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rosset:1977:1.7
1.7 O Incurável
ROSSET, Clément. Le réel: traité de l'idiotie. Paris: Éditions de Minuit, 1977.
- Conservar o sentido tornando-o invisível, situando seu sítio alhures, nos bastidores, é a via do ilusionista; outra maneira moderna, mais radical, consiste em assinalar o sentido como absolutamente ausente e faltante, mantendo-o porém como pura crença ou, como diria Kant, como “ideia reguladora”.
- Essa crença é desejo de nada e seria, por conseguinte, incapaz de precisar a natureza daquilo em que crê, o objeto real de sua aposta; é o próprio de todas as crenças, e o que as torna indesarraigáveis: serem sem objeto.
- Qualifica-se de incurável (inguérissable) a estrutura desse sustento do sentido ligado a uma clara percepção da insignificância, distinta do irremediável (incurable): o irremediável é o homem atingido por doença sem remédio; o incurável é atingido por doença para a qual existem excelentes remédios, cuja administração permanece, no seu caso, por razões misteriosas, sem efeito.
- Ele é mais profundamente sem cura que o irremediável comum, o qual poderia sempre imaginar-se curando se se descobrisse remédio para seu caso, ao passo que o incurável, como que vacinado contra todos os remédios, está para sempre a salvo de toda cura possível.
- Mais ainda: o incurável é o homem são de espírito, o homem curado, aquele que a própria cura não consegue modificar; por isso o neurótico de que se ocupam os psicanalistas é caso anódino e benigno em comparação com o homem normal.
- Não há remédio contra a clarividência: pode-se pretender esclarecer quem vê turvo, não quem vê claro, e toda “repreensão” é vã diante de quem já tem sob os olhos o que se quer fazer ver.
- O herói de Diário de um louco, de Gogol, é incurável por ter clara consciência do que não se deve fazer para manter o espírito lúcido (não se tomar por outro, senão é o asilo), e essa percepção clara do perigo a evitar o impede justamente de perceber que nele cai em cheio: hoje é dia de grande solenidade, a Espanha tem um rei, foi encontrado, e esse rei é ele; não compreende como pôde imaginar-se conselheiro titular, e ainda é sorte que ninguém tenha pensado em interná-lo.
- Assim como a figura do ilusionista parece de inspiração hegeliana, a do incurável liga-se a Kant e ao kantismo, que assinala, na história da filosofia, o momento por excelência do incurável: aquele em que se estabeleceu solidamente que, se se apega a uma ideia, pode-se para sempre reivindicá-la como verdadeira, ainda que se estabeleça, igualmente, que ela é um absurdo.
- Tal é o alvo da empresa “crítica”, segundo o próprio Kant e os kantianos: criticar o saber para pôr a crença ao abrigo do saber, assentando-a em base inatacável; a crítica não incide sobre o conteúdo do discurso que se pretende manter, mas sobre suas condições de possibilidade.
- Sendo necessária a verdade que se pensa (Deus, imortalidade, liberdade, enquanto conferem sentido ao mundo e à ação), examina-se como é possível: crítica estranha, que tem por asseguradas e intocáveis as verdades que se propõe criticar e indaga, ao arrepio da lógica, das condições de possibilidade de verdades já tidas por necessárias.
- Primeira consequência: Kant é o inventor de uma forma de crítica “branca”, que embranquece tudo o que toca, crítica que não critica, não criticante.
- Kant não indaga sobre Deus, liberdade e imortalidade, mas sobre a natureza das faculdades intelectuais aptas (ou inaptas) a dar conta delas, criticando não a religião nem a moral, mas a razão pura e a razão prática; jamais posto em causa é o apego incondicional a certo sentido, a certos fins, fora dos quais não há salvação para Kant.
- É mais fácil criticar a razão pura que criticar-se a si mesmo, pôr em questão o próprio desejo; assim Kant fixa a figura do incurável, inventando remédios sem perigo que se podem administrar sem temer que o doente se cure, e a crítica passou, atenta e escrupulosa, deixando intacto o conjunto das opiniões e crenças, ou antes as reafirmou.
- Segunda consequência: a manutenção das opiniões duvidosas duplica-se, passada a prova da crítica não criticante, no acesso ao estatuto de “científico”; a metafísica de que Kant pretende dar os Prolegômenos poderá enfim “apresentar-se como ciência”.
- A opinião que saiu ilesa de uma crítica aparentemente rigorosa tem todos os títulos para dizer-se científica, e assim o eminentemente duvidoso torna-se o absolutamente certo, o eminentemente subjetivo o aparentemente objetivo.
- Terceira consequência: a crítica não criticante acrescenta ao fato bruto da crença um coeficiente que o corrige e melhora, fazendo valer que se trata não de adesão cega e ingênua, mas de escolha maduramente pesada, emanada de um espírito livre, incapaz de deixar-se impressionar por preferência instintiva.
- A crença recebe uma espécie de selo de garantia que mantém a coisa apagando seus caracteres visivelmente suspeitos, daí a reputação de inteligência de que se auréolam facilmente as opiniões mais ineptas: basta fazer saber que se é um espírito “esclarecido”, e assim se será cristão de choque mas muito inteligente, marxista ortodoxo mas muito fino nas análises, engajado a fundo numa causa absurda mas de espírito livre.
- O mecanismo corretor é o que Roland Barthes descrevia a propósito da “operação Astra”: sabe-se que nada substitui a manteiga, e por isso se recomenda comprar margarina; mas, para bons batatas salteadas, basta comprar manteiga, e, para ser inteligente, fino e livre, basta um pequeno esforço suplementar, como o que Sade pedia aos contemporâneos (“Franceses, mais um esforço!”): renunciar a ser cristão de choque, marxista ortodoxo, engajado em causa absurda.
- Quarta consequência: a crença passada pelo crivo da crítica não criticante explica a maioria das formas modernas de dogmatismo; ao dogmatismo clássico, da certeza, substituiu-se progressivamente um dogmatismo da incerteza, que caracteriza a maioria das religiões modernas, tomando “religião” no sentido mais amplo.
- Incerteza quanto ao objeto, mas certeza quanto ao sujeito: crê-se de qualquer modo, pouco importando em quê, pois Kant mostrou que todo objeto de crença podia resistir às investidas do espírito crítico graças à crítica não criticante; é dogmatismo mais móvel, por mudar facilmente de objeto, mas tão rígido quanto o da certeza, e mais ainda, por parecer tanto mais firme quanto mais incerto quanto ao objeto.
- Como diz Deleuze, em princípio geral tem-se tanto mais razão quanto mais se passou a vida errando, pois sempre se pode dizer “passei por aí”, e por isso os stalinistas são os únicos a poder dar lições de antistalinismo.
- A mania dogmática não está em fixar um sentido ou uma verdade aqui ou ali, mas no simples fato de pretender atribuir, onde quer que seja, um sentido e uma verdade; o topos onde se fixa a mania importa pouco e muda constantemente, sem que o interessado se preocupe.
- Assim se desloca a aparência do sentido, isto é, o não sentido, ao longo de uma interminável circulação da loucura: a “verdade” estava ontem em Moscou, está hoje em San Francisco, estará amanhã na filosofia chinesa, na ecologia ou na alimentação macrobiótica, e a cada vez se diz, ao apresentar a nova mania: “Que louco eu era!”, como o herói de Gogol.
- Mostrar a figura do incurável em suas obras contemporâneas, dando títulos e nomes, seria desagradável e inútil; basta saber que ele está hoje presente quase por toda parte, ao menos onde não é substituído pela figura do ilusionista.
- Menciona-se apenas, para memória, a empresa de Louis Althusser: pode-se pôr em dúvida a solidez da filosofia de Marx, mas ele preferiria ser enforcado, logo o marxismo não é filosofia, é ciência.
- E este, um dos mais curiosos avatares recentes da manutenção do sentido pela figura kantiana do incurável: sou revolucionário, ora Lacan diz que nenhuma criatura sexuada pode ser revolucionária, logo não sou criatura sexuada.
- Seja pelas figuras do ilusionista ou do incurável, o gosto do sentido parece ligado, em todos os casos, à essência da devoção: o devoto é, antes de tudo, aquele que é incapaz de enfrentar o não necessário.
- Por isso, como diz Pierre Legendre, ama o censor e pretende gozar do poder exercido a suas próprias expensas; para avançar nos dédalos do não necessário, precisa do reforço permanente de um “vá em frente”, a garantia de uma necessidade que lhe dará, ocasionalmente, todo portador da insígnia “é preciso”: o jurista, o policial, o médico, e por vezes o filósofo.
- O devoto não é quem repugnaria espontaneamente certas práticas, mas quem se recusa a praticar sem razão, sem “ordem” (no sentido ao mesmo tempo imperativo e normativo), e está aberto a toda prática que receba o aval de uma autoridade: uma realidade tida por ímpia será logo adotada se o jurista assegura que “isso se faz”, o policial que “é permitido”, o médico que “é aconselhado”, o filósofo que “é racional”.
- Pode-se indagar as razões do pavor diante do não necessário, que autoriza a renúncia da própria liberdade em proveito de uma ordem imposta: a recusa do gratuito é só um aspecto da recusa do real, um dos múltiplos mecanismos de defesa que entram em jogo quando o real é percebido como cruel.
- Nem sempre se pode negar radicalmente o real, decidir que o que se percebe é falso e não existe: via da loucura e das neuroses graves, que não está aberta a todos (“não é louco quem quer”, divisa do Dr. Ey).
- Tampouco se pode sempre aceitá-lo a título provisório, continuando a negá-lo em profundidade, decidindo que o que se percebe é verdadeiro mas não pode durar: via da “neurose do homem normal”, espécie de “neurose branca”, com duas variantes, a rosa e a cinza.
- Variante rosa: tudo isso não durará, pois vai se arranjar, graças, por exemplo, a melhor organização das coisas e das pessoas, tarefa a que se dedica de repente; empenho suspeito, pois não há modo mais seguro de desacreditar a vida que vê-la cor-de-rosa, e quem trabalha pela melhoria da condição humana geralmente deixou há muito de querer bem a quem quer que seja.
- Variante cinza: tudo isso não durará, pois vai piorar e desembocar necessariamente, cedo ou tarde, em alguma catástrofe final, no desaparecimento geral de todas as coisas; encontra-se alívio no pensamento de um fim do mundo iminente, que se anuncia aos vizinhos meio alegre, meio consternado.
- Essas vias implicam ódio do real e divórcio definitivo dele, embora se continue a levá-lo em conta, ao contrário da loucura verdadeira; há porém maneira mais suave de pôr o real de lado: aceitá-lo sob condição, com a reserva de que apareça como portador de significação.
- Não há aqui rejeição, mas disfarce e deslocamento, e o véu do sentido determina um espaço protetor entre o homem e o real; o sentido permite apresentar versão do real adoçada, aliviada de certos caracteres indesejáveis, como a gratuidade do infortúnio, e oferece corrimão de proteção aos que, sem destino assinalado, não saberiam aonde ir.
- É isso que apavora de antemão os devotos, e com eles todos os homens enquanto suscetíveis de devoção, isto é, de medo: existir sem necessidade, agir sem caução, ir à aventura num mundo em que nada está previsto nem decidido, em que nada é necessário mas tudo é possível.
- Essa realidade percebida em estado bruto é como um vinho forte demais, e para torná-la agradável de beber costuma-se cortá-la com a água do sentido; por isso o real não está ordinariamente aqui, mas um pouco mais longe, no horizonte, e a insignificância, que diz ao mesmo tempo sua plenitude e sua idiotia, é não percebida, mas remetida para mais longe e mais tarde: à vista sem dúvida, mas ainda não presente, sempre “por vir”.
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