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rosa:2019:2.1

2.1 Situação

ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).

Relação corporais ao mundo

1 Estar situado no mundo

1. Toda análise elementar dos modos como os seres humanos se relacionam com o mundo deve começar pelo corpo, pois se está situado no mundo antes de tudo sobre os próprios pés, apoiado num chão cuja capacidade de sustentar o próprio peso constitui um dos pré-requisitos mais fundamentais da segurança ontológica, de modo que o desabamento inesperado do solo seria vivido como perda traumática dessa segurança, e não por acaso a perda de certezas quase ontológicas, como uma doença terminal, a morte de um filho, a mudança de gênero da pessoa amada, o incêndio da casa ou a perda do emprego, é sentida como se o tapete fosse puxado sob os pés, chegando a provocar tontura, o que mostra que os sujeitos se experimentam num mundo em que significados físicos, sociais, emocionais e cognitivos se sobrepõem fundamentalmente.

2. A relação entre pé e mundo não é insignificante, pois faz diferença estar descalço ou calçado: enquanto a terra nua se apresenta aos pés descalços como dura, áspera, fria e hostil ou como macia, úmida e acolhedora, isto é, repulsiva ou responsiva, o calçado resistente nivela e mantém à distância todas essas relações, de modo que o desengajamento moderno entre seres humanos e mundo talvez tenha bases mais sólidas do que reconhecem as análises centradas em visões de mundo, já que os sapatos estabelecem uma distância protetora eficaz entre corpo e mundo que permite passar de uma relação participativa para uma relação objetivadora e reificante.

3. Os pés são um lugar privilegiado da relação com o mundo porque os seres humanos estão sempre sujeitos à gravidade, que lhes confere um sentido inevitável de alto e baixo, assim como a disposição dos órgãos sensoriais e o desenho do corpo os obrigam a distinguir frente e trás, de modo que, como observa a tradição fenomenológica desde Merleau-Ponty, a orientação básica no mundo se caracteriza por um sentido universal de direção fundado nessas distinções, enquanto a distinção entre esquerda e direita parece secundária, derivada da simetria bilateral do corpo.

4. Antes de desenvolver esse sentido de direção e muito antes de ficar de pé, a pele, maior órgão humano, revela-se a interface decisiva de todas as relações corporais com o mundo, pois é por meio das experiências táteis de tocar, agarrar e manusear e de ser tocado e manuseado que se desenvolvem tanto o sentido do mundo como aquilo que resiste quanto o sentido de si e da fronteira entre ambos, como notaram fenomenólogos de Husserl a Merleau-Ponty, Fuchs, Wiesing e Waldenfels, sendo a pele não apenas uma fronteira que separa e protege, mas uma membrana semipermeável que torna sujeito e mundo mutuamente receptivos e permeáveis.

5. A pesquisa sobre bebês mostra que o contato pele a pele com a mãe é essencial ao recém-nascido não tanto por facilitar a diferenciação de um mundo exterior, mas por estabelecer ou restabelecer uma relação responsiva primordial, pois, como mostra Peter Sloterdijk, embrião e mãe formam um sistema de ressonância no qual o útero oferece um espaço ressonante envolvente e protetor em que o embrião ouve e sente o pulso materno e é perfundido por sua corrente sanguínea, de modo que, se a existência humana começa, segundo Merleau-Ponty, com a percepção pré-objetiva de que há algo, essa impressão originária reside na presença do calor, do fluxo e da troca.

6. No princípio, os humanos estão envolvidos por algo que jamais pode aparecer como coisa, sendo inicialmente os invisivelmente ampliados, os correspondentes, os abarcados, e sua existência inclui a presença de um algo pré-objetivo que flutua em torno deles para deixá-los ser e sustentá-los, de modo que não são seres vivos em seu ambiente, como pretendem sistemistas e bioideólogos, mas seres flutuantes com os quais gênios formam espaços.

7. O peculiar desse modo fetal de ser-no-mundo como ser-na-mãe é que a relação de ressonância não se dá entre sujeito e objeto ou entre dois sujeitos, mas constitui uma entidade bipolar inicialmente inseparável, razão pela qual Sloterdijk, apoiado em Thomas Macho, conclui que essa primeira experiência ressonante constitutiva não pode ser compreendida em termos de relações objetais.

8. Na fase de coabitação fetal, a criança incipiente experimenta a presença sensorial de líquidos, corpos macios e limites cavernosos, como o sangue placentário, o líquido amniótico, a placenta, o cordão umbilical e a resistência elástica da parede abdominal, num reino fluido intermediário que antecipa a realidade e cujos elementos Macho chama de não-objetos, por não terem contraparte subjetiva diante de si, de modo que o modo de vida fetal pode ser descrito como uma comunhão fluida no meio do sangue e como iniciação psicoacústica ao mundo sonoro uterino, já que as presenças sonoras, sem substrato tangível a que se possa contrapor, são processos mediais de vibração simpática irrepresentáveis na linguagem das relações objetais.

9. Por especulativas que sejam essas reflexões sobre as origens pré-natais da relação humana com o mundo, elas sugerem de modo plausível que as experiências de ressonância não se limitam a sujeitos já formados que exploram seu ambiente, mas constituem aquilo que mais tarde pode tornar-se sujeito, e o nascimento representa uma primeira ruptura radical dessa ressonância fundamental entre mãe e filho, pois o estado de suspensão termina abruptamente e o recém-nascido fica exposto à gravidade e às superfícies duras e frias de um ambiente não responsivo e inelástico.

10. A partir do nascimento, a pele torna-se uma fronteira tátil constitutiva entre interior e exterior e um novo órgão de ressonância, pois pelo contato pele a pele e pelas carícias da mãe o bebê desenvolve um novo tipo de relação responsiva com o mundo e reconstrói, antes mesmo da descoberta da voz, seu eixo ressonante com a mãe num nível que já sugere a distinção entre dentro e fora, sendo a pele, segundo o psiquiatra e filósofo Thomas Fuchs, o órgão sensorial primário da criança, cuja falta de estimulação tátil e de calor prejudica a diferenciação neural, o crescimento e o comportamento posterior, e, portanto, o primeiro e principal meio pelo qual o mundo é passivamente experimentado e ativamente explorado e pelo qual eu e mundo se constituem e se diferenciam.

11. Segundo a dialética dos limites, o tato estabelece ao mesmo tempo a separação em relação ao mundo e a comunicação originária com ele, sendo a pele uma superfície liminar que divide e conecta, órgão sensorial e órgão de expressão, e a relação entre mãe e filho envolve desde o início uma diferenciação pelo contato, em que as carícias permitem à criança experimentar a própria autonomia enquanto sente a proximidade e o calor maternos, ao passo que a falta de contato físico pode gerar tendências esquizoides duradouras de distanciamento emocional e retraimento social, de modo que o contato físico constitui a primeira linguagem pela qual a criança é interpelada e seu sentido de si é despertado.

12. Embora essas observações pareçam óbvias por concordarem com o conhecimento estabelecido e com a experiência cotidiana com bebês, caiu em quase completo esquecimento cultural o fato de que a pele constitui também para os adultos uma membrana ressonante de dupla face, que medeia e expressa a relação entre o corpo objetivo e o mundo, de um lado, e entre o corpo fenomênico e a pessoa, de outro, pois responde imediatamente ao mundo, contraindo-se no frio, arrepiando-se, avermelhando-se e bronzeando-se ao sol, e também a comoções psíquicas vindas de dentro, como no arrepio, no rubor ou na palidez repentina.

13. As alterações da pele, sobretudo os arrepios, dificilmente podem ser interpretadas senão como expressão visível de uma experiência de ressonância em que o sujeito é tocado por algum acontecimento do mundo, assim como o calafrio na espinha provocado tanto por um estímulo físico quanto por uma música intensa ou uma história comovente, enquanto uma erupção cutânea, causada por uma influência externa nociva ou por um estado subjetivo desequilibrado, exprime uma relação perturbada com o mundo e um dano à função de membrana entre interior e exterior, perturbação simbolizada também pela ablutomania, tentativa compulsiva de defender-se do mundo, e pelas indústrias profissionalizadas do toque, que parecem compensar um mundo social que já não deixa impressão alguma.

14. A pele constitui um órgão de ressonância duplamente sensível, que literalmente respira e responde, mediando a relação entre corpo e mundo e entre pessoa e corpo, o que a linguagem coloquial reconhece ao afirmar que ninguém pode trocar de pele ou que alguém se sente bem na própria pele, expressão que se refere à relação vivida com o mundo e se aplicaria a Anna, não a Hannah, de modo que uma análise das relações patológicas com o mundo poderia começar pela relação com a pele, revelando também nela uma reificação moderna, visível no tratamento da pele como objeto manipulável a ser bronzeado, clareado, perfurado, tatuado ou esticado, e sugerindo que a atenção cultural crescente à pele como objeto de design reduz a capacidade de ressonância, como indicam estudos segundo os quais os alemães orientais, que investem menos na aparência, se sentem mais à vontade na própria pele justamente por esquecê-la.

15. A pele é apenas um dos órgãos humanos de ressonância e a experiência tátil apenas um dos modos corporais de relação com o mundo, ao lado de outros modos importantes de ressonância entre corpo e mundo, ora deliberadamente buscados, ora inevitáveis, que também podem ser perturbados ou prejudicados.

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