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rosenzweig:estrela:1.1.8
1.1.8 Crepúsculo dos deuses
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- Para que Deus fosse além da vitalidade já alcançada e se tornasse o Deus vivo da vida, seria preciso que o resultado obtido até aqui no caminho do nada fosse reconduzido a um nada, a um ponto de partida. Os elementos da potência e da necessidade, do arbítrio e do destino, que confluíam na figura do Deus vivo, teriam de ser novamente separados, e o resultado aparentemente final tornar-se fonte.
- A teologia da Antiguidade, orientada para o mito, já entrara numa inquietude que a impelia a superar a esfera autossatisfeita do mito e parecia exigir essa inversão do simplesmente vivo em gerador de vida. Mas, coisa notável quanto à violência da visão mítica, os ensaios feitos nessa direção, tanto nos mistérios quanto nos pensamentos dos grandes filósofos, tendiam sempre a inserir o homem e o mundo na esfera do divino: exatamente como o mito, possuíam somente o divino.
- A autonomia do humano e do terrestre desaparecia tanto nos mistérios que falam de divinização quanto nos conceitos de amor e de nostalgia com que os filósofos lançavam uma ponte sobre o abismo: nunca se passava do divino ao homem e às coisas do mundo, era sempre o inverso. Vale para os gregos em sua busca amorosa do perfeito como para os indianos em seu amor a Deus.
- Ter-se-ia visto uma restrição de Deus, do deus que se orgulhavam de ter elevado a quem engloba todas as coisas, acumulando em sua cabeça única as qualidades nobres dos muitos deuses, se se quisesse enredá-lo de novo na paixão do amor. O homem pode amá-lo, mas o amor de Deus pelo homem seria no máximo resposta ao amor do homem, justo salário e não dom livre, que derrama seus benefícios além de todas as normas da justiça, não força divina originária que escolhe fora de toda coerção ou toma a dianteira a todo amor humano, começando por dar vista aos cegos e ouvido aos surdos.
- Mesmo onde o homem julgava ter alcançado a mais alta forma de amor, como nos círculos indianos de amigos de Deus, renunciando por Deus a toda propriedade, voto e desejo e a todos os esforços ascéticos sobre si, esperando a graça de Deus em total abandono, esse abandono era desempenho realizado pelo homem, e não dom de Deus. O amor de Deus não sobrevinha ao endurecido, mas ao perfeito.
- A doutrina do abandono à graça passava por “mistério entre os mistérios” perigoso, que não se deve anunciar aos que não adoram a Deus, murmuram contra ele e não se mortificam. Mas são justamente esses extraviados, endurecidos e fechados, isto é, os pecadores, que o amor de um Deus deveria procurar, um Deus não apenas digno de ser amado, mas que ama por si, independentemente do amor dos homens, ou melhor, aquele que desperta o amor do homem.
- Para isso o Deus infinito precisaria tornar-se, no finito, tão próximo do homem, rosto contra rosto, pessoa com nome diante de pessoa com nome, que nenhuma razão dos razoáveis, nenhuma sabedoria dos sábios jamais o admitiria. Seria necessário ao mesmo tempo que o abismo entre o humano-mundano e o divino, indicado pela impossível supressão dos nomes próprios, fosse conhecido e reconhecido tão profundo, real e intransponível por todas as forças ascéticas do homem e todas as forças místicas do mundo, que nenhum orgulho de asceta, nenhuma suficiência de místico jamais o reconhecesse, em seu desprezo pelo “ruído e fumaça” dos nomes, terrestres ou celestes.
- A essência desse Deus divino permaneceu acessível à nostalgia do homem e do mundo, mas ao preço de o homem deixar de ser homem e o mundo de permanecer mundo. O golpe de asa da nostalgia arrebatou homem e mundo no fogo devorador da divinização, deixando para trás o humano e o terrestre, sem conduzir a neles entrar com um amor mais profundo. Assim, para os amigos de Deus na Índia, o ato é apenas o que não deve ser mau, não o que deve ser bom.
- O divino nunca transborda as fronteiras de sua vida própria: a Antiguidade chegou ao monismo de Deus, mas não além; mundo e homem devem tornar-se a natureza de Deus, deixar-se divinizar, mas Deus não se abaixa até eles, não se oferece, não ama, não deve amar. Guarda para si sua physis e permanece o que é: o metafísico.
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