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2 Ichthys
ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. The fruit of our lips: acronym of our century. Pittsburgh: Pickwick Press, 1978.
- Desde que Albert Schweitzer revelou o círculo vicioso em que a pesquisa sobre a vida de Jesus se movera durante aproximadamente um século e meio, tornou-se incontornável o abismo entre, de um lado, a biografia natural e científica de Jesus e, de outro, a cristologia eclesiástica e dogmática; sustentado pela fé, Schweitzer desarmou ambas as tendências primeiro por sua obra e depois por sua partida para o Congo como médico, enquanto a teologia liberal teve de abandonar a esperança de abarcar e compreender tanto o rabino Jesus de Nazaré quanto o Cristo.
- O Filho do Homem e filho de Maria corre, no extremo oposto, o risco de reduzir-se a uma construção docética na qual acontece algo divino sem que nada propriamente humano possa ser apreendido ou compreendido, pois a maioria dos fiéis ortodoxos continua vendo no nascimento virginal, na ressurreição e na efusão do Espírito milagres absolutamente incompreensíveis, enquanto o público “culto” encontra em Jesus um ser humano excessivamente compreensível, fazendo com que, nos dois casos, deixe de ser despertada a mais elevada potência espiritual, que somente se inflama diante de mistérios revelados ou de enigmas a resolver.
- Nem ortodoxos nem liberais experimentam atualmente esse despertar supremo do espírito diante da vida e da morte de Jesus, razão pela qual Schweitzer se calou e partiu para a África para curar doenças; a investigação racional parece ter cedido lugar ao seguimento silencioso de seus passos, enquanto fé e conhecimento permanecem como métodos paralelos e inconciliados no interior de cada teólogo, produzindo um abismo interno entre a dependência institucional de uma Igreja dogmática e o pensamento oriundo de uma pesquisa histórica sem pressupostos.
- A contradição entre fé e conhecimento produz uma tensão capaz de ameaçar a própria vida espiritual, tornando compreensível a tentativa de contorná-la realizada por Karl Barth em sua Carta aos Romanos e continuada pelos barthianos.
- O biblicismo concreto de Barth procura neutralizar simultaneamente a crença eclesiástica e a crítica bíblica acadêmica deslocando a questão para outro plano inteiramente distinto.
- Como servidor da Igreja, ele não se deixa perturbar pelas questões referentes à Igreja de Cristo e, como erudito, tampouco se submete às exigências da pesquisa secular, concentrando toda a revelação no instante histórico da crucificação.
- A história anterior de Jesus, isto é, sua vida, e a história posterior de Cristo, isto é, a história da Igreja, são deixadas de lado como destroços, enquanto a relação com Cristo é concebida como interpelação vertical vinda do céu, sem pré-história natural nem história efetiva da salvação.
- Esse equilíbrio precário entre ortodoxia e liberalismo, pesquisa histórica e teologia eclesiástica, constitui uma reação compreensível à tensão insustentável produzida por esses polos opostos.
- A tentativa de encontrar uma saída para essa tensão não pretende rivalizar com a força da pregação barthiana da crucificação, mas nasce da mesma situação e procura abrir discretamente uma porta já entreaberta para escapar da oposição habitual entre pares conceituais como “espírito e natureza” ou “conhecimento e fé”.
- A fórmula tripartida não constitui jogo numérico nem escolha arbitrária, mas procura inicialmente libertar o pensamento da tendência de reunir dois conceitos mediante um “e” para depois separá-los por um “ou”.
- Essa estrutura antitética domina a literatura destinada ao público culto e alimenta o pensamento filosófico, no qual a constante contraposição conceitual faz com que praticamente toda consideração produza um par de opostos.
- A teologia, por ter navegado durante muito tempo na esteira da filosofia, incorporou repetidamente essa mesma atitude divisória.
- Pares como “Jesus e Cristo”, “vida e ensinamento de Jesus” ou “lei e amor” não constituem apenas expressões verbais, pois toda uma tradição de pesquisa acadêmica se organiza dialeticamente por meio deles, enquanto a doutrina da cruz e da paixão do Senhor e a narrativa do nascimento e da vida de Jesus de Nazaré acabam separadas em escolas, formas de pensamento e facções distintas da fé e da existência.
- Existe, contudo, uma modalidade de pensamento capaz de apreender a realidade sem sucumbir à divisão própria da dialética conceitual, pois, em vez de recobrir a realidade com uma construção abstrata, procura primeiramente descobri-la; essa descoberta constitui o esforço racional supremo do espírito, embora tenha sido tão negligenciada que seu método precise ser esclarecido mediante um exemplo aparentemente distante.
- Enquanto o combate judicial constituía a atividade espiritual mais elevada da vida tribal germânica, até mesmo a linguagem jurídica permanecia um ato de descoberta continuamente recriado, devendo ser aberta e desveladora, e não silogística.
- As antigas fórmulas jurídicas frequentemente reuniam três perspectivas ou aproximações numa única expressão, como na entrega do criminoso às aves do céu, aos animais da floresta e aos peixes das águas.
- A fórmula do executor que entrega os cabelos à fumaça, o corpo ao fogo e a alma a Deus evidencia particularmente a diferença fundamental entre essa forma de falar e o pensamento conceitual moderno.
- O pensamento moderno tenderia a reconstruir essa antiga fórmula mediante alguma oposição conceitual, separando poeticamente cabelo e corpo ou contrapondo em prosa corpo e alma; a fórmula antiga, porém, não decompõe dialeticamente a morte pelo fogo, mas recria dramaticamente o processo em que a fumaça alcança os cabelos, o fogo consome o corpo e a alma retorna a Deus.
- O acontecimento desenvolve-se como uma sucessão cinematográfica de cenas, e são essas cenas que constituem o próprio processo.
- Não existe previamente um conceito geral de morte pelo fogo que depois se subdividiria em partes, assim como um drama não pode ser compreendido apenas por seu título nem seus atos constituem simples frações lógicas de uma totalidade.
- Cada ato precisa ser criado e possuir vida própria.
- Do mesmo modo, uma fórmula tripla não pretende mutilar uma unidade já existente, mas produzir uma unidade paradoxal, como ocorre quando uma maldição de sangue precisa ser “levantada, afastada e eliminada”, quando são fixados “dia, tempo e hora” ou quando a antiga linguagem jurídica fala de costume ancestral, lei e glória da terra em vez de decompor abstratamente o conceito moderno de fontes do direito.
- Esse processo poderia ser chamado de associativo, desde que se reconheça que cada associação singular aponta para a totalidade que ajuda simultaneamente a criar, fazendo com que o todo surja dramaticamente dos próprios movimentos.
- A diferença decisiva não está no número dois, três ou quatro, mas no fato de que os opostos lógicos são fragmentos de um todo, enquanto os movimentos e cenas da fala criadora são unidades completas em si mesmas.
- Cada movimento possui sua própria tonalidade e, mediante uma espécie de polifonia, revela a lei que governa o conjunto dos movimentos, cenas ou palavras.
- Todo pensamento conceitual propriamente dito é pensamento posterior acerca de um mundo que já existe.
- Um escritor moderno que tivesse de entregar o corpo ao carrasco e a alma a Deus retiraria os conceitos de “corpo” e “alma” de um arquivo conceitual previamente organizado, posicionando-se exteriormente ao mundo cultural para rearranjar seus elementos como objetos, enquanto o falante criador constitui a boca de um mundo ainda inacabado que somente nele se transforma em mundo, sendo tomado pelas próprias forças que procura reconciliar e nomear.
- Todo pensamento descobridor procede como a linguagem jurídica pré-conceitual, por meio da qual um mundo espiritual é efetivamente descoberto; o recurso à formação de precedentes jurídicos serve precisamente para impedir que essa forma de pensamento seja descartada como meramente poética, pois não se trata de luxo artístico, mas da descoberta espiritual do mundo, o que explica por que a vida criadora do povo cristão precisou recorrer à mesma forma expressiva.
- A descoberta de um novo mundo divino da alma não pode ser compreendida pela divisão conceitual das palavras, mas somente pela disposição, à maneira de atos, de diferentes perspectivas; por isso, a fórmula trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo guarda desde o limiar da Igreja sua vida criadora contra a entrada das formas filosóficas de pensamento.
- As três pessoas da divindade resistem a qualquer tentativa de compreendê-las como frações de Deus.
- A razão tende continuamente a esse empobrecimento ao transformar os três sopros do credo em determinações subordinadas do conceito geral de “Deus”.
- A rejeição da Trindade nasce precisamente da incapacidade de participar dos processos criadores do espírito.
- O segredo linguístico das três pessoas numa só unidade é análogo ao da antiga linguagem jurídica germânica, pois em ambos os casos um mundo é descoberto em vez de simplesmente conceitualizado, devendo cada pessoa divina ser revelada com toda a criatividade do espírito da alma, assim como cada ato jurídico da vida comunitária precisava ser aberto e desenvolvido em imagens sem que a comunidade deixasse, em cada momento, de experimentar-se como uma totalidade indivisa.
- A Igreja reconhece igualmente que Deus se torna real em cada sopro e em cada ato de fé, de modo que tanto as breves sessões de um tribunal local quanto o juízo universal do Deus trino se constituem por atos inteiramente vivos, completos em si mesmos e não fragmentários.
- A fórmula trinitária pode ser compreendida como triunfo da gramática do tempo e da criação pela palavra sobre a lógica do pensamento puramente conceitual.
- Essa compreensão não pode permanecer como simples conclusão filosófica, mas precisa ser aplicada imediatamente às questões particulares da teologia e transmitida por cada crente.
- A antiga fórmula “Ichthys” — Jesus, Messias, Filho de Deus, Redentor — é por isso acompanhada pela tríade “vida, ensinamento e ação”, pois a relação com Jesus Cristo é profundamente prejudicada quando construída dialeticamente mediante dualismos como “Jesus e Cristo”, “vida e morte” ou “ministério público e cruz”, tornando-se necessário experimentar uma fórmula trinitária capaz de descobrir o movimento vivo de Deus em vez de reduzi-lo a contradições.
- O dualismo estéril entre “Jesus” e “Cristo” manifesta-se de maneira particularmente grave quando aplicado ao ensinamento do Salvador, pois nenhuma das tendências religiosas consegue determinar satisfatoriamente se esse ensinamento pertence à vida de Jesus ou à paixão e transfiguração de Cristo.
- O Sermão da Montanha pode aparecer como ápice da vida espiritual natural do filho do carpinteiro de Nazaré.
- Os discursos de despedida aos discípulos podem, em sentido inverso, aparecer como revelação do Cristo exaltado, o Kyrios.
- A divisão atravessa, assim, justamente o núcleo mais decisivo, constituído pelas próprias expressões espirituais de Jesus.
- A tentativa de separar aquilo que Jesus teria dito aos discípulos daquilo que teria dito ao “povo” tampouco resolve a questão, pois por vezes ele encontrou verdadeiro discipulado entre o povo, enquanto seus próprios discípulos frequentemente não se mostraram mais receptivos nem espiritualmente maduros.
- O mistério de suas palavras não pode ser deduzido simplesmente da identidade de seus ouvintes.
- A oposição entre vida e ensinamento nasce de uma utilização insuficiente da própria noção de “vida”, que pode ser contraposta ao ensinamento apenas quando não se considera sua transformação em espírito.
- A afirmação de Goethe de que a vida é amor e a vida do amor é espírito aponta para outra relação entre existência e expressão espiritual.
- Trata-se de formas de vida e de suas metamorfoses temporais, e não de contradições, pois em “Ichthys” vida e ensinamento se revelam como transformações de um mesmo enigma.
- O cristianismo pressupõe uma virada decisiva em cada vida humana, ou introduz nela essa virada, destruindo a generalização abstrata chamada “vida” e recusando a ideia de que os dias sejam simples frações de uma totalidade uniforme que avança do berço ao túmulo; a existência cristã desenvolve-se em atos criadores descontínuos, pois antes e depois do renascimento vivem-se mundos diferentes, e a alma progride por saltos e transformações.
- Embora a importância central do renascimento seja amplamente reconhecida, sua ruptura é frequentemente reduzida a um instante, quando a conversão pode desenvolver-se durante cinco ou dez anos, e tampouco se atribui suficiente peso à divisão da vida em atos que ela produz.
- A conversão pressupõe três etapas distintas: o tempo anterior à virada, o tempo da própria virada e o tempo fundado na transformação já realizada.
- Cada uma dessas etapas possui nível e leis internas próprios, ainda que possam entrelaçar-se.
- Vestígios do velho Adão permanecem no novo, movimentos da futura confissão podem já agitar a vida natural, e durante a própria crise podem aparecer antecipações da vida nova.
- Justamente porque esses planos podem cruzar-se e sobrepor-se sem jamais se misturar verdadeiramente, torna-se necessário reconhecê-los como pertencentes a diferentes potências divinas da alma.
- Entre a vida de Jesus e a potência de Cristo permanece uma região frequentemente deixada desocupada ou tratada como terra de ninguém: a realidade espiritual pronunciada por essa boca, isto é, o tesouro de suas percepções, sua visão espiritual e tudo aquilo que se conhece de sua vida interior porque foi comunicado aos outros sob a forma de ensinamento, pregação, reflexão e visão.
- A questão decisiva não consiste simplesmente em atribuir o ensinamento a Jesus ou a Cristo, mas em compreender sua relação retrospectiva com a vida de Jesus e sua relação prospectiva com as ações de Cristo, pois a linguagem pode libertar-se de suas mutilações quando se percebe que aquilo que Jesus ensinou não coincide simplesmente com aquilo que precisa ser aprendido diariamente das ações de Cristo.
- Mesmo depois de começar a ensinar publicamente, Jesus continuou vivendo interiormente, distinguindo-se por isso do professor comum, que primeiro aprende ou descobre algo e, quando passa a possuir ouvintes subordinados, transforma aquilo que aprendeu em conteúdo fixo de ensino.
- O professor profissional pesquisa, descobre e sobe ao púlpito, mas pode acabar imobilizado no papel daquele que ensina sem continuar vivendo.
- O ensinamento passa então a dominá-lo, transformando sua vida anterior numa espécie de teto sob o qual permanece.
- A geração mais velha precisa ensinar aos jovens aquilo que experimentou para que eles possam crescer depois dela, e essa lei natural não pode ser abolida simplesmente por medo da petrificação.
- Jesus não abole essa lei, mas a cumpre sem jamais interromper seu próprio desenvolvimento, continuando a viver até o último instante mesmo depois de começar o ensinamento público.
- Depois da visão e do ensinamento surge ainda outra etapa, e o homem perfeito precisa atravessar todas elas.
- Essa progressão contínua confundia seus ouvintes, porque Jesus estava sempre um passo além daquilo que conseguiam perceber: quando ainda parecia o filho do carpinteiro, já era mestre; quando era considerado rabino, já era profeta; quando era tomado por profeta, já era Messias; quando finalmente era recebido como rei dos judeus, já era servo de Deus; e quando era reconhecido como servo de Deus, já se tornara o Filho de Deus crucificado.
- Jesus conserva até o fim essa antecipação em relação àqueles que convivem com ele, pois nunca permanece numa etapa tempo suficiente para que os demais consigam alcançá-lo.
- Os Evangelhos Sinóticos conservam precisamente essa tentativa de acompanhar um movimento que lhes escapa continuamente, sem conseguir interpretar plenamente os estágios anteriores a partir do último.
- Os discípulos físicos também ficaram para trás, e a primeira geração foi consumida pela tarefa de reconciliar fases aparentemente contraditórias que se sucederam com tamanha rapidez que o mundo conseguia perceber e recordar apenas uma de cada vez.
- Somente depois desse trabalho João Evangelista pôde fixar uma imagem purificada dessas incompreensões.
- Enquanto alguém permanece exclusivamente na condição de aprendiz, ainda não participa plenamente da vida que procura compreender; João distingue-se por ser simultaneamente discípulo e mais do que discípulo daquele que o ensinou, podendo por isso perceber como unidade o espírito de seu mestre e o sofrimento daquele que amava, enquanto se reconhece que as ações públicas de Jesus vêm depois de seu ensinamento.
- A relação do ensinamento com a vida anterior de Jesus conduz à constatação de que quase nada se conhece dessa vida, e narrativas imaginativas sobre sua infância ou peregrinações apenas evidenciam a consciência dessa ignorância; sua existência natural chegou até a posteridade principalmente por meio do nascimento e da fuga de seus pais para o Egito, de modo que suas experiências e seu desenvolvimento natural somente podem ser conhecidos enquanto refletidos em seu ensinamento e em sua visão.
- Mesmo o professor medíocre incorpora ao ensinamento aquilo que descobriu e viveu, pois o espírito vem depois da vida e procede dela; da mesma maneira, o ensinamento de Jesus deve ter amadurecido a partir de experiências de sua existência anterior.
- Essa vida interior e sua formação desenvolveram-se “além” de todo o mundo exterior e somente permanecem acessíveis sob a forma do fruto amadurecido de seu ensinamento.
- O Reino dos Céus existente em seu coração somente pode ser conhecido por meio de seu próprio testemunho, não havendo estágios anteriores que permitam acompanhar como essa realidade se constituiu.
- Esse “além” irrecuperável favorece tanto os arroubos dos crentes imaturos quanto as construções imaginárias dos metafísicos.
- A partir do início de seu ministério, Jesus passa a ser conhecido sobretudo mediante sua influência sobre os outros, pela eficácia dessa influência e pela maneira como se comprova diante do mundo exterior.
- Quando se torna visível, aquilo que se conhece de sua vida passa a integrar sua cruz, e o Cristo nele começa a manifestar-se e desenvolver-se em todas as suas aparições públicas.
- O rabino Jesus ensina a passagem da existência criatural para a vida espiritual, enquanto Jesus Cristo percorre o movimento inverso, retornando da vida do espírito para a vida real.
- Em lugar de uma “vida de Jesus”, que permanece desconhecida, conhecem-se suas ações como Cristo, sua existência como Filho escolhido e sua realização mediante o ofício messiânico.
- Da existência anterior de Jesus resta essencialmente seu ensinamento, no qual toda sua vida vegetativa e natural aparece transmutada como fruto de uma palavra amadurecida, enquanto o portador do ofício recua por trás da função que exerce.
- Seu ensinamento sobre a Lei e os Profetas, o Pai e o Reino dos Céus constitui o fruto purificado de lutas interiores, iluminação, instrução e experiências cujos resultados já estavam fixados no batismo no Jordão.
- Assim como botão e flor desaparecem no fruto embora estejam condensados nele, o ensinamento pressupõe semente e florescimento anteriores.
- Jesus não abole a lei natural segundo a qual a vida amadurece em percepção e sabedoria, mas a cumpre, ensinando efetivamente aquilo que experimentou.
- O caráter passado dessa experiência deve ser levado a sério, pois a experiência precede a palavra: a linguagem humana surge somente depois que algo nos afetou, o ensinamento somente pode referir-se ao que já ficou para trás e o pensamento humano é sempre pensamento posterior acerca do que aconteceu; Jesus ensina aquilo que experimentou enquanto Jesus, interiormente voltado para si e ainda em formação, e, nessa condição de mestre, exerce o ofício profético como mestre de Israel e último profeta.
- Enquanto ensina, porém, Jesus já vive segundo outra figura, como personalidade investida de um ofício e de autoridade para vincular ou desligar os outros, incorporando decididamente sua vocação; embora pareça exercer a profissão de mestre por ensinar, o ensinamento constitui apenas a condição prévia de ações que não pertencem ao ofício de um rabino, pois ele cria um ofício até então inexistente na economia da humanidade e lhe confere forma e dignidade.
- Os Evangelhos apresentam precisamente dessa maneira suas ações públicas, pois o caráter específico de sua função não se revela apenas pelo conteúdo de suas palavras, mas pelo momento, pelo lugar e pelas pessoas às quais são dirigidas.
- Cada detalhe participa do processo de revelação de sua função.
- Já não se está diante da vida privada de um indivíduo nem da vida intelectual de um pensador, mas diante de uma existência que se tornou ação rígida, irreversível e publicamente visível, uma verdadeira práxis.
- A realização deixa de ser questão interior e passa a exigir renúncia e cooperação do mundo, tornando-se existência política submetida às leis da política.
- A grandeza dessa transformação pública reside precisamente nos fatos objetivos do mundo: João o batiza, os discípulos reagem, Lázaro desperta dos mortos, Judas o trai, os romanos o crucificam e José de Arimateia o sepulta; tais acontecimentos pertencem não ao biógrafo de uma alma ou ao sistematizador de um pensamento, mas ao historiador da criatividade e das ações mediante as quais essa existência se efetiva.
- A condição de Filho de Deus somente adquire credibilidade porque o mundo exterior se articula com sua vida, fazendo com que os acontecimentos concretos realizem a imagem que Jesus trazia de si mesmo e do mundo.
- As potências mundanas que colaboram em seu caminho confirmam sua missão à medida que são atraídas para sua órbita, até que o próprio mundo o conduza à cruz.
- Ensinamentos elevados de sabedoria podem ser encontrados entre todos os povos, mas uma visão interior de Deus torna-se digna de fé quando aquele que a possui demonstra ter direito existencial a pensamentos tão elevados.
- Pensar coisas grandes e luminosas ou conceber ações ousadas cria obrigações e não constitui direito indiferenciado de qualquer pessoa.
- Também não é possível simplesmente executar aquilo que foi pensado, pois “praticar o que se prega”, no sentido habitual, não descreve adequadamente a transformação da existência pela visão espiritual.
- É preciso continuar vivendo diariamente os próprios pensamentos, enquanto a vida permanece original e imprevisível mesmo depois de ter sido moldada pela visão recebida no santuário interior.
- A existência deixa o domínio do mero acaso e é refundida como ação, passando do simples devir para aquilo que se exige do ser humano duradouro formado diante de Deus.
- A verdade recebida na visão precisa ser submetida à prova, e o ensinamento constitui apenas a parcela formulável dessa verdade que transforma a própria vida.
- O lugar próprio do ensinamento de Jesus encontra-se, portanto, entre a vida do Jesus ainda não batizado e as ações do Cristo que professa sua missão: ele ensina aquilo que viveu, mas depois aquilo que ensinou começa efetivamente a acontecer.
- O ensinamento é inicialmente resultado e cumprimento da vida anterior, mas transforma-se depois de efeito em causa, de resultado em ponto de partida e de soma final em valor inicial da nova equação de sua existência.
- O fruto dos acontecimentos da juventude converte-se no fator fundamental da vida adulta, que parte dele ao mesmo tempo que o ultrapassa.
- O ensinamento de Jesus encerra as tábuas da antiga lei, enquanto as ações de Cristo inauguram uma nova ordem.
- O ensinamento de Jesus orienta o cristão na vida, enquanto as ações de Cristo orientam a Igreja no mundo político.
- Embora as diferentes etapas não sejam compartimentos estanques e Jesus também tenha exprimido e interpretado verbalmente sua vida como Cristo, existe uma diferença decisiva entre ensinamento dirigido a aprendizes e revelação dirigida aos apóstolos.
- O ensinamento dirigido ao povo e aos discípulos enquanto aprendizes constitui fruto da vida anterior, tratando de liberdade interior, segredos do coração e céu na expectativa de ser compreendido.
- Aos discípulos enquanto participantes de sua própria vida, porém, Jesus permite acompanhar ações cujo significado eles ainda não compreendem e nas quais até mesmo a traição possui lugar.
- Eles não são necessários apenas como ouvintes, mas como testemunhas da ação e participantes dos mistérios de um homem que morre para o mundo.
- As palavras que acompanham esse processo não constituem propriamente ensino, mas testemunho, confirmação, prova, interpretação e exposição dramática daquilo que experimentam nele e no mundo.
- Somente mediante as palavras dirigidas aos discípulos eles podem participar do experimentum crucis, pois as palavras de Cristo unem os colaboradores ao homem de ação e os membros à cabeça.
- A Palavra já não transmite simplesmente uma doutrina de pessoa a pessoa ou de pregador a comunidade, mas funciona como argamassa e vínculo que cria um campo comum de ação.
- Nesse campo reaparecem leis frequentemente ausentes da chamada “moral cristã”: soberania e serviço, ofício e necessidade, divisão e separação, silêncio e ira, comando e fracasso, preocupação e reflexão.
- Essas dimensões não constituem pecado para o homem de ação quando pertencem à realidade própria de sua missão.
- Depois de deixar para trás sua visão e seu ensinamento, Jesus constrói o campo de ação de Cristo e concentra suas forças em torná-lo indestrutível, não em simplesmente ensiná-lo.
- Somente um discípulo que não tivesse escutado pessoalmente Jesus ensinar poderia desenvolver, ao lado do ensinamento de Jesus, uma doutrina das ações de Cristo e da construção de seu campo de ação.
- Paulo pode ser compreendido justamente como aquele que viveu aquilo que Jesus ensinou e ensinou aquilo que Cristo viveu.
- A influência de Jesus consiste precisamente nesse efeito exercido como Cristo, razão pela qual a oposição moderna a Paulo acompanha frequentemente o entusiasmo pela reconstrução de uma “vida de Jesus”.
- A vida inicial de Jesus permanece inacessível, enquanto seu ensinamento, como término da antiga lei, e suas ações, como início de uma nova ordem na Igreja, dizem diretamente respeito à existência cristã.
- A primeira fase da vida humana, enquanto existência ainda ingênua de um filho do mundo, produz fruto em seu rendimento espiritual como uma espécie de luz interior, e aquilo que verdadeiramente frutifica encontra reconciliação para seus pecados passados; as paixões da carne e do sangue constituem alimento indispensável do conhecimento, de modo que possuir “um passado” não é motivo de vergonha quando esse passado foi efetivamente vivido de todo o coração.
- Numa preocupação intelectual ou espiritual, importa sobretudo sua exigência radical diante dos próprios portadores humanos: a pureza da visão alcançada, a veracidade capaz de negar a si mesma e a força espiritualizadora exercida sobre aqueles que a confessam.
- Nas ações, importa a medida em que suas forças são conscientemente mobilizadas, comprovam seu valor na realidade concreta da carne e do sangue e dominam de modo adequado e conforme a matéria que lhes cabe formar.
- Vida, ensinamento e ação constituem três etapas inseparáveis, pois ação sem espírito e sem experiência do coração permanece vazia, equivalendo à aparência de um fruto surgido sem que antes houvesse semente ou florescimento.
- Há brotos que secam, flores que não se transformam e frutos semelhantes a nozes vazias, e aqueles que não conseguem superar os três poderes infernais dos sentidos, do pensamento e da autoridade coercitiva terminam presos, respectivamente, numa juventude desperdiçada, numa reflexão sem finalidade e numa atividade incessante sem verdadeiro propósito.
- O menino desperta para a juventude para que seus sentimentos sejam atravessados pelo pensamento e se transformem em ideias, e o jovem amadurece para a idade adulta para que seus pensamentos possam converter-se em atos.
- Se a juventude não supera sua prodigalidade gloriosa e se o estudante permanece enredado indefinidamente em sistemas e análises, o adulto que inevitavelmente surge deles enfrentará mal a vida concreta.
- Rompe-se então a sequência fecunda entre menino, jovem e homem, e a atividade adulta torna-se mecânica, desamparada e desprovida de sentido.
- Uma visão de mundo atrofiada e um coração desperdiçado impedem amar justamente onde é preciso agir e realizar aquilo que um dia foi concedido em visão.
- A maturidade meramente exterior carece da autoridade necessária às liberdades e decisões próprias da vida de ação.
- Todo trabalho que não desce das alturas da vida espiritual para a realidade concreta permanece morto.
- O ponto doloroso da existência individual e coletiva encontra-se na perda da progressão natural entre as etapas da vida, e toda revelação procura curar essa ruptura cumprindo, e não abolindo, sua lei.
- Jesus enfrenta os entusiastas excessivos porque nele o excesso do sentimento amadurece em clareza mediante a visão de Deus.
- Enfrenta os fariseus porque abandona a fixação de seu claro ensinamento quando este começa a produzir seus efeitos.
- Vem em favor dos pecadores porque substitui a atividade mundana desprovida de pensamento e sentimento por ações fundadas na visão recebida no santuário interior.
- O “pecador” procura vida na mera atividade, enquanto o homem de ação reconhece nessa agitação uma forma de morte, pois já viveu e viu sua própria vida transfigurada.
- Ao retornar à existência, já não reencontra simplesmente a vida anterior, mas parte dela como quem navega em uma embarcação que não lhe pertence, entrando numa nova vida e também na vida dos outros para ajudá-los a realizá-la.
- Obedece ao seu Deus e à sua vocação, sendo atraído pelo fim que já experimentou uma vez em forma de renúncia.
- A verdadeira vocação consiste em concentrar todas as forças na efetivação desse fim.
- A vida jovem inicialmente irrompe sem conexões e procura seus próprios limites; depois, orientada pela estrela de sua visão e incumbida de prová-la, desce do espaço luminoso do espírito para a vida terrestre e para seu tempo concreto.
- Seja suave ou íngreme, esse caminho conduz sempre para a morte e implica a entrega da própria vida; essa perda progressiva, determinada pela atração exercida pelo objetivo entrevisto na visão e comparável ao “morrer aos poucos”, não pertence à vida simplesmente natural, mas constitui ação como vocação.
- Não é possível viver sobrenaturalmente como deuses, mas é possível viver a partir do sobrenatural, recebendo vida da experiência de visão, iluminação, renascimento e transformação.
- Dessa experiência nasce um chamado, e do chamado decorre uma ação.
- A linguagem teológica torna-se insuficiente quando menciona apenas natureza e sobrenatureza sem reconhecer, como terceiro ato do drama da existência, a ação curada daquele que foi tocado pelo divino.
- O “trabalhar na vocação” não significa simplesmente caminhar humildemente com Deus, mas retornar à humildade já transformado pela experiência do chamado, assumindo não apenas a resposta individual diante de Deus, mas também a responsabilidade por Deus diante dos homens.
- Nesse nível entram em vigor as leis da vida real que a moral cristã frequentemente negligencia, e aí se funda a doutrina da autoridade.
- A humanidade adulta e os campos de ação criados no espírito e no coração recebem autoridade do mandato divino de seus fundadores.
- A autoridade do homem de ação renova-se continuamente a partir da inteireza de sua vida anterior.
- Um ofício somente permanece vivo enquanto seu portador deixa a vida anterior alimentar sua percepção e a percepção alimentar o próprio ofício, fazendo da vocação o recipiente no qual a verdade vivida pode agir e comprovar-se.
- Autoridade significa propriamente autoria, pois nada verdadeiramente importante acontece sem que alguém abra um novo caminho de vida da terra para o sol e dos céus novamente para a terra, tornando possível que outros o percorram depois dele; onde um caminho atrai pessoas para dentro de si e para além de si, surge autoridade como poder elevado de abertura e influência do pioneiro.
- Quase ninguém deixa inteiramente de encontrar algum caminho na vida, e praticamente todos exercem alguma influência modesta em um percurso limitado; quando, porém, o mundo se fragmenta completamente entre entusiastas, fariseus e publicanos, esses caminhos modestos deixam de bastar.
- Uma sociedade reduzida ao sentimento juvenil, à ortodoxia meramente intelectual e à organização política das relações de trabalho arrasta até os caminhos particulares para a fragmentação e a ausência de influência.
- A impotência constitui uma maldição constante do mundo intelectual, que ou não consegue levar o mundo das ações a cooperar ou perde seus ouvintes diante da revolta da juventude.
- O coração deixa de alcançar o espírito para o qual estava destinado, e seca o fluxo que deveria conduzir da criatura de Belém à visão de Deus e dessa visão suprema no deserto às ações no interior da criação.
- Quando esse fluxo se interrompe, a misericórdia divina abre novamente uma trilha para os seres humanos e faz surgir novas autoridades, porque novas pessoas recebem o privilégio de contemplar o caminho do pioneiro; nelas é restaurado o percurso entre morte e nascimento e entre os três estágios situados entre nascimento e morte: vida, ensinamento e ação.
- Em cada uma dessas três etapas vigora uma ordem própria e um conjunto diferente de relações, de modo que aquilo que é permitido a quem apenas vive não coincide com aquilo que convém a quem ensina.
- Existem efetivamente três moralidades e três ordens éticas.
- Os ingênuos que simplesmente vivem obedecem a forças que não escolheram, encontram-se livres da responsabilidade plena e podem errar ou tomar desvios necessários.
- Outros agem por eles, como Maria e José que fogem para o Egito em favor do filho, e sua existência obedece ainda a uma lei estrangeira.
- O mestre, ao contrário, oferece exemplo aos demais, razão pela qual a “moral cristã” em sentido estrito se aplica sobretudo a ele: quem pretende conduzir outros consigo precisa empregar meios espirituais, não podendo lançar-se ilimitadamente à conquista nem combater violentamente todos os obstáculos, pois já alcançou seus próprios limites e precisa ensinar com relativa renúncia de si; a visão somente frutifica naquele que esquece a si mesmo, e o mestre permanece livre quanto aos fins do conhecimento, mas não quanto aos meios empregados.
- O homem de ação encontra-se sob outra lei, pois sua tarefa consiste em completar e realizar aquilo que empreendeu, resistindo à sedução de objetivos sempre novos e perseverando no lugar que lhe foi atribuído.
- Ao contrário da prodigalidade característica da juventude, o adulto preserva e administra cuidadosamente seus recursos por conhecer o lugar adequado de cada um.
- Cabe a ele determinar o emprego desses recursos segundo as exigências da realização concreta de sua missão.
- Em lugar de uma única “moral cristã” abstrata, manifestam-se três leis humanas que precisam ser honradas enquanto se vive.
- Onde há amor, há prodigalidade e entrega.
- Onde há esperança, não se age simplesmente como quem semeia no cumprimento fiel de uma obrigação, mas cultiva-se o próprio campo de ação como um jardineiro que emprega toda a arte de seu ofício.
- As três ordens coexistem simultaneamente, embora cada uma se revele sucessivamente e somente ao longo de toda uma vida se manifeste por completo.
- Os mandamentos do amor diferem dos mandamentos da fé, e a esperança do jardineiro difere da esperança daquele que apenas semeia fielmente.
- A ordem da ação corresponde à esfera adulta da vida pública e ao domínio da lei, distinguindo-se tanto do ensinamento transmitido oralmente no domínio do pensamento quanto da comunidade amorosa juvenilmente unida e organizada sem coerção.
- O tempo possui significados distintos para o homem natural, para o visionário e para o homem de ação, exigindo três formas diferentes de contagem.
- A vida natural mede-se por anos individuais, épocas e períodos de crescimento, pois se desenvolve de fora para dentro sob influência das estações e do ambiente.
- A visão ignora o tempo exterior, já que uma percepção pode exigir oitenta anos ou ocorrer num segundo, e quem está mergulhado no pensamento perde a referência das medidas externas.
- O homem de ação mede o tempo segundo aquilo que precisa ser realizado em determinada jornada, tornando secundária a duração cronológica absoluta.
- Por isso, períodos de extensão muito diferente podem ter o mesmo significado como etapas de ação: a morte de Jesus na cruz e décadas da vida produtiva de Goethe podem representar, em graus diferentes de perfeição, o retorno de um visionário à terra.
- A distinção entre os três modos de existência fornece uma chave para compreender a diferença entre a moralidade política do estadista e a do cidadão privado sem atribuir ao Estado e ao indivíduo códigos morais absolutamente diferentes.
- O que precisa ser distinguido são o criador, o visionário e o filho da natureza existentes em cada pessoa.
- A oposição abstrata entre Estado e indivíduo transforma o primeiro num Leviatã absoluto e o segundo numa alma cristã impotente, desligando o aparato estatal dos mandamentos divinos.
- Quando o lugar central é concedido ao estadista como portador de criação espiritual, ele aparece como homem incumbido de realizar aquilo que recebeu e de corporificar sua vocação.
- Razão de Estado e interesse particular tornam-se então subordinados à missão maior e somente podem atuar na medida em que a promovem.
- A absolutização do Estado destrói o próprio ofício político ao considerar sagradas todas as ações estatais, enquanto cálculo dos fins, vida e sentido espiritual dos povos precisam permanecer reciprocamente equilibrados.
- A trindade divina da humanidade somente se realiza quando essas três ordens se estimulam e desafiam mutuamente, evitando tanto a imposição ditatorial da Realpolitik maquiavélica quanto a redução da vida à moralidade burguesa do fanatismo ético.
- O milagre pleno da trindade precisou adquirir personalidade numa única existência para superar a divisão do ser humano entre um gigante demoníaco representado pelo Estado e um anão divino representado pelo indivíduo privado.
- A oposição entre interesse governamental e moral privada ou entre teoria ética e prática real torna-se insolúvel enquanto se permanece no esquema dualista.
- A criação divina permanece viva porque se move em três ordens que se determinam mutuamente.
- O mesmo ordenador precisou preceder a humanidade em cada uma dessas ordens, pois todas foram percorridas por Deus e o caminho humano somente pode seguir os rastros luminosos deixados por ele nas três.
- Somente porque Deus deixou seus traços em todas as ordens torna-se possível libertar-se do abraço absoluto de cada hora isolada e saltar de uma ordem para outra quando a nova situação o exige; somente permanecem verdadeiramente vivas as almas abertas ao chamado para passar de uma das três formas pessoais a outra segundo a vontade divina, e nessa disponibilidade encontra-se a perfeita obediência revelada pelo primogênito.
- Diante dessa cruz, o ser humano efetivamente perde a rigidez do caráter e o orgulho da personalidade entendidos como marcas naturais da idade, mas essa perda não significa colapso da existência.
- Aquilo que Deus diz adquire forma visível diante dos homens, pois as palavras divinas não consistem apenas nas palavras pronunciadas por seus filhos, mas também nos caminhos concretos que eles percorrem; o homem de ação torna-se ele próprio a palavra que o criador pretende inscrever no Livro da Vida e recebe o nome pelo qual a humanidade passará a ouvi-lo, invocá-lo, compreendê-lo e também compreendê-lo mal até o Juízo Final.
- A possibilidade de caminhar humildemente depende de que Deus ordene esse caminho não apenas de modo genericamente humano, mas por meio do nome singular, pois aquilo que Deus tem a dizer torna-se audível nos nomes que seus filhos carregam diante da humanidade enquanto sua influência perdura.
- Desde o nascimento, o nome aguarda saber se Deus fará da vida uma existência de nome e vocação.
- O nome é simultaneamente dom recebido ao nascer, distinção concedida quando chega o chamado e obrigação vinculada ao caminho iluminado por esse chamado.
- No nome unem-se vida, visão e ações durante a transformação humana, e a trindade em que se vive torna-se simplicidade mediante o nome que se carrega e pelo qual também se é sustentado.
- A vida de Jesus resiste à razão biográfica, seu ensinamento resiste aos manuais de moral e suas ações entram na história mundial como um corpo estranho.
- A história de Jesus projeta-se neste mundo a partir de outro, pois sua visão nasce de uma aspiração ilimitada e sua vida frutifica integralmente, mas tudo acontece sob o nome de Filho de Deus e adquire por isso uma simplicidade divina.
- Sempre que a vida irrompe novamente diante dos seres humanos, surge a procura pelo selo capaz de conferir unidade à existência e pelo nome que toda vida humana deve carregar.
- Quando se busca medida e critério para a vida, aquele que fora esquecido em meio ao próprio amor pela vida retorna como fundador da fé.
- Em cada forma ele se revela como realizador da fé e retorna mediante seu nome.
- As línguas necessitam de longo tempo para amadurecer até que os acontecimentos enviados pelo céu possam adquirir melodia própria e ser cantados, pois é preciso todo o tempo necessário para que o sopro de Deus se torne alma viva.
- A inscrição de Lutero “Christus vivit” não pode ser verdadeiramente traduzida pela mera transliteração do termo teológico christos como “Cristo”.
- Sua tradução somente se torna possível quando o modo cristão de vida penetra efetivamente a carne e o sangue.
- Desde então, a vida daquele homem conduz outros através das grandes estações de seu percurso, retirando-os de seu lugar imediato na existência, levando-os a um “além” no qual recebem visão e fazendo-os retornar a esta vida para agir eficazmente.
- Somente depois desse percurso torna-se possível exprimir na própria língua o caminho de Jesus de Nazaré para a morte como Salvador: em lugar de simplesmente repetir “Christus vivit”, pode-se reconhecer que Jesus continua agindo nos seres humanos, enquanto os três sopros do criador, revelador e redentor divinos se refletem na figura tríplice de Deus em vida, ensinamento e ações, fazendo corresponder à trindade humana as figuras de criatura do Pai, irmão do Filho e colaborador no Reino.
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