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rosa:2019:3.1

3.1 Inscrição e expressão

ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).

Apropriar-se do mundo e experimentar o mundo

1 Inscrição e expressão: o corpo mundano como eu projetado

1. A definição precisa da relação entre pessoa ou eu, sujeito, corpo fenomênico e corpo físico é tão controversa na sociologia quanto na psicologia e na filosofia, e ainda mais nos debates entre elas, de modo que toda tentativa de clareza conceitual definitiva parece gerar novos problemas, embora seja um fato básico, sobretudo desde a elaboração da posicionalidade excêntrica por Helmuth Plessner, que os sujeitos que percebem e agem são corpo e, ao mesmo tempo, podem relacionar-se reflexivamente com ele, percebendo-o como objeto no mundo e, nesse sentido, também tendo um corpo.

2. Para uma sociologia da relação com o mundo voltada à relação mutuamente constitutiva e sócio-historicamente contingente entre sujeito e mundo, o organismo humano é, como corpo fenomênico, parte do sujeito e, como corpo objetivo, parte do mundo, podendo o corpo objetivo ser descrito como meio ou mediador entre o eu reflexivo e o mundo sem aceitar o dualismo cartesiano, já que esse papel mediador é compatível com a convicção de que o corpo fenomênico é parte irrevogável do sujeito, de que só por meio dele existe um mundo para a consciência e de que a própria consciência é corporal.

3. Não há mundo sem corpo fenomênico nem corpo fenomênico sem mundo, e o corpo objetivo é ao mesmo tempo o órgão que torna possível perceber e experimentar o mundo e o meio e instrumento pelo qual o sujeito se expressa e influi ativamente nele, de modo que tanto a experiência passiva do mundo quanto sua apropriação ativa são mediadas pelo corpo.

4. Num modelo heurístico, o corpo objetivo pode ser entendido como uma membrana na qual o mundo se inscreve de fora e deixa seus vestígios, a inscrição, e que ao mesmo tempo exprime a autoimagem subjetiva e reflexiva e os impulsos psíquicos, isto é, a personalidade do sujeito, a expressão, de modo que o mundo se inscreve no sujeito, entendido como unidade de corpo fenomênico e eu reflexivo, assim como o sujeito se expressa no mundo, ambos por meio do corpo objetivo.

5. Esse modelo é incorreto se eu e mundo forem concebidos como independentes, pois o corpo objetivo não está entre eles, mas é a base constitutiva de ambos: como elemento constitutivo do sujeito, possibilita a percepção, a experiência receptiva e a ação intencional sobre o mundo, sendo inimaginável uma relação não corpórea com o mundo, já que mesmo a intencionalidade puramente intelectual é intencionalidade encarnada, e, como elemento constitutivo do mundo, aparece como objeto que se pode observar, examinar, moldar, disciplinar, utilizar e empregar, e no qual se tornam perceptíveis as influências do mundo e os vestígios do envolvimento com ele.

6. A hexis, a disposição física, exprime a relação com o mundo como um todo, de modo que se pode ler no corpo de alguém, em seu olhar, seu andar, seu riso e sua postura, como está situado no mundo, pois, embora essa relação inclua aspectos cognitivos, avaliativos e reflexivos não corpóreos, ela é inevitavelmente encarnada, e o corpo revela-se uma superfície ressonante mesmo quando se quer anunciar a vida interior ao mundo, como no rubor, na palidez, no tremor de medo ou raiva, na sensação de perder o chão e talvez até em distúrbios somáticos como a insônia e a obesidade.

7. Inversamente, o corpo é usado como superfície de design para tornar visível a autoconcepção e a autoimagem reflexivas, por meio das roupas, do penteado, da maquiagem, das joias, do treino e da disciplina que o submetem ao controle deliberado, e de alterações físicas diretas, como a cirurgia plástica, pelas quais ele é literalmente reificado como objeto projetável.

8. A relação corporal com o mundo pode cultivar conexões mudas ou ressonantes em ambas as direções e de dois modos, começando pela relação entre corpo e eu, na qual os impulsos físicos podem servir de fonte de inspiração para a autocompreensão do sujeito, como ao perceber-se cansado ou com tendências homoeróticas, ou ser tratados como perturbações a combater ou suprimir, como o apetite, o peso, a pressão alta ou o rubor que denuncia, e, na outra direção, o corpo pode exprimir espontaneamente a autoimagem em sua forma e seus movimentos, quando a pessoa se sente bem na própria pele e em casa no próprio corpo, ou a autoimagem pode ser materializada pelo controle, disciplina e modelagem reificante do corpo, fronteiras fluidas que, no entanto, não abolem analiticamente a distinção entre expressão e manipulação.

9. A relação entre corpo e mundo pode ser modelada de forma análoga, pois as influências do mundo podem ser percebidas como fonte de inspiração à qual o corpo reage como caixa de ressonância que desenvolve vibrações e frequências próprias, ou de modo causal e mecanicista, como fonte de informação cujos impulsos, como estressores, medicamentos, alimentos ou impressões sensoriais, devem ser processados, e, na outra direção, o corpo pode atuar como participante dos acontecimentos do mundo, respondendo e engajando-se nele, imerso no fluxo dos eventos, ou, numa perspectiva reificante, como recurso, instrumento, arma e capital numa relação instrumental voltada a moldar, controlar, combater ou repelir o mundo.

10. Essas categorias são apenas distinções analíticas, já que empiricamente quase todas as formas de relação corporal com o mundo são híbridas, com aspectos mudos e ressonantes sobrepostos e interativos, cabendo à sociologia da relação com o mundo elaborar as diferenças existenciais, contextuais, institucionais e situacionais em seu peso relativo e as conexões entre suas dimensões, entre as quais a relação entre eu e corpo não precede, mas se subordina à relação entre corpo e mundo, como mostram Mary Douglas e seus seguidores ao demonstrar que a concepção do mundo social condiciona a percepção do próprio corpo, seja na divisão platônica tripartite do corpo e da alma inspirada no sistema de classes de Atenas, seja na percepção moderna dos limites do corpo à semelhança das fronteiras nacionais, ameaçadas por inimigos externos e internos, assim como o corpo por bactérias e vírus, cabendo ao sistema imunológico o papel da polícia e do exército no reforço das defesas.

11. Do ponto de vista do diagnóstico e da crítica das relações de ressonância, é revelador que o corpo raramente seja tematizado ou sequer conscientemente sentido nas relações ressonantes com o mundo, tornando-se objeto, adversário e tema de discussão, geralmente mudo e instrumental ou causal, quando dói, falha ou resiste à vontade, de modo que a obsessão da modernidade tardia pelo corpo pode indicar a perda de relações físicas ressonantes com o mundo, já que uma relação ressonante implica eixos robustos de ressonância em ambos os lados da relação corporal e sua ruptura duradoura deixa sempre marcas psicossomáticas, embora as relações humanas e sobretudo modernas com o mundo se manifestem cada vez mais não de forma imediatamente física, mas mediadas pela linguagem, pelos livros, pela música e pelas telas, que se interpõem entre o corpo e o mundo.

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