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rosset:1971:1.2
1.2 Terror
ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971.
A INTENÇÃO TERRORISTA: SUA NATUREZA
- Na origem da filosofia trágica há um desejo, algo no filósofo que “quer” o trágico, como diria Nietzsche, e o exame dessa vontade trágica precede a exposição da própria filosofia trágica.
- Essa psicanálise preliminar esclarece a natureza da intenção terrorista, lavando-a de suspeitas inadequadas.
- Ela afirma também, na origem do saber trágico, uma intenção psicanalítica ou catártica: fazer o trágico passar da inconsciência à consciência, mais precisamente do silêncio à palavra.
I
- A intenção terrorista diverge do pessimismo, que parece ser a forma mais elementar e radical de lógica do pior, embora a filosofia daí resultante seja em certo sentido mais pessimista que todo pessimismo.
- Duas diferenças, uma de conteúdo e outra de intenção, separam os filósofos trágicos dos pessimistas como Schopenhauer.
- A primeira é a própria “visão de mundo”, dado primeiro do pessimismo e recusado como tal pelos trágicos: o pessimista fala depois de ver, o terrorista trágico fala para dizer a impossibilidade de ver.
- O pessimismo, em Schopenhauer ou Hartmann, reconhece um “algo” (natureza ou ser) e afirma depois seu caráter constitucionalmente insatisfatório, isto é, parte de uma ordem já dada, mesmo má.
- Por isso a negação do acaso é a pedra angular de todo pessimismo, como a afirmação do acaso é a de todo pensamento trágico.
- O mundo do pessimista está constituído de uma vez por todas e sua frase é “dele não se sai”; o mundo trágico não foi constituído e sua pergunta é “nele nunca se entrará”.
- O pior pessimista designa um dado de fato e uma lógica do mundo; o pior trágico designa a impossibilidade prévia de todo dado e uma lógica do pensamento que se descobre incapaz de pensar um mundo.
- Seria vão recusar o pessimismo em nome do humor e da afetividade, pois existe uma filosofia pessimista que o pensamento trágico não recusa.
- O que separa trágicos e pessimistas não é o humor, mas o objeto da interrogação; forçado a considerar o mundo e a vida humana, um trágico como Pascal poderia igualar o pessimista em disposição de espírito.
- O pessimismo é a filosofia do dado enquanto já ordenado, isto é, a filosofia do absurdo, como a de Schopenhauer, e a de Leibniz seria a mesma se não houvesse nele Deus para dar o mundo e fundamentar seu ordenamento.
- O que distingue Schopenhauer de Leibniz é o tema teológico, e não o humor: o “pior” de um e o “melhor” do outro acabam tendo o mesmo significado.
- Quando dá a si mesmo uma natureza a pensar sem referências teológicas ou teleológicas, o pessimista chega necessariamente a uma filosofia do absurdo, em dois tempos: a lógica do dado é uma lógica do ordenado, e, nada legitimando esse ordenamento, ela é uma lógica do absurdo.
- Esse percurso é nítido em Schopenhauer, que dispõe de um só pensamento para descrever o mundo, a vontade, cega, ilusória e mecanicamente repetitiva.
- Essa vontade basta para passar do caos ao mundo ordenado por constituir um evento, que é ao mesmo tempo relevo sobre a existência e fracasso do acaso.
- Para o pensador trágico, “o que existe” não é natureza, ser nem objeto adequado de pensamento e nunca dá lugar a eventos, apenas a encontros e ocasiões, pois o evento é a própria transcendência, o sinal de uma intervenção necessária para “fazer existir” o que existe.
- Para Schopenhauer a vontade é esse evento único, após o qual só há repetição cega; ele foi o maior pessimista por ter-se dado o mínimo de eventos a pensar.
- O evento fornece um mundo ordenado, grau zero do ordenamento, mas essencial, como o mixer que faz da mistura uma molho: o lugar onde se fabrica ser com acaso chama-se cozinha na alimentação e metafísica na filosofia.
- A filosofia pessimista, lógica do dado, desemboca numa filosofia do absurdo, ligação imediata quando o pensamento do dado se priva de toda ligação metafísica ou teológica.
- O absurdo maior é que haja ordenado dado sem ninguém que o tenha dado.
- A ordem da vontade schopenhaueriana é desordem, e o mundo é absurdo, com causalidade sem causa, necessidade sem fundamento necessário e finalidade sem fim.
- Essa filosofia do absurdo não se opõe ao pensamento trágico, antes lhe é estranha, por ser um absurdo segundo, condicionado ao sentido já constituído.
- O pessimista mostra que os sentidos do mundo recobrem não sentidos, mas o absurdo existe, instalado, e o ordem reinante reina mesmo sendo desordem.
- Isso condena o “trágico do absurdo” à mesma superficialidade do “cômico do nonsense”, pois ambos celebram uma ordem estabelecida.
- A insignificância trágica contesta esse reinado: nenhum sentido é dado, nem o mais absurdo, e a ideia de “não sentido” é a mais desprovida de sentido, definindo-se como o contrário de nada.
- O acaso é aquilo a que nada pode contrariar, e por isso o pensamento trágico não reconhece nenhum não sentido.
- Pensamento trágico e pessimismo diferem também na intenção.
- A sabedoria pessimista consiste em constatação, resignação e sublimação compensatória.
- A intenção terrorista de Lucrécio, Montaigne, Pascal e Nietzsche é incapaz de constatar (salvo a impossibilidade da constatação) e busca não uma sabedoria ao abrigo da ilusão, mas loucura controlada e júbilo, como em Pascal: somos tão necessariamente loucos que não sê-lo seria ser louco por outra volta da loucura, e ainda, alegria, alegria, lágrimas de alegria.
II
- Outra forma de lógica do pior, distante do pensamento trágico, é o masoquismo: o prazer filosófico em fazer aparecer o infortúnio.
- Pascal foi visto por muitos como tentador-desencantador, que extrai uma delectação mórbida da ruína sistemática de toda felicidade, hipótese duvidosa a seu respeito.
- O masoquismo filosófico tem componente agressivo e compensatório, cuja motivação, segundo Nietzsche, é a incapacidade de suportar o infortúnio: só suportarei não ser feliz se demonstrar que ninguém pode sê-lo.
- O prazer de sofrer reflete o prazer mais profundo de impor o sofrimento ao outro, e o masoquismo seria superficial, dependendo de um sadismo ligado à busca compensatória da felicidade, opinião final de Freud.
- O elemento democrático do masoquismo (se sofro, sofro como todos) reduz o prazer de sofrer ao prazer de não sofrer mais que outro.
- Deleuze, na apresentação de Sacher-Masoch, adverte contra uma leitura simplista da tese freudiana, mas a instância agressiva e compensatória confirma o vínculo entre sadismo e masoquismo, ambos com motivação igualitária e uniformizante.
- A componente masoquista não entra na constituição de uma filosofia trágica, que só a envolveria se seu ponto de partida fosse a revelação de um infortúnio, um acorde menor como o início da abertura do Don Juan de Mozart para Schopenhauer; ora, a filosofia trágica afirma exatamente o oposto.
- A relação entre a intenção terrorista e a paranoia toca um problema mais fundamental.
- Masoquismo e sadismo derivam de um questionamento do sofrimento cuja instância originária é a paranoia, que afirma de saída seu caráter irrecebível.
- O que importa ao paranoico, ao masoquista, ao sádico e ao pessimista é menos que o sofrimento seja intolerável do que ele “seja”.
- O benefício de afirmar o infortúnio, seja para gozá-lo, infligi-lo ou queixar-se dele, está em assinalar um ponto de existência sobre o qual o pensamento pode repousar; afirmar “que há” algo importa mais que esse algo ser infortúnio.
- Afirmar o infortúnio é, sobretudo, afirmar um “ser”.
- O grande infortúnio do paranoico seria considerar que o infortúnio “não é”, o que impossibilitaria falar dele e tornar-se seu lógico.
- Nietzsche conclui a Genealogia da moral dizendo que o homem prefere ainda querer o nada a não querer, ou seja, é melhor afirmar o infortúnio do que nada afirmar.
- O pensamento trágico e o pessimista oscilam entre dois modos de representação: um representa algo, o outro se mostra incapaz de representar o que quer que seja.
- O pessimista se concede um benefício, pois afirmar o infortúnio é sempre afirmar alguma coisa; o pensamento trágico recusa esse benefício, pois para ele o ser é impensável e nenhum ser “é”.
- Há assim duas formas antitéticas de lógica do pior: a paranoica, cuja lógica é afirmar o pior, e a trágica, cujo pior é nada afirmar.
- A representação paranoica é uma lógica do pior particularmente coercitiva, pois interpreta todo elemento no sentido mais danoso à pessoa, mas não é certo que seja uma forma particular de lógica.
- Talvez a lógica paranoica seja toda a lógica: certa tradição psiquiátrica fala de lógica “sã” e “delirante”, mas nenhum psicólogo determinou um critério de fronteira entre elas.
- Para o pensador trágico toda lógica que não se limita à não afirmação já é paranóica, pois toda interpretação é delírio; o que distingue socialmente o louco do normal é apenas quantitativo, o tempo e a extensão do campo dados à interpretação.
- Todo homem, enquanto lógico, é paranoico, por ser constitucionalmente levado a passar da ideia de relação à ideia de ser; a ordem é, no limite, apenas pretexto para passar ao ser, e as pesquisas de Lacan ligaram a agressividade paranoica à impossibilidade de pensar um ser, o próprio eu.
- A lógica não paranoica é a que se pensa como afetando apenas a ordem dos pensamentos, como a de Hume, talvez o filósofo não paranoico por excelência.
- Constatar um paralelismo entre uma ordem de pensamentos e uma ordem de objetos difere de concluir uma ordem inerente às coisas; quando a lógica extrai de seus agenciamentos uma contestação do acaso objetivo, torna-se paranoia.
- A permanência relativa de uma ordem assegura a fixidez ilusória de um ser, e a afirmação do ser é a negação do acaso.
- A fronteira entre lógica paranoica e lógica trágica está na problemática do acaso, recusado por uma e afirmado pela outra; a lógica paranoica é, na aparência, lógica do pior, mas na verdade do melhor, pois a necessidade que atribui ao infortúnio serve a expulsar a pior das ideias, o acaso.
- Pensamento trágico e pensamento paranoico estão próximos e distantes: constituem, pela mesma razão invertida, uma mesma tentativa de lógica do pior.
- A paranoia usa a lógica para refutar o acaso, e o pensamento trágico para afirmá-lo previamente; a palavra trágica é “acontece que”, a paranoica é “acontece justamente que”.
- A calamidade é um preço leve pelo dom do ser, de um mundo e de uma pessoa, daí a felicidade da interpretação paranoica, resumida em “sofro, logo existo”.
- Toda lógica do pior oscila entre a lógica trágica, que nada afirma, e a lógica paranoica, que afirma o infortúnio; talvez não haja outra forma de lógica, e o homem dito normal seja um composto de paranoia e intuição trágica.
III
- Mais próxima da intenção terrorista está a noção de piedade, não schopenhaueriana e consoladora, mas assassina e exterminadora, que em vez de acalmar os males os exacerba até o reconhecimento do intolerável.
- A filosofia trágica é uma “farmácia”, arte dos venenos, que despeja no espírito do ouvinte um veneno mais violento que os males que o afligem.
- O representante mais característico dessa piedade assassina é Lucrécio, cujo poema leva quase à caricatura a arte de disfarçar venenos em remédios, pois sua intenção médica de arrancar os homens de vãs angústias e devolver-lhes paz e serenidade é evidente em cada página.
- A resposta a toda inquietação humana é um livro que, da invocação a Vênus à peste de Atenas, é talvez o discurso mais aterrador já ressoado na memória dos homens.
- Tratado rigoroso da insignificância radical, o De rerum natura oferece à consolação e ao júbilo dos homens o acaso como origem do mundo, o vazio como objeto fantasmático dos sentimentos e a perdição como sorte inelutável da espécie, sorte que é ela mesma privada de necessidade filosófica.
- A consolação de que haja alguma “necessidade” na origem dos males seria excessiva e pertence ao pensamento religioso, metafísico ou interpretativo, isto é, à paranoia.
- A peste de Atenas que encerra a obra é a verdade da condição humana, com a condição de que seja um evento fortuito nascido do acaso.
- O poema de Lucrécio propõe o que toda intenção filosoficamente terrorista propõe: fazer o trágico passar do inconsciente ao consciente, ou, mais precisamente, do silêncio à palavra.
- Calar não significa não saber.
- O que o terrorismo filosófico visa é o acesso à palavra, e por isso sempre teve, bem antes de Freud, caráter “psicanalítico”.
- O pensador trágico julga a consciência humana suficientemente informada; o que falta aos homens, e lhes vale um excesso evitável de infortúnio, é a palavra.
- Em Lucrécio, o acaso do mundo, a morte e a vanidade do amor são conhecidos, mas não falados, diferença entre pensado e dito que faz dele precursor de Nietzsche e da psicanálise, junto com alguns Sofistas.
- A “cura” trágica proposta por Lucrécio e pelos filósofos terroristas consiste em devolver aos homens o uso da palavra, como a cura psicanalítica e pelas mesmas razões.
- Uma tradição atribui a Antifonte o Sofista, além da arte de interpretar sonhos, a de curar os males psíquicos pela simples expressão.
- Segundo o pseudo-Plutarco, Antifonte compôs uma Arte de combater a neurastenia e abriu em Corinto um consultório voltado para a ágora, prometendo aliviar os aflitos que lhe confiassem as causas de seus males.
- Antifonte descobriu, como Lucrécio, o postulado de base comum à psicanálise e à filosofia trágica: o trágico falado é preferível ao trágico silencioso.
- Esse é o único postulado do pensamento trágico e define a natureza da intenção terrorista.
- O pensador trágico, de tolerância absoluta, pode praticar ocasionalmente uma intolerância médica para com o trágico não falado, propondo com insistência, por piedade assassina, o acesso à palavra.
- Seu único “juízo de valor” é que, quando a ocasião se apresenta, convém fazer falar o trágico.
- Por isso todo filósofo trágico compõe uma “lógica do pior”: o pior é sobretudo o que deve ser falado (légein, falar, de onde lógica).
- O acesso do trágico à palavra não é “progressista” e nada muda na natureza das coisas.
- A cura trágica não modifica os elementos trágicos que o homem já pensava em silêncio, tal como a cura psicanalítica não altera a natureza dos problemas levados à consciência.
- Ela tampouco torna o trágico “consciente”, pois seus elementos nunca foram inconscientes; apenas faz falar algo que se pensava sem se exprimir.
- No fim da psicanálise, o saber revelado coincide com o que o paciente já sabia, uma provável banalidade cuja simplicidade o impede não de pensá-la, mas de situá-la em seu lugar psicologicamente útil.
- O paciente sabe do que se trata desde o primeiro dia e o analista experiente desde a primeira semana; o problema nunca é de acesso à consciência.
- O único “progresso” da cura, trágica ou psicanalítica, está na noção de uso e disponibilidade: tornar o homem capaz de servir-se do que já sabe, como o problema de Édipo na peça de Sófocles.
- A distinção decisiva é entre saber utilizável e não utilizável, e não entre consciente e inconsciente.
- A consciência é um banco: alguns bens estão em reserva, outros imediatamente disponíveis como liquidez, e o problema não é aumentar ou diminuir a soma possuída, mas torná-la disponível.
- Um pensamento não disponível não é inconsciente, mas não fala e não pode ser usado quando necessário.
- Tornar o trágico disponível é dar-lhe a palavra, não a consciência, como o náufrago que sabe que se afoga mas nada pode fazer sem alguém ao alcance da voz, segundo o exergo de Poe em O Poço e o Pêndulo: uma voz para gritar.
- Um saber inutilizável de nada vale.
- Resta determinar por que a disponibilidade do trágico é, para o pensador terrorista, um “valor”, questão que concerne não à natureza, mas ao fim da intenção terrorista.
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