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rosset:1988:2

2 Princípio de incerteza

ROSSET, Clément. Le principe de cruauté. Paris: Éditions de Minuit, 1988.

  • Montaigne sugere, na Apologia de Raimond Sebond, uma definição da verdade filosófica tão desconcertante quanto pertinente: ele não se persuade facilmente de que Epicuro, Platão e Pitágoras tenham apresentado seus Átomos, suas Ideias e seus Números como coisa líquida e certa (pour argent comptant), pois eram sábios demais para fundar artigos de fé em matéria tão incerta e discutível; em meio à obscuridade e à ignorância do mundo, cada um desses grandes personagens procurou trazer uma imagem qualquer de luz, com invenções de aparência ao menos agradável e sutil, desde que, ainda que falsas, pudessem manter-se contra as oposições contrárias.
    • A verdade enunciada pelos filósofos, a mais aguda, a que serve há milênios para designar seu pensamento, é uma verdade de que nenhum deles se disporia a ser garante ou “autor”, no sentido do latim auctor, que significa ao mesmo tempo garante e produtor.
    • O produtor, isto é, o filósofo, mostra-se desconfiado dos próprios melhores produtos: Pitágoras não crê nos números, Platão não crê nas ideias, Epicuro não crê nos átomos.
    • Ao contrário do fanático, possui sabedoria bastante para não defender obstinadamente uma verdade que enunciou, mas cujo caráter duvidoso conhece talvez melhor que ninguém; Montaigne sugere, em outra passagem, que o ardor nascido do despeito ou da obstinação, ou o interesse da reputação, levam tal homem a sustentar até o fogo uma opinião pela qual, entre amigos e em liberdade, não aceitaria escaldar a ponta do dedo.
  • Que um filósofo seja menos persuadido que qualquer outro da verdade que professa parece paradoxal, mas é indubitável e decorre da própria natureza da “verdade” filosófica.
    • É da natureza de toda verdade ser duvidosa: todo fato, por simples que seja ao ocorrer, torna-se incerto e vago ao ser convocado ao tribunal da justiça ou da memória coletiva, e uma verdade científica desgasta-se ao contato de concepções posteriores que a interpretam de outro modo, de sorte que não há, propriamente, “ciências exatas”, salvo as matemáticas, que renunciam a toda verdade de fato e se contentam em acordar conclusões com premissas.
    • O historiador e o físico, porém, evocam fatos indubitáveis, mesmo incapazes de propor versão certa e definitiva: as interpretações da Revolução Francesa ou da lei da queda dos corpos são e talvez sempre serão controversas, mas é impossível duvidar do fato, pois ambas são verdadeiras, a primeira quando ocorreu, a segunda quando foi concebida, e podem invocar, como diria Hegel, certo “momento” de verdade.
    • O próprio das verdades filosóficas é nunca poder invocar semelhante “momento de verdade”: sendo a filosofia ciência dos problemas insolúveis, ou ao menos não resolvidos, como dizia Brunschvicg, suas soluções são necessariamente duvidosas, a tal ponto que uma verdade certa deixaria de ser filosófica e um filósofo persuadido da verdade que propõe deixaria de ser filósofo, embora possa estar razoavelmente persuadido da falsidade das teses que critica.
    • Esse princípio de incerteza serve de critério para distinguir verdadeiros e falsos filósofos: o grande pensador é sempre reservado quanto ao valor das verdades que sugere, ao passo que o filósofo medíocre se reconhece por permanecer persuadido da verdade das inépcias que enuncia.
  • Pode-se perguntar em que consiste o interesse de uma verdade filosófica necessariamente promessa à dúvida e privada dos atributos tradicionais da verdade.
    • O interesse de uma ideia nunca se confundiu com o conhecimento assegurado de sua verdade, assim como o interesse de um fato não se confunde com o conhecimento de sua natureza: o fato da sexualidade e o universal reconhecimento de seu interesse sempre conviveram com seu caráter obscuro e incompreensível, do qual dão testemunho Freud, Georges Bataille, Lacan e, antes deles, Schopenhauer; toda realidade interessante é, como toda verdade profunda, ambígua, reconhecida por todos e desconhecida de cada um.
    • O interesse principal de uma verdade filosófica está em sua virtude negativa, sua potência de expulsar ideias muito mais falsas que a verdade que enuncia a contrario: se não enuncia por si nenhuma verdade clara, denuncia grande número de ideias tidas abusivamente por verdadeiras e evidentes, como a esponja do quadro-negro, da qual só se exige que apague bem.
    • Uma verdade filosófica é de ordem essencialmente higiênica: não proporciona certeza, mas protege o organismo mental contra os germes portadores de ilusão e loucura.
    • A incerteza inerente a tais verdades, que é sua fraqueza, é também sua força: o trabalho da dúvida só tem poder sobre o que se dá por certo e seguro, sendo inteiramente ineficaz contra o que se apresenta como incerto, pois uma verdade incerta é necessariamente irrefutável, e a dúvida nada pode contra a dúvida.
    • Por isso Montaigne diz que o próprio de toda grande “invenção” filosófica é “manter-se contra as oposições contrárias”: um pensamento sólido defende-se não só contra as oposições, mas sobretudo contra toda desnaturação e interpretação errônea, como diz Samuel Butler em A vida e o hábito: uma verdade que não é sólida o bastante para suportar que a desnaturem e maltratem não é de espécie muito robusta.
    • O mesmo vale para as traduções, que, por detestáveis que sejam, só amenizam, sem anular, a potência expressiva de um texto de qualidade; resistir à tradução-traição, ao menos em parte, é sinal infalível da qualidade de um texto.
  • O caráter incerto das mais profundas verdades filosóficas explica que proposições formalmente contrárias, até contraditórias, possam ser tidas por igualmente pertinentes: nada mais justo do que o que dizem do amor Platão em O Banquete e Lucrécio em De rerum natura, e nada mais diametralmente oposto.
    • Essa coexistência pacífica das verdades contrárias explica-se não pela fantasia hegeliana de um saber absoluto que reconcilie todos os enunciados, mas pela incerteza de cada um: tidas por definitivamente adquiridas, as verdades filosóficas se excluem; tidas por duvidosas e aproximativas, toleram-se mutuamente.
    • Não há razão para interpretar divergências de doutrina como oposição, estimando contraditória uma ideia que é apenas diferente; Nietzsche observa, no início de Além do bem e do mal, que a crença nas oposições de valores é a crença fundamental dos metafísicos, e que talvez o valor das coisas boas e veneradas resida em se aparentarem, misturarem ou confundirem insidiosamente com coisas más e aparentemente opostas, por serem talvez da mesma natureza.
  • A verdade filosófica só vale por ser incerta e só possui virtude indiscutível a medicinal, como mostra o materialismo de Epicuro e Lucrécio, exemplar por ser ao mesmo tempo insustentável quanto à sua verdade própria e salutar quanto à soma de erros e absurdos que revoga.
    • As duas máximas fundamentais do epicurismo, assimilar a verdade à existência material e o bem à experiência do prazer, decepcionam toda expectativa de elucidação profunda, mas a tentativa de assimilar a verdade a outra coisa que a matéria, e o bem a outra coisa que o prazer, leva em geral a enunciados muito mais suspeitos e absurdos.
    • Como filosofia crítica, o materialismo é talvez o pensamento mais elevado; como filosofia “verdadeira”, o mais trivial; como nota Nietzsche no aforismo 9 de Além do bem e do mal, em eco a Montaigne, uma filosofia deixa de ser crível quando começa a crer em si mesma.
    • A força da filosofia epicurista, como de toda grande filosofia, não é alcançar verdade profunda e certa, mas conseguir ater-se ao menor dos erros; o autor subscreve a declaração de um personagem de O clube dos negócios estranhos (Club des fous), de G. K. Chesterton, embora o autor a recuse logo depois: se é preciso ser materialista ou insensato, escolhe-se o materialismo.
    • Uma verdade duvidosa é preferível a uma aparentemente segura também porque esta inclina mais à loucura de querer obter assentimento universal, se necessário pelo ferro e pelo fogo: a verdade duvidosa dispensa confirmação ou infirmação pelo real, ao passo que a tida por certa se expõe ao desejo obsessivo de verificação pelos fatos; o homem da dúvida deixa cada um repousar em paz, o da certeza não descansa até bater à porta de todos.
    • A virtude adjacente de um discurso minimalista e incerto é ser inofensivo e pouco comprometedor, incapaz de servir a qualquer causa, enquanto um discurso assegurado pode ser sempre suspeito de preludiar alguma cruzada; a “segurança” de um discurso filosófico reside em seu caráter ao mesmo tempo crítico e inutilizável.
  • Se a aptidão principal da filosofia é denunciar erros mais que enunciar verdades, sua função maior é menos aprender que desaprender a pensar.
    • A burrice fornece contraprova: consiste não em preguiça de espírito, como se pensa, mas em devassidão desordenada de atividade intelectual, de que dão testemunho Bouvard e Pécuchet, heróis modernos e indiscutidos da sandice.
    • O interesse pelas “coisas da inteligência”, como se diz em A bela Helena, de Offenbach, é mais frequentemente marca de espírito medíocre que de espírito avisado, e é com razão, não por coqueteria, que Montaigne, o mais penetrante dos pensadores franceses, declara ter o espírito lento.
  • A superestimação das funções intelectuais é tal que os homens, que temem ser tidos por impotentes em matéria sexual, temem ao menos tanto ser tidos por imbecis, como se confessar falta de inteligência fosse perder toda a honra; Descartes ilustra a reivindicação universal de inteligência, tão obstinada quanto absurda, na primeira frase do Discurso do método: o bom senso é a coisa mais bem repartida do mundo, pois cada um pensa estar tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de contentar não costumam desejar mais do que têm.
    • Essa inflação dos valores puramente intelectuais, manifesta nas tentativas de separação radical entre corpo e espírito, é atribuível a uma fantasia megalômana, oriunda do anseio, hoje considerado pelos psiquiatras centro da neurose obsessiva, de cortar as pontes entre a natureza do homem e a de qualquer outra coisa, animal ou matéria inanimada: fantasia de arrivista, de quem se elevou por sua inteligência muito acima da origem animal e se esforça por fazer esquecer a ascendência verdadeira.
    • Há absurdo em dar mais valor à representação das coisas que à experimentação delas, à prova de sua intensidade trágica ou jubilatória, pois é largar a presa pela sombra julgar que o conhecimento da realidade supera a riqueza da própria realidade.
    • Muitos falsos sábios só chegam à paz da alma por uma espécie de anestesia geral diante da realidade, insensibilidade ao real que os torna incapazes de temer e de desejar, como Paul Valéry, que confessa ter feito de seu espírito um ídolo, sem ter achado outro; o interesse pela só inteligência traduz incapacidade de interessar-se por qualquer coisa, incapacidade de que Bouvard e Pécuchet já fazem a dura experiência, o que lembra o laço sutil que aproxima a inteligência pura da burrice absoluta.
    • Um personagem de Hergé, Séraphin Lampion, que encarna a vulgaridade total, diz em As joias da Castafiore que não é contra a música, mas de dia prefere um bom chope (demi); a fórmula, com “inteligência” no lugar de “música”, seria adotada por Montaigne, que diz dos “homens de saber”: “Eu os amo bem, mas não os adoro.”
  • O princípio de incerteza liga-se à crueldade porque a incerteza é cruel, sendo a necessidade de certeza premente e aparentemente indesarraigável na maioria dos homens: ponto misterioso da natureza humana é a intolerância à incerteza, que leva muitos a sofrer os piores males reais em troca da esperança, ainda que vaga, de um resto de certeza.
    • O mártir, incapaz de estabelecer ou sequer definir a verdade de que se diz certo, resolve testemunhá-la, como indica a etimologia de “mártir”, exibindo seu sofrimento: “sofro, logo tenho razão”, como se a prova da dor bastasse para validar o pensamento, ou antes a ausência de pensamento, em nome do qual se diz pronto a sofrer e morrer.
    • Essa confusão da causa a que se sacrifica explica o caráter insaciável do amador de sofrimento, ao contrário do amador de prazer, que pode ser saciado: nenhuma causa estando realmente à vista, nenhum sofrimento a estabelecerá, daí a escalada de suplício que A. Aymard e J. Auboyer evocam com humor: houve voluntários do martírio, como os cristãos da Ásia que, sob Cômodo, se apresentaram tão numerosos ao procônsul que este, após algumas condenações, os dispensou convidando-os a recorrer às cordas e aos precipícios.
    • Só se pode louvar o liberalismo desse procônsul que, incapaz de satisfazer a todos, consente por caridade em fazer supliciar ao menos alguns dos suplicantes.
  • O mais desconcertante nesse gosto da certeza é seu caráter abstrato, formal, insensível ao que existe realmente e ao que pode ser efetivamente doloroso ou gratificante.
    • Nietzsche opõe à riqueza da realidade o caráter “pobre” e “vazio” da certeza: “Concedei-me uma só certeza, ó deuses”, é a prece de Parmênides, ainda que uma simples prancha sobre o mar da incerteza, larga apenas o bastante para dormir; guardai para vós tudo o que é devir, as formas variegadas, floridas, enganosas, encantadoras, vivas, e dai-me só a pobre certeza toda vazia.
    • Pouco importa que uma certeza informe algo de real: pede-se-lhe apenas que seja certa; por isso o aderente fanático de uma causa se reconhece por ser, no fundo, totalmente indiferente a ela e fascinado apenas pelo fato de que ela lhe parece, num dado momento, poder ser tida por certa.
    • Um marxista convicto presta pouca atenção às teses de Marx, um stalinista convicto pouca atenção à realidade histórica e psicológica de Stálin: o que conta é a ideia abstrata de que o marxismo é verdadeiro ou de que Stálin tem razão, independente do que escreve Marx ou faz Stálin; a adoração de uma verdade acompanha-se sempre de indiferença ao conteúdo dela.
    • Fanáticos que passam a duvidar de seus ídolos sucessivos podem achar apaziguamento na devoção a uma causa humilde mas indiscutível, como a verdade aritmética: quem creu em tudo e duvidou de tudo pode fazer, no fim da carreira, excelente contador, e Bouvard e Pécuchet, após tentarem de tudo, deviam voltar, segundo o projeto de Flaubert, ao ofício inicial de copistas escrupulosos e irrepreensíveis.
  • O prazer de prejudicar os próximos, muitas vezes sentido como prioritário ante o de agradar a si mesmo, procede talvez da mesma idolatria da certeza: do sentimento confuso de que o outro sentirá desprazer com toda certeza, enquanto não se está sempre certo do prazer que se poderia sentir.
  • A indiferença do fanático ao próprio fanatismo explica o paradoxo de que a obstinação em sustentar uma causa se acompanhe sempre de total versatilidade, pois é uma só coisa ser crédulo e incrédulo, fanático e versátil: o ato de fé é em geral compensação provisória da incapacidade de crer, e todo fanático é um cético infeliz e envergonhado de sê-lo; o homem é em geral crédulo por ser incrédulo, fanático por ser versátil.
    • Spinoza, depois de Maquiavel e Hobbes, observa esse laço entre credulidade e incapacidade de crer de fato: pela causa da superstição que assinalou, os homens lhe são sujeitos por natureza; ela deve ser extremamente diversa e inconstante, como as ilusões que lisonjeiam a alma humana e as loucuras a que ela se deixa arrastar; só a esperança, o ódio, a cólera e a fraude podem assegurar-lhe a manutenção, pois não tira origem da Razão, mas da Paixão, a mais agente de todas; assim, quanto os homens se deixam prender por toda sorte de superstição, tanto é difícil fazê-los persistir na mesma, e o vulgo, sempre igualmente miserável, nunca acha apaziguamento e só se agrada do que é novo e ainda não o enganou.
  • O gosto da certeza associa-se com frequência ao gosto da servidão, que se explica, como se poderia dizer parodiando La Bruyère, menos por uma propensão incompreensível à servidão em si que pela esperança de ganhar um pouco de certeza em troca de um ato de submissão àquele que se diz garante da verdade, sem nada revelar dela.
    • Incapazes de ter algo por certo e igualmente incapazes de acomodar-se à incerteza, os homens preferem entregar-se a um mestre que se afirma depositário da verdade a que eles não têm acesso: como Moisés diante dos hebreus, Jacques Lacan diante de seus fiéis, o suposto filho do carcereiro diante dos prisioneiros, no aforismo 84 de O andarilho e sua sombra, de Nietzsche, ou o guardião da lei na parábola de Kafka, que aceita todas as propinas sem permitir a ninguém desvendar-lhe o segredo, diante do “homem do campo”.
    • Em vez de assumir a ignorância, preferem trocar a liberdade pela ilusão de que alguém pensa por eles e sabe o que não conseguem saber; a adesão a uma causa, o fanatismo em todas as suas formas, é menos obra de quem se filia que da pessoa intermediária e fantasmática em nome da qual se opera a filiação.
    • O fanático não crê em nada; crê naquele ou naquela de quem pensa confusamente que creem em algo: não sou eu que creio, é Ele, e por isso creio nele, embora nada saiba dele nem do que Ele sabe.
    • Essa crença por procuração diz muito sobre a credulidade humana: esta não resulta de uma propensão natural a crer, mas, ao contrário, de uma total e intolerável incapacidade pessoal de crer em qualquer coisa.
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