Annalisa Ambrosio
Um nada diante do infinito
1. O ser humano é a criatura mais frágil da natureza, comparável a um caniço, mas sua singularidade está em ser um caniço que pensa.
2. Diante das próprias misérias, o único consolo ao alcance humano é a distração, o divertimento que desvia o olhar da condição real.
3. O coração possui razões próprias, inacessíveis à razão, o que revela uma dimensão do conhecimento humano que escapa ao raciocínio lógico.
4. Na aposta sobre a existência de Deus, quem escolhe crer que Ele existe ganha tudo em caso de vitória e nada perde em caso de derrota.
5. As frases mais célebres de Pascal, reunidas nos Pensamentos, obra filosófica inacabada concebida como defesa assistemática do cristianismo, coroam a trajetória de um prodígio matemático morto aos trinta e nove anos que, depois de inventar a Pascalina, formular teoremas e idealizar engenhos variados, voltou-se também para a alma humana, distinguindo o espírito de geometria, próprio das ciências exatas, do espírito de finura, próprio da compreensão das questões humanas.
6. É com o espírito de finura que Pascal se dedica a escrever sobre o ser humano, tanto nos Pensamentos quanto nos Opúsculos.
7. A visão pascaliana da espécie humana é sombria, pois o homem, ser intermediário entre o nada e o tudo, nem anjo nem besta, é incapaz de compreender a fundo a própria vida e o mundo, e seu único bem, o pensamento, apenas lhe revela a brevidade da existência e a inevitabilidade da dor, restando-lhe somente distrair-se.
8. Os fragmentos dos Pensamentos são retalhos amargos e lúcidos, permeados por uma notável ironia.
9. A ironia pascaliana se manifesta com brilho na reflexão sobre o amor, sentimento inexplicável capaz de decidir o destino do mundo, a ponto de um nariz de Cleópatra mais curto bastar para mudar toda a face da Terra.
10. O ponto central do pensamento de Pascal é a teologia.
11. Em meio à incerteza humana, Deus e a religião oferecem o amparo necessário contra a queda no nada, amparo que a razão imperfeita não alcança e ao qual apenas o coração conduz, pois é o sentimento que sustenta a aposta na existência divina, cujo prêmio é a vida eterna e uma existência mais digna.
12. Embora o conteúdo da aposta e a devoção a Cristo tenham hoje um sabor antiquado, o gesto de apostar permanece profundamente contemporâneo como a única estratégia possível para seguir adiante quando o mundo do saber se torna caótico e escorregadio.
13. Num presente líquido, o coração se mostra mais útil que a razão, e, estando todos já embarcados sem possibilidade de retorno à terra firme, resta nadar, pois mesmo que no horizonte já não haja Deus e as apostas sejam muitas, a alegria de avançar supera a inércia de apenas flutuar.
