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rosenzweig:estrela:1.2
1.2 Natureza divina
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- O Sim é o começo. O Não não pode sê-lo, pois seria apenas um Não do nada, o que pressuporia um nada passível de negação, isto é, um nada já decidido pelo Sim. E não pode tratar-se do Sim do nada, pois o sentido da introdução do nada é que ele não seja resultado, mas ponto de partida, e tão somente ponto de partida do saber.
- Sendo apenas ponto de partida, o nada é incapaz de ser afirmado e, como já se assinalou, incapaz de ser negado: está antes do Sim como antes do Não, antes de todo começo, se é que “se encontrasse”. Mas ele não “se encontra”: é apenas o lugar virtual para o começo do saber, a marca de que o problema está posto.
- Evita-se rigorosamente dar-lhe nome: não é um “fundo obscuro” ou algo que se possa designar com palavras de Eckhart, Böhme ou Schelling. Ele não está no começo.
- No começo há o Sim, e como este não deve ir ao nada, deve ir ao não nada. Como esse não nada não é um dado autônomo, pois nada é dado fora do nada, a afirmação do não nada circunscreve, como seu limite interno, a infinitude de tudo o que não é nada. O que se afirma é um infinito: a essência infinita de Deus, sua facticidade infinita, sua physis.
Palavra-origem (Urwort)
- A força do Sim está em ligar-se a tudo, em trazer soterradas possibilidades ilimitadas de realidade. É a palavra-origem da língua, das que tornam possíveis, não proposições, mas primeiro as palavras que entram em proposições, as palavras como elementos da proposição.
- O Sim não é elemento da proposição, nem sigla estenográfica de uma proposição, embora possa ser usado assim: é o companheiro silencioso de todos os elementos da proposição, a confirmação, o “sic”, o “amém” atrás de cada palavra. Dá a cada palavra na proposição seu direito à existência e lhe oferece o assento onde possa sentar-se, “assenta”.
- O primeiro Sim em Deus funda, em toda a sua infinitude, a essência divina, e esse primeiro Sim está “no começo”.
Signo
- Pode-se tentar fixar em símbolos lógico-matemáticos conhecidos o passo que esse primeiro Sim representa no caminho da realização de Deus, limitando-se de início às letras algébricas e ao sinal de igualdade. Na equação y = x, y designaria o objeto e x o conteúdo da asserção, isto é, y o sujeito e x o predicado.
- Enquanto alhures a posição afirmativa designa o sujeito e a determinação negativa o predicado, aqui, onde se trata das origens, ocorre exatamente o inverso: a afirmação torna-se característica da determinação originária. No caso particular o predicado é sempre particular, logo negativo, mas segundo seu conceito originário a determinação é positiva, o puro “assim”. Que este se torne depois um “assim-e-não-de-outro-modo” só ocorre quando o “Outro” se junta ao Uno originário; só por essa passagem ao múltiplo a determinação se torna negação.
- Assim como a determinação originária ocorre no Sim, a posição originária, a do sujeito originário, faz-se no Não. Toda posição individual de um sujeito é pura posição para si, sem fundamento, mas a posição originária, prévia a todas, o pré-suposto, é negação, e negação do nada: todo sujeito individual é simplesmente “outro”, e outro que o nada. Na equação a estabelecer, ficará à esquerda do sinal de igualdade o Não e à direita o Sim.
- Com o simples x ou y simboliza-se a ausência total de relação; com y, a relação do sujeito a um predicado, isto é, a determinação com a perspectiva de ainda receber posição; com x, a posição com a perspectiva de determinação por vir. Nessa linguagem simbólica, a physis de Deus, seu ser simples e infinitamente afirmado, deve ser designada por A, e não por B ou C, porque nada, no domínio de sua esfera própria, condicionada por seu nada, o precede, e nada pode precedê-lo, pois é posto como infinito e não como finito.
- É efetividade simplesmente em repouso, mas infinita; se nesse mar silencioso da physis interna de Deus deve sobrevir uma tempestade que faça subir suas ondas, se de seu próprio seio nascem redemoinhos e vagas que ponham a superfície silenciosa em movimento arrebentante, isso ainda não se sabe. Em primeiríssimo lugar, é “A”: ser imóvel, infinito.
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