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rosenzweig:estrela:1.3

1.3 Liberdade divina

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

Liberdade divina

  • Não se sabe qual das duas possibilidades, a tempestade vinda de fora ou o redemoinho vindo de dentro, poria em movimento a superfície lisa. Mas lembre-se como a essência imóvel surgiu no Sim, que ocupava sempre o lado direito, o do x na equação x = y, o que já implica a opção pela primeira possibilidade. No Sim nada impele para além de si, pois ele é o “assim”; o movimento deve, portanto, provir do Não.
  • O Não é tão originário quanto o Sim e de modo algum o pressupõe: dessa pressuposição depende apenas o Não individual derivado. O originário nada pressupõe além do nada, e é o Não do nada. Ele se destaca de imediato do nada enquanto negação, sem que nenhum Sim o preceda; o que o precede é uma afirmação.
    • O nada que ele pressupõe não é um nada em que pudesse residir, nem o eternamente vazio em que se compraz Mefistófeles, mas um nada de onde devia brotar o Sim, pensado apenas como nada do saber, não como nada positivamente posto, “fundo obscuro” ou “abismo da divindade”, e sim como ponto de partida do pensamento sobre Deus, lugar da colocação do problema.
    • Não é o Sim mesmo, mas o nada de onde devia sair uma afirmação, que precede o Não originário. Por isso o Não é “mais recente” que o Sim, sem prejuízo da imediatidade de sua origem: não é propter sic, mas post sic.
  • O Não é negação originária do nada. O Sim não pudera permanecer ligado ao nada, que não lhe oferecia ponto de apoio, e, rejeitado, voltou-se ao não nada e, liberto para lançar-se ao infinito, pôs a essência divina no domínio infinito do não nada. O Não, ao contrário, entrelaça-se corpo a corpo com o nada, o que agora é possível porque, pela afirmação infinita e prévia do não nada, o nada ficou para trás como realidade finita.
    • A imagem do par de lutadores engana: não é luta a dois, mas luta de um só, pois o nada nega a si mesmo. Só na autonegação destaca-se dele o “outro”, o “antagonista”, e no instante desse destacamento o Não é desatado do entrelaçamento autonegador do nada e, como Não livre e originário, ganha figura.
  • A questão é sobre Deus: o nada que se negava era o nada de Deus, e o Não nascido dessa autonegação é um Não de Deus. O Sim era a essência infinita; o Não livre não é essência, pois não contém Sim: é puro Não, não “assim”, apenas “não de outro modo”, sempre dirigido ao “outro”, sempre apenas o “um” em Deus, diante do qual todo o mais nele se torna simplesmente o “outro”.
    • Esse “um” simples, Não puro a tudo o que não é ele mesmo, só pode chamar-se liberdade. A liberdade de Deus nasce da negação originária do nada como o que se dirige a toda coisa outra unicamente enquanto outra: é simplesmente um Não pleno de força.
  • A essência de Deus era Sim infinito, que deixava atrás de si o nada esvaziado do infinito. Desse nada tornado finito desprendeu-se, numa autonegação originária, o Não livre, que traz as cicatrizes do combate em que irrompeu. É infinito em suas possibilidades, pois tudo lhe é “outro”, mas ele mesmo é sempre “um”, limitado, finito, tal como irrompeu na autonegação do nada finito.
    • Irrompe desde toda a eternidade, pois toda eternidade é para ele apenas “outro”, tempo infinito. Diante desse sempre “outro”, é em todo tempo o “único”, o sempre novo, o que sempre ocorre pela primeira vez.
    • Contra a essência divina infinita ergue-se a liberdade divina, figura finita do ato, de potência inesgotável, capaz de escoar sem cessar de sua origem finita para o infinito: não um mar infinito, mas uma fonte inesgotável. À essência criada de uma vez por todas opõe-se a liberdade do ato, que se revela sem cessar em sua novidade.
    • Por ora não é lícito pensar para essa liberdade outro objeto além da infinitude da essência eterna. Não é liberdade de Deus, pois Deus continua problema; é liberdade divina, em Deus e em relação a Deus. Ainda nada se sabe de Deus: está-se no estilhaçamento do saber, no questionamento, não nas respostas.

Signo

  • Busca-se encerrar num símbolo a liberdade divina, como antes a essência divina. Como liberdade originária, ela deve ocupar o lado esquerdo da futura equação. Sendo um Não que, como sujeito originário, se ultrapassa com força ilimitada, ainda que nos limites de Deus, o símbolo deve seguir o esquema “y =”.
    • Essa liberdade é finita em seu caráter único constantemente renovado, mas infinita em sua novidade constante, e nada pode precedê-la, pois nada existe fora dela; é sempre coisa única, não individual, e daí resulta para ela o símbolo “A =”. Como esse símbolo se concilia com o da essência, e como só assim se estabelece a equação e, com ela, a primeira resposta à questão de Deus, é o que se deve expor a seguir.
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