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rosenzweig:estrela:1.0.2

1.0.2 Filosofia do Todo

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

  • Ao negar o obscuro pressuposto de toda vida, tratando a morte não como algo, mas como um nada, a filosofia cria para si a aparência de não ter pressuposto algum, pois todo conhecimento do Todo tem por pressuposto o nada. Se não quisesse tapar os ouvidos ao grito da humanidade angustiada, teria de partir do fato de que o nada da morte é um “algo”, e cada novo nada da morte, um novo “algo” que espanta de novo e não se deixa calar. Em vez do nada uno e universal, que enterra a cabeça na areia diante do grito de angústia, a filosofia deveria ter a coragem de escutá-lo e de não fechar os olhos à terrível realidade.
    • O nada não é coisa nenhuma, é “algo”: no obscuro fundo do mundo erguem-se, como seu inesgotável pressuposto, mil mortes, e em lugar do nada uno, que seria realmente nada, erguem-se mil nadas que são “algo” justamente por serem múltiplos. Essa multiplicidade do nada, a realidade da morte impossível de banir do mundo, que se anuncia no grito irreprimível de suas vítimas, faz do pensamento fundamental da filosofia, o do conhecimento uno e universal do Todo, uma mentira antes mesmo de ser pensado.
    • O segredo de dois milênios e meio de filosofia, divulgado por Schopenhauer em seu túmulo, é que a morte foi seu condutor das musas (musagète); esse segredo, porém, perde seu poder sobre nós. Não se quer uma filosofia que caminhe a reboque da morte e disfarce seu reinado duradouro com os acordes universais e unos de sua dança, nem ilusão alguma. Se a morte é “algo”, nenhuma filosofia pode mais desviar o olhar dela alegando que nada pressupõe.
  • Com esse pressuposto “único” de nada pressupor, a filosofia já era ela mesma plena de pressupostos, e até inteiramente pressuposta. O pensamento não cessou de despencar pela mesma pergunta, o que é o mundo, à qual se penduraram outras realidades problemáticas, buscando-se sempre a resposta no pensamento; o grandioso pressuposto do Todo pensável lança sua sombra sobre todas as demais possibilidades de questionamento.
    • Materialismo e idealismo, ambos tão velhos quanto a filosofia, participam igualmente desse pressuposto. Tudo o que diante dele reclamava autonomia foi silenciado ou ouvido sem atenção, como a voz que pretendia possuir, por uma Revelação, a fonte do saber divino para além do pensamento.
    • A tarefa secular da filosofia consiste nesse debate entre saber e fé, e atinge seu alvo no instante em que o saber do Todo se conclui em si mesmo, isto é, quando não abrange apenas seu objeto, mas também a si próprio sem resto, segundo suas pretensões e modalidades. Isso ocorreu quando Hegel incluiu a história da filosofia no sistema, apresentando o pensamento como parte, e parte conclusiva, do edifício sistemático. Nesse momento, em que a filosofia esgota suas possibilidades formais e alcança o limite de sua natureza, parece também resolvida a grande questão da relação entre saber e fé.

Hegel

  • Mais de uma vez pareceu concluída a paz entre as duas potências inimigas, seja por separação pura e simples das pretensões, seja por a filosofia julgar possuir as chaves dos mistérios da Revelação. Em ambos os casos a Revelação era tida por verdade, inacessível à filosofia num caso, confirmada por ela no outro, mas nenhuma das soluções bastou por muito tempo: contra a primeira voltou-se o orgulho filosófico, que não suportava uma porta fechada; contra a segunda insurgiu-se a fé, que não podia contentar-se em ser reconhecida de passagem como uma verdade entre outras.
    • A filosofia de Hegel prometia algo diferente: nem separação nem acordo simples, mas a mais íntima conexão. O mundo cognoscível torna-se cognoscível pela mesma lei do pensamento que retorna ao cume do sistema como lei suprema do ser, e essa lei única do pensamento e do ser é anunciada primeiro, para a história universal, na Revelação, de modo que a filosofia é, em certa medida, o cumprimento do que a Revelação prometeu.
    • A filosofia cumpre isso a cada instante, a cada respiração, confirmando necessariamente a verdade do que a Revelação proferiu, de sorte que a velha querela parece encerrada e céu e terra reconciliados.

Kierkegaard

  • Isso era só aparência, tanto na solução dada à questão da fé quanto no autocumprimento do saber, embora fosse aparência fortíssima: se o pressuposto inicial vale e todo saber concerne ao Todo, sendo compreendido nele e todo-poderoso nele, então a aparência era mais que aparência, era verdade. Quem quisesse objetar precisava sentir sob os pés um ponto de Arquimedes fora do Todo cognoscível.
    • Desse ponto contestou Kierkegaard, e não só ele, a integração hegeliana da Revelação no Todo. Tal ponto é a consciência própria de Sören Kierkegaard, ou a designada por qualquer outro nome, do pecado pessoal e da Redenção pessoal, consciência que não aspirava nem dava acesso à dissolução no cosmos.
    • Ainda que tudo nela se pudesse traduzir no universal, restava o fato de ter nome e prenome, a coisa mais pessoal no sentido mais estrito, da qual tudo dependia, como afirmavam os portadores dessas experiências.

Filosofia nova

  • Uma afirmação opunha-se a outra: a filosofia foi acusada de uma insuficiência que não podia admitir nem reconhecer, pois em sua figura acabada com Hegel havia fechado o olhar a qualquer além. A objeção contestava seu direito sobre um domínio cuja existência ela só podia negar, sem atacar seu domínio próprio. Isso devia ocorrer por outra via, e ocorreu na época filosófica inaugurada por Schopenhauer e continuada por Nietzsche, cujo fim ainda não se vê.

Schopenhauer

  • Schopenhauer foi o primeiro grande pensador a perguntar não pela essência, mas pelo valor do mundo, pergunta pouquíssimo científica quando entendida como valor para o homem, e talvez para o homem Arthur Schopenhauer, e não como valor objetivo, sentido ou finalidade. Conscientemente só se indagou o valor para o homem, e mesmo a essa pergunta arrancaram-se as presas venenosas, pois ela acabou por encontrar solução num sistema do mundo, que significa que as coisas valem já independente e universalmente; assim, a questão do homem anterior ao sistema achou resposta no santo, produzido pelo sistema em sua fase terminal.
    • Era inaudito que um tipo de homem, e não um conceito, fechasse a abóbada do sistema como sua pedra angular, e não como ornamento ético ou apêndice. A influência prodigiosa desse pensamento só se explica porque se sentia haver ali um homem no começo do sistema, que não filosofava como mandatário da história da filosofia e herdeiro do estado de seus problemas, mas se propunha refletir sobre a vida por ser ela coisa penosa.
    • Essa palavra altiva do jovem que conversa com Goethe, dizendo “vida” e não “mundo”, completa-se na carta em que ofereceu a obra ao editor, onde define a filosofia como a ideia com que um espírito individual reage à impressão que o mundo lhe causou. O homem Arthur Schopenhauer ocupava assim o lugar que a concepção dominante reservava ao problema: o homem, a vida, tornaram-se o problema, e daí a necessidade de questionar o valor do mundo para o homem, questão pouco científica, porém muito mais humana.
    • Todo interesse filosófico girara em torno do Todo cognoscível, e o homem só era objeto da filosofia em relação a ele; agora diante do mundo cognoscível erguia-se outra realidade independente, o homem vivo, e diante do Todo erguia-se o Uno que zomba de toda totalidade e universalidade, o “Único e sua propriedade”. Não foi no livro com esse título, que era apenas um livro, mas pela tragédia da vida de Nietzsche que a novidade se incrustou no leito da evolução do espírito consciente.

Nietzsche

  • Só ali havia novidade: desde sempre os poetas falaram da vida e da própria alma, e os santos viveram a sua vida e a de sua alma, mas não os filósofos. Surgiu então um homem que conhecia sua vida e sua alma como poeta, obedecia à sua voz como santo, e era, no entanto, filósofo. Pouco importa hoje o que ele filosofou, pois o dionisíaco, o super-homem, a besta loura e o eterno retorno se esvaeceram; mas ele mesmo, que se metamorfoseou nas metamorfoses de suas figuras de pensamento e escalou até o cume abrupto da loucura, é a figura que nenhum filósofo pode doravante evitar.
    • O quadro terrível e exigente da alma tornada vassala do espírito já não pode ser apagado. Nos grandes pensadores do passado, a alma fora ama e educadora do espírito, mas o rebento adulto seguira seu caminho, alegrando-se com a liberdade e a perspectiva ilimitada, recordando com horror os quatro muros estreitos onde crescera; a filosofia era para o filósofo a altura fresca que o subtraía às fumaças da planície.
    • Para Nietzsche não houve essa separação entre altura e planície em seu próprio Si-mesmo (Soi): percorreu todo o caminho, alma e espírito, homem e pensador, uno até o fim.
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