponderiam à realidade, fazendo surgir uma cisão entre o ser oficialmente certificado pelos documentos e um ser supostamente real e misterioso do qual nenhuma aparência ou registro poderia testemunhar.
- O sonho pressupõe espontaneamente uma diferença entre identidade social e identidade pessoal, íntima, psicológica ou real, embora essa distinção seja considerada filosoficamente duvidosa e rejeitada em consonância com pensadores como Montaigne e David Hume, mostrando-se assim que o sonho pode contradizer não apenas a lógica, mas também o próprio pensamento daquele que sonha.
- Uma identidade oficial eventualmente falsa ocultaria apenas a verdadeira identidade social, e não alguma identidade pessoal subjacente, pois somente a primeira possuiria realidade efetiva, enquanto a suposta identidade pessoal constituiria uma ilusão persistente que a maioria, ao contrário, tende a considerar a identidade mais verdadeira.
- A busca de Rousseau por uma identidade pessoal originária exemplifica a tentativa de encontrar essa realidade fantasmática.
- O mito final do Górgias de Platão exprime concepção semelhante ao imaginar os mortos comparecendo nus ao julgamento supremo, despojados das vestimentas sociais que ocultariam seu verdadeiro eu.
- A cerimônia francesa do conselho de revisão, desde Napoleão I, pode ser aproximada dessa imagem da retirada das aparências sociais, ainda que em contexto e espírito diferentes.
- A suposta identidade pessoal anterior a todo reconhecimento social poderia ser denominada identidade “pré-identitária”, entendendo-se por identidade propriamente dita aquilo que pode ser comprovado por documentos e pelo testemunho dos outros; desse modo, o eu pré-identitário seria imaginado como verdadeiro, natural, anterior, único e autêntico, enquanto o eu identitário ou social apareceria como vestimenta convencional, embora Montaigne já sugerisse, em sentido contrário, que o ser humano é composto de peças agregadas.
- A consciência comum afirma que cada indivíduo permanece sempre o mesmo da origem à morte, contrariando a fórmula de Rimbaud segundo a qual “Eu é um outro”, e atribui eventuais mudanças somente ao eu social, jamais a um suposto eu real e permanente.
- Falsos documentos, identidades duplas ou atividades de espionagem podem transformar a apresentação social sem que, segundo essa crença, se modifique a identidade pessoal.
- O problema fundamental reside no sentimento, verdadeiro ou ilusório, de unidade do eu, considerado ordinariamente indubitável apesar da incapacidade de justificá-lo ou mesmo descrevê-lo adequadamente.
- Hume identifica precisamente essa dificuldade ao mostrar que nenhuma experiência fornece diretamente uma percepção do próprio eu.
- A introspecção não encontra uma substância chamada “eu”, mas apenas percepções particulares de calor, frio, luz, sombra, amor, ódio, dor ou prazer, de modo que jamais se apreende a si mesmo independentemente de alguma percepção.
- Quando as percepções desaparecem temporariamente, como no sono profundo, também desaparece a consciência de si; sua supressão definitiva pela morte equivaleria à completa aniquilação do indivíduo.
- A hipótese de alguém perceber em si um princípio simples, certo e permanente não pode ser refutada pela experiência de outrem, mas tampouco encontra confirmação na experiência daquele que, como Hume, não descobre em si semelhante princípio.
- A resposta kantiana ao desafio de Hume não eliminaria efetivamente a dificuldade referente ao eu, assim como tampouco resolveria as dificuldades relativas a Deus e à causalidade, pois distinguir fenômeno e númeno e caracterizar o sujeito como ideia da razão, expressa no indeterminado “eu = x”, apenas remeteria a um ponto cego do qual nenhuma noção pode ser formada.
- A necessidade moral de admitir as ideias do eu, de Deus e da causalidade não constituiria demonstração de sua realidade, mas expressão de uma exigência de crença.
- A permanência da solução kantiana encontraria parte de sua força em seu caráter tranquilizador, por limitar os efeitos desestabilizadores da crítica humeana e conservar a representação de uma moralidade universal.
- A argumentação de Hume consiste fundamentalmente em negar uma percepção do eu comparável à percepção de uma cadeira ou de uma mesa, admitindo apenas percepções de qualidades e de estados psicológicos ou corporais, antecipadas parcialmente pela reflexão pascaliana segundo a qual também aos olhos dos outros apenas qualidades aparecem em lugar de um eu substancial.
- A pergunta sobre o que seja o eu introduz a dificuldade de localizar uma realidade pessoal independente das qualidades pelas quais alguém é percebido.
- Um observador à janela não está necessariamente interessado em determinado transeunte, e aquele que ama alguém por sua beleza ama uma qualidade perecível, pois a perda dessa beleza poderia fazer desaparecer o amor sem que a pessoa tivesse deixado de existir.
- Também o amor pelo discernimento ou pela memória se dirige a qualidades que podem desaparecer sem que se suponha desaparecer o indivíduo, tornando impossível localizar o eu no corpo, na alma ou em propriedades transitórias e conduzindo à conclusão paradoxal de que nunca se ama propriamente uma pessoa, mas somente determinadas qualidades.
- Não haveria, portanto, motivo para ridicularizar aqueles que procuram ser honrados pelos cargos e funções que exercem, uma vez que toda estima humana se dirige inevitavelmente a qualidades recebidas, adquiridas ou socialmente reconhecidas.
- As crises de identidade revelam que é primeiramente a identidade social que se rompe e ameaça o frágil edifício daquilo que se experimenta como identidade pessoal, pois a perturbação do reconhecimento pelos outros precede e provoca a dúvida a respeito de si mesmo, em vez de resultar dela.
- A inquietação acerca do próprio eu não surge porque alguém espontaneamente deixe de reconhecer a si mesmo, mas quando os demais deixam de reconhecê-lo ou atribuem-lhe experiências, atos ou acontecimentos que não correspondem à sua própria percepção.
- A aparente prioridade da identidade pessoal depende, portanto, de uma confirmação social anterior que normalmente permanece despercebida enquanto não é contestada.
- Em Uma mulher desaparece, de Hitchcock, oito passageiros ocupam um compartimento de trem, e uma jovem inglesa estabelece amizade com uma senhora mais velha, conversa com ela e toma chá em sua companhia no vagão-restaurante antes de adormecer brevemente e descobrir, ao despertar, que a mulher desapareceu.
- Todos os demais ocupantes do compartimento afirmam que desde o início havia apenas sete passageiros e sugerem que a jovem teria sonhado com a pessoa desaparecida.
- A investigação por todo o trem não encontra testemunha que confirme a existência da senhora, nem mesmo entre os funcionários do vagão-restaurante.
- Como o trem segue sem paradas durante o percurso, nenhuma explicação simples permite admitir que a mulher tenha desembarcado.
- Diante da unanimidade dos outros passageiros, a certeza da jovem começa a adquirir aos olhos deles a aparência de excentricidade, delírio ou loucura.
- Wittgenstein formula em Da certeza uma situação análoga à encenada por Hitchcock, na qual até mesmo uma convicção aparentemente elementar pode tornar-se problemática quando todos os outros a contradizem e apresentam provas em sentido contrário.
- Uma afirmação aparentemente indubitável, como a certeza de viver atualmente na Inglaterra, conserva sempre a possibilidade lógica de erro, pois o conhecimento do próprio contexto depende de uma rede de referências que pode ser colocada em questão.
- Se todos os presentes afirmassem o contrário daquilo que alguém considera absolutamente certo e ainda fornecessem provas de sua versão, poderia surgir a dúvida sobre quem é normal e quem é louco, abalando justamente aquilo que antes parecia mais incontestável.
- A situação da jovem no filme de Hitchcock combina realidade e impossibilidade, porque parece igualmente impossível que a senhora com quem conversou seja apenas imaginária e que todos os passageiros e funcionários tenham decidido mentir simultaneamente sem razão aparente.
- A posterior revelação das cumplicidades, distrações, omissões e interesses particulares explica factualmente o desaparecimento, mas não elimina a estrutura filosófica da experiência vivida pela jovem.
- O confronto opõe uma identidade pessoal convencida da integridade de sua experiência a uma identidade social que passa a ser considerada alterada por todos os demais.
- Embora a dúvida pareça atingir primeiro a identidade pessoal, sua causa efetiva encontra-se no ataque anterior à posição social da jovem como testemunha digna de crédito.
- Atos, comportamentos, documentos e testemunhos possuem reconhecimento público e oficial, enquanto pensamentos, representações privadas, fantasias e sonhos permanecem por princípio incertos e não verificáveis.
- Ser socialmente classificada como alguém que relata acontecimentos inexistentes implica primeiramente perda de credibilidade social e somente depois suscita a pergunta íntima sobre uma possível loucura ou alienação de si.
- O motivo da dúvida acerca da própria identidade percorre grande parte do cinema de Hitchcock, no qual a sociedade frequentemente reúne fatos, circunstâncias e testemunhos aparentemente convincentes para provar que o protagonista não é quem acredita ser, que não realizou aquilo que efetivamente fez ou que praticou crimes dos quais é inocente.
- A tensão hitchcockiana inverte constantemente verdade e verossimilhança, fazendo com que o verdadeiro pareça inverossímil e o falso se imponha pelas aparências.
- Essa estrutura repetitiva pode ser relacionada às recorrentes fantasias de culpa, acusação e injustiça que atravessam sua obra, independentemente das interpretações psicológicas que se possam oferecer de suas origens.
- Sua importância filosófica reside sobretudo em mostrar a fragilidade do eu pessoal quando sua sustentação social e oficial é contestada.
- Apesar dessa fragilidade, os filmes ainda preservam a imagem de um eu pessoal autêntico subjacente aos equívocos sociais, mesmo quando essa presença adquire caráter quase fantasmático.
- A supremacia da identidade social manifesta-se igualmente na associação filosófica tradicional entre continuidade pessoal e memória, pois aquilo que pode ser recordado de modo relativamente contínuo é sobretudo a trajetória social formada pelo que alguém fez e disse, e não uma sucessão minuciosa de estados psicológicos privados.
- A reconstrução detalhada de pensamentos interiores permanece excepcional e momentânea, como demonstra a extraordinária capacidade de Dupin de reconstituir em Edgar Allan Poe a cadeia silenciosa de pensamentos de seu companheiro.
- Se o eu depende da memória para preservar sua continuidade, essa memória é essencialmente memória de uma existência social, conduzindo à conclusão de que somente o eu social possui consistência identificável.
- A afirmação de Pascal de que ninguém deve ser ridicularizado por desejar honras ligadas a cargos e funções adquire um alcance filosófico mais profundo, pois, fora dos sinais, qualidades e atos mediante os quais alguém é reconhecido pelos outros como determinada pessoa, nada subsiste que possa ser identificado com segurança como propriedade de um eu interior.
- A identidade pessoal assemelha-se a uma pessoa fantasmática que assombra a pessoa real e social, permanecendo próxima e familiar sem jamais tornar-se tangível ou apreensível, como uma presença que pode até ameaçar ocupar o lugar daquele a quem acompanha.
- A imagem aparece de maneira burlesca na cena de Raymond Devos em que alguém encontra outra pessoa usando suas pantufas dentro de sua própria casa.
- Nos contos de Maupassant, o duplo assume frequentemente a figura de um verdadeiro eu que ameaça substituir o indivíduo, desfazendo a segurança psicológica associada ao sentimento, ainda que fictício, de identidade pessoal.
- Em Lui?, de Maupassant, o narrador retorna sozinho para casa depois de uma caminhada noturna e encontra sentado diante da lareira aquilo que parece ser outra pessoa, mas que assume a forma de um duplo ou identidade pessoal que desaparece precisamente quando se tenta tocá-la.
- Ao entrar em casa, a iluminação produzida pelo fogo permite distinguir aparentemente uma pessoa sentada na poltrona, de costas para quem chega.
- A figura é percebida com suficiente nitidez para parecer um amigo adormecido, com braço, cabelos e posição corporal reconhecíveis, mas a tentativa de tocar seu ombro põe em questão a realidade da presença.
- A mão encontra apenas a madeira da poltrona, que se revela inteiramente vazia, fazendo desaparecer a figura no exato momento em que deveria tornar-se tangível.
- A pergunta de Fernando Pessoa sobre o intervalo existente entre si mesmo e si próprio condensa a estranheza de uma identidade que parece simultaneamente próxima e separada daquele que procura apreendê-la.
- A procura burlesca de Dupont e Dupond pelas próprias pegadas, tomadas erroneamente como rastros de outras pessoas, transforma a busca da identidade em movimento circular no qual aquele que procura retorna sempre ao ponto de partida, gag cuja repetição nas aventuras de Tintim reforça seu valor simbólico.
- A abundância de imagens literárias e humorísticas da busca de si encontra uma formulação particularmente profunda na fábula de Nasreddin Hodja, cuja comicidade conduz à inutilidade filosófica de procurar uma identidade pessoal substancial.
- Nasreddin dirige-se ao mercado carregando duas melancias e vê à frente um homem vestido exatamente como ele e igualmente carregando duas melancias, produzindo a impressão de contemplar a si próprio exteriormente.
- Diante da perfeita semelhança, conclui que, se aquela figura não for ele próprio, torna-se difícil imaginar quem poderia ser.
- Inicialmente acelera os passos numa tentativa de alcançar a figura que parece ser seu duplo.
- Logo abandona a perseguição ao compreender que, mesmo se conseguisse alcançar a si próprio, nada de útil resultaria desse encontro.
- A busca do verdadeiro eu seria inútil tanto porque seu eventual conhecimento ofereceria escasso ganho intelectual quanto porque esse suposto eu permanece essencialmente inalcançável.
- A proximidade e simultânea distância do suposto eu pré-identitário encontram expressão nas imagens de Tintim no Tibete em que uma silhueta vista de costas se afasta na tempestade de neve e desaparece antes de poder ser identificada, revelando-se como o iéti e figurando assim uma presença fantasmática que retorna ao nada de onde parece ter surgido.
- A pergunta de Tintim sobre quem teria visto pode ser radicalizada na pergunta sobre quem seria essa pessoa aparentemente percebida.
- Mais radicalmente ainda, a questão da identidade conduz a perguntar quem seria essa pessoa que, afinal, não chegou propriamente a ser vista.
- A identidade pessoal apresenta-se, em todos esses exemplos, como hóspede familiar e simultaneamente invisível, perceptível apenas de um ponto de vista que impede sua visão frontal e sua identificação segura.
- Maupassant, Nasreddin, Tintim e mesmo Dupont e Dupond perseguem figuras vistas de costas, como se a identidade procurada recuasse continuamente diante da tentativa de apreendê-la.
- A busca torna-se especialmente absurda quando aquilo que se procura coincide com o próprio indivíduo existente corporalmente no presente, convertendo a procura de si numa perseguição impossível daquilo que já está necessariamente presente.
- Toda tentativa de apreender finalmente a própria identidade pessoal ou desvendar a intimidade psicológica de outra pessoa conduz a uma decepção sistemática, porque mesmo o eventual sucesso da investigação nada revela de substancial.
- A pretensão de conhecer perfeitamente a si mesmo encontra apenas a ausência de qualquer sentimento consistente de um eu separável das percepções, repetindo a dificuldade formulada por Hume.
- A tentativa de penetrar o íntimo de outra pessoa também não encontra uma camada profunda de pensamentos que constituiria sua essência individual.
- A interrogação de Sganarelle sobre os pensamentos profundos de Don Juan recebe como resultado apenas verdades genéricas, como a certeza aritmética de que dois e dois são quatro, incapazes de revelar qualquer intimidade singular.
- A frustração inerente à busca de um segredo pessoal pode ser representada de modo exemplar por uma anedota na qual aquilo que parecia ocultar uma revelação decisiva acaba por não conter nenhuma interioridade a desvendar.
- Uma série radiofônica sobre Maurice Ravel advertia contra a tentativa de forçar o acesso à personalidade íntima e enigmática do compositor, ilustrando essa advertência pela história do filho de um pequeno impressor que encontrou, após a morte do pai, uma grossa envelope lacrada com a inscrição “Não abrir”.
- O filho respeitou durante cerca de seis anos a aparente proibição paterna, ao mesmo tempo que a curiosidade sobre o possível segredo aumentava continuamente.
- Finalmente decidiu violar a suposta determinação testamentária e abrir o envelope.
- O conteúdo não era uma confissão, revelação ou segredo familiar, mas aproximadamente uma centena de etiquetas idênticas impressas com a mesma fórmula “Não abrir”.
- A natureza comercial da pequena gráfica fornecia retrospectivamente a chave do enigma: o envelope guardava apenas o estoque de uma fórmula produzida para clientes.
- A inscrição que o filho interpretara como ordem testamentária era simplesmente a identificação do estoque de etiquetas ali guardadas, de modo que seis anos de expectativa conduziram não apenas à ausência de revelação, mas à repetição irônica da própria fórmula já conhecida.
- A situação assemelha-se à de A joia, de Maupassant, na qual uma vida inteira de sacrifício revela-se fundada sobre uma falsa atribuição de valor.
- A investigação encontra algo ainda mais frustrante que um segredo trivial, pois encontra apenas a reprodução indefinida do sinal que havia provocado a investigação.
- A estrutura torna-se abissal: adia-se indefinidamente a abertura de algo que, quando aberto, contém apenas novas injunções para não abrir, como uma máquina que repete sem fim a mesma mensagem.
- O envelope não contém um segredo decepcionante, mas propriamente nada, como uma porta falsa que, uma vez aberta, conduz somente a uma parede, pois a fórmula “Não abrir” não oculta, revela ou sequer sugere qualquer conteúdo ulterior.
- Diferentemente do deus délfico de Heráclito, que não revela nem esconde, mas dá sinais, esse envelope não revela, não esconde e tampouco indica alguma coisa.
- O sentimento de identidade pessoal possui estrutura semelhante: apresenta-se como invólucro aparentemente significativo cujo interior permanece vazio ou contém apenas a repetição indefinida de uma mensagem muda.
- Conhecer bem uma pessoa significa ordinariamente reconhecer as regularidades de seu comportamento e tornar-se capaz de prever como agirá em determinadas circunstâncias, ou seja, compreender o papel social que desempenha e sua lógica repetitiva.
- Esse “papel” diz respeito precisamente ao comportamento social observável e não a uma identidade íntima oculta.
- Aquilo que se conhece de alguém é, portanto, a continuidade repetível de sua identidade social, análoga às fórmulas reproduzidas em série e guardadas no envelope do impressor.
- Mesmo que o envelope tivesse contido a confissão de um crime, como as confissões imagináveis a partir de A pequena Roque, de Maupassant, ou Crime e castigo, de Dostoiévski, seu conteúdo ainda diria respeito a fatos socialmente observáveis ou verificáveis, e não à revelação de uma substância psicológica íntima.
- Toda informação expressável sobre atos, acontecimentos ou responsabilidades continua pertencendo à identidade social.
- A identidade pessoal, ao contrário, permanece essencialmente silenciosa e nada revela de si.
- O envelope absolutamente vazio representa, por isso, o caso fundamental, enquanto todos os supostos conteúdos íntimos seriam apenas variações aparentes de uma ausência originária de conteúdo.
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