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rosa:2019:1.3

1.3 Mundo e sujeito

ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).

3 O que é o mundo? Quem é um sujeito?

1. A sociologia das relações humanas com o mundo enfrenta o problema conceitual, aparentemente insuperável, de definir e distinguir analiticamente sujeito e mundo sem repetir o dualismo cartesiano entre um sujeito dado e coeso e um mundo igualmente dado, já que o problema do sujeito na filosofia social desde o Iluminismo está diretamente ligado ao seu problema do mundo: de um lado, as críticas ao sujeito, desde Nietzsche e o pós-estruturalismo, rejeitam uma consciência anterior a toda relacionalidade, mas as posições que reduzem a subjetividade a artefato da linguagem, dos discursos ou da evolução neural têm dificuldade em explicar a capacidade de ação, a criatividade e a mudança social; de outro, o debate pós-kantiano sobre a realidade do mundo opõe um realismo positivista que o considera independente dos seres humanos a um construtivismo que o vê como produto da subjetividade, e mesmo as tentativas de tomar ambos como realidades últimas esbarram na dificuldade de definir como se relacionam.

2. Essa aporia teórica pode ser superada radicalizando-se a própria ideia de relação, isto é, supondo que sujeito e mundo não se encontram prontos, mas são formados e constituídos em e por sua relação mútua, de modo que a relação consigo mesmo é inseparável da relação com o mundo, os sujeitos se encontram sempre já entrelaçados num mundo com fronteiras fluidas ou fixas conforme o contexto histórico e cultural, que temem ou amam, no qual se sentem lançados ou sustentados, e não apenas suas atitudes perante o mundo, mas também aquilo que constitui ou pode ser conhecido como mundo variam conjuntamente.

3. Charles Taylor, cuja obra analisa a transformação moderna das fronteiras entre sujeito e mundo, mostra em As Fontes do Self que, na interpretação naturalista e racionalista predominante na modernidade, o sujeito se reduziu a um eu pontual, para o qual todas as relações e qualidades são externas e apenas instrumentais, e em Uma Era Secular descreve o eu protegido, obrigado a manter o mundo à distância, sem relações intrínsecas e quase mágicas entre interior e exterior, mas apenas conexões causais, contingentes ou instrumentais, de modo que trovões não reagem ao estado mental nem terremotos punem pecados, embora esse pensamento mágico ainda reapareça quando catástrofes naturais são atribuídas à má conduta humana.

4. Ao eu protegido do século XXI contrapõe-se o eu poroso do século XV, que reconhecia uma correspondência quase mágica entre o mundo interior e o exterior, cujos limites podiam ser literalmente transpostos por espíritos que dele se apossavam ou protegidos por água benta e outras substâncias, e que calculava correspondências entre planetas, pedras preciosas, órgãos e estados emocionais, de modo que esse eu estava imerso numa corrente de vida composta de substâncias materiais e imateriais, físicas e metafísicas, que ligava os membros da comunidade por relações de influência e ressonância quase inimagináveis para o indivíduo atual.

5. O contraste entre o eu hermeticamente fechado contemporâneo e o eu poroso do fim da Idade Média ilustra duas relações com o mundo inteiramente diferentes, que exprimem tipos diversos de eu e de mundo, mas os termos polares sujeito e mundo permanecem inevitáveis do ponto de vista fenomenológico, sendo os sujeitos definidos por duas características invariáveis: são entidades às quais as experiências, sempre constituídas intersubjetivamente, se manifestam, e são o lugar onde se materializam energias psíquicas motivadas e o impulso de agir se torna operante, relacionando-se intencionalmente com seu mundo, de forma cognitiva, avaliativa e existencial, como algo dotado de significado positivo, no desejo, ou negativo, no medo, de modo que as relações com o mundo podem ser entendidas como concreções da intencionalidade.

6. O mundo pode ser concebido como tudo aquilo que é ou pode ser encontrado, o horizonte último dentro do qual algo acontece e objetos se encontram, ou, segundo Hans Blumenberg, uma metáfora para a totalidade da experiência, totalidade que é mais e diferente da soma das partes e que é sempre já dada antes de toda consciência, de modo que os sujeitos se encontram sempre já imersos, envolvidos e relacionados com um mundo como um todo, numa subjetividade mundanizante, como diria Heidegger.

7. Nesse fato fundam-se o conceito fenomenológico de ser-no-mundo, de Heidegger e Merleau-Ponty, e as noções antropológico-filosóficas de abertura ao mundo, de Scheler, e de posicionalidade excêntrica, de Plessner, segundo as quais os seres humanos existem como objetos no mundo e ao mesmo tempo como sujeitos para quem o mundo pode tornar-se questão, sendo essa precedência do mundo antes de tudo corporal, pois, como insiste Merleau-Ponty, é pela gravidade sobre o corpo, pelos sentidos e pela tatilidade da pele que surge um mundo palpável e, com ele, toda consciência, de modo que a ressonância não se desenvolve entre um sujeito autoconsciente e um mundo pronto, mas é o acontecimento pelo qual ambos começam.

8. No início da percepção, como condição de toda relação com o mundo, a abertura do sujeito para algo constitui uma figura de transcendência, pois só é possível distinguir sujeito e objeto porque os seres perceptivos estão sempre já relacionados ou abertos ao mundo, independentemente do ato consciente de se contraporem a ele, numa relação que ainda não é de identificação, mas que a torna possível.

9. Essa abertura é corporalmente prefigurada, pois todo ser vivo processa incessantemente o mundo através de si desde o primeiro respiro e também o incorpora e o elimina pela ingestão e excreção de alimentos, como sugere Merleau-Ponty em seu ensaio sobre o metafísico no homem.

10. A partir do momento em que se reconhece que a própria experiência, justamente por ser própria, torna acessível o que não é o eu e que se é sensível ao mundo e aos outros, todos os seres que o pensamento objetivo, surgido muito depois mas erroneamente tido como primário, mantinha à distância aproximam-se singularmente, revelando-se uma afinidade com eles, pois o eu não é senão uma capacidade de fazer-lhes eco, compreendê-los e responder-lhes.

11. Bernhard Waldenfels refina e desenvolve essa ideia ao definir a responsividade como a qualidade mais fundamental dos seres humanos e de sua relação com o mundo.

12. Deve existir um traço fundamental de responsividade que molda tudo o que ocorre na fala, na ação e nos demais comportamentos, aquilo que faz de uma resposta uma resposta, e que, se convincentemente demonstrado, assumiria o mesmo estatuto dos conceitos mais conhecidos de intencionalidade e comunicatividade, exibindo ao mesmo tempo uma lógica própria, distinta da dos atos intencionais e comunicativos.

13. A ideia, desenvolvida inicialmente na tradição fenomenológica, de que os seres humanos são antes de tudo criaturas capazes de ressonância, e não de linguagem, razão ou sensação, foi confirmada tanto pelas abordagens da intersubjetividade inspiradas em George Herbert Mead, para quem a subjetividade surge da resposta à reação visível no olhar da mãe ou do cuidador, quanto pelas descobertas neuropsicológicas sobre os neurônios-espelho, e a concepção de que relações dinâmicas e referencialidades, e não sujeitos e objetos, formam o material básico da realidade inspirou também teorias de redes, como a teoria ator-rede de Bruno Latour e a teoria fenomenológica de redes de Harrison White.

14. As relações com o mundo estabelecem-se primeiramente de modo existencial e corporal, e o mundo, como lado sempre já presente da relação, concerne necessariamente ao sujeito, tem significado para ele e é objeto de sua orientação intencional, tendo no medo e no desejo seus elementos básicos, ao passo que a divisão tripartite em mundo objetivo das coisas, mundo social dos seres humanos e mundo subjetivo interior dos sentimentos, proposta por Günter Dux e Jürgen Habermas, resulta de uma operação mental e linguística posterior que implica a necessidade de uma concepção cognitiva e representacional do mundo, concepção que, junto com as práticas em que a vida se desenrola, influencia sensibilidades e bloqueios de ressonância, já que as visões de mundo não apenas representam uma relação estabelecida, mas também abrem e revelam o mundo, permanecendo o mundo como um todo, mesmo no plano das representações cognitivas, uma referência antropológica inevitável, razão pela qual os termos mundo e relação com o mundo designam aqui simultaneamente o mundo subjetivo, o objetivo e o social.

15. Diferentemente das abordagens fenomenológicas e antropológico-filosóficas, que buscam os aspectos antropologicamente generalizáveis, universalizáveis, transcendentais e por vezes pré-sociais da relação humana com o mundo, importa aqui analisar a variabilidade e a mutabilidade social dessas relações, pois instituições, práticas, modos de organização, estruturas temporais e de poder moldam não apenas seus aspectos cognitivos, mas sobretudo os corporais, existenciais, intencionais e avaliativos, de modo que, se os modos humanos de existência se compreendem pela relação com o mundo e se esta se estabelece por sensibilidades de ressonância cujo desenvolvimento ou bloqueio é socialmente organizado, a crítica das relações de ressonância revela-se a forma mais elementar e ao mesmo tempo mais abrangente de crítica social.

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