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Mark Poster

Palavras sem coisas

POSTER, Mark. The Mode of Information. Poststructuralism and Social Context. Chicago: The University of Chicago Press, 1990.

A parcela crescente das comunicações mediada por dispositivos eletrônicos representa uma transformação qualitativa nas formas de troca simbólica, e não apenas um ganho de eficiência técnica.

  • As comunicações eletrônicas permeiam todas as instituições e grupos sociais — política, trabalho, consumo, família, militares, igreja, educação e lazer.
  • Uma corrente de analistas sustenta que os dispositivos eletrônicos não alteram substancialmente a natureza das comunicações: o político ainda busca votos, o trabalhador ainda é pago por contrato, o consumidor ainda recebe informações sobre produtos — o dispositivo apenas aumenta a eficiência.
  • As teorias existentes — marxismo, neomarxismo, economia, weberianismo, liberalismo e determinismo tecnológico — concluem igualmente que nada de essencial mudou com a introdução das comunicações eletrônicas.

Todas essas perspectivas reconhecem, porém, uma modificação relevante: as comunicações eletrônicas suprimem as restrições de espaço e de tempo na troca de símbolos.

  • A “aldeia global” de McLuhan tornou-se tecnicamente viável, com informações disponíveis instantaneamente em todo o globo.
  • A transmissão eletrônica de imagens do Vietnã para os lares americanos no final dos anos 1960 teve impacto político devastador.
  • A captura de uma estação de televisão pelos rebeldes filipinos em 1985 e as transmissões subsequentes afetaram materialmente o destino do regime Marcos.
  • A introdução do varejo direto pela televisão anuncia uma revolução nas práticas de marketing de bens de consumo.
  • O colapso da bolsa de valores em outubro de 1987 ilustra como a velocidade das redes de comunicação elimina qualquer amortecimento entre centros financeiros remotos: o pânico se propagou de Nova York a Londres e Tóquio tão rapidamente quanto o senso de perigo se espalha num rebanho.

A nova conectividade das redes eletrônicas fragiliza as estruturas sociais ao torná-las vulneráveis a colapsos instantâneos e em cadeia.

  • Em novembro de 1988, uma rede (ARPAnet) de computadores militares, corporativos e universitários — cerca de 6.000 máquinas — foi infectada por um vírus que se reproduzia indefinidamente, tornando os sistemas disfuncionais.
  • Um vírus de computador é um pequeno programa que se anexa a outros programas ou arquivos, reproduzindo-se e executando comandos que vão do inócuo ao catastrófico.
  • A metáfora biológica do vírus ressalta a semelhança entre redes de computadores e corpos vivos: máquinas mecanicamente interligadas normalmente não transmitem falhas umas às outras, mas computadores informaticamente conectados podem paralisar redes inteiras, como epidemias em comunidades humanas.
  • O autor do vírus da ARPAnet era um estudante de pós-graduação de Cornell cujo pai era consultor de segurança em informática — contexto que sugere uma dimensão psicossexual edipiana; mais amplamente, vírus podem ser vistos como uma nova forma de resistência contra os que controlam a informação computadorizada.
  • Há ainda relatos de que monitores de computador e toda a rede eletrônica podem afetar o DNA do usuário, sugerindo uma fusão simbiótica entre humano e máquina que ameaça a estabilidade das fronteiras do corpo humano.

O autor propõe o conceito de “modo de informação” como categoria teórica capaz de periodizar a história segundo variações na estrutura das trocas simbólicas, à semelhança do modo de produção em Marx.

  • Três estágios do modo de informação podem ser tentativamente designados: troca oral face a face; trocas escritas mediadas pela impressão; e trocas mediadas eletronicamente.
  • No primeiro estágio, oral, o eu se constitui por seu enraizamento numa totalidade de relações face a face; no segundo, impresso, o eu se constrói como agente centrado em autonomia racional; no terceiro, eletrônico, o eu é descentrado, disperso e multiplicado em instabilidade contínua.
  • Os estágios não são sequenciais, mas coexistentes no presente, e cada um contém elementos dos outros; o estágio atual não é a resolução dialética privilegiada dos anteriores, mas um contexto inevitável de totalização discursiva.
  • O livro propõe-se como uma contribuição preliminar para sugerir o valor da teoria pós-estruturalista à história das comunicações e promover uma nova direção de pesquisa nesse campo — numa linha que Foucault chamou de “história do presente.”

O termo “informação” adquire valência especial no terceiro estágio, tornando-se categoria cultural privilegiada e ideologicamente carregada.

  • Propagandas de televisão para serviços de informação advertem consumidores e executivos de que ficarão para trás na corrida pelo sucesso se não se mantiverem atualizados.
  • A sociedade divide-se entre “ricos em informação” e “pobres em informação”; o “indivíduo informado” é um novo ideal social, especialmente para a classe média.
  • O estudo do modo de informação deve incluir as formas de armazenamento e recuperação de informação — das pinturas rupestres e tábuas de argila aos bancos de dados computacionais e satélites de comunicação.
  • Cada método de preservar e transmitir informação intervém profundamente na rede de relações que constitui uma sociedade: sem registros escritos, por exemplo, o governo não pode expandir-se além de certo tamanho populacional.
  • É apenas levemente exagerado afirmar que a Primeira Guerra Mundial poderia ter sido evitada se o imperador Franz Josef e o kaiser Guilherme II tivessem se comunicado por telefone ou modem em vez de telégrafo: a mensagem do kaiser ao imperador indicando que a Alemanha preferia não apoiar um ataque austríaco à Sérvia chegou algumas horas depois do início do ataque.

A reprodução musical eletrônica ilustra como a mediação eletrônica altera a situação da linguagem e subverte o sujeito que pretende controlá-la.

  • Audiófilos buscam reproduzir em casa uma cópia exata de performances musicais originais, tratando a informação musical como um meio neutro de expressão artística que pode ser reproduzido sem alteração.
  • Já as gravações de rock de estúdio configuram-se desde o início para reprodução doméstica: na maioria das vezes não existe performance original, cada músico é gravado em uma faixa separada, e o engenheiro combina as faixas numa fita-mestre que constitui o “original” — produzindo um simulacro, uma cópia sem original.
  • Na busca por reprodução perfeita, o audiófico logo descobre que ouve mais informação do que o ouvinte da performance original — discernindo vozes individuais em corais projetados para fundir-se em ondas unificadas de som; copiar um original significa, no modo de informação, criar simulacros.
  • A obsessão pela reprodução ideal leva o audiófico a investir crescentes recursos de tempo, dinheiro e atenção no próprio meio — instalando condicionadores de linha elétrica, isolando a sala do ruído externo, reforçando fundações e alterando paredes —, tornando-se parte de um micromundo ideal em que sujeito e objeto se fundem num jogo especular infinito e indeterminado.
  • Quando Foucault escreveu em As palavras e as coisas que “o homem está morto”, registrou a desorientação do sujeito no modo de informação: nas comunicações mediadas eletronicamente, os sujeitos flutuam suspensos entre pontos de objetividade, sendo constituídos e reconstituídos em diferentes configurações discursivas.

O principal obstáculo teórico ao estudo do modo de informação é a tendência das teorias sociais dominantes a tratar a linguagem como ferramenta transparente da ação racional.

  • A teoria social emergiu numa cultura cartesiana de objetos e sujeitos distintos, numa metafísica dualista de coisas extensas e mentes — contexto em que o cientista social se constitui como sujeito cognoscente separado de seu objeto de estudo.
  • O caso do dinheiro ilustra a elasticidade representacional da linguagem e seus limites: de metal precioso cunhado pelo Estado, o dinheiro passou a notas bancárias, depois a cheques, depois a cartões bancários representando informação eletrônica em bancos de dados — até que a palavra “dinheiro” passa a referir-se a uma configuração de óxidos numa fita armazenada no departamento de informática de um banco.
  • Fredric Jameson lamenta que nenhuma sociedade tenha sido tão mistificada de tantos modos quanto a atual, saturada de mensagens e informações — “o próprio veículo da mistificação.”
  • Richard Terdiman sustenta que “numa sociedade saturada de discurso, a própria linguagem torna-se terreno contestado”, identificando essa saturação como a diferença específica que distingue o período moderno das formações anteriores.
  • O axioma de Marshall McLuhan “o meio é a mensagem” aponta na direção do modo de informação, mas não vai longe o suficiente: ao focar no “sensório” do sujeito receptor, McLuhan preserva o sujeito como ser perceptivo, não interpretativo, continuando a tradição da epistemologia lockeana.

O modo de informação desestabiliza o sujeito racional autônomo, dispersando-o e reconstituindo-o em novas configurações discursivas.

  • Na perspectiva de Deleuze e Guattari, estamos sendo transformados de seres “arborescentes” — enraizados no tempo e no espaço — em nômades “rizomáticos” que percorrem diariamente o globo sem necessariamente mover o corpo.
  • Se é possível falar diretamente ou por correio eletrônico com um amigo em Paris estando na Califórnia, assistir a eventos políticos e culturais ao redor do globo sem sair de casa, e ser perfilado em bancos de dados que informam decisões governamentais sem que se saiba, então a questão “onde estou e quem sou eu?” torna-se genuinamente perturbadora.
  • O autor acopla analiticamente: propagandas de televisão e Baudrillard; bancos de dados e Foucault; escrita eletrônica e Derrida; ciência e Lyotard — cada par iluminando os efeitos descentradores da comunicação eletrônica sobre o sujeito, enquanto a comunicação eletrônica subverte a autoridade teórica do pós-estruturalismo ao impor o contexto social como terreno descentrador da teoria.
  • O estudo do modo de informação intersecta com o das culturas de massa, mas se diferencia dos Estudos Culturais de Stuart Hall por interessar-se menos pela resistência de grupos já constituídos do que pelas formas pelas quais a experiência cultural constitui sujeitos.
  • O propósito mais amplo do estudo é explorar as condições teóricas para compreender as novas configurações do sujeito, situando-se dentro de um campo de discursos em disputa que inclui estudos culturais, teoria pós-moderna, discurso subalterno e saberes locais — todos parte de um desafio às disciplinas humanísticas para que formulem novas perguntas a partir de uma recontextualização autorreflexiva.
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