Action unknown: copypageplugin__copy
rosset:1983:1.4
1.4 Superfície e profundidade
La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
- Muitos comentadores recentes sustentaram que a filosofia nietzschiana prefere a superfície à profundidade, a aparência ao real, a cópia ao modelo e a paródia de realidade à realidade mesma, ou até a paródia de doutrina à expressão de qualquer doutrina coerente, como pretendeu Pierre Klossowski; tratar-se-ia de uma sofística destinada a embaralhar as pistas do verdadeiro e a fazer perder todo contato com a realidade.
- Tal tese, embora unânime entre os que a professaram, opõe-se formalmente tanto à inspiração geral do pensamento nietzschiano quanto à totalidade dos textos de Nietzsche sobre a relação entre superfície e profundidade.
- Nietzsche privilegia de fato a superfície, a aparência, a representação, mas não em detrimento da profundidade do real, e sim da profundidade ilusória e mentirosa que a metafísica tradicional associa à noção de “mundo verdadeiro”, oposto à realidade da experiência imediata, sensível e empírica.
- A superfície não se opõe à profundidade, mas é o que a torna visível e por onde ela se manifesta, como mostram os gregos da época clássica, “superficiais por profundidade” (superficiels par profondeur) segundo o início de A Gaia Ciência.
- O elogio da aparência não se distingue do elogio do real, pois o espaço da representação é o lugar próprio onde se encontram as coisas, o “endereço” preciso do real.
- A guerra de Nietzsche contra toda “veracidade” superior ao que se pode experimentar aqui como verdadeiro decorre de ver nessas expressões atentados contra o real, “anátemas lançados sobre a realidade”, como diz o prefácio de Ecce Homo. Sua crítica do mundo verdadeiro situado além das aparências é sempre feita em favor da realidade, e não de uma aparência tomada como sinal da inconsistência do mundo.
- O aforismo 54 de A Gaia Ciência afirma que a aparência não é o contrário de um ser qualquer, pois nada se pode dizer de um ser que não seja enunciar os atributos de sua aparência.
- O Crepúsculo dos Ídolos afirma que o mundo “aparente” é o único, e que o “verdadeiro” é apenas mentira acrescentada; o prefácio de Ecce Homo traduz “mundo verdadeiro” e “mundo da aparência” por mundo inventado pela mentira e realidade.
- Ponto decisivo: o pensamento da aparência é vapor que se dissipa quando se dissipa o do “mundo verdadeiro”, pois, abolido este, aboliu-se também o mundo das aparências.
- Revela-se assim a “ontologia” nietzschiana, tão oposta à de Parmênides quanto à de Heidegger: a doutrina de um ser inteiramente presente em seu próprio aparecer. Superfície e aparência designam a própria profundidade do real, a realidade como “completa”, nada lhe faltando, única e sem duplo.
- No aforismo 6 da seção “A 'razão' na filosofia”, do Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche resume em quatro teses essa “maneira de ver tão essencial e tão nova”.
- Primeira tese: as razões que levam a qualificar de aparente este mundo estabelecem, ao contrário, sua realidade; é impossível encontrar qualquer outra espécie de realidade.
- Segunda tese: os sinais distintivos atribuídos ao “ser verdadeiro” das coisas são os do não-ser e do nada; o “mundo verdadeiro” foi construído contra o mundo real e é, de fato, um mundo de aparência, ilusão de óptica e de moral.
- Terceira tese: fabular outro mundo não faz sentido, a menos que prevaleça em nós um instinto de denegrir, depreciar e suspeitar da vida, vingando-nos dela com a fantasmagoria de uma vida “outra” e “melhor”.
- Quarta tese: dividir o mundo em “verdadeiro” e “aparente”, à maneira do cristianismo ou de Kant (cristão disfarçado), é sugestão da decadência, sintoma de vida declinante. O artista que põe a aparência acima da realidade nada prova contra isso, pois a “aparência” significa aí a realidade repetida, selecionada, reforçada, corrigida; o artista trágico não é pessimista, diz “sim” ao problemático e terrível, é dionisíaco.
- O texto é claro por si mesmo: Nietzsche não opõe aparência e realidade, mas as une para opô-las juntas à ilusão de um “mundo verdadeiro”. A dificuldade está no conceito de aparência, usado em dois sentidos opostos.
- Opondo-se ao suposto mundo verdadeiro, o mundo da aparência, simplesmente por “aparecer”, constitui o mundo real.
- Em contrapartida, o “mundo verdadeiro” é um mundo puramente “aparente”, agora no sentido pejorativo e ilusório: “ilusão de óptica e de moral”.
- A seção “Como, por fim, o 'mundo verdadeiro' se tornou fábula”, do Crepúsculo dos Ídolos, serviu de pretexto a Klossowski para sugerir que em Nietzsche a dimensão do verdadeiro pertence à do fabulatório, sendo o mundo mais real apenas a incerta matéria de um relato ou mito: religião, arte, ciência e história seriam variantes da fábula.
- Tal interpretação só se sustenta por um enorme contrassenso, o de assimilar as noções exatamente contrárias de “mundo verdadeiro” e “verdade”, pois mesmo em Nietzsche a verdade permanece o contrário da mentira.
- Se o “mundo verdadeiro” é mentira, isso não faz do mundo em sua aparência uma fábula, mas o torna veraz e constitutivo da realidade. Além disso, o pensamento de que o mundo tal qual é só fábula seria por Nietzsche atribuído a um denegrimento da vida e a uma vingança contra ela.
- O aforismo 54 de A Gaia Ciência tem o interesse de pôr no mesmo plano a superfície e a máscara: a relação da superfície com a profundidade é a da máscara com a pessoa mascarada, pois a máscara figura a visibilidade da “pessoa” (persona designa primeiro a máscara de teatro). Nietzsche nega que a aparência seja uma máscara inerte aplicável e retirável de algum X desconhecido.
- A obra de Nietzsche revela interesse constante pelo máscara e pelo disfarce. O dom da máscara é descrito no aforismo 278 de Para Além do Bem e do Mal como a oferenda mais preciosa ao viajante extraviado, talvez porque a máscara proteja da vergonha, e poupar alguém da vergonha é, segundo o aforismo 274 de A Gaia Ciência, o mais humano.
- O estatuto da máscara é, contudo, singular: nunca é disfarce, indício de falsidade ou ocasião de logro, mas antes um dos melhores indícios do real, de que tem a profundidade, a riqueza e a aristocracia próprias, como diz o aforismo 40 de Para Além do Bem e do Mal: tudo o que é profundo ama a máscara, e há coisas tão delicadas que convém sepultá-las sob uma grosseria.
- A máscara guarda também a verdade do real, o que faz sua nobreza, mesmo na vulgar mascarada meridional do aforismo 77 de A Gaia Ciência, que define o nobre como o que está à vontade na existência, seja qual for sua “vulgaridade”, e o não nobre como o que sente constrangimento ou vergonha de existir, seja qual for sua “distinção”; só a máscara é popular, e nada se entende dela sem entender o prazer e a boa consciência de toda mascarada.
- Além desse caráter fundamental de ser expressão e não dissimulação, distinguem-se duas funções principais da máscara.
- A primeira é de pudor: não exibir a toda hora e diante de qualquer um a própria riqueza, sentido principal de vários aforismos, sobretudo o de Para Além do Bem e do Mal citado acima.
- A segunda é dizer a eterna insuficiência de toda palavra e de toda verdade, ainda que a mais profunda, por ser necessariamente parcial e onerada pelo ponto de vista de que é enunciada; insuficiência que vem não de pobreza, mas de excesso de riqueza, em convergência muito remota com o “momento” hegeliano em que se aprisiona a verdade de toda tese.
- Se tudo o que é profundo gosta de mascarar-se, é porque a máscara marca uma riqueza que nenhum pensamento, aforismo ou livro pode conter. Além de dizer o que diz, o aforismo nietzschiano deve homenagear tudo o que não diz e deixa na sombra; a máscara revela não só o que assinala, mas tudo o que teria a assinalar.
- Isso dá peso à tese de Karl Schlechta de que uma “segunda voz” se faz ouvir em todos os textos nietzschianos, exceto nos aforismos abandonados e publicados postumamente, como os reunidos em A Vontade de Poder.
- A segunda parte do aforismo 289 de Para Além do Bem e do Mal resume a segunda função da máscara: o solitário não crê que algum filósofo tenha exprimido em livros suas opiniões verdadeiras e últimas, pois se escrevem livros justamente para dissimular o que se esconde em si.
- Duvidará até que um filósofo possa ter opiniões “últimas e verdadeiras”, perguntando-se se atrás de toda caverna não se abre outra mais profunda, se um mundo mais vasto, estranho e rico não se estende sob a superfície, se um fundo mais fundo não se cava sob cada “fundamento” do pensamento.
- Toda filosofia é filosofia de fachada, e há algo de arbitrário em que o filósofo tenha parado ali para olhar em volta e deixado a picareta; toda filosofia dissimula uma filosofia, toda opinião é também esconderijo, toda palavra também máscara.
rosset/1983/1.4.txt · Last modified: by 127.0.0.1
