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rosenzweig:estrela:1.1.6
1.1.6 Ásia: o deus não mítico
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- O espírito do mundo mítico, em que Deus se torna um Deus vivo, tira sua força do fechamento, resultado da natureza acabada desse conceito de Deus. Sua fraqueza repousa também nesse fechamento e nesse gênero de acabamento, que nada produz, mas tem a natureza de um produto. Por ora importa insistir em sua força.
- Até seu declínio nas religiões do Oriente Próximo e da Europa, o mítico dominou por toda parte como etapa da evolução: não significa uma forma inferior, mas superior às “religiões do espírito” do Oriente. Não é acaso que a Revelação, ao sair pelo mundo, tenha tomado o caminho do Ocidente e não o do Oriente: os “deuses da Grécia”, vivos, eram adversários mais dignos do Deus vivo que os fantasmas do Oriente asiático.
- As divindades da China e da Índia são edifícios enormes arrancados aos blocos dos tempos ancestrais; como monolitos, irrompem ainda em nossa época nos cultos dos “primitivos”. O Céu da China é o conceito da potência divina elevado a ponto de englobar o mundo; sem se derramar sobre a essência divina para assumir a figura da vida divina, essa potência integrou o universo inteiro na esfera enorme de seu arbítrio dominante: o universo não é coisa outra, mas algo que ela contém em si, que a “habita”. Em parte alguma o sentido expressivo do pensamento da imanência se torna tão evidente quanto nessa divinização chinesa da abóbada celeste, fora da qual só há o nada.
- Como o Deus chinês se esgota na passagem do nada à potência que engloba Tudo, assim o da Índia no caminho que vai do nada ao silêncio puro e perpassante da essência, da natureza divina. No círculo mudo do Brahma nunca penetrou o som da liberdade divina, e ele permanece morto, embora preencha toda vida e a aspire para si.
- Vistas a partir das figuras vivas dos deuses do mito, essas divindades são regressões ao elementar; “deidade” (Gottheit) é a palavra de todos os que fogem, diante do rosto do Deus vivo, para as brumas da abstração. Uma vez iniciada, essa marcha regressiva não se detém antes de atingir quase seu limite extremo: o nada.
- Os adoradores do Brahma exprimiram-lhe a essencialidade com a sílaba de afirmação inlassavelmente repetida, que devia conter todos os seus mistérios. No momento em que reconheciam nessa essência única e sem estrutura aquilo que aspirava toda multiplicidade, o Si-mesmo de todas as coisas, surgiu atrás do Sim sem estrutura uma nova determinação, idêntica ao Sim no sentido, mas evocadora da multiplicidade que incluía: “Não, Não”. Reconheceu-se assim no Sim a negação do nada: ao único “assim” infinito acrescentou-se o “não assim, não assim”, em número infinito. A essência da divindade foi o nada negado.
- Restava então um último salto atrás. Para não se romper no próprio nada, precisava atingir o último ponto ainda existente entre ele e o não nada. Nesse “nem… nem…” do nada e do não nada reconhece-se o pensamento último do budismo, que provoca vertigem: o Nirvana (Nirvana), situado além de Deus e dos deuses, lugar que mesmo em pensamento só um salto mortal (salto mortale) permite alcançar. Nada há além; é um ponto-limite, a última estação no caminho do nada ao não nada, a última evaporação ainda possível de toda essência.
A China
- A potência do Céu em que crê a China clássica separou-se do nada por simples negação, como toda potência ativa. A multiplicidade das coisas não é aspirada nesse poderoso envolvente, como o era o Si-mesmo, e todo Si-mesmo, no silêncio de mar do Brahma: o Céu contém tudo na medida em que domina todas as coisas. Sua potência é ato, e o símbolo dela é a violência do masculino contra o feminino; exprime-se não como Sim infinito, mas como Não a cada instante renovado contra tudo o que encerra.
- Também aqui a abstração tentou o salto atrás, até confinar na borda extrema do elementar, o nada: foi obrigada a pôr, como dei-“dade” (Gott-“heit”) no lugar de Deus e dos deuses, um conceito de potência suprema que só se distinguia do nada por referir-se ao ato e ao efeito, relação que é exclusivamente a do não fazer nada. O Tao (Tao) é essa eficiência sem ato, esse Deus que fica “silencioso como um rato” para que o mundo se mova em torno dele.
- É totalmente desprovido de essência: nada nele lembra o modo como todo Si-mesmo “é” no Brahma, como cristais de sal numa solução. É ele que está em tudo, como o cubo nos raios da roda, as janelas na parede, o espaço vazio no recipiente: por não ser “nada”, torna “utilizável” o “algo”, é o motor imóvel do que se move. É o não ato como fundamento originário do ato. Também aí um ponto-limite: a única figura que o ateísmo pode admitir se quer ser realmente ateu, sem permanecer afundado no panteísmo nem se dissipar no niilismo puro, livre de todo vínculo particular a Deus e a deuses.
Ateísmo primitivo
- No Nirvana e no Tao estão projetadas as plantas de construção necessárias, até hoje, para todo edifício em que o pensamento sobre Deus quer refugiar-se para escapar à voz do verdadeiro Deus. Só ali ele está a salvo dessa voz, seguro contra os deuses e contra Deus (securus adversus deos autant qu'adversus Deum). De lá não há caminho de volta: o nada é uma estaca sólida, e quem nela se amarra não se solta.
- Essa abstração última de toda vida divina é insuportável ao Si-mesmo vivo do homem e aos mundos vivos dos povos, e por isso a vida acaba sempre por assenhorear-se de novo da palidez sem vida da abstração: é o destino dos fiéis de Buda como de Lao-Tsé que um paganismo em flor invada de novo os blocos de pedra petrificados de seus não pensamentos. Só por isso, malgrado o fascínio, os ouvidos dos homens podem tornar-se de novo receptivos às vozes diante das quais fugiram para esconder-se nos espaços do Nirvana e do Tao, onde som algum chega.
- Pois só onde há vida, ainda que inebriada pelos deuses ou hostil a eles, a voz do Vivente encontra eco. No espaço vazio do não pensamento em que se refugia o medo de Deus, o medo que não teve a coragem do temor de Deus, essa voz se perde no vazio.
- Talvez os deuses do mito não vivessem além de seu reino cercado de muros, mas viviam. O deus da Índia e o da China, antes mesmo de seu último engolimento no Nirvana ou no Tao, partilham a fraqueza dos deuses do mito, a incapacidade de ir além de si mesmos, e são infinitamente inferiores a eles por pararem no meio do caminho, sem força para aquilo que dos deuses do mito se exala poderosamente: a vida.
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